AVC — Parte III — Capítulos 11 a 15
- Abioye Ras Barros
- há 2 dias
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Atualizado: há 2 dias
AVC — A Trajetória que Prova o Verdadeiro Amor
Abioye Ras Barros
ISBN: 978-65-02-31754-9
Capítulos 11 a 15
Capítulo 11 — QUANDO PEDIR AJUDA TAMBÉM É AMAR
Durante algum tempo, ele acreditou que conseguiria. Talvez todos nós acreditemos. Diante de uma emergência, não pensamos muito sobre limites. Fazemos. Resolvemos. Improvisamos. Carregamos. Telefonamos. Aprendemos. Dormimos pouco. Descobrimos nomes de medicamentos que nunca havíamos ouvido. Adaptamos a casa. Adaptamos a rotina. E seguimos. Existe uma espécie de força que nasce quando alguém que amamos precisa de nós. O problema é confundir essa força com infinitude. Não somos infinitos. Havia coisas que o amor sozinho não conseguia fabricar. Era preciso uma cadeira. Talvez outro equipamento. Alguém para transportar. Alguém para ficar durante algumas horas. Às vezes, simplesmente dois braços além dos seus. E então apareceu uma dificuldade que ele não esperava: pedir. Há pessoas que possuem enorme facilidade para ajudar e enorme dificuldade para dizer: — Eu preciso de ajuda. Talvez porque tenham passado a vida tentando resolver as próprias coisas. Talvez porque não desejem incomodar. Talvez porque saibam que todos também possuem seus problemas. Então tentam mais um pouco. Improvisam. Adiam. Até perceberem que existe diferença entre independência e isolamento. Não precisamos fazer tudo sozinhos para provar que amamos alguém. Ele olhou para a situação. Para a mãe. Para aquilo que faltava. E compreendeu que precisava pedir. Era por ela. Ainda assim, as palavras demoraram. Existe uma vulnerabilidade particular em tornar pública uma necessidade que até então pertencia à intimidade da casa. Quando dizemos: — Preciso de uma cadeira de rodas. Não estamos pedindo apenas um objeto. Estamos revelando uma realidade. Estamos dizendo, mesmo sem dizer: alguém que amo não consegue caminhar como antes. Finalmente escreveu. Sem exigir. Sem transformar necessidade em cobrança.
Contou a situação. Precisava conseguir emprestada uma cadeira de rodas. Se alguém conhecesse quem pudesse ajudar, receberia com gratidão. Enviou a mensagem. E esperou. Depois de um pedido de ajuda existe um silêncio estranho. Será que incomodei? Alguém responderá? Será que ninguém poderá ajudar? O telefone permaneceu próximo. Uma mensagem chegou. Não era sobre isso. Outra. Também não. Então alguém respondeu. Depois outro. Uma pessoa perguntou. Outra procurou. Alguém conhecia alguém. Um amigo telefonou para outro. E aquilo que parecia um pedido lançado no vazio começou a percorrer caminhos que ele já não conseguia acompanhar. É assim que a solidariedade funciona muitas vezes. Não como linha reta. Como rede. Uma pessoa não possui aquilo de que você precisa, mas conhece alguém. Esse alguém pergunta em outro lugar. Outro telefona. Alguém se lembra de uma igreja. De uma comunidade. De uma instituição. De um conhecido. E, de repente, pessoas que talvez nem conheçam aquela mãe estão procurando uma cadeira para ela. — Vou ver se consigo. Talvez seja uma das frases mais bonitas que alguém possa dizer diante da necessidade do outro. Não é promessa. É disposição. Até que chegou a notícia. Conseguiram. A cadeira seria emprestada. Para quem observa de fora, era apenas uma cadeira. Quatro rodas. Estrutura. Assento. Apoio. Naquela casa, porém, significava outra coisa. Deslocamento. Segurança. Possibilidade de sair da cama. Chegar a outro cômodo. Ir a uma consulta. Tomar sol. Olhar o mundo por outra janela. Quando a cadeira entrou pela porta, a mãe olhou para ela. Havia algo difícil naquele encontro. Objetos de adaptação possuem uma contradição. Resolvem um problema e, ao mesmo tempo, tornam visível uma perda. Para o cuidador, a cadeira representava ajuda.
