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O Sobrenome que Nunca Foi Nosso — Parte II — A Travessia

  • Foto do escritor: Abioye Ras Barros
    Abioye Ras Barros
  • há 3 dias
  • 12 min de leitura

Atualizado: há 2 dias

Parte II – A Travessia

Capítulo 7

A Mulher da Fotografia

Passei os dias seguintes mergulhado nos cadernos de Seu Joaquim.

Não havia uma ordem exata.

As histórias pareciam seguir o movimento da memória, não o do calendário.

Um nome lembrava outro.

Uma fotografia conduzia a uma festa.

Uma festa levava a um nascimento.

E um nascimento terminava numa despedida.

Enquanto lia, compreendi que a memória nunca anda em linha reta.

Ela faz curvas.

Volta atrás.

Esquece detalhes para preservar sentimentos.

Foi numa tarde de quarta-feira que uma fotografia caiu de dentro de um dos cadernos.

Era pequena, de bordas gastas.

Mostrava uma mulher negra, já idosa, sentada diante de uma casa de pau a pique.

Usava um vestido claro e um lenço branco cobrindo os cabelos.

Não olhava para a câmera.

O seu olhar parecia atravessar quem a fotografava.

No verso, havia apenas uma frase escrita a lápis.

"Ela ainda lembrava o nome que nos tiraram."

Fiquei imóvel.

Li novamente.

Depois outra vez.

A frase permanecia a mesma.

Corri até a casa de Seu Joaquim.

Ele demorou alguns segundos para atender.

Quando mostrei a fotografia, seus olhos mudaram.

Sentou-se sem dizer uma palavra.

— Quem era ela? — perguntei.

Ele passou o polegar sobre a imagem, como quem cumprimenta uma velha amiga.

— Chamava-se Dona Alzira.

Era conhecida por guardar histórias que ninguém mais conseguia contar.

Diziam que aprendera muito com a própria avó, uma mulher nascida poucos anos depois da abolição.

— Ela sabia o sobrenome da família?

Ele balançou a cabeça.

— Não.

Sabia algo muito mais importante.

Olhei para ele, esperando a resposta.

— Ela dizia que, antes dos sobrenomes, existiam os nomes pelos quais as pessoas eram reconhecidas em sua aldeia.

Nomes que carregavam significados.

Nomes que contavam quem alguém era, e não quem alguém possuía.

O silêncio voltou a ocupar a sala.

— Ela deixou alguma coisa escrita?

Seu Joaquim sorriu.

— Não.

Mas deixou pessoas.

E algumas ainda estão vivas.

Meu coração acelerou.

Pela primeira vez, a busca deixava os papéis e ganhava rostos.

Talvez a história da minha família não estivesse escondida em um arquivo.

Talvez estivesse sentada na varanda de alguma casa, esperando apenas que alguém tivesse a humildade de escutar.

Naquela noite, antes de dormir, coloquei a fotografia sobre a mesa do meu quarto.

Fiquei olhando para aquele rosto por muito tempo.

Não sabia quem Dona Alzira tinha sido.

Mas havia uma estranha sensação de que ela já me esperava muito antes de eu começar a procurá-la.

Capítulo 8

As Vozes que permanecem

Passei dois dias olhando para a fotografia de Dona Alzira.

Não era apenas o rosto que me inquietava.

Era a frase escrita no verso.

“Ela ainda lembrava o nome que nos tiraram.”

Como alguém podia lembrar de um nome que nunca fora escrito?

Na sexta-feira à tarde voltei à casa de Seu Joaquim.

Encontrei-o sentado na varanda, limpando um velho lampião.

Antes que eu dissesse qualquer coisa, ele apontou para a cadeira ao lado.

— Sente-se.

Obedeci.

Ficamos alguns minutos em silêncio.

O vento balançava as folhas da mangueira no quintal.

De vez em quando passava uma criança correndo pela rua.

A vida seguia.

Como sempre seguiu.

— Você está pensando na fotografia.

Assenti.

— Quero encontrá-la.

Seu Joaquim sorriu.

— Não pode.

Franzi a testa.

— Dona Alzira morreu há quase quinze anos.

A notícia caiu sobre mim com um peso inesperado.

Durante alguns dias eu havia alimentado a esperança de conversar com ela.

Percebi que, mais uma vez, chegara tarde demais.

Ele percebeu minha decepção.

— A memória é assim, Lucas. Sempre nos obriga a correr contra o tempo.

Depois levantou-se e entrou na casa.

