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AVC — Parte V — Capítulos 21 a 25

  • Foto do escritor: Abioye Ras Barros
    Abioye Ras Barros
  • há 2 dias
  • 26 min de leitura

Atualizado: há 2 dias

AVC — A Trajetória que Prova o Verdadeiro Amor

Abioye Ras Barros

ISBN: 978-65-02-31754-9

Capítulos 21 a 25

Capítulo 21 — AS COISAS QUE EU NUNCA AGRADECI

A colher caiu. Bateu na borda do prato antes de chegar ao chão. A mãe olhou. O filho também. Ela havia tentado comer sozinha. Ele se abaixou para pegar a colher. Quando voltou, percebeu a irritação em seu rosto. — Quer tentar de novo? Ela estendeu a mão. Ele entregou. Os dedos fecharam-se lentamente ao redor do cabo. A colher tremeu. Desceu até o prato. Subiu. Um pouco da comida caiu no caminho. Ela continuou. O primeiro impulso dele foi ajudar. Não ajudou. A colher chegou à boca. Ela mastigou. Depois olhou para ele. Havia algo quase desafiador naquele olhar. Ele sorriu. — Está bom. Já entendi. Ela tentou sorrir também. A segunda colherada foi um pouco melhor. Na terceira, caiu comida novamente. Dessa vez, os dois riram. Um riso pequeno. Mas verdadeiro. E durante alguns minutos aquela mesa deixou de ser um lugar de recuperação. Era apenas uma mesa. Uma mãe. Um filho. E uma colher teimosa. Mais tarde, enquanto lavava a louça, ele pensou em quantas vezes aquela cena havia acontecido ao contrário. Ele pequeno. A colher na mão dela. Provavelmente derramando muito mais comida. Talvez virasse o rosto. Fechasse a boca. Fizesse birra. Ela limpava. Tentava outra vez. Ele não lembrava. Essa era a parte estranha. Grande parte do amor que recebeu da mãe aconteceu numa época da qual não possuía memória. Alguém precisou alimentá-lo antes que pudesse segurar uma colher. Alguém o limpou. Deu banho. Vestiu. Carregou. Acordou durante a madrugada. Talvez tenha trabalhado cansada porque precisava colocar comida dentro de casa. Ele sabia. Mas saber não era o mesmo que ter agradecido. Fechou a torneira. Ficou parado diante da pia. Quantas coisas consideramos naturais apenas porque alguém as fez durante tempo suficiente? A comida aparecia. A roupa estava limpa. Havia alguma coisa para comer.

Quando adoecia, alguém sabia o que fazer. Quando precisava, chamava: — Mãe. Aquela palavra funcionava quase como um serviço de emergência. Mãe. Tenho fome. Mãe. Não encontro minha camisa. Mãe. Estou com dor. Mãe. Onde está aquilo? Mãe. Mãe. Mãe. Quantas vezes uma mulher responde ao próprio título durante uma vida? Talvez milhares. E quantas vezes alguém pergunta: — E você, está precisando de alguma coisa? Do quarto veio um som. Ele parou. Esperou. Outro som. Foi até lá. — Me chamou? A mãe olhou para o copo. — Água? Ela confirmou. Ele ajudou. Depois colocou o copo novamente sobre a mesa. — Mais alguma coisa? Ela negou. Ele ia sair quando parou na porta. — Mãe... Ela olhou. Ele quase disse obrigado. Mas não disse. Obrigado pelo quê? Por tudo? Tudo parecia grande demais. Saiu. Durante o restante do dia, a palavra o acompanhou. Obrigado. Curioso como uma palavra tão pequena pode parecer insuficiente. Talvez por isso adiemos determinadas gratidões. Queremos encontrar a frase perfeita. Não encontramos. Então não dizemos nada. Naquela tarde encontrou uma camisa antiga. Lembrou-se imediatamente. Durante anos, quando precisava de alguma roupa para o dia seguinte, costumava avisar tarde demais. — Mãe, preciso dessa camisa amanhã. E de alguma maneira a camisa aparecia limpa. Talvez passada. Ele nunca investigava a operação. Apenas vestia. Sorriu. As mães realizam milagres domésticos que os filhos confundem com o funcionamento normal do universo. A roupa aparece. A comida aparece. O objeto perdido aparece. Até crescermos e descobrirmos: nada aparecia. Alguém fazia aparecer. Levou a camisa até o quarto. — Lembra dessa? Ela olhou. Talvez não lembrasse. — Você lavou isso aqui um milhão de vezes. Ela fez uma expressão de reprovação. — Está bom. Umas quinhentas. Um pequeno sorriso.

Ele se sentou. — Eu dava trabalho? Ela olhou imediatamente para ele. O sorriso aumentou. Não precisava falar. — Ah, então dava. Ela tentou dizer alguma coisa. Ele se aproximou. — Fala de novo. Tentou. Dessa vez ele compreendeu: — Muito? Ela confirmou. Ele riu. — Eu sabia. E aquela conversa incompleta conseguiu ser mais inteira do que muitas conversas que haviam tido quando as palavras eram fáceis. Depois ficaram em silêncio. A camisa permaneceu sobre as pernas dele. Então perguntou: — Eu te agradecia? Ela não respondeu imediatamente. Ele repetiu: — Quando eu era mais novo... eu agradecia as coisas que você fazia? Ela fez um gesto que ele não conseguiu interpretar. Talvez significasse mais ou menos. Talvez não importe. Ele olhou para a camisa. — Acho que não. Depois ergueu os olhos. — Obrigado. Ela franziu a testa. — Por quê? A palavra saiu difícil. Mas compreensível. Ele quase respondeu: — Por tudo. Parou. Escolheu algo menor. — Pelas camisas. Ela sorriu. — Pela comida. Outro sorriso. — Pelas vezes em que ficou acordada quando eu estava doente. O rosto dela mudou. — Por ter trabalhado cansada. Silêncio. — Por um monte de coisas que eu achei que aconteciam sozinhas. Os olhos dela ficaram úmidos. Os dele também. Ele poderia continuar enumerando durante horas. Ainda assim não alcançaria tudo. Então segurou sua mão. — Obrigado por ter sido minha mãe quando eu ainda nem sabia o trabalho que isso dava. Ela apertou sua mão. Não houve resposta. Não precisava. A emoção chegou sem violência. Não era desespero. Era reconhecimento. Talvez gratidão seja isso. O momento em que finalmente enxergamos o esforço escondido atrás de alguma coisa que recebemos. Quando criança, ele enxergava comida. Agora enxergava trabalho. Enxergava roupa. Agora enxergava mãos. Enxergava proteção.

