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Duas Mil Léguas — Parte I: As Primeiras Pegadas

  • Foto do escritor: Abioye Ras Barros
    Abioye Ras Barros
  • há 3 dias
  • 6 min de leitura

Atualizado: há 2 dias

CAPÍTULO 1



A HERANÇA INVISÍVEL



Existem heranças que cabem em cofres.

Outras ocupam gavetas, terrenos, casas e contas bancárias.

São aquelas que o mundo consegue medir, catalogar e dividir.

Mas há um outro tipo de herança.

Uma herança silenciosa.

Invisível aos olhos e impossível de ser avaliada por qualquer moeda.

Foi somente com o passar dos anos que compreendi isso.

Quando somos jovens, acreditamos que a riqueza está naquilo que acumulamos. Corremos

atrás de conquistas, construímos planos e sonhamos com aquilo que desejamos possuir.

No entanto, a vida possui uma maneira curiosa de nos ensinar. Ela nos mostra que algumas

das coisas mais valiosas que carregamos jamais estiveram em nossas mãos.

Recebemos heranças muito antes de recebermos bens.

Recebemos os olhares.

Recebemos exemplos.

Recebemos palavras de incentivo e também palavras que nos feriram.

Recebemos abraços.

Recebemos silêncios.

Recebemos histórias.

Tudo isso passa a habitar em nós como sementes lançadas sobre a terra.

Algumas florescem em coragem.

Outras crescem em forma de medo.

Algumas transformam-se em esperança.

Outras permanecem como perguntas que atravessam os anos.


A infância é o primeiro cofre onde essas heranças são guardadas.

Mesmo quando não nos lembramos dos detalhes, elas continuam lá.

Vivem em nossos gestos.

Em nossas escolhas.

Na maneira como amamos.

Na forma como enfrentamos as dificuldades.

Somos feitos de muitas vozes.

Algumas pertencem aos nossos pais.

Outras aos nossos avós.

Outras ainda vieram de pessoas que passaram brevemente por nossa estrada, mas

deixaram marcas profundas em nossa caminhada.

Com o tempo, percebi que ninguém atravessa a vida sozinho.

Cada pessoa carrega consigo uma multidão invisível.

São aqueles que ensinaram, inspiraram, corrigiram, acolheram ou simplesmente estiveram

presentes quando mais precisávamos.

Essa é a herança que realmente permanece.

O dinheiro pode mudar de mãos.

As propriedades podem desaparecer.

Os objetos podem ser esquecidos.

Mas aquilo que uma alma deposita em outra alma continua viajando através das gerações.

Talvez seja por isso que algumas palavras atravessam décadas.

Talvez seja por isso que certas lembranças ainda nos emocionam.

Talvez seja por isso que um simples gesto de bondade consiga sobreviver ao tempo.


Enquanto caminhava pelas minhas próprias léguas, comecei a compreender que a

verdadeira riqueza de um ser humano não está naquilo que ele deixa para os outros.

Está naquilo que deixa dentro dos outros.

E foi nesse momento que entendi que a maior herança não é material.


Ela é espiritual.

Ela é emocional.

Ela é humana.

Ela vive nas marcas invisíveis que deixamos pelo caminho.

E talvez, ao final desta jornada, você descubra que também carrega tesouros que nunca

percebeu possuir.

A jornada continua.


Já pensou em uma herança?

E se ela não for material?

E se o maior legado que alguém pode deixar não estiver guardado em cofres, mas dentro

do coração daqueles que encontrou pelo caminho?

Talvez a verdadeira riqueza seja aquilo que permanece quando todo o resto desaparece.

Abioye Ras Barros.


CAPÍTULO 2



A INFÂNCIA QUE NUNCA PARTE



Existe uma criança dentro de cada adulto.

Ela não desaparece com o tempo.

Não se perde nos aniversários.

Não fica para trás quando os cabelos embranquecem ou quando os anos se acumulam

sobre os ombros.

Ela permanece silenciosa, observando,

lembrando.

Esperando ser ouvida.


Durante muito tempo acreditei que a infância era apenas uma fase da vida. Um trecho curto

da estrada que ficava para trás à medida que avançávamos em direção ao futuro.


Mas a vida me ensinou algo diferente.

A infância não passa,

ela nos acompanha.

Continua viva em cada escolha, em cada medo, em cada sonho e em cada forma de amar.


Quando uma pessoa sorri com facilidade, muitas vezes existe uma lembrança feliz

sustentando aquele sorriso.

Quando alguém teme o abandono, talvez exista uma antiga ausência ecoando dentro do

coração.


Quando uma palavra simples provoca lágrimas inesperadas, talvez esteja tocando uma

memória que nunca deixou de existir.


Somos adultos por fora.

Mas por dentro carregamos fragmentos de todas as idades que já tivemos.

Carregamos o menino que sonhava, a menina que acreditava, o jovem que caiu.

O ser humano que aprendeu a continuar.


A infância é a oficina onde grande parte da nossa alma foi moldada.


Ali aprendemos sobre confiança, sobre medo,

sobre afeto, sobre rejeição, sobre acolhimento.

Aprendemos observando muito antes de compreender.

Absorvemos comportamentos muito antes de entendermos suas consequências.