Voltou trazendo um caderno pequeno.

A capa estava tão gasta que já não era possível distinguir sua cor original.

— Este caderno não é dela.

É meu.

Abriu algumas páginas.

— Durante muitos anos visitei Dona Alzira.

Não para entrevistá-la.

Para ouvi-la.

Ela não gostava quando eu fazia perguntas.

Dizia que quem viveu muito conta as histórias na ordem em que elas querem sair.

Não na ordem em que a curiosidade chega.

Folheou algumas páginas até encontrar uma anotação.

Leu em voz alta.

— “Os nomes podem ser levados. Os costumes, não. Enquanto houver alguém preparando a comida do jeito da bisavó, cantando a cantiga da avó ou enterrando seus mortos com respeito, a memória continua respirando.”

Fechou o caderno.

— Foi ela quem me ensinou isso.

Olhei novamente para a fotografia.

Pela primeira vez deixei de enxergar apenas uma mulher idosa.

Passei a enxergar uma guardiã.

— Ela falava da nossa família?

Seu Joaquim demorou alguns instantes antes de responder.

— Falava de muitas famílias.

Naquela época, ninguém pensava em separar uma história da outra.

A dor era coletiva.

Assim como a resistência.

A frase ficou ecoando dentro de mim.

Talvez aquele fosse o meu maior erro desde o início.

Eu procurava apenas a história da minha família.

Mas minha família fazia parte de uma história muito maior.

Uma história repartida entre milhares de pessoas que tiveram os nomes alterados, os vínculos rompidos e as origens silenciadas.

Seu Joaquim colocou a mão sobre meu ombro.

— Lucas...

— Sim?

— Você ainda acredita que está procurando um sobrenome.

Sorriu com serenidade.

— Mas, sem perceber, já começou a encontrar um povo.

Na volta para casa, caminhei sem pressa.

Passei pela praça, pela igreja, pelo campo de futebol onde tantas crianças brincavam.

Pensei que todas elas cresceriam acreditando que sua história começava na certidão de nascimento.

Eu também acreditara nisso.

Agora sabia que uma certidão registra um nascimento.

Mas uma história nasce muito antes do papel.

Capítulo 9

O Livro de Registros

Na semana seguinte, Seu Joaquim me telefonou.

Sua voz carregava uma calma incomum. — Lucas, venha quando puder. Acho que encontrei uma coisa que pode lhe interessar.

Não perguntou se eu estava ocupado.

Também não explicou do que se tratava.

Desligou logo depois.

Cheguei à sua casa no fim da tarde.

Dessa vez, ele me esperava na mesa da cozinha.

Sobre ela havia um livro grande, de capa de couro escurecida pelo tempo.

Não parecia pertencer àquela casa.

Parecia ter atravessado muitas mãos antes de chegar ali.

— O que é isso? — perguntei.

— Um livro de registros da antiga Irmandade de Nossa Senhora do Rosário dos Homens Pretos.

Passei a mão sobre a capa.

O couro estava ressecado.

As páginas exalavam o cheiro característico do papel antigo.

— Como ele veio parar aqui?

Seu Joaquim sorriu.

— Não veio. Eu fui até ele.

Explicou que a irmandade havia preservado parte de seus documentos ao longo de décadas. Nem todos estavam completos. Muitos haviam sido perdidos pela umidade, por mudanças de endereço ou simplesmente pelo descuido de quem não compreendia seu valor.

Mesmo assim, alguns resistiram. Abri o livro.

As primeiras páginas traziam listas de batismos.

Depois, casamentos.

Mais adiante, anotações de contribuições feitas pelos irmãos da confraria.

Os nomes se repetiam.

Alguns sobrenomes me eram familiares.

Outros jamais tinha ouvido.

Mas havia algo que chamava a atenção.

Ao lado de alguns registros, alguém escrevera pequenas observações.

“Excelente carpinteiro.”

“Parteira respeitada por toda a comunidade.”

“Homem de palavra.”

Fechei o livro por um instante.

— Isso não costuma aparecer em documentos oficiais.

— Não — respondeu Seu Joaquim. — Porque quem escreveu isso conhecia essas pessoas. Não as enxergava apenas como registros.

Continuei folheando.

De repente, um nome interrompeu meus movimentos.

Era o nome do meu bisavô.

Não havia nenhuma revelação extraordinária.

Nenhuma referência ao sobrenome perdido.

Apenas uma breve anotação feita à margem.