Agora enxergava medo. Enxergava mãe. Agora começava a enxergar também a mulher que precisou aprender a ser mãe enquanto enfrentava os problemas da própria vida. Isso mudava tudo. Não queria transformá-la em santa. Ela certamente havia errado. Havia decisões que talvez ele não compreendesse. Discussões. Mágoas. Coisas que poderiam ter sido diferentes. Toda relação verdadeira possui imperfeições. Talvez justamente por isso a gratidão fosse mais honesta. Ele não agradecia a uma personagem perfeita. Agradecia a uma mulher real. Com limitações. Com cansaço. Com história. Uma mulher que fez o que conseguiu com aquilo que possuía. Talvez algumas vezes tenha acertado. Outras, não. Como ele próprio agora, tentando cuidar dela. Essa percepção trouxe uma espécie de paz. Durante muito tempo, filhos julgam os pais a partir daquilo que receberam. Depois talvez chegue uma idade em que começamos a enxergá-los também a partir daquilo que tinham para oferecer. A perspectiva muda. Talvez ela também tenha cuidado dele muitas vezes sem saber se estava fazendo certo. Talvez tenha sentido medo. Perdido a paciência. Depois se culpado. Talvez tenha deitado em algumas noites pensando: Será que estou sendo uma boa mãe? Ele nunca saberia. Mas agora conhecia a pergunta. Porque fazia uma semelhante quase todos os dias: Será que estou cuidando direito? De repente, mãe e filho pareciam menos distantes no tempo. Duas pessoas, em épocas diferentes, tentando cuidar de alguém que amavam sem possuir manual. Talvez ela tivesse improvisado tanto quanto ele improvisava agora. Ele sorriu. — Então você também não sabia o que estava fazendo, não é? Ela olhou desconfiada. — Quando eu era pequeno. Você fingia que sabia de tudo. A mãe tentou responder. A palavra saiu surpreendentemente clara: — Sabia.

Ele arregalou os olhos. — Ah, sabia? Ela sorriu. — Então está bom. Riram. Era uma bobagem. E justamente por isso era preciosa. Ele queria guardar aquele momento. Não como uma cena triste. Como uma cena viva. Talvez anos depois se lembrasse daquela palavra. Sabia. Da expressão dela. Do riso. Era isso que queria preservar. Não apenas hospitais. Não apenas dificuldades. Não apenas o AVC. A doença não teria o direito de monopolizar a memória daquele período. Também haveria risos. Piadas. Pequenas provocações. Comida derramada. Uma camisa velha. Uma palavra inesperadamente clara. Vida. Antes de sair, pegou a camisa. — Vou guardar isso. Ela pareceu não entender. — Agora virou documento histórico. A mãe balançou a cabeça. Talvez pensando que o filho estava ficando maluco. Ele saiu rindo. No corredor, parou. Olhou novamente para a camisa. Uma peça comum. Mas a descoberta era extraordinária. Nada aparecia sozinho. Alguém fazia aparecer. A segurança da infância não apareceu sozinha. Alguém construiu. A comida não apareceu. Alguém preparou. O cuidado não apareceu. Alguém ofereceu. Talvez grande parte daquilo que chamamos de sorte na infância tenha o nome de alguém que trabalhou silenciosamente para que não percebêssemos a dificuldade. Ele voltou ao quarto. A mãe pareceu surpresa. — Esqueci uma coisa. Aproximou-se. Beijou sua testa. — Obrigado também pelas coisas que eu nunca percebi. Dessa vez ela não tentou responder. Fechou os olhos por um instante. Talvez apenas recebesse. Ele saiu. Não sabia quantas oportunidades ainda teria para agradecer. Mas havia aprendido algo importante. Gratidão não precisa esperar uma despedida. Não precisa de aniversário. Não precisa de homenagem. Não precisa de flores quando alguém já não pode recebê-las. Pode acontecer numa terça-feira qualquer.

Entre um remédio e outro. Diante de uma camisa velha. Depois de uma colher cair no chão. Talvez seja até melhor assim. Porque existem palavras que pertencem aos vivos. E “obrigado” é uma delas.

Capítulo 22 — O DIA EM QUE PERDI A PACIÊNCIA

O copo estava no chão. Outra vez. A água se espalhava lentamente pelo quarto. Ele fechou os olhos. Talvez por dois segundos. Naquele dia, porém, dois segundos eram tudo o que existia entre o cansaço e a irritação. — Mãe... A palavra saiu diferente. Ela percebeu. Ele também. Não era a palavra. Era o tom. Olhou para o chão. Depois para ela. — Eu acabei de colocar esse copo aí. A mãe permaneceu quieta. Ele pegou um pano. Abaixou-se. As costas doíam. Havia dormido pouco. Ainda precisava preparar o jantar. Conferir medicamentos. Responder uma mensagem. Fazer uma ligação. E agora havia água no chão. Era apenas água. Mas naquele instante não parecia apenas água. Era mais uma coisa. E, às vezes, uma coisa pequena encontra uma pessoa carregando coisas demais. — Você precisa tomar cuidado. Silêncio. Ele continuou secando. — Se quiser pegar alguma coisa, me chama. A mãe olhava. — Não tenta fazer tudo sozinha. A frase saiu mais alta. Não chegou a ser um grito. Mas chegou perto de alguma coisa que ele não queria. Ela abaixou os olhos. Foi aí. Naquele exato instante. A irritação desapareceu. E entrou a culpa. Ele parou com o pano na mão. A água ainda estava ali. Mas já não importava. — Mãe... Ela não olhou. Terminou de secar. Levantou-se. Queria pedir desculpas imediatamente. Mas saiu do quarto. Foi para a cozinha. Apoiou as mãos sobre a pia. Respirou. Não havia acontecido nada grandioso. Nenhuma discussão. Nenhuma palavra terrível. Apenas um tom. Mas, às vezes, é justamente o tom que machuca. Quem depende de nós aprende a perceber detalhes. Um suspiro. Um olhar. Uma resposta curta. Um movimento mais brusco. Talvez ela tivesse compreendido: Estou dando trabalho. Era exatamente isso que ele não queria que ela sentisse. Sentou-se. O telefone vibrou. Não olhou. Estava cansado.

