O Sobrenome que Nunca Foi Nosso — Parte I — As Raízes
- Abioye Ras Barros
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Atualizado: há 2 dias
O Sobrenome que Nunca Foi Nosso
Abioye Ras Barros
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Todos os direitos desta obra pertencem ao autor.
Autor: Abioye Ras Barros
© 2026 – Todos os direitos reservados.
Dedicatória
Àqueles que vieram antes de nós e abriram caminhos que talvez nunca conheçamos por completo.
Aos que tiveram seus nomes preservados e, sobretudo, aos que o tempo quase apagou, mas permanecem vivos na memória, nos gestos, nos valores e nas histórias transmitidas entre gerações.
Dedico estas páginas a todos os que um dia olharam para o passado em busca de respostas e descobriram que a verdadeira herança não está apenas no sobrenome que carregamos, mas na coragem, na dignidade e no amor com que escolhemos viver.
E a você, leitor, que aceitou percorrer esta travessia, desejo que, ao final desta jornada, encontre não apenas a história de uma família, mas também fragmentos da sua própria.
Abioye Ras Barros
Prefácio
Existem histórias que nascem da imaginação. Outras surgem da observação do mundo. E existem aquelas que parecem existir muito antes de serem escritas, aguardando apenas alguém disposto a lhes dar voz.
O Sobrenome que Nunca Foi Nosso pertence a essa última categoria. Esta não é apenas uma narrativa sobre uma família, uma viagem ou a busca por documentos antigos.
É, acima de tudo, uma reflexão sobre identidade. Sobre aquilo que herdamos sem escolher e sobre aquilo que escolhemos carregar quando compreendemos quem realmente somos. Durante muito tempo, acreditou-se que um sobrenome fosse suficiente para definir uma pessoa.
Mas a vida ensina que nomes podem ser esquecidos, registros podem desaparecer e fronteiras podem mudar.
Ainda assim, permanece algo que nenhum arquivo é capaz de apagar: a memória.
Cada capítulo desta obra convida o leitor a caminhar por estradas onde o passado dialoga com o presente. Ao acompanhar essa jornada, talvez você encontre perguntas que também pertencem à sua própria história. De onde viemos? O que realmente herdamos daqueles que vieram antes de nós? E, sobretudo, quem somos quando todas as certezas parecem desaparecer?
Mais do que oferecer respostas, este romance propõe um encontro. Um encontro com as raízes, com os silêncios da História e com a coragem necessária para reconhecer que nossa identidade não se limita ao nome que carregamos, mas às escolhas que fazemos ao longo da vida.
Se, ao fechar este livro, você olhar para sua própria história com novos olhos, esta obra terá cumprido sua missão.
Boa leitura.
Abioye Ras Barros
Prólogo
O Nome Escrito na Corrente
Antes de roubarem nossas casas, roubaram nossos nomes.
Antes de apagarem nossos caminhos, apagaram as palavras pelas quais éramos chamados. Um nome nunca foi apenas um conjunto de letras. Nele repousavam a memória dos antepassados, a esperança dos pais, a bênção dos mais velhos e a promessa dos que ainda nasceriam.
Quando um nome desaparece, algo maior desaparece com ele.
Naquela manhã, o sol já queimava a terra antes mesmo que o silêncio fosse rompido.
Os homens permaneciam alinhados. As mulheres apertavam os filhos contra o peito. Ninguém compreendia a língua dos homens que caminhavam entre eles com papéis nas mãos.
Cada pessoa era observada como se fosse um objeto à espera de classificação. Um por um, recebiam um novo nome.
Não perguntavam quem eram. Não perguntavam de onde vinham. Não perguntavam o nome de seus pais, nem dos avós.
Bastava escrever. Um sobrenome, uma assinatura, um registro.
Naquele instante, uma história inteira era substituída por outra.
O papel dizia que agora pertenciam a alguém.
Mas papel nenhum era capaz de registrar aquilo que realmente lhes pertencia. A memória permaneceu escondida.
Sobreviveu nas canções sussurradas durante a noite.
Nos gestos repetidos sem explicação. Nas receitas preparadas pelas avós. Nas histórias contadas baixinho para que o esquecimento jamais vencesse completamente. Os séculos passaram. Os engenhos desapareceram. As correntes enferrujaram. As leis mudaram. Mas muitos daqueles sobrenomes continuaram atravessando gerações, escritos em certidões, carteiras de identidade, diplomas e túmulos.
Pareciam herança. Mas eram cicatrizes.
E toda cicatriz guarda a lembrança de uma ferida. Esta não é apenas a história de um homem. É a história de uma pergunta.
