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A Mala que Carregava o Céu — Parte 8 (71–80)

  • Foto do escritor: Abioye Ras Barros
    Abioye Ras Barros
  • há 2 dias
  • 17 min de leitura

Capítulo 71

O Alento na Escuridão A atmosfera dentro da senzala era sufocante. O calor acumulado sob o telhado de telhas de barro misturava-se ao cheiro de vômito e febre. No chão de terra batida, dispostos sobre esteiras de palha de milho, cerca de doze homens e mulheres gemiam em agonia. Suas peles exibiam o tom amarelado característico da doença, e seus olhos estavam congestionados, vermelhos como sangue.

Lucas ajoelhou-se imediatamente ao lado do primeiro enfermo, um homem idoso cujo peito subia e descia em espasmos violentos. — Gabriel, acenda uma lamparina e comece a limpar a testa deles com a água que o mensageiro trouxer — instruiu Lucas, abrindo a fivela da mala de couro. Ele retirou a caixa de madeira escura. Sob os olhos atentos e assustados dos doentes que ainda mantinham a consciência, Lucas tirou o lápis de grafite e a folha de papel de arroz. Naquela escuridão, ele não precisava de luz para escrever; as palavras latinas já estavam gravadas em sua mente e em seus dedos como uma extensão de sua própria existência. “Post partum, Virgo, inviolata permansisti; Dei Genitrix, intercede pro nobis.”

Ele escreveu as pílulas uma a uma, cortando o papel com os dedos e enrolando-os com rapidez e precisão. Lucas aproximava-se de cada catre, erguendo a cabeça dos doentes com o braço esquerdo enquanto colocava o pequeno cilindro sob suas línguas com a mão direita, oferecendo em seguida um gole de chá de poejo que Gabriel preparara às pressas em um fogareiro improvisado. — Beba, meu irmão — dizia Lucas, tocando a pele úmida e febril dos escravizados com uma suavidade que eles nunca haviam recebido naquela fazenda. — Isso vai ajudar a acalmar a queimação dentro de você.

Sempre que entregava uma pílula, Lucas permanecia alguns minutos segurando a mão do doente, sussurrando palavras de conforto em português simples, lembrando-os de que sua dor não era invisível aos olhos do Criador. Para aqueles homens tratados como mercadoria, o toque humano e o respeito de Lucas eram, por si só, um milagre de dignidade que há muito não experimentavam. Gabriel trabalhava sem parar ao lado do mestre. O menino não demonstrava medo do contágio; ele via em Lucas a mesma segurança inabalável que Lucas vira em Mateus durante a tempestade de Redenção da Serra. O garoto limpava os rostos suados, ajudava a ajeitar as palhas sob as cabeças dos doentes e mantinha o fogo do fogareiro aceso para

que o chá nunca faltasse. À meia-noite, a tempestade típica do verão desabou sobre o vale, trazendo um vento fresco que penetrou pelas frestas das paredes de taipa da senzala. O calor sufocante começou a diminuir, e o ritmo das respirações dos enfermos passou a desacelerar.

Lucas permaneceu de joelhos ao lado do homem idoso que fora o primeiro a receber a pílula. O rapaz segurava a mão do doente com as suas duas mãos, mantendo a vigília silenciosa que cimentava a ligação entre a vida e a esperança naquele galpão esquecido pelo mundo.

Capítulo 72 — A Quebra do Orgulho

O sol nasceu por trás das colinas da fazenda Boa

Vista, lavando a terra vermelha após a tempestade da noite. Do lado de fora da senzala, o Comendador

Rocha — um homem de cabelos brancos bem aparados e casaca de linho fino — aguardava impaciente, ladeado pelos feitores armados. Ele viera pessoalmente para dar a ordem de queimar as cabanas caso os escravizados tivessem morrido, pois o medo de que a peste atingisse sua família na casa-grande superava qualquer consideração econômica. A porta pesada de madeira abriu-se rangendo.