Não cansado como alguém que tivera um dia ruim. Era um cansaço acumulado. Um cansaço que já não sabia onde começava. Talvez naquela madrugada. Talvez na anterior. Talvez no hospital. Talvez no dia em que tudo mudou. Sentiu vontade de chorar. Não chorou. Depois sentiu vontade de ficar sozinho. Também não podia. Permaneceu sentado alguns minutos. Dessa vez não procurou uma lição. Não pensou em resiliência. Não tentou ser forte. Estava irritado. Cansado. Arrependido. Só isso. O telefone vibrou novamente. Uma mensagem: — Como vocês estão? Ele quase respondeu: — Estamos bem. Chegou a escrever. Parou. Apagou. Escreveu: — Hoje estou cansado. Ficou olhando para a frase. Parecia uma confissão enorme. Enviou. Pouco depois veio a resposta: — Quer que eu passe aí amanhã? O primeiro impulso foi responder: — Não precisa. Era automático. Não precisa. Está tudo bem. Eu consigo. Talvez aquelas fossem algumas das frases que mais o haviam cansado. Dessa vez escreveu: — Quero. Uma palavra. E algum peso diminuiu. Talvez pedir ajuda começasse assim. Sem colapso. Sem grandes discursos. Com um simples: Quero. Levantou-se. Precisava voltar. No caminho, pensou no que dizer. Desculpa, estou cansado. Desculpa, não dormi. Desculpa, foi apenas o copo. Mas explicação demais poderia transformar um pedido de desculpas numa defesa. Entrou. A mãe estava olhando para a janela. Ele se sentou ao lado. — Mãe. Ela virou o rosto. — Desculpa. Esperou. — Eu falei de um jeito que não devia. Poderia explicar tudo. Não explicou. — Você não fez nada errado. Ela olhou para o lugar onde a água havia caído. Depois para ele. — Foi um copo. Tentou dizer alguma coisa. Ele não compreendeu. — O quê? Ela tentou novamente. Talvez fosse: — Desculpa. Aquilo doeu mais. — Não, mãe. Segurou sua mão.

— Você não tem que pedir desculpa. Ela insistiu. — Copo cai. Fez uma pausa. — Eu também derrubo. Ela olhou. — E derrubo muito. Um pequeno sorriso apareceu. Ele percebeu. — Você sabe. O sorriso aumentou. A tensão diminuiu. Não desapareceu magicamente. Mas havia espaço novamente entre os dois. Ela apontou para o copo. — Quer água? Confirmou. Ele pegou. Enquanto ajudava, pensou que talvez fosse melhor mudar o lugar do copo. Talvez usar outro recipiente. Talvez existisse uma solução prática para aquilo que havia transformado em irritação. Quando ela terminou, colocou o copo mais distante da borda. Pronto. Era quase ridículo. Quantas vezes nos irritamos com pessoas diante de problemas que precisavam apenas de uma pequena adaptação? Na manhã seguinte, a ajuda chegou. — Vai fazer alguma coisa. Ele quase respondeu: — Não, vou ficar. Mas havia pedido ajuda. Agora precisava permitir que a ajuda acontecesse. Explicou os horários. Os medicamentos. A água. Algumas coisas importantes. Explicou novamente. — Eu entendi. — Qualquer coisa me liga. — Vai. Pegou as chaves. Foi até a mãe. — Vou sair um pouco. Ela olhou. — Volto já. Saiu. E descobriu uma coisa quase engraçada. Passara tanto tempo desejando alguns minutos livres que, quando os recebeu, não sabia o que fazer com eles. Entrou numa padaria. Sentou-se. Pediu um café. Quando a xícara chegou, ficou olhando. Ninguém precisava dele naquele minuto. Estranhou. Bebeu devagar. Na mesa ao lado, duas pessoas conversavam sobre alguma banalidade. Uma reclamava do trabalho. Outra ria. Na televisão, futebol. Um homem comprou pão e saiu. Vida comum. Era disso que sentia falta. Não de grandes festas. Não de viagens. Da banalidade. Sentar. Tomar café. Escutar uma conversa que não envolvesse medicamentos, exercícios ou recuperação.

Ficou ali algum tempo. Olhou o telefone. Nenhuma ligação. Tudo bem. Pediu outro café. Dessa vez sem culpa. Quando voltou, encontrou a mãe tranquila. Nada havia acontecido. — Foi tudo bem-disseram. Ele quase iniciou um interrogatório. Comeu? Bebeu água? Precisou ir ao banheiro? Conteve-se. — Obrigado. Entrou no quarto. — Voltei. Ela fez uma expressão que parecia dizer: Eu estou vendo. Ele riu. Ainda estava cansado. Alguns minutos não consertavam semanas. Mas havia um pouco mais de espaço dentro dele. Naquela noite, o copo permaneceu sobre a mesa. Não caiu. Ele olhou e sorriu. Quem diria que um copo poderia ensinar tanta coisa? Mas talvez não tivesse sido o copo. O copo apenas caiu onde o cansaço já estava acumulado. Ele compreendeu algo que precisaria recordar muitas vezes: perder a paciência não significa perder o amor. Mas o amor também não pode ser usado como desculpa para ferir. Era preciso reconhecer. Pedir desculpas. Corrigir. Descansar quando possível. Aceitar ajuda. E tentar novamente. Não prometeu: — Nunca mais vou me irritar. Seria mentira. Haveria outros dias ruins. Outras noites mal dormidas. Outras respostas talvez saíssem mais duras do que deveriam. Ele era humano. A mãe também. Poderia prometer outra coisa. Quando errasse, tentaria perceber. Quando percebesse, tentaria voltar. Talvez relacionamentos não sobrevivam porque ninguém falha. Talvez sobrevivam porque algumas pessoas aprendem o caminho de volta depois da falha. Antes de dormir, foi ao quarto. A mãe já estava deitada. Ajeitou a coberta. — Boa noite. Apagou a luz. Quando estava saindo, ouviu: — Filho. Parou. A palavra não saiu perfeita. Mas saiu. Virou-se. — Oi? Ela não disse mais nada. Talvez tivesse esquecido. Talvez só quisesse chamá-lo. Ele voltou. — Estou aqui. Sentou-se por alguns segundos.