Guardamos sentimentos muito antes de saber dar nome a eles.

E essas experiências seguem viajando conosco pelas léguas da vida. Algumas pessoas

recebem como herança emocional a coragem.

Outras recebem a insegurança.

Alguns aprendem a acreditar em si mesmos.

Outras passam anos tentando reconstruir uma confiança que nunca lhes foi ensinada.

Mas existe uma boa notícia.

Nenhuma herança emocional é uma sentença definitiva.


A vida continua escrevendo capítulos.

Aquilo que recebemos pode influenciar nossa caminhada, mas não precisa determinar

nosso destino.

Podemos aprender,

podemos curar,

podemos compreender,

podemos transformar.

Talvez essa seja uma das maiores dádivas da existência.

A possibilidade de olhar para trás sem permanecer preso ao passado.

A capacidade de honrar nossa história sem nos tornar prisioneiros dela.

A maturidade não acontece quando esquecemos a criança que fomos.

Ela acontece quando finalmente a compreendemos.

Quando deixamos de julgá-la.

Quando acolhemos suas dores.

Quando reconhecemos suas vitórias.

Quando percebemos que ela fez o melhor que podia com aquilo que sabia.

Ao longo da jornada, descobri que muitas das respostas que procuramos no futuro estão

escondidas em perguntas que nasceram na infância.

Por isso, vez ou outra, é necessário voltar.

Não para permanecer.

Mas para compreender.

Não para reviver a dor.

Mas para encontrar o aprendizado.

Não para reconstruir o passado.

Mas para reconciliar-se com ele.

A criança que fomos continua caminhando ao nosso lado.

E talvez a verdadeira sabedoria esteja em segurar sua mão com carinho, enquanto

seguimos adiante.

A jornada continua.


CAPÍTULO 3



AS PRIMEIRAS FERIDAS



Ninguém atravessa a vida sem feridas.

Algumas são visíveis.

Outras permanecem escondidas sob o silêncio de quem aprendeu a suportar a dor sem

reclamar.

A primeira costuma chamar atenção.

A segunda, muitas vezes, passam despercebidas até mesmo por quem as carrega.

Lembro-me de quando era criança e um simples arranhão parecia o fim do mundo. Bastava

um joelho machucado para que lágrimas escorressem pelo rosto e o coração acreditasse

que jamais voltaria a ficar inteiro.

Mas o tempo fazia seu trabalho.

A pele se fechava,

a dor diminuía.

E restava apenas uma pequena marca para contar a história.

Com as feridas da alma, porém, o processo é diferente.

Elas não aparecem em fotografias.

Não podem ser cobertas por curativos.

Não recebem pontos.

E, muitas vezes, passam anos esperando que alguém as perceba.

Algumas nasceram de palavras.

Outras, de ausências.

Algumas surgiram quando esperávamos acolhimento e encontramos indiferença.

Outras quando acreditávamos que seríamos compreendidos e fomos julgados.

As feridas emocionais raramente se anunciam.

Elas se escondem atrás de comportamentos.

Atrás de medos.

Atrás de reações que nem sempre entendemos.

Por muito tempo pensei que amadurecer significava esquecer.

Seguir em frente.

Não olhar para trás.

Mas descobri que esquecer nem sempre é curar.

Às vezes, aquilo que evitamos continua vivendo dentro de nós, ocupando espaços

silenciosos da alma.

A memória possui um papel curioso nessa jornada.

Ela pode ser prisão.

Mas também pode ser libertação.

Tudo depende da forma como escolhemos visitá-la.

Quando olhamos para nossas feridas apenas para reviver a dor, permanecemos,

acorrentados ao passado.

Mas quando olhamos para compreendê-las, algo começa a mudar.

Passamos a enxergar não apenas o sofrimento, mas também a força que nasceu dele.

Percebemos quantas tempestades atravessamos.

Quantas vezes pensamos que não conseguiríamos continuar.

Quantas vezes nos levantamos sem perceber a coragem que existia dentro de nós.

As cicatrizes contam histórias.


Não são sinais de fracasso.

São testemunhos de sobrevivência.

Cada cicatriz emocional é a prova de que uma batalha aconteceu.

E de que, apesar dela, continuamos caminhando.

Isso não significa que toda dor seja necessária.

Nem que devamos agradecer pelas feridas.

Significa apenas reconhecer que elas fazem parte da condição humana.

Somos seres imperfeitos vivendo em um mundo igualmente imperfeito.

Ferimos e estamos feridos.

Erramos e somos vítimas dos erros dos outros.

Mas também

aprendemos,crescemos,

transformamo-nos.

A verdadeira cura começa quando deixamos de perguntar:


"Por que isso aconteceu comigo?"


E passamos a perguntar:


"O que posso aprender com isso?"


Essa mudança não apaga a dor.

Mas devolve a ela um propósito.

Pouco a pouco, a ferida deixa de ser uma prisão.

Transforma-se em sabedoria,transforma-se em compaixão,

transforma-se em força.

Foi assim que compreendi uma das maiores lições da caminhada:

Não somos definidos pelas feridas que recebemos.

Somos definidos pela maneira como escolhemos seguir depois delas.

E enquanto houver caminho à frente, haverá possibilidade de cura.

A jornada continua…

 
 
 

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