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O Sobrenome que Nunca Foi Nosso — Parte III — O Encontro

  • Foto do escritor: Abioye Ras Barros
    Abioye Ras Barros
  • há 3 dias
  • 16 min de leitura

Atualizado: há 2 dias

Parte III – O Encontro

Capítulo 13

O Homem que Queimou os Papéis

Meu tio Augusto morava a menos de vinte minutos da casa da minha mãe.

Passei anos sem perceber essa ironia.

A distância entre nós nunca foi medida em quilômetros.

Era medida em silêncio.

Quando telefonei dizendo que queria visitá-lo, ele demorou alguns segundos para responder.

— Aconteceu alguma coisa com sua mãe?

— Não.

— Então o que foi?

Respirei fundo.

— Quero conversar sobre o vô.

Do outro lado da linha, o silêncio pesou mais do que qualquer resposta.

— Venha amanhã.

A ligação terminou ali.

Na manhã seguinte, encontrei-o no quintal.

Estava consertando uma cadeira de madeira.

Usava uma camisa desbotada, um boné velho e os mesmos óculos que eu me lembrava da infância.

Nunca fora um homem de muitos abraços.

Demonstrava afeto de outro jeito.

Quando eu era menino, aparecia com a bicicleta consertada antes que eu percebesse o pneu furado.

Troca uma lâmpada sem que ninguém pedisse.

Chegava mais cedo às festas para ajudar a montar as mesas.

Era um homem que amava em silêncio.

Talvez por isso eu nunca tivesse imaginado que pudesse esconder tanta dor.

— Senta-se.

Ele apontou para um banco de madeira.

Não perguntou se eu queria café.

Sabia que eu aceitaria.

Enquanto preparava a garrafa, observei a oficina improvisada no fundo do quintal.

Martelos.

Formões.

Madeiras empilhadas.

O cheiro de serragem ocupava o ar.

Havia algo de bonito naquele lugar.

Madeiras velhas ganhavam novas formas todos os dias.

Pensei que talvez as pessoas também pudessem ser restauradas.

— Sua mãe contou.

Ele colocou duas canecas sobre a mesa.

— Contou o quê?

— Que você está procurando o passado.

Olhei para ele.

— Estou tentando entender nossa história.

Ele sorriu sem alegria.

— História...

Repetiu a palavra como quem experimenta um gosto antigo.

— Você sabe qual é a diferença entre madeira e memória, Lucas?

Balancei a cabeça.

Ele pegou um pedaço de peroba já rachado.

— A madeira, quando apodrece, você ainda consegue aproveitar uma parte.

Passou a mão pela rachadura.

— A memória, quando começa a quebrar, leva junto quem tenta segurá-la.

Não respondi.

Ele continuou.

— Você quer saber por que queimei aquelas caixas.

Assenti.

Era a pergunta que me acompanhava desde a conversa com minha mãe.

Meu tio olhou para um ponto qualquer do quintal.

Os passarinhos cantavam no muro.

Um cachorro latiu ao longe.

O mundo seguia indiferente àquela conversa.

— Seu pai tinha dez anos.

Sua mãe era mais nova.

Meu pai... seu avô...

Parou.

A primeira pausa longa desde que eu chegara.

Respirou fundo.

— Nunca consegui falar disso.

As mãos dele, acostumadas a lixar madeira sem tremer, vacilaram ao segurar a caneca.

— Depois que sua bisavó morreu, seu avô passou dias inteiros olhando fotografias.

Queria descobrir quem eram as pessoas que apareciam nelas.

Perguntava para todo mundo.

Ninguém sabia responder.

Cada resposta terminava igual.

“Não lembro.”

“Talvez.”

“Pode ser.”

“Já morreu quem sabia.”

Ele fechou os olhos.

— Nunca vi um homem envelhecer tão depressa.

As palavras me atingiram como um soco.

Meu tio prosseguiu.

— Um dia encontrei seu pai chorando escondido no quintal.

Perguntei o que tinha acontecido.

Ele respondeu...

A voz falhou.

“...respondeu que o avô tinha dito que nossa família era como um livro com as primeiras páginas arrancadas.”

O silêncio voltou.