Dessa vez a frase não precisava carregar reflexão alguma. Era apenas verdade. Ele estava ali. Cansado. Imperfeito. Talvez ainda um pouco culpado. Mas ali. E naquele dia compreendeu que talvez o amor verdadeiro não seja aquele que nunca perde a paciência. É aquele que, depois de perder, não perde o caminho de volta.

Capítulo 23 — O CALENDÁRIO NÃO SABE NADA SOBRE ELA

A consulta estava marcada para nove e meia. Às oito, ele já se sentia atrasado. Não no relógio. Na cabeça. A bolsa precisava estar pronta. Documentos. Água. Medicamentos. Uma troca de roupa. Alguma coisa para comer. Conferiu tudo duas vezes. Depois voltou para conferir uma terceira. — Vamos? A mãe olhou para ele. Não parecia particularmente interessada em sair. — Hoje é consulta. A expressão dela parecia dizer: Eu sei. Ele aproximou a cadeira. O primeiro desafio nem era chegar ao médico. Era sair de casa. Antes, sair significava pegar a chave e fechar a porta. Agora exigia planejamento. Espaço. Tempo. Força. Paciência. O relógio dos dois havia mudado. Ajudou na transferência. Ajeitou a roupa. Conferiu a posição. Pegou a bolsa. Esqueceu o telefone. Voltou. Quando finalmente fecharam a porta, olhou a hora. — Um dia ainda vou aprender a sair de casa com você sem organizar uma expedição. Ela olhou. Um pequeno sorriso. — Estou falando sério. Seguiram. Uma calçada ruim. Um desnível. Uma porta estreita. Um lugar onde a cadeira quase não passava. Coisas que antes eram invisíveis começaram a aparecer. Um degrau nunca é apenas um degrau quando alguém está sobre rodas. Ele começava a enxergar a cidade de outra altura. E não gostava de algumas coisas que via. Chegaram. Sala de espera. Outras pessoas. Outras histórias. Cadeiras de rodas. Bengalas. Acompanhantes. Um homem caminhava lentamente apoiado no braço da filha. Uma senhora tentava abrir uma garrafa de água. Ninguém conhecia a história de ninguém. Mas parecia existir um reconhecimento silencioso entre algumas pessoas. Talvez porque certos cansaços se reconheçam. O filho sentou-se ao lado da mãe. Esperaram. Na parede havia um calendário. Ele ficou olhando. Foi então que percebeu quanto tempo havia passado. Dias. Semanas.

Parecia mais. E menos. O AVC tinha uma estranha capacidade de deformar o tempo. Alguns dias duravam uma eternidade. Algumas semanas desapareciam. Tentou lembrar como imaginava que estariam naquele momento. Não conseguiu exatamente. Mas sabia que, em algum lugar dentro dele, havia criado um cronograma. Nunca escrevera. Nunca contara a ninguém. Mas existia. Depois de algumas semanas ela estaria fazendo isso. Depois de tantas, aquilo. Mais adiante, outra coisa. Era um calendário secreto de esperança. E a realidade não o havia consultado. Chamaram o nome dela. Entraram. Vieram perguntas. Avaliações. Movimentos. — Tenta levantar o braço. Ela tentou. — Mais uma vez. Tentou. Depois a perna. A mão. Outros movimentos. O filho acompanhava tudo com atenção exagerada. Queria descobrir no rosto do profissional alguma pista. Está bom? Está ruim? É esperado? Ela está atrasada? Não aguentou. — Está evoluindo? A resposta veio com cautela. Havia progresso. Algumas respostas estavam melhores. Outras ainda precisavam de trabalho. A recuperação não obedecia a uma linha reta. Era preciso continuar. Ele ouviu. Mas queria números. Prazos. Alguma coisa que pudesse levar para casa e colocar sobre a mesa. — Mas está dentro do esperado? A resposta veio novamente com prudência. Cada pessoa possuía seu processo. Existiam muitos fatores. Comparações podiam enganar. Era necessário acompanhar a evolução dela. Ele assentiu. Era uma resposta correta. E difícil. Porque “cada pessoa tem seu tempo” muitas vezes significa: não posso dizer quando. E “quando” era justamente o que ele queria. Então percebeu outra coisa. Estavam falando sobre a mãe como se ela não estivesse ali. Olhou para ela. Ela também estava ouvindo. Talvez compreendesse tudo. — Mãe, você quer perguntar alguma coisa?

Ela olhou para o profissional. Depois para o filho. Tentou falar. A palavra demorou. Ninguém interrompeu. Tentou novamente. — Andar. Só isso. O filho sentiu alguma coisa no peito. — Você quer saber sobre voltar a andar? Ela confirmou. A resposta foi cuidadosa. Continuariam trabalhando. Havia sinais positivos. Mas não seria responsável prometer prazo. Era preciso observar sua evolução. Ela ouviu. Não sorriu. Também não demonstrou tristeza. Apenas ouviu. Na volta, ficou mais quieta. Ele também. Por alguns minutos teve vontade de dizer: — Você vai andar. A frase chegou à garganta. Mas não saiu. Talvez antes tivesse dito. Naquele dia escolheu outra. — Vamos continuar tentando. Ela olhou. Ele repetiu: — Vamos continuar. Pareceu mais honesto. Quando chegaram em casa, toda a operação aconteceu ao contrário. Porta. Cadeira. Bolsa. Transferência. Água. Descanso. Depois ele se sentou na cozinha. A consulta continuava dentro da cabeça. Cada pessoa tem seu tempo. Pegou o telefone. E cometeu um erro que já havia cometido. Pesquisou. Histórias de recuperação. Vídeos. Depoimentos. “Voltou a andar depois de...” “Recuperação surpreendente...” “Após três meses...” “Após seis meses...” Assistiu a um. Depois outro. Uma pessoa caminhava com apoio. Outra movimentava o braço. Histórias extraordinárias. Ele deveria ter sentido esperança. Sentiu ansiedade. Começou a fazer contas. Quanto tempo havia passado? Onde sua mãe estava? O que aquelas pessoas conseguiam fazer no mesmo período? Então percebeu. Fechou o telefone. Aquilo era injusto. Com ela. Com ele. Até com as pessoas dos vídeos. Não conhecia seus casos. As lesões. Os tratamentos. As idades. As condições. Não conhecia nada além de alguns minutos editados. E estava usando aquilo como régua para medir a vida da mãe. Guardou o telefone.