Para quem precisava se sentar nela depois de caminhar durante uma vida inteira, talvez representasse aquilo que o corpo já não conseguia fazer. Os dois olhavam para o mesmo objeto. Não necessariamente enxergavam a mesma coisa. Era preciso delicadeza. — Vamos tentar? Ela se sentou. Ele ajustou os pés. As mãos. A posição. Verificou se estava confortável. Então empurrou devagar. As rodas começaram a girar. Poucos metros. A porta. O corredor. A sala. Outra janela. Talvez o sol. Depois de tantos dias vendo o mundo quase sempre do mesmo ponto, a paisagem se movia novamente. E aquela cadeira que parecia anunciar uma limitação começava silenciosamente a oferecer liberdade. Uma cadeira não dizia: “Você nunca mais caminhará.” Dizia: “Enquanto caminhar for difícil, posso levar você.” Era diferente. Um apoio não precisava ser derrota. Uma adaptação não precisava significar rendição. Podia ser ponte. Mas havia outra coisa naquela cadeira. Algo invisível. As mãos de quem ajudara. Uma pessoa localizou. Outra fez contato. Outra organizou. Outra transportou. Talvez alguém que jamais encontraria aquela mãe tivesse participado. Por isso, quando ele olhava para a cadeira, não enxergava somente metal e rodas. Enxergava pessoas. Amizade. Fraternidade. A prova concreta de que um pedido de ajuda encontrara gente disposta a responder. Durante muito tempo ouvira: “Ninguém faz nada sozinho.” Agora começava a compreender. Não fazemos. Nem deveríamos. A ideia de suportar tudo sozinho não nos torna necessariamente mais fortes. Às vezes apenas nos torna mais cansados. Haveria momentos em que alguém precisaria empurrar a cadeira. Segurar uma porta. Buscar alguma coisa. Ficar durante uma hora. Ou simplesmente ouvir. Talvez amanhã fossem eles ajudando outra pessoa. É assim que a humanidade continua:
não porque todos consigam carregar os próprios pesos, mas porque, de vez em quando, alguém percebe o peso do outro e coloca a mão embaixo. Naquela noite, a cadeira permaneceu num canto da casa. Silenciosa. As rodas imóveis. A mãe dormia. Ele passou por ela e parou. Durante dias, aquele objeto fora uma necessidade. Agora estava ali. Conseguiram. Não: “Consegui.” Conseguiram. A palavra importava. Até então, grande parte da jornada parecia acontecer entre duas pessoas. Mãe e filho. Um corpo ferido. Outro tentando sustentá-lo. A cadeira dizia que existiam outros. Talvez não estivessem dentro daquela casa todos os dias. Talvez jamais compreendessem completamente a batalha. Mas estavam presentes de alguma maneira. E ele percebeu que agradecer também fazia parte do cuidado. A quem telefonou. A quem procurou. A quem emprestou. A quem transportou. A quem perguntou. A quem respondeu: — Conte comigo. Gratidão não era pagamento. Era memória. Era dizer: Eu não esquecerei que, quando precisei, você apareceu. Um dia aquela cadeira talvez fosse devolvida. As circunstâncias poderiam mudar. Mas existia algo que não seria devolvido junto com ela. O gesto. Objetos voltam para seus donos. A bondade permanece com quem a recebeu. Talvez ninguém se lembrasse futuramente da marca da cadeira. Da cor. Do modelo. Mas alguém se lembraria de que, num momento difícil, pediu ajuda. E pessoas responderam. Naquela noite, olhando para a mãe e depois para a cadeira, ele compreendeu: continuaria fazendo tudo o que estivesse ao seu alcance. Mas não precisava provar seu amor carregando tudo sozinho. Aceitar outras mãos não diminuía as suas. Pedir ajuda não diminuía sua força. Talvez amar alguém também significasse reconhecer: sozinho eu não consigo tudo.
E permitir que outras amizades, outros afetos e outras formas de bondade participassem daquela história. Porque existem pesos que a vida coloca sobre nossos ombros. E existem pessoas que aparecem para dizer: — Deixe-me carregar um pedaço. Às vezes, é assim que Deus chega. Outras vezes, talvez seja simplesmente assim que os seres humanos aprendem a ser humanos. Em ambos os casos, a porta precisa estar aberta.