Dessa vez fui eu quem não encontrou palavras.

Meu tio levantou-se.

Entrou na oficina.

Voltou carregando uma pequena caixa de metal.

Colocou-a sobre a mesa.

Era antiga.

As bordas estavam enferrujadas.

— Eu não queimei tudo.

Meu coração acelerou.

Ele abriu a tampa.

Dentro havia apenas três objetos.

Um relógio de bolso que já não funcionava.

Uma aliança muito fina.

E um envelope amarelado, lacrado.

— Guardei isso porque nunca tive coragem de abrir.

Empurrou a caixa na minha direção.

— Talvez eu estivesse esperando por você.

Olhei para o envelope.

Não havia remetente.

Nem destinatário.

Somente uma frase escrita à mão, com uma caligrafia firme.

“Para quem tiver coragem de continuar.”

Meu tio Augusto não olhava para mim.

O homem que todos julgavam ter queimado o passado passara mais de trinta anos protegendo aquilo que não conseguia enfrentar.

Naquele instante compreendi que algumas pessoas não escondem a memória porque deixaram de amar.

Escondem porque amaram tanto que nunca aprenderam a sobreviver à perda.

Capítulo 14

O Envelope

Durante alguns segundos, ninguém tocou na caixa.

O vento atravessou o quintal, levantando um punhado de folhas secas que rodopiaram entre nossos pés.

Meu tio Augusto continuava olhando para o chão.

Pela primeira vez desde que eu chegara, ele parecia menor.

Não de tamanho.

De peso.

Como se tivesse carregado sozinho um fardo pesado demais durante anos.

— O senhor nunca abriu?

Minha voz saiu quase um sussurro.

Ele balançou a cabeça.

— Não.

— Por quê?

Demorou a responder.

— Porque tinha medo de encontrar exatamente aquilo que passei a vida tentando esquecer.

Olhei novamente para o envelope.

O papel estava amarelado.

As bordas endurecidas pelo tempo.

O lacre já apresentava pequenas rachaduras.

Era evidente que ninguém o tocava havia muitos anos.

Estendi a mão.

Mas parei antes de alcançá-lo.

Alguma coisa dentro de mim dizia que aquele não era apenas um envelope.

Era uma fronteira.

Depois dele, talvez eu nunca mais conseguisse olhar para minha família da mesma maneira.

Meu tio percebeu minha hesitação.

— Está com medo?

Sorri de leve.

— Acho que sim.

Ele também sorriu.

Foi um sorriso triste.

— Então você já está pronto.

Franzi a testa.

— Como assim?

— Só os irresponsáveis procuram a verdade sem medo dela.

As palavras ficaram comigo.

Passei a mão sobre o papel.

Fechei os olhos.

Lembrei-me da minha avó.

Da caixa de madeira.

Do caderno da bisavó.

Das anotações de Seu Joaquim.

Da fotografia sem nomes.

De Dona Celina dizendo que um sobrenome podia ser roubado, mas a dignidade precisava ser protegida.

Percebi que aquela busca já não pertencia apenas a mim.

Ela carregava a voz de todos aqueles que, antes de mim, haviam tentado juntar pedaços de uma história quebrada.

Rompi o lacre.

O papel estalou baixinho.

Dentro havia apenas uma folha dobrada.

Nenhuma fotografia.

Nenhum documento oficial.

Nenhuma revelação extraordinária.

Apenas uma carta.

A caligrafia era firme.

Elegante.

Li a primeira linha.

“Meu filho Augusto,” Levantei imediatamente os olhos.

— Foi o vô...

Meu tio apenas confirmou com a cabeça.

Continuei lendo.

“Se você está lendo esta carta, é porque eu já não consegui responder às perguntas que passaram a morar dentro de mim.”

Minha respiração ficou mais lenta.

Cada palavra parecia escrita não apenas para Augusto.

Parecia escrita para todos nós.

“Passei anos procurando o nome da família do meu avô.”

“Não encontrei.”

“No começo pensei que tivesse fracassado.”

“Hoje acredito que fracassei apenas quando procurei nos lugares errados.”

Olhei para meu tio.

Ele enxugava discretamente os olhos.

Voltei à carta.