Foi até o quarto. Ela descansava. Sentou-se perto. — Sabe uma coisa? Ela abriu os olhos. — Eu estava comparando você com outras pessoas. Ela continuou olhando. — Besteira minha. Fez uma pausa. — Você não tem que ganhar corrida de ninguém. Um pequeno sorriso. — Só de mim, porque estou ficando velho. Ela riu. Ele também. Naquela tarde fizeram os exercícios. Sem cronômetro emocional. Uma tentativa. Outra. Alguma coisa saiu melhor. Outra, pior. Em determinado movimento, ela não conseguiu aquilo que havia conseguido no dia anterior. Ele percebeu a frustração. — Descansa. Ela insistiu. Tentou novamente. Nada. Bateu a mão sobre a própria perna, irritada. Ele reconheceu. Não disse: — Calma. Nem: — Vai conseguir. Esperou. Depois perguntou: — Mais uma ou paramos? Ela levantou um dedo. Mais uma. Tentou. O movimento apareceu. Pequeno. Menor do que no dia anterior. Mas apareceu. Ela olhou. Ele fez apenas um gesto com a cabeça. Boa. Nenhuma festa. Aquela conquista era dela. Ao terminar, anotou algumas coisas. Não para comparar com desconhecidos. Para acompanhar a trajetória da própria mãe. Naquela noite, riscou um dia no calendário. Ficou olhando para o quadrado atravessado pela caneta. Amanhã outro. Depois outro. Percebeu que durante semanas havia tratado cada dia como uma cobrança. Já passou tanto tempo. Ela deveria... Nós deveríamos... Talvez... Mas o calendário não dizia nada disso. O calendário apenas contava dias. Quem colocava expectativas dentro deles era ele. Foi até o quarto. — Boa noite. Ela respondeu como conseguiu. Ele ia sair. Parou. — Hoje foi um bom dia. Ela pareceu surpresa. Talvez porque a consulta não tivesse trazido nenhuma grande notícia. Ele explicou: — Você perguntou sobre andar. Ela olhou. — Sozinha. A palavra havia saído dela. Andar. Não era um passo.

Mas era voz. Desejo. Participação. Ele sorriu. — Foi um bom dia. Apagou a luz. No corredor, passou novamente pelo calendário. Dessa vez não parou. Começava a compreender. Haveria datas importantes. Consultas. Retornos. Avaliações. Talvez marcos. Mas nenhuma folha pendurada na parede poderia determinar a velocidade de um corpo tentando reconstruir caminhos dentro de si. O calendário sabia quantos dias haviam passado. Só isso. Não sabia quanto esforço existia em levantar um dedo. Não sabia o trabalho necessário para formar uma palavra. Não sabia o medo de tentar ficar em pé. Não sabia quantas vezes alguém fracassava antes de conseguir. Não sabia nada sobre ela. Por isso tentaria usar o calendário apenas para aquilo que realmente servia: lembrar compromissos. Para acompanhar a mãe, precisaria de outra medida. Atenção. Hoje comparado a ontem. Esta semana comparada à anterior. E mesmo assim com cuidado. Porque algumas recuperações avançam. Param. Recuam. Avançam novamente. Não são estradas retas. São caminhos. E caminhos possuem curvas. Antes de dormir, pensou novamente na pergunta: Quando? Ainda queria saber. Claro que queria. Mas outra começava a ocupar seu lugar: O que conseguimos hoje? Talvez fosse uma pergunta melhor. Porque o futuro não estava em suas mãos. O presente, em parte, estava. E amanhã, quando abrisse a janela e dissesse “bom dia”, pouco importaria o número impresso no calendário. Para aquela mulher existiria apenas mais uma oportunidade de tentar. No tempo dela.

Capítulo 24 — A CIDADE TINHA DEGRAUS DEMAIS

Ele nunca havia reparado naquela calçada. Passara por ali centenas de vezes. Era apenas uma calçada. Naquele dia, deixou de ser. Empurrou a cadeira até o fim da rua e encontrou um desnível. Pequeno. Para quem caminhava, quase nada. Para eles, um obstáculo. Parou. Calculou a passagem. — Espera um pouco, mãe. Inclinou cuidadosamente a cadeira. Passou. Alguns metros depois, outro problema. Um carro ocupava parte da calçada. Não havia espaço. Precisariam descer para a rua. Ele olhou para os veículos passando. Depois para a mãe. Depois para o carro. Sentiu raiva. Não uma grande indignação filosófica. Raiva mesmo. — Não dá para passar. Procurou outra possibilidade. Não havia. Desceu cuidadosamente para o asfalto. Empurrou a cadeira ao redor do carro. Um veículo passou perto demais. Apertou as mãos no guidão. — Calma. Não sabia se dizia para ela ou para si. Finalmente encontrou um lugar para subir. Parou. Respirou. A mãe olhou. — Tudo bem. Ela nem havia perguntado. Talvez ele precisasse ouvir a própria voz dizendo aquilo. Continuaram. Buraco. Degrau. Rampa. Porta. Espaço. Inclinação. A cidade havia adquirido uma nova linguagem. E ele começava a aprendê-la tarde. Isso incomodava. Quantas vezes passara pelas mesmas ruas sem perceber? Talvez já tivesse cruzado com pessoas em cadeiras de rodas. Idosos com dificuldade para caminhar. Alguém empurrando um carrinho. Nunca pensara muito. Agora pensava. Não porque tivesse se tornado subitamente mais consciente. Porque precisava. Às vezes a empatia chega por escolha. Outras vezes a vida nos coloca diante daquilo que antes não enxergávamos. Chegaram ao estabelecimento. Havia um degrau na entrada. Parou. Uma pessoa veio ajudar. — Pode levantar um pouquinho que a gente passa. Dois homens seguraram a cadeira. A mãe ficou tensa.