Uma pergunta que atravessou séculos até encontrar alguém disposto a escutá-la. Porque há momentos em que um sobrenome deixa de ser apenas um nome. E passa a ser um silêncio esperando, finalmente, ser interrompido.
Parte I – As Raízes
Capítulo 1
O Nome que Não Me Pertencia
Há nomes que chegam antes da pessoa.
Entram na sala de aula antes do primeiro dia de aula.
Aparecem na chamada, nos formulários, nas fichas do posto de saúde, nos boletins e, um dia, na carteira de identidade.
Passam a vida inteira repetindo quem supostamente somos.
O meu sempre chegou antes de mim.
— Lucas...
Levantei a mão. A professora fez uma pequena pausa antes de pronunciar o sobrenome. Era sempre assim.
Alguns professores hesitavam.
Outros o diziam com firmeza, como quem apenas cumpria uma obrigação.
Para mim, porém, cada sílaba carregava um peso que eu nunca soube explicar.
Os colegas voltavam os olhos por um instante.
Depois tudo seguia normalmente.
Menos dentro de mim. Desde criança eu sentia que aquele sobrenome não se encaixava. Não era vergonha.
Também não era revolta.
Era uma estranha sensação de vestir uma roupa feita para outra pessoa. Como se eu passasse a vida inteira respondendo por uma história que nunca havia começado comigo.
Nunca contei isso a ninguém.
Quem entenderia?
Em casa, ninguém falava sobre o assunto.
Meu pai dizia que nome era apenas nome.
Minha mãe respondia que o importante era o caráter.
Minha avó apenas sorria.
Hoje percebo que aquele sorriso escondia mais respostas do que qualquer documento guardado dentro de um cartório.
Na adolescência comecei a reparar em outra coisa.
Quase todas as famílias da rua carregavam sobrenomes diferentes. Mas as histórias eram parecidas.
Sempre existia um avô sem fotografia.
Uma bisavó cujo nome completo ninguém lembrava.
Um parente de quem só restava um apelido. Era como se alguém tivesse arrancado páginas inteiras da nossa memória.
E nós tivéssemos aprendido a viver acreditando que o livro sempre fora assim. Naquele tempo eu ainda não sabia.
Mas algumas perguntas escolhem a pessoa que irá carregá-las.
E uma delas já caminhava ao meu lado desde muito antes de eu aprender a escrever meu próprio nome.
Ela esperou anos. Silenciosa. Até encontrar o momento certo para ser feita. Foi numa manhã comum.
Daquelas que parecem destinadas ao esquecimento.
E, justamente por isso, mudam uma vida para sempre.
Capítulo 2
A Pergunta
Na segunda-feira seguinte, a professora entrou na sala carregando uma caixa de papelão.
Era uma caixa antiga, cheia de fotografias amareladas, cartas e cópias de certidões.
Ela colocou tudo sobre a mesa e sorriu.
— Nas próximas semanas, vamos estudar a história das nossas famílias.
Alguns colegas comemoraram.
Outros reclamaram da quantidade de trabalho.
Eu permaneci em silêncio.
A atividade parecia simples.
Cada aluno deveria montar uma pequena árvore genealógica, conversar com os parentes mais velhos e escrever a história da própria família.
Quando recebi a folha, li as perguntas.
Quem foram suas bisavós?
De onde vieram?
O que faziam?
Como sua família chegou até aqui?
Olhei para o papel durante alguns segundos.
Eu não sabia responder nenhuma delas.
Sabia o nome dos meus pais.
Conhecia meus avós.
Mas, dali para trás, tudo desaparecia como uma estrada engolida pela neblina.
Na hora do recreio, observei meus colegas.
Alguns falavam dos bisavôs italianos.
Outros mencionavam portugueses, japoneses, libaneses.
Falavam de navios, fotografias antigas, cartas guardadas em caixas de madeira.
Percebi que muitos carregavam histórias.
Eu carregava perguntas.
Naquela tarde voltei para casa com a folha dobrada dentro da mochila.
Ela parecia mais pesada do que os livros.
Durante o jantar, coloquei o trabalho sobre a mesa.
Meu pai leu rapidamente.
Sorriu.
— Pergunta para sua avó. Ela gosta dessas histórias.
Minha mãe permaneceu em silêncio por alguns instantes.
Depois apenas disse:
— Existem perguntas que machucam pessoas que passaram a vida tentando esquecer.
Não insisti. Mas aquela frase ficou presa em mim.
Naquela noite quase não dormi.
Como alguém pode esquecer a própria história?
Ou talvez... Ninguém tivesse esquecido.
Talvez alguém tivesse feito questão de apagá-la.