“Entrou para a irmandade levado pela mãe. Cantava baixo, mas nunca faltava às celebrações.”

Sorri sem perceber.

Era pouco.

Quase nada.

Mas era, ao mesmo tempo, muito.

Pela primeira vez eu encontrava um vestígio da vida cotidiana de alguém da minha família.

Meu bisavô deixaria de existir apenas nos documentos do Estado.

Agora existia também na memória da própria comunidade.

Seu Joaquim percebeu meu olhar.

— Está vendo a diferença?

Assenti.

— O cartório registrou que ele existiu.

A irmandade registrou como ele viveu.

Fechamos o livro com cuidado.

Antes de guardá-lo, um pequeno papel escapou de dentro das páginas.

Era um marcador improvisado.

Nele havia um endereço escrito à mão.

Olhei para Seu Joaquim.

— O senhor conhece este lugar?

Ele permaneceu em silêncio por alguns segundos.

Depois respondeu:

— Conheço.

É onde vive a última pessoa que ouviu sua bisavó contar histórias.

Saí dali segurando aquele pequeno pedaço de papel.

Não sabia o que encontraria naquele endereço.

Mas compreendia, cada vez mais, que minha jornada não era feita de grandes descobertas.

Era feita de pequenos encontros.

E talvez seja assim que uma história volta a existir.

Não de uma só vez.

Mas memória por memória.

Pessoa por pessoa.

Palavra por palavra.

Capítulo 10

A Casa de Dona Celina

Guardei o pedaço de papel na carteira.

Durante dois dias pensei em ir até aquele endereço.

Durante dois dias também encontrei motivos para adiar.

Talvez por medo.

Não de descobrir alguma coisa.

Mas de chegar tarde demais.

No sábado pela manhã, tomei um ônibus para o outro lado da cidade.

O bairro era antigo.

As ruas estreitas ainda conservavam casas construídas quando quase tudo ao redor era estrada de terra.

Caminhei devagar procurando o número anotado.

Quando parei diante do portão, senti um aperto no peito.

A casa era simples.

Paredes brancas.

Janelas de madeira pintadas de azul.

Na varanda, vasos de samambaias pendiam do teto, balançando com o vento.

Bati palmas.

Pouco depois, uma senhora abriu a porta.

Era baixa.

Os cabelos completamente brancos estavam presos em um coque.

Os olhos, apesar da idade, conservavam um brilho difícil de explicar.

— Bom dia.

— Bom dia.

— A senhora é Dona Celina?

Ela sorriu.

— Sou.

Respirei fundo.

— Meu nome é Lucas.

Vim porque Seu Joaquim disse que a senhora conheceu minha bisavó.

Seu sorriso desapareceu por um instante.

Ela permaneceu olhando para mim.

Não para o meu rosto.

Parecia olhar para alguma lembrança escondida atrás dele.

— Entre, meu filho.

A casa tinha cheiro de café e madeira antiga.

Na sala havia um relógio de parede marcando um tempo que parecia mais lento.

Sentamo-nos perto da janela.

Ela serviu café em xícaras diferentes umas das outras.

— Como era o nome da sua bisavó?

Respondi.

Dona Celina fechou os olhos.

Demorou alguns segundos.

Depois sorriu.

— Ela ria com os ombros.

Franzi a testa.

— Como assim?

— Algumas pessoas riem com a boca.

Outras com os olhos.

Sua bisavó ria com os ombros.

Toda vez que achava graça de alguma coisa, eles se levantavam primeiro.

Sorri.

Era uma lembrança tão pequena que jamais apareceria em um documento.

Mas bastou aquela frase para que minha bisavó deixasse de ser apenas um nome.

Tornou-se gente.

Conversamos durante horas.

Ela não contava histórias em ordem.

Lembrava de um aniversário.

Depois de uma seca.

Em seguida de um casamento.

Voltava à infância.

Parava no meio da frase.

Ria sozinha.

Às vezes ficava em silêncio, como se pedisse licença à memória para continuar.

No meio da conversa perguntei:

— Ela falava do nosso sobrenome?

Dona Celina olhou para a xícara por alguns instantes.

— Não.

Falava de coisa mais importante.

— O quê?

— Dizia que havia gente que passava a vida procurando o nome dos antepassados...

Levantou os olhos e completou:

— ...quando deveria procurar o caráter deles.

A resposta me surpreendeu.

Ela percebeu.

— Não estou dizendo que sua busca não tem valor.

Estou dizendo que sua bisavó acreditava que um sobrenome podia ser roubado.