Lucas saiu primeiro, carregando a mala de couro nas costas. Seus olhos estavam vermelhos pela noite sem sono e sua camisa de algodão estava manchada de suor e terra, mas sua postura era ereta. Logo atrás dele vinha Gabriel, segurando a cuia de barro agora vazia. — E então, rapaz? — perguntou o Comendador, com a voz autoritária que costumava fazer os colonos tremerem. — Quantos corpos temos que enterrar lá dentro? Os feitores já estão com as tochas prontas. — O senhor não vai precisar de tochas hoje,

Comendador — respondeu Lucas, aproximando-se e sustentando o olhar do fazendeiro com uma calma desconcertante. — A febre quebrou nas primeiras horas da madrugada. Todos os seus homens estão vivos. A respiração deles está limpa e a pele já não queima. Eles precisam de repouso e de água limpa por dois dias antes de voltarem ao trabalho no eito. O Comendador Rocha estreitou os olhos, incrédulo.

Ele empurrou Lucas para o lado com o braço e entrou na senzala, seguido pelos feitores assustados.

O interior do galpão, embora ainda escuro, já não trazia o cheiro de morte da véspera. O homem idoso, que no dia anterior arfava em agonia, estava sentado na esteira de palha, bebendo o resto de chá que Gabriel deixara. Ao ver o senhor de terras entrar, ele fez menção de se levantar, mas o Comendador fez um gesto com a mão, parando-o. O fazendeiro tocou a testa de dois ou três enfermos.

A pele estava fresca, coberta apenas pelo suor da recuperação. Não havia mais febre.

O Comendador Rocha voltou para o pátio com o rosto pálido, a expressão de autoridade substituída por uma profunda perplexidade. Ele olhou para

Lucas, para o garoto Gabriel e para a velha mala de couro. — O que você deu a eles? — perguntou o fazendeiro, a voz agora destituída de arrogância. —

Eu gastei uma fortuna trazendo médicos da corte para tratar da minha esposa no ano passado, e nenhum deles conseguiu salvar os doentes com essa velocidade. Que remédio é esse que você carrega nessa mala? — O remédio não está na mala, Comendador — respondeu Lucas, tocando a alça de couro de sua bagagem. — Está na disposição de ver esses homens como seus semelhantes e não apenas como braços para colher o seu café. O Deus que criou o senhor é o mesmo que sustenta a vida de cada um deles. Se o senhor quer manter a saúde em suas terras, comece tratando-os com a dignidade que toda criatura viva merece. O Comendador abriu a boca para retrucar, mas as palavras pareceram faltar-lhe na garganta. Ele olhou para os feitores,

que mantinham as cabeças baixas, e depois de volta para o jovem curador. — Vá... — sussurrou o fazendeiro, desviando o olhar para as plantações de café nas encostas. — E leve esse garoto com você antes que eu mude de ideia sobre deixá-los ir sem punição por sua audácia.

Lucas apenas assentiu com a cabeça, fez um gesto para Gabriel e, sem olhar para trás, iniciou a descida em direção à estrada principal.

Capítulo 73 — O Canto do Rio

Eles caminharam em silêncio até chegarem novamente às margens do Rio Paraíba. O sol do meio-dia brilhava intensamente sobre as águas calmas, refletindo-se nas folhas verdes das árvores que margeavam o leito.

Lucas sentou-se em um barranco gramado e retirou a mala de couro de suas costas. Ele sentia o cansaço acumulado de tantas léguas de poeira e tantas noites de vigília pesando em seus ombros, mas a paz que trazia no peito era maior do que qualquer desgaste físico.

Gabriel sentou-se ao seu lado, puxando a sacola de ervas. — O senhor viu o rosto do Comendador, Lucas? — perguntou o menino, com um sorriso de triunfo nos lábios. — Ele achava que podia mandar até na morte, mas teve que recuar diante da pílula que escrevemos. — Não comemore o recuo dele como uma vitória de vaidade, Gabriel — advertiu Lucas, com doçura. — O orgulho é uma febre muito mais difícil de curar do que a amarela. O Comendador Rocha não recuou diante de nós; ele recuou diante da verdade que tentava ignorar todos os dias: a de que ele é tão frágil quanto qualquer um daqueles homens da senzala.