“Os cartórios me deram registros.”

“As igrejas me deram datas.”

“Os livros me deram contexto.”

“Mas foram as pessoas que me devolveram a família.”

Senti um arrepio percorrer meu corpo.

Era exatamente o caminho que eu vinha fazendo.

Como se, décadas antes de mim, meu avô tivesse percorrido a mesma estrada.

A carta continuava.

“Se um dia meu neto fizer as mesmas perguntas, não tente impedi-lo.”

Parei de ler.

Meu coração disparou.

Meu tio fechou os olhos.

As lágrimas, que ele tentara esconder durante toda a conversa, finalmente venceram.

— Eu falhei com seu avô.

A voz saiu embargada.

— Não. Respondi quase sem pensar.

— O senhor apenas sofreu de um jeito diferente.

Ele respirou profundamente.

Olhou para mim pela primeira vez desde que eu chegara.

— Continue lendo.

Baixei novamente os olhos para a carta.

Na parte inferior da folha havia um último parágrafo.

Curto.

Quase um pedido.

“Se você não conseguir devolver à nossa família o nome que nos foi tirado...”

“...devolva, pelo menos, a coragem de nunca mais deixar que nos roubem a memória.”

Fechei a carta lentamente.

Nenhum de nós falou durante vários minutos.

No fundo da oficina, um relógio antigo marcava as horas.

Pela primeira vez desde o início daquela jornada, tive a sensação de que meu avô não havia deixado apenas uma carta.

Havia me confiado uma responsabilidade.

E algumas heranças não chegam para ser guardadas.

Chegam para transformar quem as recebe.

Capítulo 15

O Caderno do Meu Avô

Passei aquela noite sem dormir.

A carta permanecia aberta sobre a mesa do meu apartamento.

Não conseguia guardá-la.

Também não conseguia continuar lendo.

Às vezes, levantava-se para beber água.

Outras vezes caminhava até a janela.

Lá embaixo, a cidade seguia seu ritmo de sempre.

Carros.

Ônibus.

Pessoas voltando para casa.

Em algum lugar, uma sirene cortou a madrugada.

Pensei em quantas histórias caminhavam pelas ruas sem que ninguém suspeitasse do peso que carregavam.

Sobre a mesa estavam reunidos todos os vestígios da minha busca.

A fotografia sem nomes.

As anotações de Seu Joaquim.

O caderno da bisavó.

A carta do meu avô.

Pela primeira vez, deixei de enxergar aqueles objetos como peças separadas.

Eles conversavam entre si.

Cada um dizia uma coisa que o outro não podia dizer.

Foi então que notei algo estranho.

A carta possuía uma dobra diferente das outras.

Passei os dedos com cuidado.

Havia uma pequena saliência entre duas folhas coladas pelo tempo.

Com a ponta de uma faca de cozinha, separei o papel lentamente.

De dentro da dobra caiu uma chave.

Pequena.

De bronze.

Sem identificação.

Fiquei olhando para ela durante alguns minutos.

No mesmo instante, meu telefone tocou.

Era minha mãe.

— Você conseguiu falar com seu tio?

— Consegui.

Ela permaneceu em silêncio.

Depois perguntou:

— Ele mostrou a carta?

Fechei os olhos.

— Mostrou.

Ouvi um choro contido do outro lado da linha.

— Seu avô escreveu mais coisas.

Sentei-me imediatamente.

— Como a senhora sabe?

— Porque fui eu quem comprou o caderno.

Meu coração acelerou.

— Que caderno?

— O caderno onde ele escrevia tudo.

Levantei-me da cadeira.

— Onde ele está?

Ela demorou alguns segundos para responder.

— Eu não sei.

Seu avô nunca deixava ninguém mexer nele.

Depois que ele morreu... o caderno desapareceu.

Olhei para a pequena chave sobre a mesa.

Meu pensamento correu para um único lugar.

— Mãe...

O vô tinha alguma gaveta... algum armário... alguma caixa que ficava sempre trancada?

Ela não respondeu imediatamente.

Era como se estivesse caminhando pelas lembranças.

— Tinha.

Na oficina.

Uma escrivaninha antiga.

Ele guardava documentos ali.