Ele percebeu. — Devagar. Conseguiram entrar. Todos foram gentis. Mas esse não era o problema. O problema era precisar da gentileza de alguém para vencer uma arquitetura que deveria permitir passagem. Acessibilidade não deveria depender da boa vontade de quem esteja por perto. E se não houvesse ninguém? E se a pessoa estivesse sozinha? E se não pudesse pedir? Enquanto aguardavam, uma criança olhava para a cadeira. Devia ter cinco ou seis anos. A mãe do menino percebeu. — Não fica olhando. A criança desviou. Pouco depois olhou novamente. Crianças olham. Ainda não aprenderam todas as regras adultas sobre aquilo que devemos fingir que não percebemos. O menino aproximou-se. — Ela machucou a perna? A mãe ficou constrangida. — Desculpa. O filho respondeu: — Não precisa pedir desculpa. Abaixou-se um pouco. — Ela ficou doente e agora está reaprendendo algumas coisas. O menino olhou para a mulher. — Ela vai andar? A pergunta atingiu o filho. Outra vez. Mas na boca daquela criança parecia diferente. Não havia medo. Nem expectativa. Apenas curiosidade. — A gente está trabalhando para isso. O menino aceitou. Simplesmente aceitou. — É difícil? O filho compreendeu. — Às vezes. A criança pensou. Depois olhou para a mãe na cadeira. — Melhoras. Ela sorriu. Um sorriso aberto. O menino voltou para perto da própria mãe. Fim. Nenhuma grande lição. Uma criança perguntou. Alguém respondeu. A vida continuou. Mas ele guardou aquilo. Talvez porque os adultos frequentemente compliquem o encontro com a deficiência. Não olhe. Não pergunte. Não fale. Como se alguém desaparecesse quando evitamos reconhecê-lo. A criança havia feito o contrário. Olhou. Perguntou. Desejou melhoras. E foi embora. Quando terminaram, precisaram enfrentar novamente o degrau. Outra pessoa ajudou.

No caminho de volta encontraram uma rampa. Ele quase comemorou. — Olha isso. A mãe olhou. — Uma rampa! Ela fez uma expressão indiferente. — Você não entende. Isso agora é motivo de felicidade. Ela sorriu. Ele desceu. No final havia um buraco. Parou. — Falei cedo demais. A mãe riu. Ele também. Contornaram. Mais adiante, uma mulher vinha na direção contrária. Havia pouco espaço. Ela percebeu a cadeira e desceu para a rua, deixando passagem. — Obrigado. — Imagina. Seguiu. Pequeno gesto. Nenhum heroísmo. Apenas alguém percebeu outra pessoa e abriu espaço. Talvez civilidade fosse isso. Abrir espaço. Literalmente, naquele caso. Mais adiante, um homem conversava ao telefone parado sobre uma rampa. O filho esperou. Ele não percebeu. — Com licença. Nada. — Amigo. O homem virou. Viu a cadeira. — Ah, desculpa. Saiu imediatamente. — Foi mal. — Tranquilo. Continuaram. O filho percebeu como era fácil ocupar o espaço de alguém quando não precisávamos dele. Na maioria das vezes não havia maldade. Havia invisibilidade. Aquilo que não precisamos enxergar facilmente deixa de existir para nós. Até precisar existir. Chegaram à rua de casa. Os braços doíam. A mãe também parecia cansada. — Estamos quase. Então encontraram o último obstáculo. Um saco de lixo exatamente na passagem mais fácil. Ele parou. Olhou para o saco. Depois para a mãe. — Não é possível. Ela começou a sorrir. — Você está achando graça? O sorriso aumentou. — Eu aqui sofrendo e você rindo. Ela riu. Ele acabou rindo também. Moveu o saco. — Pronto. Passaram. — A cidade hoje está fazendo prova com a gente. Chegaram em casa. Ele acomodou a mãe. Deu água. — Cansou? Sim. — Eu também. Sentou-se. O passeio havia mudado alguma coisa. Não nela. Nele. A cidade era a mesma. As calçadas não tinham piorado naquela semana.

Os degraus não surgiram depois do AVC. Os carros já estacionavam daquela maneira. Os buracos já existiam. As portas já eram estreitas. Ele apenas não via. Isso o deixou desconfortável. Quantas outras coisas existiam ao seu redor que não enxergava porque não precisava delas? A pergunta era maior do que acessibilidade. Talvez atravessemos o mundo a partir das necessidades do nosso próprio corpo. Se consigo subir, o degrau não é problema. Se consigo ouvir, o aviso sem legenda parece suficiente. Se consigo enxergar, a placa pequena basta. Se consigo caminhar, cem metros não parecem longe. Nossa ideia de normalidade frequentemente é apenas aquilo que funciona para nós. Mais tarde saiu sozinho. Passou pela mesma rua. Sem cadeira. O caminho pareceu ridiculamente fácil. Subiu a calçada sem pensar. Desviou do buraco. Passou pelo carro. Entrou na loja. Na volta, parou diante do degrau. Uma pessoa passou ao lado. Subiu. Nem percebeu. Ele também havia sido essa pessoa. Talvez ainda fosse em relação a milhares de outras coisas. Não sentiu culpa. Culpa não consertaria a calçada. Mas atenção talvez mudasse alguma coisa. Pelo menos nele. Naquela noite contou à mãe: — Passei naquele degrau sozinho agora. Ela não entendeu por que aquilo merecia conversa. — Nem percebi. Silêncio. — Quando estou com você, parece uma parede. Ela observou. Ele sorriu. — Você está me ensinando umas coisas sem falar nada. Ela tentou responder. A palavra demorou. Pareceu dizer: — Cobro. Ele arregalou os olhos. — Vai me cobrar? Ela sorriu. — Ah, não. Aula cara assim eu não quero. Ela riu. Ele também. Talvez tivesse entendido errado. Não importava. A brincadeira ficou. Antes de dormir, pensou no caminho. No carro. No degrau. Na rampa. Na mulher que abriu espaço. Na criança.