Ele abriu a mala de couro e retirou a caixa de madeira escura de Frei Galvão. Entregou-a a Gabriel, juntamente com o lápis de grafite gasto. — A estrada é longa, meu filho, e os meus olhos começam a cansar com a luz do sol forte — disse

Lucas, com a voz suave como a brisa que subia do rio. — Hoje é a sua vez. Pegue a folha de papel de arroz. O seu coração já aprendeu a ouvir o silêncio dos doentes na senzala. Escreva a prece.

Gabriel segurou a caixa de madeira sobre os joelhos com um respeito solene. Suas mãos já não tremiam como da primeira vez. Ele olhou para o rio, para o mestre ao seu lado e para a poeira vermelha de suas próprias sandálias.

Com uma caligrafia firme, que trazia a herança de

Galvão, de Mateus e de Lucas gravada em cada curva, o menino começou a escrever na tira de papel de arroz: “Post partum, Virgo...”

Lucas fechou os olhos, ouvindo o som suave do grafite deslizando sobre a textura delicada do papel.

Ele sabia que o seu papel de guardião estava se consolidando a cada traço daquela criança. A corrente de amor, que nascera sob o teto simples de

Guaratinguetá e atravessara as tempestades de

Redenção da Serra e as senzalas de Taubaté, continuaria a fluir pelas curvas do caminho, levando alento e dignidade para onde quer que houvesse dor no mundo. E a velha mala de couro, gasta e remendada, continuaria sendo o farol que iluminava os passos dos peregrinos na poeira infinita da estrada.

Capítulo 74 — O Silêncio das Tabas

A seca de 1836 castigou o vale com uma fúria silenciosa. O leito do Rio Paraíba reduziu-se a um fio de água barrenta que corria preguiçoso entre bancos de areia escaldante e carcaças de peixes secos. A poeira, fina e vermelha como brasa moída, subia ao menor sopro de vento, cobrindo as copas dos ipês e infiltrando-se nos olhos e nas gargantas dos viajantes.

Lucas caminhava à frente, mas seus passos já traziam a cadência mais lenta dos homens que cruzavam a linha da meia-idade. Seus cabelos, agora salpicados de cinza nas têmporas, emolduravam um rosto esculpido pelas intempéries da estrada. Gabriel, agora um jovem de dezoito anos, forte e de andar firme, trazia a mala de couro atravessada no peito. O menino órfão transformarase no guardião físico da herança, enquanto Lucas mantinha-se como o guia espiritual daquela jornada sem fim.

Eles seguiam por uma antiga trilha de tropeiros que desviava das grandes fazendas de café, adentrando uma região de matas secundárias e espinheiros onde pouca gente ousava viver. — Lucas — chamou Gabriel, apontando para a base de uma colina onde a vegetação parecia mais fechada. — Há fumaça ali adiante. Mas não é fumaça de queimada de café. É fogo de chão, muito baixo.

Lucas parou, limpando o suor da testa com a manga da camisa. Ele apurou o ouvido. No compasso do vento, não vinha o som de machados ou o clamor de feitores; vinha um lamento monótono, uma melodia rítmica e triste que parecia brotar da própria terra. — É um canto de dor, Gabriel — disse Lucas, apertando o passo com a ajuda de seu cajado. — E não é na nossa língua.

Ao contornarem o sopé da colina, depararam-se com um pequeno acampamento improvisado. Eram remanescentes dos povos originários da região, um grupo de Puris que vivia errante pelas franjas das florestas desmatadas, espremidos entre a expansão das lavouras e a hostilidade das vilas. Cerca de dez pessoas estavam reunidas ao redor de uma fogueira moribunda.