Nunca encontramos a chave.

Olhei novamente para a peça de bronze.

Pequena.

Gasta.

Silenciosa.

Durante décadas, ela permanecera escondida dentro da carta.

Esperando.

Na manhã seguinte, voltei à casa do meu tio.

Encontrei-o sentado na oficina.

Não precisei dizer nada.

Apenas coloquei a chave sobre a bancada.

Ele arregalou os olhos.

Pegou-a entre os dedos.

Virou-a de um lado para o outro.

Sorriu pela primeira vez desde que nossa conversa começara.

— Eu conheço essa chave.

Caminhou lentamente até uma velha escrivaninha encostada na parede.

Era escura, marcada pelo tempo e pelas ferramentas.

Abaixou-se diante da última gaveta.

Introduziu a chave na fechadura.

Por um instante, pensei que ela não funcionaria.

Então ouvi o estalo.

Seco. Discreto.

Como se um passado inteiro acabasse de destrancar a própria porta. Meu tio puxou a gaveta.

Ela abriu apenas alguns centímetros.

A madeira parecia resistir.

Ele fez mais força.

A gaveta deslizou completamente.

Lá dentro não havia dinheiro. Nem joias. Nem documentos importantes. Havia apenas um caderno de capa de couro escurecida. Muito parecido com o da minha bisavó.

Meu tio não o pegou. Olhou para mim.

— Seu avô dizia que toda família deveria ter alguém disposto a fazer perguntas.

Empurrou a gaveta em minha direção.

— Acho que ele passou a vida inteira esperando que esse alguém chegasse.

Estendi as mãos.

Antes mesmo de abrir o caderno, senti o cheiro das páginas antigas. Era o mesmo cheiro da caixa de madeira da minha bisavó. O mesmo cheiro dos cadernos de Seu Joaquim.

O mesmo cheiro das fotografias esquecidas.

Naquele instante compreendi uma coisa.

A memória também tem perfume.

E, às vezes, basta senti-lo para perceber que nunca estivemos realmente sozinhos.

Segurei o caderno contra o peito.

Pela primeira vez desde o início daquela jornada, tive a nítida sensação de que meu avô caminhava ao meu lado.

Não para me mostrar o caminho.

Mas para me lembrar que algumas estradas só podem ser percorridas por quem aceita a coragem de continuar, mesmo sem saber onde elas terminam.

Capítulo 16

A Caligrafia

Esperei até chegar em casa para abrir o caderno.

Não por desconfiança.

Por respeito.

Alguns objetos parecem pedir um lugar silencioso antes de revelarem o que carregam.

Fechei a porta do apartamento.

Desliguei a televisão.

Deixei o celular sobre a mesa.

Abri a janela da sala.

A noite entrava devagar, trazendo o cheiro da chuva que ainda nem havia começado.

Sentei-me.

O caderno estava diante de mim.

Passei a mão sobre a capa.

Havia pequenas marcas de uso.

Meu avô não o tratava como um objeto raro.

Tratava-o como um companheiro.

Respirei fundo.

Abri a primeira página.

Não encontrei datas.

Nem títulos.

Apenas uma frase.

“Escrevo porque a memória também morre quando não encontra quem a escute.”

Fiquei olhando para aquelas palavras.

Reconheci imediatamente a caligrafia da carta.

Era firme.

Elegante.

Mas havia algo mais.

Enquanto meus olhos percorriam aquelas linhas, tive a estranha sensação de ouvir a voz do meu avô.

Como se ele estivesse sentado diante de mim.

Não como um fantasma.

Mas como acontece quando alguém amado deixa cartas suficientes para continuar conversando depois da morte.

Virei a página.

“Meu nome é Antônio.”

Sorri.

Era curioso.

Passei a vida chamando-o de vô.

Nunca havia pensado nele como um homem que também precisou aprender a ser filho, marido, pai... e, antes de tudo, Antônio.

Continuei.

“Durante muitos anos achei que minha maior herança fosse o sobrenome que recebi de meu pai.”

“Hoje sei que herança nenhuma vale mais do que uma pergunta feita na hora certa.”

A chuva começou a cair.

Primeiro tímida.

Depois constante.

