Duas Mil Léguas — Parte III: Os Pergaminhos da Alma
- Abioye Ras Barros
- há 3 dias
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Atualizado: há 2 dias
CAPÍTULO 7
OS QUE ESCREVERAM ANTES DE NÓS
Muito antes de existirem livros. Muito antes das bibliotecas. Muito antes das telas
iluminadas que hoje carregamos nas mãos. Já existia uma necessidade profundamente
humana. A necessidade de registrar. Deixar um sinal. Marcar uma passagem. Dizer ao
futuro: "Eu estive aqui."
Os primeiros escritores não se chamavam escritores. Talvez nem soubessem que estavam
construindo pontes para séculos que ainda não haviam chegado. Apenas sentiram a
urgência de preservar algo.Uma história, uma descoberta, uma oração, um sonho, uma
lembrança. Alguns escreveram em paredes de rochas.
Outros moldaram a argila e nela imprimiram seus registros.
Houve os que talhavam pedras.
E madeiras, com estiletes.
Alguns sabiamente registraram em papiros.
E pergaminhos de papel.
Cada geração encontrou sua própria maneira de lutar contra o esquecimento.
Porque o tempo sempre caminhou mais rápido do que a memória.
E o ser humano sempre procurou uma forma de acompanhar seus passos.
Enquanto observava essa longa trajetória, compreendi que a escrita nunca foi apenas uma
ferramenta.
Ela é uma necessidade da alma.
Escrevemos porque desejamos lembrar.
Escrevemos porque desejamos compreender.
Escrevemos porque desejamos compartilhar aquilo que aprendemos ao longo da jornada.
Quantas histórias teriam desaparecido se ninguém as tivesse registrado?
Quantas vozes teriam sido silenciadas pelo tempo?
Quantos sentimentos jamais encontrariam abrigo se alguém não tivesse decidido
transformá-los em palavras?
A escrita é um ato de resistência.
Resistência contra o esquecimento.
Contra a distância.
Contra a passagem inevitável dos anos.
Quando alguém escreve, não está apenas organizando frases.
Está oferecendo uma parte de si ao mundo.
Está transformando experiências em herança.
Está entregando ao futuro aquilo que o presente lhe ensinou.
Talvez por isso eu admire tanto os antigos escribas.
Os poetas.
Os cronistas.
Os filósofos.
Os anônimos registraram suas vidas em pedaços de papel amarelado.
Eles jamais imaginaram quem leria suas palavras.
Mesmo assim, escreveram.
Confiaram que algum dia, em algum lugar, alguém encontraria significado naquilo que
deixaram.
E estavam certos.
Porque eu os encontrei.
Você os encontrou.
Nós continuamos ouvindo suas vozes através dos séculos.
Percebi então que existe uma corrente invisível ligando todos aqueles que escrevem.
Uma corrente feita de pensamentos, emoções e experiências compartilhadas.
Quando lemos algo escrito há centenas de anos, acontece um pequeno milagre.
O tempo deixa de ser barreira.
Duas almas se encontram.
Uma escreveu.
Outra leu.
E, por um instante, caminham juntas.
É por isso que os pergaminhos possuem tanto valor.
Não pelo papel.
Não pela tinta.
Não pela aparência.
Mas pela intenção que carregam.
Cada pergaminho é um recipiente de humanidade.
Um fragmento da experiência de alguém.
Uma tentativa sincera de preservar aquilo que julga importante.
Talvez este livro seja apenas mais um desses recipientes.
Mais um pergaminho lançado ao rio do tempo.
Mais uma mensagem colocada em uma garrafa, confiando que as correntes da vida a
levarão até alguém que precise encontrá-la.
Se isso acontecer, então a escrita terá cumprido sua missão.
Porque as palavras não foram feitas para permanecer presas ao autor.
Foram feitas para viajar.
E toda viagem começa quando alguém decide escrever.
A jornada continua.