Capítulo 12 — OS QUE CHEGAM E OS QUE DESAPARECEM
A doença não muda apenas o corpo de quem adoece. Ela muda o mapa ao redor. De repente, algumas pessoas se aproximam. Outras se afastam. Algumas que imaginávamos que estariam conosco não aparecem. Outras, das quais nada esperávamos, chegam carregando justamente aquilo de que precisávamos. Nos primeiros dias, o telefone toca muito. — Como ela está? — Precisa de alguma coisa? — Qualquer coisa, me chama. Há mensagens. Orações. Palavras. Preocupação. E tudo isso importa. Não devemos diminuir a força de uma mensagem enviada no momento certo. Às vezes, quem está cuidando passa horas sem conversar verdadeiramente com ninguém. Então o telefone vibra. — Estou pensando em vocês. Durante alguns segundos, aquela frase lembra que existe alguém do outro lado da parede. Mas os dias passam. A emergência deixa de ser novidade. A vida dos outros continua. O telefone toca menos. As mensagens diminuem. E o cuidador descobre uma verdade difícil: a doença pode permanecer muito depois que a comoção termina. Para quem está de fora, passaram-se semanas. Para quem está dentro da casa, a rotina continua. O banho. Os medicamentos. A dificuldade para levantar. A alimentação. A cadeira. O medo. À noite. Aquilo que começou como emergência transformou-se em cotidiano. Talvez seja justamente nessa fase que o cuidador mais precise de presença. Não de multidões. De constância. Existe diferença entre visitar a dor e conviver com ela. Quem visita pode ir embora. Quem cuida permanece depois que a porta fecha. Talvez por isso algumas perguntas machuquem mesmo quando não existe intenção. — Ela ainda não está andando? Ainda. Uma palavra pequena. Mas pesada. Como se houvesse um prazo. Como se o corpo tivesse recebido um calendário. Como se a recuperação estivesse atrasada. Ele respirava. Explicava.
Cada pessoa possuía seu tempo. Existiam sequelas. Reabilitação. Possibilidades. Incertezas. Depois mudava de assunto. Mas a palavra permanecia um pouco dentro dele. Ainda. Outras vezes perguntavam: — Quando ela vai voltar ao normal? E ele já não sabia exatamente o que significava normal. Normal era ontem? Caminhar? Falar como antes? Conseguir realizar tudo sem ajuda? Ou talvez normal fosse apenas o nome que damos às coisas quando permanecem iguais por tempo suficiente. A vida havia mudado. Talvez fosse necessário construir outra normalidade. Mas existiam aqueles que simplesmente chegavam. Não perguntavam demais. Não exigiam explicações. Não ofereciam teorias. Chegavam. — Trouxe comida. — Vou ficar aqui um pouco. — Precisa que eu busque alguma coisa? — Vou com você. Frases pequenas. Mas existem momentos em que uma frase pequena sustenta uma casa inteira. O filho começou a perceber que ajuda verdadeira quase sempre possuía verbo. Telefonar. Buscar. Levar. Ficar. Ouvir. Cozinhar. Emprestar. Acompanhar. Segurar. Às vezes dizemos: — Se precisar, é só falar. E dizemos com sinceridade. Mas quem está exausto pode não possuir energia sequer para descobrir o que pedir. Talvez seja melhor perguntar: — O que posso fazer hoje? Ou oferecer algo concreto: — Posso ficar com ela por uma hora enquanto você resolve suas coisas? A ajuda concreta retira uma decisão das costas de quem já está tomando decisões demais. E então aparecem pessoas inesperadas. Um conhecido. Um vizinho. Um amigo de um amigo. Alguém de uma igreja. Uma pessoa que ouviu falar. Talvez alguém que nunca tenha sentado à mesa daquela família. E essa pessoa faz alguma coisa. Simples. Mas necessária. Foi assim que ele descobriu que solidariedade nem sempre obedece à intimidade.