Mas a dignidade precisava ser protegida todos os dias.

O silêncio tomou conta da sala.

Então ela levantou-se lentamente.

Foi até um armário.

Retirou uma lata antiga de biscoitos.

Dentro dela havia fotografias, cartas e pequenos objetos.

Procurou com calma.

Até retirar uma folha dobrada.

Entregou-a em minhas mãos.

— Sua bisavó me deu isso poucos meses antes de morrer.

Disse que um dia alguém da família viria procurar respostas.

Olhei para o papel sem abri-lo.

Minhas mãos tremiam.

Dona Celina sorriu.

— Não tenha pressa.

Há palavras que esperam anos pelo momento certo de serem lidas.

Naquele instante compreendi que minha viagem nunca fora apenas para encontrar o passado.

Era para descobrir que algumas pessoas passam a vida inteira guardando a memória dos outros.

Não porque lhes pertença.

Mas porque sabem que, um dia, alguém precisará dela para continuar caminhando.

Capítulo 11

O Preço das Perguntas

Passei a folha que Dona Celina me entregara a viagem inteira dentro da mochila.

Não a abri.

Havia alguma coisa naquele gesto de esperar que me parecia necessária.

Nem toda resposta precisa ser conhecida no instante em que chega.

Às vezes, o tempo também prepara quem vai ler.

Na segunda-feira, a rotina voltou a ocupar seus espaços.

Às sete da manhã eu já estava no escritório onde trabalhava.

Era uma empresa de contabilidade instalada no centro da cidade.

Meu trabalho consistia em organizar números que pertenciam à vida de outras pessoas.

Notas fiscais.

Contratos.

Declarações.

Planilhas.

Todos os dias eu conferia nomes completos.

Centenas deles.

Alguns me chamavam a atenção.

Sobrenomes italianos.

Alemães.

Árabes.

Japoneses.

Muitos clientes falavam com orgulho da origem da família.

Alguns mantinham fotografias dos bisavôs sobre a mesa.

Outros contavam histórias de imigração como quem fala de um tesouro.

Percebi que sentia inveja.

Não das famílias.

Mas dá continuidade.

Eles conheciam o caminho percorrido pelos que vieram antes.

Eu ainda tentava descobrir onde o caminho havia sido interrompido.

— Lucas.

Levantei os olhos.

Era Marcelo, colega de trabalho.

— Está distraído há semanas.

Aconteceu alguma coisa?

Sorri sem convicção.

— Estou pesquisando a história da minha família.

Ele deu de ombros.

— Para quê?

A pergunta pareceu simples.

Mas me atingiu.

— Porque acho que não conheço quem veio antes de mim.

Marcelo puxou uma cadeira.

— Posso te dar um conselho?

Assenti.

— Deixa isso para lá.

Tem coisa que nasceu para ficar enterrada.

Quanto mais a gente cava, mais encontra sofrimento.

Volta a viver sua vida.

Passei o restante do dia pensando naquela frase.

Ela não vinha de maldade.

Vinha de uma forma de sobrevivência muito comum.

Aprendemos, como sociedade, que esquecer é mais fácil do que lembrar.

Naquela noite, durante o jantar, contei a conversa para minha mãe.

Ela permaneceu em silêncio por alguns segundos.

Depois pousou os talheres.

— Seu tio Augusto pensa exatamente assim.

Olhei para ela.

— Nunca ouvi falar disso.

— Porque ele proibiu esse assunto dentro da casa dele.

Meu coração acelerou.

— Por quê?

Ela respirou fundo.

— Depois da morte do seu avô, ele queimou quase todas as caixas com fotografias e papéis antigos.

Fiquei sem palavras.

— Queimou?

Ela apenas confirmou com a cabeça.

— Dizia que viver olhando para trás impedia qualquer pessoa de seguir em frente.

Naquela noite, quase não consegui dormir.

Pela primeira vez, minha busca encontrava alguém que não queria lembrar.

Talvez porque lembrar doesse.

Talvez porque esquecer tivesse sido a única maneira que ele encontrou para continuar vivendo.

Olhei para a mochila.

A folha de Dona Celina continuava fechada.

Mas agora eu sabia que, antes de descobrir o que estava escrito nela, precisaria enfrentar algo muito mais difícil do que documentos perdidos.

Precisaria enfrentar o silêncio daqueles que escolheram sobreviver esquecendo.

Capítulo 12

A Fotografia sem Nome

A casa da minha mãe sempre teve o mesmo cheiro.