CAPÍTULO 8
A PALAVRA COMO REFÚGIO
Existem lugares para onde corremos quando a tempestade chega. Alguns procuram o
silêncio. Outros procuram companhia. Há quem busque uma estrada, uma praia, uma
montanha ou uma janela de onde possa observar o mundo. Eu encontrei abrigo nas
palavras. Nem sempre foi assim. Durante muito tempo enxerguei a escrita apenas como
uma forma de registrar pensamentos. Uma maneira de organizar ideias. Um exercício de
memória. Mas a vida tem o hábito de revelar significados escondidos nas coisas mais
simples. Com o passar dos anos, descobri que as palavras também podem acolher.
Podem proteger, podem curar. Há dores que não desaparecem quando permanecem
presas dentro de nós. Elas crescem no silêncio. Alimentam-se do medo. Fortalecem-se na
solidão. Mas algo acontece quando encontram uma forma de ser expressas. Quando uma
emoção recebe um nome. Quando um sentimento encontra uma frase. Quando uma
lágrima se transforma em texto. A dor deixa de ser um peso invisível. Passa a ser
compreendida.E aquilo que compreendemos já não possui o mesmo poder sobre nós.
Foi escrevendo que aprendi a conversar comigo mesmo. Foi escrevendo que encontrei
perguntas que nem sabia que carregava. E, algumas vezes, encontrei respostas onde
menos esperava. Nem todas vieram imediatamente. Algumas levaram anos. Mas a escrita
ensinou-me a esperar. Ensinou-me que certas verdades amadurecem como frutos.
Precisam do tempo certo para serem colhidas. Muitas pessoas acreditam que escrever é
falar. Para mim, escrever sempre foi ouvir. Ouvir a voz que existe por trás do ruído.
Ouvir aquilo que o coração tenta dizer quando as palavras ainda não existem. Ouvir a vida.
Ao longo da jornada encontrei inúmeros livros. Poemas, cartas, diários. Reflexões deixadas
por pessoas que jamais conheci. E, ainda assim, elas me fizeram companhia. Algumas
chegaram em momentos de alegria. Outras apareceram exatamente quando eu precisava
delas. Como se tivessem atravessado décadas ou séculos para encontrar aquele instante
específico. Talvez seja esse um dos maiores milagres da escrita. Ela permite que alguém
nos compreenda sem estar presente. Permite que uma pessoa encontre acolhimento nas
palavras da outra. Permite que a solidão descubra que não está sozinha. Quantas vezes um
simples parágrafo mudou o rumo de um pensamento? Quantas vezes uma frase trouxe
esperança quando tudo parecia perdido? Quantas vezes uma reflexão abriu uma janela
onde antes existia apenas um muro? As palavras possuem esse poder. Não porque sejam
mágicas. Mas porque carregam humanidade. E a humanidade reconhece a si mesma
quando se encontra. Foi por isso que os pergaminhos nasceram. Não para ensinar,
não para convencer. Não para impor verdades. Mas para oferecer companhia.
Cada pergaminho é uma pequena fogueira acesa na escuridão. Uma luz discreta. Um lugar
onde alguém pode parar por alguns instantes antes de continuar a caminhada. Talvez o
leitor encontre nestas páginas algo que eu nunca imaginei deixar, talvez encontre uma
resposta, talvez encontre uma pergunta, talvez encontre apenas um momento de silêncio.
E tudo bem. Nem sempre as palavras precisam explicar. Às vezes basta que acompanhem.
Ao olhar para trás, percebo que muitas das batalhas que enfrentei foram atravessadas com
a ajuda de palavras. Algumas eram minhas. Outras pertenciam a pessoas que nunca
conheci.
Mas todas serviram de abrigo. Todas serviram de ponte, todas serviram de refúgio. Por isso
continuo escrevendo. Não porque possuo todas as respostas.Mas porque acredito no
encontro. Acredito que uma palavra sincera pode alcançar lugares onde a força não chega.