Foi a primeira vez que essa possibilidade atravessou meus pensamentos.
Ainda não era uma certeza. Era apenas uma suspeita.
Pequena. Silenciosa.
Mas algumas suspeitas possuem a força de uma semente.
Demoram a nascer. Quando finalmente rompem a terra, já não há como impedir que cresçam.
Capítulo 3
O Silêncio da Minha Avó
Naquela semana esperei o sábado.
Minha avó nunca gostou de visitas apressadas.
Dizia que conversa séria precisava de café passado na hora e de tempo suficiente para o silêncio também falar.
Sua casa ficava no alto de uma rua estreita da periferia.
Era pequena.
As paredes carregavam marcas de umidade.
O portão rangia.
No quintal, um pé de goiaba insistia em dar frutos todos os anos, mesmo quando a terra parecia cansada.
Ela abriu a porta antes que eu batesse.
— Eu sabia que você vinha.
Sorriu daquele jeito que só as avós conseguem sorrir, como se enxergassem alguma coisa que ninguém mais vê.
Sentamo-nos na cozinha.
Enquanto a água fervia, ela não perguntou sobre a escola, nem sobre trabalho, nem sobre dinheiro.
Perguntou apenas:
— O que foi que está pesando no seu coração?
Tirei da mochila a folha da escola.
Ela leu cada pergunta devagar.
Quando terminou, dobrou o papel com cuidado e o colocou sobre a mesa.
Ficou olhando para ele por um longo tempo.
Foi a primeira vez que vi minha avó com os olhos marejados.
— Eu sabia que esse dia ia chegar.
Não entendi.
— Que dia?
Ela respirou fundo.
— O dia em que alguém da nossa família deixaria de aceitar o silêncio como resposta.
O café ficou pronto.
Ela serviu duas xícaras.
Nenhum de nós tocou nelas.
— Vó... quem eram os nossos bisavôs?
Ela fechou os olhos.
Parecia procurar as palavras em algum lugar muito distante.
— Eu conheci sua bisavó. Ela dizia que a mãe dela nunca falava do tempo de antes. Quando perguntavam de onde a família tinha vindo, ela respondia apenas: “Viemos de onde nos arrancaram.”
As palavras atravessaram a cozinha como uma corrente de vento.
— E o sobrenome?
Minha avó sorriu com tristeza.
— Você acha mesmo que esse sobrenome sempre foi nosso?
Pela primeira vez, ouvi alguém colocar em voz alta a pergunta que me acompanhava desde criança.
Meu coração acelerou.
— Então... de quem era?
Ela olhou pela janela.
O sol da tarde iluminava o quintal.
— Meu pai dizia que esse sobrenome chegou à nossa família pelas mãos de quem mandava. Naquele tempo, muita gente saía das fazendas com o nome do dono, porque era assim que eram registrados. Alguns nunca souberam que tinham tido outro. Outros sabiam..., mas levaram esse segredo para o túmulo.
Fiquei em silêncio.
Ela continuou:
— Filho, há feridas que atravessam gerações. Nem todas sangram. Algumas apenas calam.
Naquele instante compreendi que minha avó não escondia respostas por vergonha.
Ela carregava um luto que não era só dela.
Era o luto de uma memória interrompida.
Antes de ir embora, ela levantou-se devagar, caminhou até um velho armário de madeira e retirou uma pequena caixa envolvida por um pano branco.
Colocou-a sobre a mesa.
— Isso pertenceu à minha mãe.
Olhei para a caixa.
Ela estava fechada por um barbante já desbotado pelo tempo.
Minha avó passou a mão sobre a tampa, como quem acaricia uma lembrança.
Depois olhou nos meus olhos.
— Talvez aqui dentro não exista a resposta que você procura.
Fez uma pausa.
— Mas foi daqui que eu aprendi que algumas histórias sobrevivem, mesmo quando os nomes desaparecem.
Minhas mãos tremiam enquanto desfazia o nó do barbante.
Eu ainda não sabia.
Mas, naquele pequeno objeto esquecido por décadas, começava a primeira trilha da viagem que mudaria para sempre a maneira como eu entendia quem eu era.
Capítulo 4
Sete Anos Depois
Algumas perguntas não exigem resposta imediata.
Exigem tempo.
Há sementes que germinam na primeira chuva.
Outras permanecem escondidas sob a terra durante anos, esperando o instante certo para romper a superfície.
A pergunta sobre o meu sobrenome foi assim.
Durante sete anos ela caminhou comigo em silêncio.
Concluí os estudos.
Comecei a trabalhar.