Café recém passado.

Sabão de coco.

Madeira antiga aquecida pelo sol da tarde.

Cheguei sem avisar.

Ela abriu a porta sorrindo, mas o sorriso desapareceu quando percebeu que eu carregava a mesma mochila que vinha me acompanhando havia semanas.

— Você não desistiu.

Não era uma pergunta.

Balancei a cabeça.

— Acho que não consigo mais.

Ela deu passagem.

A televisão permanecia ligada na sala, embora ninguém a estivesse assistindo.

Era um hábito antigo da casa.

Talvez o silêncio nunca tivesse sido um bom visitante por ali.

Enquanto ela terminava o almoço, caminhei até o corredor.

As paredes estavam cobertas por fotografias.

Meu primeiro aniversário.

Minha formatura.

O casamento dos meus pais.

Meu avô segurando um peixe enorme, sorrindo como uma criança.

Parei diante daquela fotografia por alguns segundos.

— Faz tempo que não olho para essas fotos.

A voz da minha mãe veio da cozinha.

— A gente passa todos os dias por elas.

Mas quase nunca as enxergas.

Continuei andando.

No último quarto da casa havia um guarda-roupa antigo.

Ainda era o mesmo da minha infância.

Abri a porta.

As dobradiças reclamaram com um rangido conhecido.

Na parte mais alta encontrei uma caixa de papelão coberta por um pano.

Desci com cuidado.

Minha mãe apareceu na porta.

Seu rosto mudou.

— Onde você encontrou isso?

— Estava aqui.

Ela permaneceu imóvel.

Reconheci aquele olhar.

Era o mesmo da minha avó quando viu o trabalho da escola tantos anos antes.

O olhar de quem percebe que o passado acaba de bater novamente à porta.

Sentamo-nos no chão da sala.

Nenhum de nós falou enquanto eu retirava os objetos da caixa.

Havia cartões de Natal.

Recibos antigos.

Uma carteira de trabalho.

Cartas.

Fotografias.

Muitas fotografias.

Algumas já estavam coladas umas às outras pela umidade.

Peguei uma delas.

Cinco pessoas estavam diante de uma casa simples.

Todas as negras.

Vestiam suas melhores roupas.

Os homens usavam chapéu.

As mulheres mantinham as mãos cruzadas à frente do corpo.

No centro da fotografia havia uma menina.

Devia ter uns oito anos.

Segurava uma boneca de pano contra o peito.

Olhei o verso.

Estava completamente em branco.

Nenhum nome.

Nenhuma data.

Nenhum lugar.

— Quem são eles?

Minha mãe demorou a responder.

Aproximou a fotografia do rosto.

Franziu a testa.

Sorriu de leve.

Depois seus olhos se encheram de lágrimas.

— Eu...

Fez uma pausa.

— Eu não sei.

As palavras ficaram suspensas entre nós.

Ela passou o dedo sobre o rosto da menina.

Como quem tenta acordar uma lembrança adormecida.

— Quando eu era criança, sabia.

Tenho certeza de que sabia.

Sua avó me contou.

Seu avô também.

Mas o tempo foi levando os nomes embora.

Olhei novamente para aquelas pessoas.

Elas existiram.

Riram.

Amaram.

Criaram filhos.

Enterraram seus mortos.

Enfrentaram dias difíceis.

E, agora, restavam apenas rostos.

Foi então que minha mãe disse algo que nunca imaginei ouvir.

— Acho que comecei a esquecer para não sofrer.

Levantei os olhos.

Ela não chorava.

Falava com uma serenidade dolorosa.

— Seu avô perguntava muito sobre o passado.

Quando ele morreu, a casa ficou silenciosa.

E nós aprendemos que era mais fácil guardar as fotografias do que conversar sobre elas.

Peguei delicadamente a imagem.

Pela primeira vez, compreendi que o esquecimento nem sempre nasce da indiferença.

Às vezes, nasce do excesso de dor.

Guardei a fotografia dentro de um envelope.

Não para protegê-la do tempo.

Mas para lembrar a mim mesmo de uma promessa silenciosa.

Enquanto houvesse alguém disposto a perguntar os nomes daqueles rostos, eles jamais desapareceriam completamente.

Naquele fim de tarde, antes de ir embora, olhei mais uma vez para as fotografias penduradas na parede.

Pensei que toda família possui uma imagem sem nome.

E talvez seja justamente nela que more a pergunta capaz de mudar uma vida inteira.

 
 
 

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