Talvez o mundo não precisasse sentir pena de sua mãe. Ele certamente não queria isso. Pena não constrói rampas. Não alarga portas. Não retira obstáculos. Não devolve autonomia. O que ela precisava era outra coisa. Possibilidade. Possibilidade de entrar. De sair. De circular. De escolher. De participar. Talvez acessibilidade seja uma palavra técnica para algo profundamente humano: não obrigar alguém a pedir licença para existir nos mesmos lugares que todos os outros. No dia seguinte, saiu para comprar pão. Passou pela rampa. Uma motocicleta estava estacionada sobre ela. Parou. Sentiu a velha irritação chegando. Por alguns segundos pensou em seguir. Depois entrou no estabelecimento próximo. — De quem é a moto? Um homem levantou a mão. — Minha. — Amigo, consegue tirar um pouco? Está bloqueando a rampa. O homem olhou. Então percebeu. — Claro. Moveu a motocicleta. — Desculpa, nem reparei. O filho respondeu: — Eu também não reparava. Os dois se olharam por um instante. Não havia acusação. Talvez por isso a frase tenha funcionado. — Pronto. — Valeu. Seguiu para casa. Naquele dia compreendeu que algumas experiências não nos transformam automaticamente em pessoas melhores. Sofrimento não concede sabedoria por decreto. Mas pode oferecer uma oportunidade. A oportunidade de enxergar. E, depois que enxergamos, existe uma escolha. Podemos continuar passando. Ou podemos abrir espaço. Entrou em casa. A mãe estava na cadeira perto da janela. — Trouxe pão. Colocou a sacola sobre a mesa. Talvez nunca contasse sobre a motocicleta. Não era necessário. Mas alguma coisa havia mudado. Antes do AVC, ele atravessava a cidade. Agora começava a percebê-la. E descobria que uma sociedade talvez possa ser medida não pela facilidade com que os mais fortes atravessam seus caminhos,

mas pela quantidade de obstáculos que decide retirar diante daqueles que precisam de outra maneira de caminhar.

Capítulo 25 — NÃO FAÇA POR MIM

A toalha estava sobre a cama. A blusa, ao lado. Ele havia separado tudo antes do banho, como fazia todos os dias. A rotina estava ficando eficiente. Talvez eficiente demais. Pegava. Guardava. Vestia. Ajeitava. Transferia. Organizava. Suas mãos já sabiam o que fazer antes mesmo que ele pensasse. Naquela manhã, depois do banho, aproximou-se com a blusa. — Vamos. A mãe estendeu a mão. Ele pensou que estivesse pedindo ajuda. Entregou a blusa. Ela segurou. Esperou. — Pode deixar que eu... Tentou pegá-la de volta. Ela puxou. Ele parou. — O quê? Ela segurou a roupa com mais firmeza. — Quer tentar? Um pequeno movimento de cabeça. Sim. Ele quase disse que seria difícil. Não disse. Sentou-se na ponta da cama. — Está bom. Ela olhou para a blusa. Parecia estudar o objeto. Aquilo que durante décadas vestira sem pensar agora exigia estratégia. Encontrou uma abertura. Errou. Tentou novamente. O braço com maior mobilidade entrou. Depois veio o problema. O outro. Tentou conduzir a manga. Não conseguiu. O filho se inclinou. — Deixa eu... Ela afastou sua mão. Dessa vez não havia dúvida. Não. Ele recuou. — Tá. Esperou. Ela tentou novamente. A manga dobrou. A mão não passou. Tentou puxar. A blusa ficou presa. Ele sentiu a impaciência nascer. Não com ela. Com a dificuldade. Era estranho sentir raiva de uma manga. — Quer ajuda? Ela negou. Tentou novamente. Um minuto. Talvez dois. Quando estamos esperando, dois minutos podem parecer enormes. O filho percebeu como havia se acostumado à rapidez. Pegue. Vista. Pronto. Agora precisava reaprender outra coisa. Esperar. Ela respirou fundo. Tentou posicionar o braço. Não conseguiu. Parou. O rosto mostrava irritação. Ele permaneceu quieto. Queria dizer: — Não tem problema. Mas talvez tivesse. Para ela, tinha. Então não diminuiu aquilo que ela sentia.

Esperou. Tentou novamente. A mão encontrou a manga. Pouco a pouco. O tecido avançou. Ele quase sorriu. Segurou. Ainda não. Ela puxou a roupa. O movimento saiu desajeitado. A blusa ficou torta. Parte do tecido presa. Mas o braço estava dentro. Ela parou. Olhou. Depois olhou para ele. Dessa vez ele sorriu. — Foi. Ela não sorriu. Ainda não havia terminado. Ele entendeu. — Desculpa. Ela continuou. Tentou passar a cabeça. Errou a abertura. Ele mordeu discretamente o lábio para não rir. Ela percebeu. Olhou. — Não estou rindo. O olhar dela dizia que estava. — Estou quieto. Tentou novamente. Dessa vez a cabeça apareceu pelo lugar certo. O cabelo ficou completamente bagunçado. Ele não conseguiu. Riu. A mãe fechou os olhos. Parecia ofendida. Mas então começou a rir também. — Desculpa. Ela ainda ria. — Ficou... Parou. Melhor não terminar. Ela tocou o cabelo. Percebeu. Olhou para ele com indignação. Ele riu mais. — Depois eu arrumo. Agora faltava ajeitar a roupa. Ela puxou de um lado. Depois do outro. Demorou. Finalmente terminou. A blusa estava vestida. Não perfeitamente. Mas vestida. O filho olhou para o relógio. Quase dez minutos. Se tivesse feito por ela, talvez levasse menos de um. E foi justamente aí que entendeu. Durante semanas havia medido eficiência pelo tempo que conseguia economizar. Naquela manhã, dez minutos tinham sido mais valiosos do que um. Porque aqueles dez minutos pertenciam a ela. — Quer que eu ajeite? Ela olhou para baixo. Uma parte da blusa estava dobrada. Tentou. Não conseguiu. Então concordou. Ele ajeitou apenas aquilo. Nada mais. — Pronto. Pegou o pente. Ela estendeu a mão. Ele parou. — Você também quer... Sim. Entregou. Ela tentou. O movimento era limitado. Conseguiu alcançar uma parte do cabelo. Passou o pente. Depois outra.