Aprendi a pagar contas, enfrentar filas, cumprir horários e descobrir que a vida adulta ocupa tanto espaço que, às vezes, tenta convencer a gente de que não há mais tempo para sonhar.
Mesmo assim, havia algo que nunca me abandonava.
Sempre que assinava um contrato.
Sempre que apresentava um documento.
Sempre que alguém pronunciava meu nome completo.
A velha sensação voltava.
Eu continuava vestindo uma história que não parecia minha.
A caixa de madeira permanecia sobre a estante do meu quarto.
De tempos em tempos eu a abria.
Lia novamente o caderno da minha bisavó.
Passava os dedos sobre as fotografias.
Relia a frase que parecia ter sido escrita para mim:
"Nunca deixem que contém nossa história sem nós."
Com o passar dos anos, aquelas palavras deixaram de ser um conselho.
Transformaram-se em um chamado.
Numa manhã de segunda-feira, ao renovar alguns documentos, segurei minha certidão de nascimento por alguns instantes.
Pela primeira vez, não olhei apenas para meu nome.
Olhei para o sobrenome.
Pensei em quantas vezes ele havia sido escrito antes de chegar até mim.
Pensei em quantas pessoas talvez o tivessem carregado sem jamais poder escolhê-lo.
Dobrei o papel cuidadosamente.
Naquele momento compreendi que eu já não podia continuar adiando aquela viagem.
Não era uma viagem para outro lugar.
Era uma viagem para dentro da história da minha própria família.
Na mesma manhã, entrei no cartório onde minha certidão havia sido registrada.
Sem saber, eu acabava de dar o primeiro passo de uma caminhada que mudaria para sempre a maneira como eu compreendia a palavra herança.
Capítulo 5
O Cartório
Na segunda-feira, antes mesmo de ir ao trabalho, entrei no cartório onde minha certidão de nascimento havia sido registrada.
Era um prédio antigo.
Paredes claras.
Ventiladores girando lentamente.
Pessoas aguardavam em silêncio, cada uma segurando uma pasta com documentos que pareciam conter a própria vida.
Naquele lugar, a existência cabia em folhas timbradas, carimbos e assinaturas.
Esperei minha senha.
Quando fui chamado, aproximei-me do balcão.
— Bom dia. Em que posso ajudá-lo? — perguntou a atendente.
Respirei fundo.
— Gostaria de pesquisar a origem da minha família.
Ela sorriu com gentileza, mas seus olhos revelavam que aquela não era uma solicitação comum.
— O senhor tem os nomes dos bisavôs?
Balancei a cabeça.
— Não.
— Alguma certidão antiga?
— Também não.
Ela fez algumas consultas no computador.
O som do teclado parecia marcar o tempo.
Depois de alguns minutos, levantou os olhos.
— O registro mais antigo que conseguimos localizar é o do seu bisavô. Antes disso, não há informação suficiente para continuar a pesquisa.
— E por quê?
Ela hesitou.
— Porque, durante muito tempo, os registros eram incompletos. Muitas pessoas simplesmente apareciam nos livros com poucas informações. Em alguns casos, apenas o primeiro nome. Em outros, nem isso.
Agradeci.
Não havia culpa naquela resposta.
A mulher apenas me mostrava o limite do papel.
Saí do cartório segurando uma cópia da certidão do meu bisavô.
Sentei-me em um banco da praça em frente ao prédio.
Li o documento com atenção.
Ali estava seu nome.
Sua data de nascimento.
O nome dos pais.
E o sobrenome que atravessara gerações até chegar a mim.
Tudo parecia perfeitamente organizado.
Mas havia algo que aquele papel não dizia.
Quem havia escolhido aquele sobrenome?
Meu bisavô?
Seu pai?
Ou alguém que jamais imaginou que, um século depois, um rapaz sentado em uma praça faria essa pergunta?
Guardei a certidão dentro da pasta.
Naquele instante compreendi que os documentos eram importantes. Mas também eram incompletos.
Eles registravam fatos. Não registravam perdas.
Não anotavam o medo de uma mãe ao ver o filho receber um nome que não era o seu.
Não contavam o silêncio de um homem que preferiu nunca falar sobre o passado porque a dor era maior do que as palavras.
O cartório guardava registros.
Minha avó guardava memórias.
E, pela primeira vez, percebi que a verdade talvez estivesse espalhada entre os dois.
Nem toda história mora no papel.
Nem toda memória resiste ao tempo.
Mas, quando uma encontra a outra, nasce algo que nenhum carimbo é capaz de autenticar.
Enquanto caminhava de volta para casa, o telefone tocou.
Era minha avó.
Sua voz estava diferente.
Baixa. Quase um sussurro.