Continuei lendo.

“Meu pai nunca falou sobre o pai dele.”

“Quando eu perguntava, mudava de assunto.”

“Na época achei que fosse faltar de interesse.”

“Hoje compreendo que talvez fosse excesso de dor.”

Fechei os olhos.

Era a mesma frase que minha mãe dissera sobre o tio Augusto.

A mesma dor.

Vestindo pessoas diferentes.

Voltei ao caderno.

“Passei quarenta anos acreditando que minha família não gostava de conversar.”

“Estava enganado.”

“Ela apenas aprendera que sobreviver, às vezes, exigia esquecer.”

Aquelas palavras me atingiram com força.

Durante semanas eu havia pensado no silêncio como um inimigo.

Meu avô o descrevia como um abrigo.

Imperfeito. Doloroso.

Mas, para muita gente, o único possível.

Continuei folheando.

As páginas seguintes misturavam lembranças e pequenas observações.

Não eram escritas todos os dias.

Às vezes havia meses entre uma anotação e outra.

Em uma delas ele descrevia o cheiro da casa da mãe.

Noutra, recordava o primeiro emprego.

Mais adiante, falava da morte da própria avó.

Não escrevia apenas para lembrar dos fatos.

Escrevia para impedir que as pessoas desaparecessem.

Foi então que encontrei uma página diferente.

No alto, ele havia desenhado uma árvore.

Não uma árvore genealógica.

Uma árvore comum. Grande.

Com raízes profundas.

Ao lado do desenho, escreveu:

“Todo mundo me pede os galhos.”

“Poucos perguntam pelas raízes.”

Fiquei olhando aquele desenho durante muito tempo.

Lembrei-me do trabalho de escola.

Das certidões. Das fotografias. De Seu Joaquim.

De Dona Celina.

Todos eles haviam me mostrado galhos.

Meu avô era o primeiro a escrever sobre as raízes.

Quando virei a página seguinte, encontrei apenas um nome.

Esperança.

Nenhuma explicação.

Nenhum sobrenome.

Nenhuma data.

Somente aquela palavra.

Meu primeiro impulso foi pensar que fosse um sentimento.

Mas havia algo na maneira como ele escrevera.

A letra era maior.

Mais cuidadosa.

Como se estivesse registrando alguém.

Peguei o telefone.

Liguei para minha mãe.

— Mãe...

— Oi, meu filho.

— Existiu alguém na família chamado Esperança?

O silêncio do outro lado durou tanto que pensei que a ligação tivesse caído.

Então ouvi sua respiração, lenta, pesada.

Quando ela voltou a falar, sua voz já não era a mesma.

— Lucas...

Quem lhe mostrou esse nome?

Senti meu coração acelerar.

Olhei novamente para o caderno.

Naquele instante compreendi que algumas respostas não estavam escondidas porque haviam sido esquecidas.

Estavam escondidas porque ninguém tivera coragem de pronunciá-las durante muito tempo.

Capítulo 17

A Rua Onde o Tempo Parou

Lucas não respondeu à mãe naquela noite.

Deixou o celular sobre a mesa.

Sentou-se no chão da sala.

O caderno de seu avô aberto ao lado.

Mas não leu.

Ficou apenas olhando para a palavra.

Esperança.

Havia algo nela que não parecia apenas um nome.

Parecia um aviso.

Ou uma lembrança que ainda não havia decidido se queria ser revelada.

A chuva continuava do lado de fora.

Agora mais leve.

O som constante preenchia o apartamento como um segundo pensamento.

Lucas se levantou.

Vestiu uma camisa qualquer.

Pegou as chaves.

Não sabia para onde estava indo.

E isso já não o incomodava tanto quanto antes.

Ele caminhou até o ponto de ônibus sem pressa.

O bairro parecia o mesmo de sempre.

Mas agora ele o via de outra forma.

As pessoas voltando do trabalho.

O vendedor fechando a banca de frutas.

Um menino correndo atrás de uma bola improvisada.

Tudo seguia.

Mesmo o que não era compreendido.

No ônibus, sentou-se perto da janela.

O vidro estava embaçado.

Lucas limpou com a mão.

E por um instante viu seu reflexo.