O resultado não era exatamente aquele que talvez desejasse. Mas continuou. Ele observava. Sentiu enorme vontade de ajudar. Não ajudou. Em determinado momento ela cansou. Entregou o pente. Agora sim. Ele terminou. Quando acabou, aproximou o espelho. Ela olhou. A blusa. O cabelo. Depois para ele pelo reflexo. — Ficou bom. Talvez ela não estivesse avaliando beleza. Talvez observasse o resultado de uma manhã inteira de esforço. — Amanhã você faz de novo? A expressão negativa foi imediata. Ele riu. — Justo. No café, colocou a colher ao alcance dela. Não disse nada. Ela pegou. Começou. Alguma comida caiu. Ele não se moveu. Outra colherada. Melhor. Continuaram assim. Em determinado momento percebeu que estava fazendo algo que não fazia havia semanas. Comendo ao mesmo tempo que ela. Antes ficava observando. Corrigindo. Ajudando. Esperando. Agora os dois tomavam café. Simplesmente. Ela precisou de ajuda em alguns momentos. Pediu. Ele ajudou. Depois voltou ao próprio prato. Talvez a autonomia não retornasse como uma porta que se abre de repente. Talvez viesse em pequenas devoluções. Hoje uma colher. Amanhã uma blusa. Depois um pente. Coisas aparentemente insignificantes. Mas cada tarefa que ela conseguia realizar retirava um pequeno pedaço da palavra dependência. Depois do café, ele foi lavar a louça. Ouviu um barulho atrás. Virou imediatamente. Ela tentava mover a cadeira. — Espera. A palavra saiu automática. Foi até ela. Parou no meio do caminho. A mãe continuava tentando. Devagar. A cadeira moveu alguns centímetros. Depois mais. Ele ficou onde estava. O caminho estava livre. Não havia perigo imediato. Então apenas observou. A cadeira avançou. Pouco. Ela parou. Respirou. Tentou novamente. Mais alguns centímetros. Quando chegou aonde queria, olhou para ele.

Havia satisfação naquele rosto. Dessa vez ele não comemorou. Apenas perguntou: — Era aí que você queria ficar? Sim. — Então está. Voltou para a pia. Sorriu enquanto lavava o prato. Estava aprendendo uma das coisas mais difíceis para quem cuida: nem toda ajuda realmente ajuda. Às vezes ajudamos porque temos pressa. Às vezes porque sentimos pena. Às vezes porque é doloroso assistir alguém lutando com uma tarefa simples. Às vezes porque precisamos nos sentires necessários. Mas, se fizermos tudo, podemos transformar cuidado em prisão. Naquela tarde, começou a observar a casa de outra maneira. O que ela conseguia alcançar? O que estava alto demais? Onde o copo deveria ficar? As roupas poderiam ser organizadas de outro jeito? Talvez, em vez de fazer tantas coisas por ela, pudesse modificar o ambiente para que algumas fossem feitas sem ele. Moveu uma pequena mesa. — Aqui fica melhor? Ela confirmou. Colocou água e alguns objetos ao alcance da mão com maior mobilidade. — E isso? Ela apontou. Ele aproximou. — Assim? Sim. Pequenas mudanças. Nenhuma reforma. Mas a casa começava a deixar de ser apenas um lugar onde ela recebia cuidados. Voltava a ser um lugar onde podia agir. Mais tarde ele exagerou. — Quer tentar pegar isso? Ela negou. — E aquilo? Não. — Quer tentar... O olhar veio. Ele parou. Levantou as mãos. — Está bom. Entendi. Ela sorriu. Outra lição. Autonomia também inclui o direito de não transformar cada minuto do dia em reabilitação. Ela podia estar cansada. Sem vontade. Ou simplesmente querer assistir televisão. Ele sentou. — Chega de treinamento. Ligou a televisão. Algum tempo depois, percebeu a mãe tentando alcançar o copo. Não se mexeu. Ela alcançou. Bebeu. Colocou de volta. Tudo sem pedir ajuda. Ele continuou olhando para a televisão.

Mas por dentro havia alguma coisa enorme acontecendo. Não pela água. Pelo silêncio. Ela precisara de alguma coisa. E conseguira. Sem chamá-lo. Ele não disse nada. Aprendera que algumas vitórias merecem a normalidade. Se comemorasse cada gole de água, talvez lembrasse continuamente à mãe que beber sozinha havia se tornado excepcional. Então deixou que fosse comum. Era exatamente isso que desejava. Que algumas coisas voltassem a ser comuns. No fim da tarde, pegou outra blusa. Instintivamente começou a vesti-la. A mãe segurou sua mão. Ele parou. Ela apontou para si. Depois para a roupa. Entendeu. Entregou. — Certo. Sentou-se. Dessa vez ela demorou um pouco menos. Ainda houve dificuldade. Ainda precisou de ajuda no final. Mas fez mais. Quando terminou, ele perguntou: — Melhor? Ela confirmou. Não estava falando da roupa. Os dois sabiam. Naquela noite, ele pensou em quantas vezes havia dito: — Deixa que eu faço. A frase parecia amorosa. E quase sempre era. Mas começava a compreender que existia outra igualmente amorosa: — Tenta você. Eu fico aqui. Talvez cuidar não fosse apenas oferecer as mãos. Talvez fosse também saber recolhê-las. Estar perto o suficiente para impedir uma queda. Mas longe o suficiente para permitir um passo. Mesmo quando esse passo ainda não fosse dado com os pés. Antes de dormir, entrou no quarto. A blusa daquela manhã estava dobrada sobre uma cadeira. Olhou. Sorriu. Uma roupa. Dez minutos. Uma batalha que ninguém viu. Uma vitória que não entraria em prontuário. Nenhum exame registraria. Nenhum laudo diria: Hoje ela vestiu parte da própria blusa. Mas ele sabia. Ela sabia. Talvez isso bastasse. Durante muito tempo imaginara que o amor seria medido pela quantidade de coisas que conseguiria fazer por ela. Agora começava a compreender outra medida.

Talvez chegasse o dia em que o maior sinal de que havia cuidado bem fosse justamente perceber que ela já não precisava dele para algumas coisas. A ideia deveria entristecê-lo. Não entristeceu. Sorriu. Porque o objetivo nunca foi tornar-se indispensável. Era ajudá-la a recuperar, onde fosse possível, o direito de dizer: — Não faça por mim. E permanecer perto o suficiente para responder: — Tudo bem. Tente.

 
 
 

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