Às vezes quem está próximo pela história se torna distante no momento. E quem estava distante pela história aproxima-se pelo gesto. Isso podia gerar mágoa. Era preciso admitir. Quando estamos fragilizados, percebemos ausências com mais intensidade. Um nome atravessa o pensamento. — Pensei que viria. Talvez não venha. Outro nome. — Achei que telefonaria. Talvez não telefone. Então surgem perguntas. Será que não se importa? Será que esqueceu? Será que não sabe? Nem sempre teremos respostas. Algumas pessoas se afastam porque não sabem lidar com doença. Outras sentem medo. Algumas acreditam que vão incomodar. Outras enfrentam problemas que desconhecemos. E existem também aquelas que simplesmente escolheram não estar. Isso acontece. Mas guardar rancor exige energia. E o cuidador já precisa de energia para coisas demais. Talvez exista uma liberdade silenciosa em parar de contar quem não veio e começar a agradecer quem chegou. Porque quantidade nunca foi a melhor medida para presença. Uma pessoa que permanece pode valer mais do que cinquenta mensagens protocolares. Certa tarde, alguém apareceu apenas para visitar. Sentou-se. Conversou. A mãe observava e participava como conseguia. O filho ouviu outra voz dentro da casa. Falaram sobre coisas comuns. Uma história. Uma lembrança. Talvez tenham rido. Durante alguns minutos, aquela casa deixou de ser o lugar onde existia uma pessoa em recuperação. Voltou a ser simplesmente uma casa onde pessoas conversavam. Isso também curava alguma coisa. Talvez não o corpo. Mas o ambiente. A doença possui uma força gravitacional. Tudo começa a girar ao redor dela. Os horários. Os pensamentos. As conversas. Os medicamentos. Os exercícios. Os prognósticos. Até parecer que não existe mais nada.
Por isso era precioso quando alguém chegava e, depois de perguntar pela mãe, falava também sobre a vida. Contava uma novidade. Uma bobagem. Fazia rir. O riso não desrespeitava o sofrimento. Às vezes era justamente aquilo que permitia suportá-lo. Havia até culpa para rir. Ele podia passar dias preocupado e, de repente, alguma coisa engraçada acontecia. Ria. Durante alguns segundos sentia-se leve. Logo depois surgia o pensamento: Como posso estar rindo com tudo isso acontecendo? Podia. A alegria não traía a dor. Às vezes era apenas uma janela aberta dentro dela. Talvez a própria mãe sorrisse. Então todos riam. Por alguns minutos ninguém pensava em sequelas. Havia apenas pessoas. Depois o silêncio retornava. Mas alguma coisa ficava mais leve. Era assim também com aqueles que ajudavam. A pessoa que emprestou uma cadeira podia pensar: — Foi só uma cadeira. Não foi. Quem trouxe comida: — Foi só uma refeição. Não foi. Quem permaneceu durante uma hora: — Foi só uma hora. Não foi. Para alguém que cuida continuamente, uma hora pode significar mercado. Farmácia. Banho. Sono. Silêncio. Ou simplesmente sentar-se em algum lugar sem precisar observar nada. Nunca sabemos o tamanho de nossa ajuda porque não estamos vivendo do outro lado dela. Talvez por isso não devêssemos esperar oportunidades grandiosas para fazer o bem. Quase nunca é grandioso. É uma sacola. Uma carona. Uma cadeira. Uma mensagem. Uma visita. Uma hora. Uma escuta. Uma mão. Talvez o mundo seja sustentado principalmente por pequenos atos de gente comum que decidiu não ser indiferente. Com o tempo, o filho passou a reconhecer essas pessoas. Não precisava de listas. O coração possuía sua própria memória. Lembrava de quem apareceu. De quem perguntou. De quem procurou. De quem ofereceu. De quem fez.
E algo mudou em relação aos ausentes. No início havia perguntas. Depois diminuíram. Não porque deixasse de sentir. Mas porque compreendeu que não poderia construir aquela travessia olhando para cadeiras vazias. Era preciso olhar para quem estava sentado ao lado. Talvez seja uma lição dura. A presença inesperada nos ensina que o amor humano não respeita completamente os mapas que desenhamos. Às vezes família vem pelo sangue. Às vezes pela amizade. Às vezes pela fé. Às vezes chega carregando uma cadeira de rodas e nem sabe que acabou de entrar numa memória que permanecerá por toda uma vida. Isso não precisa nos tornar amargos. Pode nos tornar atentos. Atentos a quem permanece. A quem tenta. A quem não sabe o que dizer, mas se senta ao nosso lado. Atentos também para não exigir perfeição das pessoas que nos amam. Talvez aquele amigo não consiga visitar, mas telefone. Outro não saiba conversar sobre doença, mas consiga buscar medicamentos. Outro não tenha dinheiro, mas tenha duas horas. Outro não tenha duas horas, mas conheça alguém capaz de ajudar. Cada pessoa oferece aquilo que consegue. Amor também precisa saber receber diferentes formas de presença. Um dia, talvez ele estivesse do outro lado. Outra pessoa enviaria uma mensagem. Precisaria de alguma coisa. Talvez uma cadeira. Talvez companhia. Talvez apenas alguém que escutasse. E ele se lembraria. Não somente do que sofreu. Mas de quem apareceu. Então talvez respondesse: — Vou ver o que consigo fazer. E repetiria a mesma corrente que um dia chegara até sua porta. Talvez seja assim que o bem sobrevive. Alguém nos ajuda. Guardamos aquilo dentro de nós. Depois encontramos outra pessoa precisando. E devolvemos ao mundo. Não necessariamente para quem nos ajudou. Nem da mesma maneira. Mas devolvemos.