Não reconheceu imediatamente o homem ali.

Não por mudança física.

Mas por um deslocamento interno.

Como se algo nele tivesse começado a se mover sem pedir permissão.

Ele lembrou do tio Augusto.

Da carta.

Do silêncio da mãe.

E pela primeira vez percebeu algo incômodo:

Talvez não estivesse apenas buscando o passado.

Talvez estivesse ferindo o presente de quem ainda estava vivo.

Desceu no centro da cidade sem destino definido.

Caminhou até uma rua antiga que quase não frequentava.

Lojas fechadas.

Prédios descascando.

Uma padaria funcionando há décadas no mesmo ponto.

Entrou, o cheiro de pão quente o atingiu como uma memória que não era dele.

Sentou-se.

Pediu café.

Enquanto esperava, abriu o caderno do avô.

Leu novamente a página da árvore desenhada.

Dessa vez, algo parecia diferente.

Ele não via mais apenas uma busca.

Via uma repetição.

Gerações tentando entender algo que sempre escapava.

O café chegou.

Ele não tomou.

Foi quando ouviu a conversa na mesa ao lado.

— Você vai mesmo continuar com isso?

A voz feminina era firme.

— Vou.

— Mas para quê, Lucas?

Ele parou.

Não era coincidência de nome apenas.

Era o próprio nome sendo devolvido ao mundo.

Não respondeu.

A mulher continuou:

— Você está deixando sua vida inteira parar por causa de um passado que nem tem garantia de existir do jeito que você imagina.

Lucas virou o rosto devagar.

A mulher o encarava.

Não com raiva.

Com preocupação.

Ele a conhecia.

Ou pelo menos já a conhecera.

Helena.

Amiga de faculdade.

Ou algo próximo disso.

Não era alguém distante.

Era alguém que havia ficado para trás quando ele começou a olhar demais para trás.

— Eu não estou parando minha vida — ele disse.

Ela soltou uma risada curta.

— Não?

Apontou para o caderno na mesa.

— Você sumiu.

Parou de responder mensagens.

Parou de sair.

Parou de estar aqui.

Lucas não respondeu imediatamente.

Porque, em algum nível, ela estava certa.

Mas havia outra coisa também.

Algo que ele ainda não sabia explicar completamente.

— Eu preciso entender — ele disse.

Helena respirou fundo.

— Entender o quê?

Silêncio.

Lucas olhou para o café.

Depois para a rua.

Depois para o caderno.

— Quem eu sou quando não sei de onde vim.

Ela balançou a cabeça.

— Você é você.

Isso deveria ser suficiente.

Mas não era.

E ambos sabiam disso.

Naquela mesma noite, em outro tempo, muito antes de qualquer cartório existir para aqueles nomes…

Um homem caminhava entre casas de barro.

A aldeia ainda acordada.

Crianças rindo.

Mulheres preparando comida.

O som dos tambores ao longe.

Ele carregava um nome que ainda tinha som.

Um nome que ainda significava algo.

Mas naquele dia, havia estranheza no ar.

Um silêncio diferente entre as pessoas.

Não o silêncio da paz.

Mas o silêncio do pressentimento.

Ele parou diante da casa de sua mãe.

Ela o olhou por muito tempo.

Como se estivesse tentando memorizar cada detalhe dele antes que o mundo o levasse.

— Você vai viajar — ela disse.

Não era uma pergunta.

Era uma certeza antiga demais para ser contestada.

Ele assentiu.

Sem entender completamente.

Mas sentindo.

A mãe se aproximou.

Encostou a mão em seu rosto.

— Alguns caminhos não devolvem quem parte.

Ele não respondeu.

Porque não sabia ainda que algumas frases não são explicações.

São despedidas antecipadas.

E naquela noite, o nome dele ainda existia inteiro.

Mas já não pertencia apenas a ele.

Capítulo 18

O Que Não Se Diz em Voz Alta

Helena não saiu da padaria quando terminou de falar.

Permaneceu sentada, como se esperasse uma resposta que já sabia que não viria fácil.

Lucas fechou o caderno.

Devagar.

Como quem tenta impedir que algo dentro dele se espalhe mais do que deveria.