No centro do acampamento, deitada sobre folhas de palmeira, uma mulher indígena arfava. Sua barriga estava proeminente, mas o trabalho de parto parecia ter estagnado há horas. Um homem idoso, o pajé do pequeno grupo, chacoalhava um maracá de sementes sobre o corpo dela, mas suas próprias forças pareciam esgotadas pelo cansaço e pela fome. — Eles estão com medo — sussurrou Gabriel, percebendo que os homens do grupo seguravam seus arcos com desconfiança ao verem os dois viajantes. — Mostre as suas mãos vazias, Gabriel — instruiu

Lucas, dando um passo à frente com os braços abertos. — A dor deles é a mesma que encontramos nas senzalas e nas casas de pedra. A língua pode ser diferente, mas o coração que sofre é igual em qualquer lugar da terra.

Capítulo 75 — A Tradução do Olhar

Lucas ajoelhou-se na terra seca, a poucos metros do grupo, mantendo os olhos baixos em sinal de respeito. O pajé Puri observou o homem de cabelos grisalhos. Ele não viu naqueles dois andarilhos as roupas dos soldados que costumavam caçá-los, nem as ferramentas dos colonos que derrubavam suas árvores. Viu apenas a exaustão comum de quem também pertencia à terra.

O velho indígena abaixou o maracá e fez um gesto fraco com a cabeça, permitindo que Lucas se aproximasse da jovem parturiente. A situação era desesperadora. A moça, cujo nome os frades nunca saberiam, estava com a pele fria e pegajosa. Suas contrações haviam cessado por completo devido à exaustão física extrema. — Gabriel, a caixa — pediu Lucas em voz baixa.

O jovem retirou a mala de couro das costas, abriu as fivelas e tirou a caixa de madeira escura de Frei Galvão. O pajé e os outros membros da tribo aproximaram-se lentamente, atraídos pelo brilho da madeira polida que contrastava com a crueza do acampamento.

Gabriel retirou o lápis de grafite e uma das folhas de papel de arroz que restavam no compartimento secreto. Ele olhou para Lucas. — Eu escrevo? — perguntou o jovem. — Sim, Gabriel. Mas lembre-se do que conversamos à margem do rio. Não escreva apenas as letras. Escreva a imagem desta mãe e desta criança que querem viver. Faça com que a sua caligrafia seja a ponte entre a nossa prece e o mistério deles. Gabriel apoiou o papel sobre a tampa da caixa. Sob o olhar curioso e atento dos Puris, ele traçou as palavras latinas com uma suavidade que parecia acalmar o próprio vento que soprava na clareira. “Post partum, Virgo, inviolata permansisti; Dei Genitrix, intercede pro nobis.”

Enrolou a pílula com os dedos ágeis e entregou-a a Lucas. O velho curador aproximou-se da jovem índia. Ele não tentou falar; em vez disso, tocou suavemente a mão dela, apontando para a pílula e depois para a boca.

Havia uma linguagem no olhar de Lucas que dispensava traduções. A jovem Puri compreendeu.

Ela abriu os lábios secos e aceitou o pequeno cilindro de papel, engolindo-o com a ajuda de um gole de água fresca que Gabriel trouxera de sua cabaça.

Capítulo 76 — O Nascimento sob as Estrelas

A noite desceu sobre o acampamento Puri, trazendo o frio seco do inverno da serra. A fogueira foi alimentada com galhos de angico, projetando sombras gigantescas nas paredes de rocha da colina.

Lucas e Gabriel permaneceram sentados ao lado da parturiente. O pajé aceitou compartilhar um punhado de pinhões assados com os viajantes, um gesto de hospitalidade silenciosa que selava a aliança entre eles.

Por volta da meia-noite, a jovem deu um grito agudo, mas não de dor; era o clamor do corpo que despertava para o esforço final. Suas contrações voltaram com uma força impressionante. As mulheres Puri adiantaram-se, assumindo seus papéis de parteiras com uma agilidade que Lucas e

Gabriel respeitaram, recuando alguns passos para dar privacidade ao momento.

Sob a copa das árvores centenárias, iluminada apenas pelas brasas vermelhas e pela luz das estrelas que cintilavam no céu limpo, ouviu-se o som de um choro agudo, forte e cheio de vida. Era uma menina.