Naquela casa, a doença havia levado muitas coisas. Parte da autonomia. Parte da fala. Parte dos movimentos. Algumas certezas. Mas também havia revelado. Revelara limites. Ausências. E pessoas. Pessoas que chegaram. Pessoas que ficaram. Pessoas que fizeram alguma coisa. Talvez seja isso que permaneça depois das grandes tempestades. Não lembramos apenas da chuva. Lembramos de quem dividiu o guarda-chuva. A gratidão possui uma memória diferente. Ela não guarda somente quem fez. Guarda como nos sentimos quando alguém fez. E existem sentimentos que o tempo não apaga. Por isso, quando alguém perguntasse: — Quem esteve com vocês? Talvez a resposta mais verdadeira não fosse uma lista de nomes. Talvez fosse: — Houve pessoas. E graças a elas, em alguns dos dias mais difíceis, eles não estiveram completamente sozinhos. Há dores que não podem ser divididas. Mas o peso ao redor delas pode. E, quando alguém aceita carregar um pouco desse peso, mesmo que apenas por alguns metros, a estrada continua difícil. Mas deixa de parecer infinita.
Capítulo 13 — A MADRUGADA PERTENCE A QUEM CUIDA
Durante o dia ainda existe o mundo. Há barulho. Telefonemas. Remédios. Comida. Banho. Exercícios. Coisas para resolver. O movimento ocupa a cabeça e, por algumas horas, impede determinados pensamentos de encontrar espaço. Mas chega a noite. E depois dela, a madrugada. É quando a casa muda. As luzes se apagam. Os vizinhos silenciam. Os carros diminuem nas ruas. O telefone quase não toca. O mundo parece dizer: — Agora descanse. Mas quem cuida nem sempre consegue obedecer. Porque o corpo pode deitar-se. A responsabilidade, não. Ele ajeitava a mãe na cama. Conferia a posição. O travesseiro. A coberta. A água. Aquilo que precisava permanecer próximo. — Está confortável? Esperava algum sinal. Apagava a luz. Ou deixava uma pequena luz acesa. Depois ia tentar dormir. Tentar. A palavra importava. Dormir depois que alguém que amamos adoece pode deixar de ser um ato simples. Antes, fechávamos os olhos. Agora escutamos. Um ruído. Um movimento. Uma tosse. O ranger da cama. Alguma coisa caindo. Os olhos se abrem. Silêncio. Ele escuta. Nada. Fecha novamente. Pouco depois, outro som. Levanta. Vai até o quarto. Ela está dormindo. Volta. Deita. O corpo pede descanso. Mas a mente permanece sentada ao lado da cama dela. Existe uma vigilância que ninguém ensinou. Ela nasce do medo. Medo de que precise de alguma coisa e não consiga chamar. Medo de uma queda. Medo de uma mudança. Medo de dormir profundamente demais. Medo, principalmente, daquela pergunta que o cuidador evita formular: E se acontecer alguma coisa enquanto eu estiver dormindo? Então tenta negociar com o próprio sono. Descansar sem abandonar a vigilância. Dormir sem realmente dormir. Estar em dois lugares ao mesmo tempo. Impossível. Mesmo assim, durante algumas noites ele tenta. Duas da manhã. Os olhos abrem. Não houve barulho.
