top of page

Duas Mil Léguas — Parte II: O Tempo e Suas Marcas

  • Foto do escritor: Abioye Ras Barros
    Abioye Ras Barros
  • há 3 dias
  • 6 min de leitura

Atualizado: há 2 dias

CAPÍTULO 4



O RELÓGIO NA PAREDE



O relógio de parede na cozinha emitia um clique seco.

Um som simples

pequeno, quase imperceptível.

Ainda assim, havia algo nele que parecia atravessar o silêncio da casa.

Tic,tac.Tic,tac.

O tempo seguia

trabalhando.

Sem pressa,sem pausa,

sem pedir permissão.

Olhei ao redor e percebi que algumas coisas haviam mudado.

Outras haviam desaparecido.

As cadeiras continuavam no mesmo lugar, à janela

permanecia voltada para a mesma paisagem.

Mas a casa já não era a mesma.

Talvez porque as casas sejam feitas de muito mais do que tijolos e telhados.

Elas são construídas pelas presenças que abrigam, pelas vozes que ecoam em seus

corredores, pelos risos que preenchem seus cômodos.

E pelas lembranças que insistem em permanecer quando as pessoas partem.

Foi então que meus olhos encontraram uma moldura vazia.

Ela permanecia pendurada na parede.

Imóvel,silenciosa.

Como se guardasse um segredo.

Por um instante imaginei todas as fotografias que poderiam ter ocupado aquele espaço.

Momentos de felicidade.

Celebrações, encontros.

Pessoas que um dia estiveram ali.

Pessoas que hoje existem apenas na memória.

Percebi então que o tempo possui uma estranha habilidade.

Ele leva muitas coisas.

Mas raramente leva tudo, sempre deixa algo para trás.

Uma fotografia, uma canção, um perfume,

uma palavra, uma sensação.

Pequenos fragmentos que se recusam a desaparecer.

Talvez seja essa a forma que a eternidade encontrou para habitar a vida, tempo nunca para.

Ainda assim, algumas lembranças continuam caminhando ao nosso lado. Durante anos lutei

contra a passagem dos dias, quis que certos momentos durassem mais.

Quis impedir algumas despedidas, quis voltar a épocas que julgava mais simples.

Mas o tempo não negocia, não aceita subornos, não volta atrás. Ele apenas segue.

E talvez seja justamente por isso que possua tanto valor.

Se os dias fossem infinitos, não aprenderíamos a apreciá-los.

Se os encontros fossem eternos, talvez não conhecêssemos sua importância.

Se as despedidas não existissem, não compreenderíamos o significado da presença.

O tempo nos ensina através da ausência.

Nos educa através da mudança.


Nos transforma através da continuidade. Ele fecha portas.

Mas também abre caminhos, apaga pegadas.

Mas revela horizontes.

Leva pessoas, mas deixa ensinamentos.

Foi observando aquele relógio que compreendi algo que jamais havia percebido. O tempo

não é nosso inimigo.

Ele é o mestre da viagem.

É ele quem nos mostra que tudo passa.

As dores passam, os medos passam, as tempestades passam.

Mas também passam os abraços, as

oportunidades.

Os momentos simples que acreditamos ter para sempre.

Por isso, viver talvez seja aprender a honrar cada instante enquanto ele existe, segurar com

gratidão aquilo que o presente oferece.

Sem tentar aprisioná-lo,

sem exigir que permaneça.

Afinal, a beleza de uma flor não está em durar para sempre, está em florescer.

A beleza da vida talvez siga a mesma lógica.

Não está em

permanecer.

Está acontecendo.

O relógio continuava marcando os segundos.

A moldura permanecia vazia, a casa seguia silenciosa.

Mas algo havia mudado dentro de mim.

Pela primeira vez, não ouvi apenas o som do relógio, ouvi o convite.

O convite para viver o agora.

Porque cada segundo que passa também é uma página que se escreve.

E a jornada continua…


CAPÍTULO 5



SAUDADE



Existem palavras que nenhuma tradução consegue explicar completamente.

Podem ser descritas.

Podem ser aproximadas.

Mas jamais reproduzidas em sua essência.

Saudade é uma delas.

Não é apenas sentir falta.

Não é apenas recordar.

Não é apenas desejar o retorno de algo que se foi.

A saudade é um lugar onde o amor permanece depois da partida.

Ela nasce quando a presença se transforma em lembrança.

Quando o abraço se torna memória.

Quando a voz deixa de ser ouvida, continua ecoando dentro de nós.

Durante muito tempo enxerguei a saudade como uma inimiga.

Algo que precisava ser vencido.

Algo que eu deveria esquecer para seguir em frente.

Mas a vida, mais uma vez, mostrou-me outro caminho.

Compreendi que a saudade não existe para nos prender ao passado.

Ela existe para nos lembrar do que foi importante.

Ninguém sente saudade daquilo que não teve significado.

Sentimos saudade dos momentos que nos transformaram.

Das pessoas que deixaram marcas.

Dos lugares onde uma parte de nós permaneceu.

Há saudades que chegam de mansinho.

Trazidas por uma canção antiga.

Por uma fotografia esquecida.

Por um perfume que atravessa os anos.

E há saudades que surgem de repente.

Como ondas fortes quebrando contra as pedras da memória.

Nesses momentos, o coração viaja sem pedir licença.

Retorna a conversas interrompidas

A sorrisos que ficaram para trás.

A encontros que jamais se repetirão da mesma forma.

Mas existe algo belo na saudade.

Ela nos mostra que o tempo não consegue apagar tudo.

As pessoas podem partir.

As circunstâncias podem mudar.

Os caminhos podem se separar.