O acampamento, antes silencioso e fúnebre, foi preenchido por um murmúrio de alívio e alegria. O pai da criança, um jovem guerreiro que passara a noite inteira vigiando a entrada da clareira, aproximou-se de Lucas. Ele não sabia falar português, mas pegou a mão calejada do velho curador e a colocou sobre o peito esquerdo, onde seu próprio coração batia de forma acelerada. Lucas sorriu, retribuindo o gesto. — A vida encontra o seu caminho, meu irmão — disse Lucas, a voz mansa ecoando na escuridão da floresta. — Não importa o nome que damos ao

Criador, Ele sempre ouve o choro de quem quer nascer.

Gabriel guardou a caixa de madeira escura na mala de couro, sentindo que cada costura daquela bagagem estava mais uma vez justificada. Eles haviam cruzado a barreira da cultura, da língua e do preconceito, provando que o legado de Frei Galvão e de Mateus não pertencia a uma única religião ou a um único povo; pertencia à humanidade.

Capítulo 77 — O Encontro com o Passado

Três dias após deixarem o acampamento Puri, os passos de Lucas e Gabriel os levaram de volta à planície de Guaratinguetá. A cidade havia crescido; novas casas de sobradados com sacadas de ferro decoravam as ruas centrais, e o vaivém de carruagens e escravizados domésticos dava um tom de modernidade que contrastava com a simplicidade que Lucas guardava em sua memória.

Enquanto caminhavam pela praça principal, em direção à igreja onde o corpo de Frei Galvão e o de

Mateus descansavam espiritualizados pela devoção do povo, Lucas percebeu um ajuntamento de pessoas elegantes perto do portal do antigo convento.

No centro do grupo, um clérigo idoso, vestindo uma batina preta impecável com botões de seda e uma cruz de ouro no peito, dava instruções a alguns operários que pintavam a fachada do prédio. Lucas parou. A fisionomia daquele clérigo, embora marcada pelos anos e pela autoridade, era-lhe estranhamente familiar. — Lucas... — sussurrou Gabriel, tocando o braço do mestre. — Aquele ali não é o... — É ele, Gabriel — respondeu Lucas, sentindo um nó na garganta. — É o Frei Gregório.

O antigo professor de Teologia de Taubaté, que outrora perseguira Mateus com seu rigor dogmático e que fora curado por ele na igrejinha de Redenção da Serra, agora era um monsenhor respeitado pela província. Ele abandonara o hábito cinza dos franciscanos para assumir cargos de alta administração na diocese, mas a marca daquela noite de tempestade nunca deixará sua alma.

Ao avistar os dois andarilhos cobertos de poeira e com a mala de couro gasta, Gregório parou de falar com os operários. Seus olhos focaram na mala de couro. Ele reconheceria aquela bagagem em qualquer lugar do mundo.

O monsenhor afastou-se do grupo de nobres locais e caminhou em direção a Lucas com passos lentos.

Ele já não tinha a postura arrogante de sua juventude; seus olhos estavam úmidos e suas mãos tremiam levemente. — Você é o rapaz que acompanhava o Mateus... — disse Gregório, a voz embargada pela emoção. — Sou Lucas, monsenhor — respondeu o curador, inclinando a cabeça em sinal de respeito. — E este é Gabriel, que carrega a nossa bagagem agora.

Gregório olhou para Gabriel, vendo no jovem a mesma determinação e pureza que vira em Mateus décadas atrás. Ele estendeu a mão trêmula e tocou o couro envelhecido da mala, as lágrimas correndo sem controle por suas faces enrugadas. — Ele... ele se foi em paz? — perguntou o monsenhor. — Em profunda paz, frei Gregório — respondeu

Lucas, usando deliberadamente o antigo título franciscano do clérigo. — Ele terminou sua caminhada sob o céu da Mantiqueira, com a pílula de papel de arroz presa contra o peito. E ele me pediu para dizer ao senhor, se um dia o encontrasse, que a teologia que ele carregava nesta mala continua sendo escrita na poeira da estrada.