— Você não entende — ele disse, por fim.

Helena soltou um suspiro curto.

— Então me explica.

Ele olhou para ela.

Mas não encontrou pressa nos olhos dela.

Nem julgamento.

Só cansaço.

Cansaço de quem observa alguém se afastar aos poucos, sem conseguir segurar.

Lucas encostou as costas na cadeira.

— Não é só curiosidade.

— Eu sei.

— Não sabe.

A resposta saiu mais dura do que ele queria.

Helena não reagiu.

Apenas esperou.

Esse silêncio dela incomodava mais do que qualquer interrupção.

Lucas continuou:

— Tem algo errado em mim quando eu não sei.

Ela inclinou levemente a cabeça.

— Ou talvez você tenha sido ensinado a achar que tem algo errado em não saber.

As palavras ficaram entre eles.

O barulho da padaria parecia distante.

Talheres, copos.

Conversas soltas.

Nada disso entrava naquele espaço.

Lucas passou a mão pelo rosto.

— Você não entende o que é crescer com a sensação de que sua história começa incompleta.

Helena respondeu sem elevar o tom:

— Talvez eu entenda mais do que você imagina.

Ele olhou para ela.

Pela primeira vez, ela desviou o olhar.

— Meu pai também tinha essas coisas — ela disse.

— Que coisas?

— Perguntas demais.

Silêncio.

— Ele morreu sem responder a maioria delas.

Isso mudou algo na expressão de Lucas.

Não uma surpresa.

Mas um deslocamento.

Como se, pela primeira vez, a busca deixasse de ser apenas dele.

Helena continuou:

— E o que restou dele… não foram as respostas.

Foram as pessoas que ficaram esperando-o parar de procurar.

Lucas desviou o olhar.

Lá fora, a rua seguia molhada pela chuva da noite anterior.

— Eu não estou destruindo ninguém — ele disse, mais baixo.

— Ainda.

A palavra caiu sem agressividade.

Mas com peso.

Lucas fechou os olhos por um instante.

Quando abriu, parecia mais cansado.

— Então o que você quer que eu faça?

Helena respirou fundo.

— Eu quero que você continue, se for isso que você precisa.

Fez uma pausa.

— Mas não desapareça de você mesmo enquanto faz isso.

Lucas não respondeu.

Porque não sabia se ainda sabia como não desaparecer.

Naquela noite, ele não voltou direto para casa.

Caminhou sem direção pelo centro.

As luzes dos postes refletiam no asfalto molhado.

O som dos carros parecia mais distante do que o normal.

Ele parou diante de uma igreja antiga.

Não entrou.

Apenas ficou observando a porta fechada.

Algo nele queria silêncio.

Mas não o silêncio da ausência.

O silêncio da resposta.

E isso parecia impossível de encontrar.

No outro tempo, o homem ainda caminhava pela aldeia.

Agora sozinho.

A mãe já não estava na porta.

As crianças já haviam sido chamadas para dentro das casas.

O som dos tambores havia cessado.

Ele sentia o ar mais pesado.

Como se a noite estivesse diferente.

Mais longa, mais atenta.

Ao atravessar o caminho de terra, encontrou um grupo de homens reunidos.

Não falavam alto.

Não precisavam.

Um deles o observou em silêncio.

Depois desviou o olhar.

Mas foi o suficiente.

Ele seguiu andando.

E pela primeira vez percebeu algo estranho.

As pessoas não o olhavam como antes.

Não havia hostilidade.

Mas havia distância.

Como se algo invisível tivesse começado a separá-lo do lugar que sempre chamou de casa.

Ele não sabia ainda.

Mas aquele era o começo de uma ruptura que não seria explicada em palavras.

Apenas vivida.

E lembrada tarde demais.

Lucas chegou em casa já de madrugada.

Sentou-se no chão da sala.

Olhou para o caderno do avô.

Para a palavra que não o deixava em paz.

Esperança.

Pela primeira vez, não tentou decifrá-la.

Apenas ficou ali.

Como quem aprende que algumas perguntas não precisam de resposta imediata.

Precisam de permanência.

E isso, talvez, fosse ainda mais difícil.

 
 
 

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