Ainda assim, aquilo que foi vivido com verdade continua existindo dentro de nós.

A saudade é a prova de que o amor encontrou um lugar para morar.

Muitos confundem saudade com sofrimento.

Embora caminhem próximas, não são a mesma coisa.

O sofrimento deseja possuir novamente aquilo que perdeu.

A saudade aprende a agradecer pelo que viveu.

O sofrimento pergunta:


"Por que acabou?"

A saudade responde:

"Foi bom enquanto durou."

Talvez a maturidade consista justamente nisso.

Aprender a conviver com as ausências sem permitir que elas roubem a beleza das

lembranças.

Aceitar que algumas pessoas fazem parte de capítulos específicos da nossa história.

Nem todas caminharam conosco até a última página.

Mas isso não diminui sua importância.

Pelo contrário.

Algumas permanecem eternamente presentes justamente porque um dia estiveram ali.

A saudade também possui o poder de unir tempos diferentes.

Ela faz a criança conversar com o adulto.

Faz o ontem tocar o presente.

Faz com que aquilo que parecia perdido revele sua permanência invisível.

Há pessoas que já não podemos abraçar.

Mas ainda podemos honrar.

Há momentos que não podem ser repetidos.

Mas ainda podem ser celebrados.

Há histórias encerradas.

Mas seus ensinamentos continuam vivos.

Foi então que compreendi algo que jamais havia percebido.

A saudade não é o oposto da presença.

Ela é uma nova forma de presença.

Uma presença feita de memória, de afeto, de gratidão, de amor.

Por isso, quando a saudade bater à sua porta, não a trate como inimiga.

Convide-a para sentar,

ouça o que ela tem a dizer.

Talvez ela não tenha vindo para trazer tristeza. Talvez tenha vindo apenas para lembrar que

você viveu algo que valeu a pena.

E isso, por si só, já é um presente.

A jornada continua.


CAPÍTULO 6



OS CICLOS DA VIDA



Durante muitos anos acreditei que a vida seguia em linha reta.

Nascer.

Crescer.

Aprender.

Trabalhar.

Envelhecer.

Partir.

Parecia simples, organizado, previsível.

Mas bastou caminhar um pouco mais para perceber que a vida não avança em linha reta.

Ela se move em círculos.

Em ciclos, em estações.

Assim como a natureza.

Assim como os rios.

Assim como o nascer e o pôr do sol.

Tudo chega.

Tudo permanece por um tempo, tudo se transforma, tudo segue adiante.

Quando somos jovens, imaginamos que algumas coisas durarão para sempre.

A amizade.

O amor.

A força.

Os sonhos.

A própria vida.

Mas os anos nos ensinam uma verdade inevitável:

Nada permanece exatamente como era.

As folhas caem para que novas folhas possam nascer.

A noite chega para que o amanhã tenha sentido.

O inverno prepara a primavera.

E a vida segue repetindo essa sabedoria diante dos nossos olhos.

Ainda assim, resistimos.

Tememos as mudanças.

Lutamos contra os encerramentos.

Tentamos manter abertas portas que já cumpriram sua missão.

Seguramos situações, pessoas e lembranças quando a própria vida nos convida a seguir.

Talvez porque despedidas doam,

talvez porque recomeços assustem.

Talvez porque o desconhecido sempre tenha provocado inquietação no coração humano.

Mas nenhum ciclo termina por crueldade.

Os ciclos terminam porque precisam terminar.

O rio não lamenta a curva que deixou para trás.

Ele continua fluindo em direção ao mar.

A árvore não se desespera quando perde suas folhas.

Ela sabe que novas virão.

A natureza inteira compreende algo que nós frequentemente esquecemos:

O fim não é o contrário do começo.


O fim é parte dele.

Quantas vezes algo precisou acabar para que algo melhor pudesse surgir?

Quantas oportunidades nasceram de uma perda?

Quantos aprendizados vieram de uma decepção?

Quantos encontros aconteceram depois de longos períodos de afastamento?

Olhando para trás, percebo que muitos dos momentos que considerei fracassos eram

apenas transições.

Eu não estava sendo destruído, estava sendo transformado.

A vida retirava algumas peças para construir uma nova versão de mim mesmo.

Mas isso só ficou claro depois.

Durante a travessia, tudo parecia confuso.

Talvez seja assim para todos nós.

Enquanto atravessamos a tempestade, vemos apenas a chuva.

Somente depois percebemos o horizonte.

Existe uma sabedoria silenciosa nos ciclos.

Ela nos ensina a humildade de aceitar aquilo que não controlamos.

Ensina a paciência de esperar o momento certo.

Ensina a confiança de acreditar que a vida continua trabalhando mesmo quando não

conseguimos enxergar seus movimentos.

Nenhuma dor é permanente.

Nenhuma alegria é eterna.

Nenhuma situação permanece imóvel.

Tudo se move.

Tudo muda.

Tudo evolui.

Essa realidade pode assustar.

Mas também pode nos libertar.

Porque se as noites difíceis passam, as manhãs difíceis também passarão.

Se os momentos felizes terminam, novos momentos felizes podem nascer.

A vida nunca deixa de recomeçar.

Foi então que compreendi que maturidade não é impedir os ciclos.

É aprender a caminhar com eles.

É agradecer pelo que chegou.

Honrar o que permaneceu.

E aceitar com serenidade aquilo que precisou partir.

Afinal, cada fim carrega uma semente.

E cada semente carrega um novo começo.

O viajante que entende isso deixa de temer as mudanças.

Passa a enxergá-las como parte da estrada.

E segue adiante.

Porque a jornada continua…

 
 
 

Posts recentes

Ver tudo

Comentários


bottom of page