Gregório cobriu o rosto com as mãos, soluçando baixinho. Toda a sua pompa, sua cruz de ouro e seus títulos de monsenhor pareceram desmoronar diante da simplicidade daquela mensagem que vinha do além-túmulo.

Capítulo 78 — O Farol na Neblina

Naquela noite, por insistência de Frei Gregório,

Lucas e Gabriel foram alojados nos quartos de hóspedes do convento, longe das acomodações rústicas que costumavam ocupar. O monsenhor mandou servir-lhes uma refeição farta, mas o verdadeiro banquete foi a conversa que se estendeu até a madrugada na antiga biblioteca.

Sob a luz dos candelabros de prata, Gregório ouviu atentamente os relatos das viagens de Lucas e

Gabriel pelas senzalas, pelos acampamentos Puris e pelos povoados isolados da serra. — Eu passei a vida inteira tentando organizar a fé em gavetas e parágrafos, Lucas — confessou

Gregório, olhando para as estantes cheias de livros de couro. — Mas a cada dia que passa, percebo que Deus não cabe em nossas bibliotecas. O trabalho que vocês fazem... o trabalho que Mateus fez... é o que mantém a Igreja viva no coração do povo simples. Sem vocês, nós seríamos apenas pedras frias e ritos vazios.

Ele levantou-se e foi até uma gaveta de jacarandá, de onde retirou um pequeno embrulho de veludo. Entregou-o a Gabriel. — O que é isto, monsenhor? — perguntou o jovem. — É uma pequena provisão de folhas de papel de arroz de alta qualidade que mandei vir de Portugal — explicou Gregório com um sorriso cúmplice. — E algumas pontas de grafite puro. Guardem na mala. Eu já não posso caminhar com os senhores, minhas pernas não aguentam mais a poeira das estradas. Mas quero saber que, em cada pílula que escreverem na escuridão dos casebres, há um pedaço de minha oração e do meu arrependimento caminhando com vocês.

Lucas e Gabriel aceitaram o presente com profunda gratidão. Eles compreenderam que a cura operada em Gregório anos atrás continuava a dar frutos, transformando o antigo perseguidor no maior aliado silencioso daquela missão itinerante.

Ao amanhecer, os dois andarilhos cruzaram novamente os portões de Guaratinguetá. O sol nascia dourado sobre o Rio Paraíba, dissipando a neblina da manhã. — Para onde vamos hoje, Lucas? — perguntou

Gabriel, ajustando a mala de couro nas costas, agora reabastecida com o papel do monsenhor.

Lucas olhou para a estrada de terra vermelha que se perdia no horizonte de montanhas azuis. Ele sentiu a presença espiritual de Mateus e de Frei Galvão ao seu lado, como um farol invisível que guiava seus passos na névoa do tempo. — Vamos caminhar, meu filho — respondeu Lucas, apoiando-se em seu cajado. — Há sempre uma dor nos esperando para ser aliviada na próxima curva do caminho. E nós temos tudo o que precisamos para trazer a luz de volta.

E sob o céu aberto do vale, os dois peregrinos seguiram em frente, seus passos misturando-se à poeira da terra batida, perpetuando a corrente de amor e cura que nunca encontraria um ponto final na história dos homens.

Capítulo 79 — A Grande Estação

O ano de 1842 trouxe ao Vale do Paraíba o rastro de ferro e fumaça que mudaria a fisionomia da terra para sempre. As primeiras locomotivas a vapor começavam a rasgar os vales secundários, abrindo clareiras gigantescas na Mata Atlântica para assentar os trilhos que levariam o café diretamente aos portos. O progresso chegava com o barulho ensurdecedor das caldeiras e o grito dos engenheiros estrangeiros, mas, para Lucas, aquele avanço tecnológico parecia acentuar ainda mais o abismo entre o Brasil dos palacetes e o Brasil dos esquecidos.

Lucas já sentia o peso dos seus cinquenta anos de idade. Seus joelhos, castigados pelas subidas íngremes da Mantiqueira, protestavam a cada amanhecer frio, e sua visão começava a embaçar quando tentava ler sob a luz fraca das fogueiras.