Acredito que uma reflexão pode permanecer viva muito depois de quem a escreveu partir.
Acredito que os pergaminhos continuam sua viagem através do tempo. E que, enquanto
houver alguém disposto a escrever e alguém disposto a ler, a chama permanecerá acesa.
A jornada continua…
CAPÍTULO 9
CARTAS PARA O FUTURO
Existe algo fascinante em escrever para alguém que talvez nunca conheçamos. Uma carta
sempre foi mais do que papel e tinta. Ela é uma ponte lançada sobre o desconhecido.
Uma tentativa de fazer o presente conversar com o amanhã. Ao longo da história, homens e
mulheres escreveram cartas para filhos que ainda nasceriam, para amigos distantes, para
amores impossíveis, para gerações que jamais veriam com os próprios olhos. Escreveram
porque acreditavam que algumas mensagens mereciam sobreviver ao tempo. Hoje,
enquanto escrevo estas palavras, também participo desse antigo gesto humano.
Não sei onde você está. Não sei em qual momento da vida estas páginas chegaram às
suas mãos. Talvez você esteja vivendo um período de paz. Talvez esteja atravessando uma
tempestade. Talvez tenha aberto este livro por curiosidade. Ou talvez tenha sido conduzido
até ele por uma necessidade que ainda não consegue explicar. Seja qual for o motivo,
existe algo que desejo lhe dizer. A vida raramente acontece da forma como imaginamos.
Os planos mudam. Os caminhos se alteram. As certezas se desfazem. E, muitas vezes,
somos obrigados a caminhar por estradas que jamais escolheríamos. Quando isso
acontecer, não conclua imediatamente que está perdido. Algumas das paisagens mais
bonitas da existência encontram-se justamente nos desvios inesperados. Muitas das
pessoas que transformaram minha caminhada chegaram sem aviso. Muitos dos
aprendizados mais importantes nasceram de situações que eu teria evitado se pudesse
prever o futuro. Foi assim que compreendi que nem todo atraso é perda. Nem toda
despedida é um fracasso. Nem toda mudança é ameaça. Às vezes, a vida apenas está nos
conduzindo para um capítulo que ainda não conseguimos enxergar. Se esta carta encontrar
você em um momento difícil, permita-me compartilhar uma esperança.
As tempestades parecem eternas enquanto acontecem. Mas não são. Nenhuma noite
possui autoridade para impedir o amanhecer. Nenhum inverno possui poder para cancelar a
primavera. Nenhuma dor possui exclusividade sobre a sua história. Continue caminhando.
Mesmo devagar. Mesmo cansado. Mesmo sem compreender tudo. A estrada costuma
revelar seus sentidos apenas para aqueles que continuam avançando. Se esta carta
encontrar você em um momento feliz, também gostaria de lhe lembrar algo. Valorize o
agora. A alegria possui uma beleza que muitas vezes só reconhecemos quando se
transforma em lembrança. Observe os detalhes, escute com atenção. Agradeça com
frequência. A vida é feita de instantes que parecem comuns até se tornarem saudade.
Talvez o futuro não precise de grandes discursos. Talvez precise apenas que deixemos
alguns registros sinceros. Pequenas verdades descobertas durante a caminhada. Pequenos
faróis acesos ao longo da estrada. É isso que uma carta faz. Ela não muda o mundo inteiro.
Mas pode iluminar um trecho do caminho de alguém. Ao terminar estas linhas, percebo que
toda escrita é uma espécie de semente. Não sabemos onde cairá. Não sabemos quando
germina. Não sabemos quem encontrará sua sombra. Ainda assim, continuamos plantando.
Porque acreditamos que a esperança merece ser compartilhada. E porque existe algo
profundamente humano em deixar sinais para aqueles que virão depois de nós. Se você
está lendo estas palavras, então a carta chegou ao seu destino. E isso significa que a
viagem valeu a pena.
A jornada continua…

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