— Lucas... acho que encontrei uma pessoa que você precisa conhecer.
— Quem?
Houve um breve silêncio.
— Um homem que conheceu seu bisavô.
Meu coração acelerou.
— Ele ainda está vivo?
— Está.
— E onde mora?
Minha avó respirou profundamente antes de responder.
— No mesmo lugar de sempre.
Esperamos que alguém, um dia, fosse lhe fazer a pergunta certa
Capítulo 6
O Guardião das Lembranças
No domingo seguinte, saí cedo de casa.
Minha avó insistiu em ir comigo.
Não explicou quem era o homem.
Disse apenas:
— Existem pessoas que envelhecem. Outras se tornam bibliotecas.
Seguimos de ônibus até um bairro antigo, onde as ruas estreitas pareciam guardar o tempo em vez de deixá-lo passar.
As casas tinham muros baixos.
As árvores projetavam sombras sobre as calçadas.
Ali, a cidade parecia respirar mais devagar.
Paramos diante de uma casa simples, de paredes azul- desbotadas.
O portão estava entreaberto.
Minha avó chamou com voz firme:
— Seu Joaquim!
Alguns segundos depois, um senhor muito magro apareceu à porta.
Os cabelos completamente brancos contrastavam com os olhos vivos, atentos, como quem aprendera a observar mais do que falar.
Quando viu minha avó, abriu um sorriso.
— Pensei que você tivesse esquecido este velho.
Ela respondeu abraçando-o.
— Quem esquece as próprias raízes acaba se perdendo de si mesmo.
Seu Joaquim voltou os olhos para mim.
— Então este é o neto...
Assenti.
Ele me cumprimentou com um aperto de mão firme.
Não havia pressa em seus gestos.
Entramos.
A sala era pequena, mas cada parede contava uma história.
Fotografias antigas.
Um rádio de válvulas.
Livros gastos.
Uma máquina de escrever coberta por um pano branco.
Depois do café servido, o silêncio tomou conta da mesa.
Foi ele quem o rompeu.
— Você veio por causa do sobrenome, não foi?
Olhei para minha avó.
Ela não havia contado nada.
— Como o senhor sabe?
Seu Joaquim sorriu.
— Porque essa pergunta sempre volta. Demora uma geração, duas..., mas um dia alguém aparece querendo saber de onde veio.
Ele levantou-se devagar e caminhou até uma estante.
Retirou uma caixa de papelão cheia de cadernos.
Colocou-a sobre a mesa.
— Passei cinquenta anos escrevendo histórias da nossa gente.
Não porque eu fosse historiador. Escrevi porque percebi que, se nós não registrássemos nossas memórias, alguém acabaria dizendo que nunca existimos.
Abriu um dos cadernos.
As páginas estavam repletas de nomes, datas, desenhos de árvores genealógicas incompletas e pequenos relatos escritos à mão.
— Aqui não há certezas — disse ele. — Há lembranças. E, às vezes, uma lembrança vale mais do que um documento.
Folheou algumas páginas até parar diante de um nome.
Meu bisavô.
Pela primeira vez, vi aquele nome acompanhado de algo além de uma certidão.
Havia uma frase.
“Homem de poucas palavras. Gostava de sentar-se debaixo da mangueira ao entardecer. Dizia que toda família precisava saber de onde vinha, mas nunca conseguia contar de onde a dele tinha vindo.”
Senti um nó na garganta.
Era a primeira vez que meu bisavô deixava de ser um registro e se tornava uma pessoa.
Seu Joaquim fechou o caderno.
— Seu bisavô carregava uma tristeza silenciosa. Eu era menino, mas me lembro de uma coisa que ele repetia.
Inclinei-me para a frente.
— O quê?
O velho respirou fundo antes de responder.
— Ele dizia: “Um povo que perde o nome passa a viver procurando o espelho.”
A frase permaneceu suspensa entre nós.
Naquele momento compreendi que eu não estava procurando apenas um sobrenome.
Eu procurava um reflexo.
Algo que me permitisse olhar para trás sem sentir que a história começava apenas onde os documentos permitiam.
Antes de irmos embora, Seu Joaquim segurou meu braço.
— Lucas, não transforme sua busca numa caça ao passado.
Olhei para ele sem entender.
— Transforme-a numa ponte.
Porque ninguém atravessa uma ponte para morar no passado.
Atravessa para trazer alguma coisa de volta.
Saí dali levando comigo uma cópia das anotações sobre meu bisavô.
Mas a maior herança daquele dia não estava no papel.
Estava na compreensão de que a memória não vive apenas naquilo que foi escrito.
Ela também habita aqueles que se recusam a deixar o esquecimento vencer.

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