Ele já não era o jovem forte que resgatara o pequeno Gabriel; era um homem maduro que via o tempo correr como as águas do rio após as chuvas de verão.

Gabriel, agora com vinte e quatro anos, assumira por completo a liderança física das caminhadas. Ele trazia nos ombros a mesma mala de couro que outrora pertencera a Frei Galvão e a Mateus. Seus passos eram firmes, seu olhar era focado e ele trazia na pele a cor bronzeada de quem fizera da estrada o seu único teto.

Eles pararam no alto de uma colina de onde podiam ver a construção de uma grande estação de trem perto de Lorena. Centenas de operários — imigrantes italianos, escravizados alugados e retirantes do Nordeste — trabalhavam sob o sol escaldante, movendo toneladas de terra e rocha. — O mundo está correndo rápido demais, Gabriel — comentou Lucas, apoiando-se em seu cajado de madeira. — Eles constroem caminhos de ferro para ligar as cidades, mas esquecem de construir as pontes que ligam os corações dos homens. — Mas a nossa estrada não muda, Lucas — respondeu o jovem, tocando a alça da mala de couro com carinho. — O trem pode carregar o café, mas ele não carrega o alívio para quem está chorando na beira da linha. Esse trabalho ainda é

nosso.

Lucas olhou para o discípulo e sentiu uma profunda paz. Ele sabia que a transição que Mateus fizera com ele estava se repetindo com a mesma perfeição de um ciclo natural. A semente não havia apenas germinado; ela se transformara em uma árvore forte, capaz de dar frutos e abrigar os cansados sob sua sombra.

Capítulo 80 — O Miasma do Progresso

A proximidade das grandes obras ferroviárias trouxe também o seu reverso sombrio: o surgimento de acampamentos de trabalhadores sem qualquer estrutura de higiene. No final daquela semana, uma epidemia de cólera — trazida por viajantes vindos dos portos do Rio de Janeiro — desabou sobre o canteiro de obras da ferrovia com a força de uma praga bíblica.

O hospital de campanha improvisado pelos engenheiros da ferrovia consistia em algumas tendas de lona cinzenta montadas em um lamaçal perto dos trilhos. O cheiro de desinfetante barato, vômito e febre pairava sobre o lugar como uma névoa invisível e letal. Os médicos contratados pela companhia ferroviária mal davam conta de assinar os atestados de óbito, enquanto os corpos eram empilhados em valas comuns abertas pela força das pás de vapor.

Lucas e Gabriel chegaram ao acampamento ao entardecer. A atmosfera era de pânico absoluto; muitos operários tentavam fugir para as matas, sendo contidos pelas armas dos guardas da empresa, que temiam que o contágio paralisasse as obras de vez. — O que vocês querem aqui? — perguntou um engenheiro inglês, com sotaque carregado e o rosto coberto por um lenço embebido em vinagre. — Saiam daqui! A cólera não poupa ninguém. Se entrarem nessas tendas, estarão mortos antes do próximo trem chegar. — Nós viemos trazer o que os seus remédios não conseguem dar a eles, senhor — respondeu

Gabriel, dando um passo à frente com a mala de couro. — Viemos trazer a dignidade que o progresso de vocês confiscou.

O engenheiro olhou para a segurança com que o jovem falava e, sem forças para debater, fez um gesto de descaso com a mão, permitindo-lhes a entrada.

No interior da primeira tenda, dezenas de homens agonizavam sobre o chão de terra batida, cobertos apenas por cobertores finos e sujos. A desidratação severa transformara os rostos dos trabalhadores em máscaras cadavéricas; seus olhos estavam encovados e suas peles, frias e azuladas.

Gabriel ajoelhou-se ao lado de um jovem operário italiano que chamava pela mãe em sua língua natal.

O rapaz tremia de frio e de dor devido às violentas cãibras provocadas pela doença. — Abra a caixa, Lucas — pediu Gabriel, mantendo sua voz firme no meio do caos de lamentos. — O papel do monsenhor Gregório e o grafite de Galvão têm muito trabalho a fazer nesta noite.

 
 
 

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