Ele simplesmente acordou. Levanta. Vai verificar. Ela respira. Está tudo bem. Volta. Três e pouco. Novamente. Quatro. Talvez outra vez. Quando amanhece, alguém pergunta: — Dormiu bem? — Dormi. Porque explicar seria trabalhoso demais. Há cansaços que não aparecem imediatamente no rosto. Acumulam-se. Uma noite. Depois outra. Depois outra. O corpo começa a funcionar por obrigação. Café. Água no rosto. Alguma coisa para comer rapidamente. E o dia começa novamente. A pessoa que precisa de cuidados não pode esperar que o cuidador tenha dormido oito horas. A necessidade não consulta nosso descanso. Não existe botão de pausa. Você pode estar exausto. Triste. Preocupado. Com dor. Ainda assim, existe medicamento no horário. Comida. Higiene. Alguém que precisa levantar. Existe vida. E a vida continua pedindo coisas justamente quando acreditamos não ter mais nada para oferecer. Durante o dia podemos representar força. A madrugada conhece a verdade. É nela que surgem as perguntas escondidas. Será que estou fazendo certo? Será que ela vai melhorar? Será que conseguirá andar novamente? Será que a fala voltará? Será que estou esquecendo alguma coisa? Será que conseguirei continuar assim? E existe outra. Mais assustadora. Uma pergunta que ele expulsa da cabeça assim que aparece: E se eu a perder? Não. Não pense nisso. Fecha os olhos. Mas pensamentos não obedecem. É estranho perceber que amar alguém também significa conviver com a possibilidade de perdê-lo. Sempre foi assim. Mesmo antes da doença. A diferença é que não pensávamos nisso. O cotidiano nos protegia dessa consciência. Ela acordava. Caminhava. Falava. Reclamava. Fazia suas coisas. E todos confundiam repetição com garantia. A doença quebra essa ilusão. De repente entendemos: ninguém nos prometeu amanhã.
Talvez por isso ele olhasse para a mãe de maneira diferente durante a madrugada. Sem tarefas. Sem pressa. Sem ninguém por perto. Apenas observava. O rosto. A respiração. Os cabelos. As mãos. A mulher naquela cama carregava uma história que começara muito antes dele. Antes de ser mãe, fora menina. Tivera medos. Sonhos. Perdas. Talvez tivesse chorado escondida. Talvez enfrentado coisas sobre as quais nunca falou. Depois, em algum momento, tornou-se mãe. E grande parte de sua história passou a ser conhecida por uma única palavra: mãe. Mas existia uma mulher inteira dentro daquela palavra. A madrugada permitia enxergá-la. Não apenas como alguém que agora precisava de cuidados. Nem somente como aquela que cuidara dele. Mas como um ser humano que atravessara uma existência. Uma pessoa que também sentira medo. Que também precisara ser forte quando talvez não quisesse. Que também devia ter vivido madrugadas acordadas por causa dele. Quantas? Ele não sabia. Talvez jamais soubesse. E então a cena se invertia novamente. Ele estava próximo à cama. Ela dormia. E uma pergunta aparecia: Quantas vezes ela fez isso por mim? Quando tive febre? Quando adoeci? Quando era pequeno demais para lembrar? Quantas vezes abriu a porta apenas para verificar se eu respirava? Quantas vezes perdeu o sono e, no dia seguinte, continuou trabalhando? Não existem registros. Nenhuma fotografia. Nenhuma testemunha. O amor materno possui capítulos que os filhos nunca lerão. Foram escritos enquanto dormíamos. Agora, décadas depois, uma mulher dormia enquanto o menino que ela criara permanecia acordado. Ele não estava pagando nada. Amor não é dívida. A vida apenas havia virado a página. Mas não existia somente ternura. Seria injusto fingir. Existia exaustão. Irritação.
Havia noites em que olhava para o relógio e quase implorava: — Por favor, eu só preciso dormir. Isso não o tornava pior. Tornava-o humano. Talvez colocasse a cabeça no travesseiro e chorasse de cansaço. Nem sempre era tristeza. Às vezes o corpo chorava porque não conhecia outra maneira de dizer: Eu cheguei ao meu limite. Então vinha a culpa. Como posso reclamar? Ela é quem está doente. Mas essa comparação era cruel. O sofrimento de quem estava doente não anulava o sofrimento de quem cuidava. Eram sofrimentos diferentes. Não precisavam disputar legitimidade. Uma pessoa enfrentava as sequelas. A outra estava exausta tentando sustentá-la. Ambas continuavam humanas. O amor não podia ser medido pela quantidade de sofrimento suportado em silêncio. Quanto mais amo, mais devo aguentar? Não. Quanto mais amo, mais preciso compreender que também sou um corpo. Também preciso dormir. Comer. Respirar. Sair. Conversar. Receber ajuda. Porque, se o cuidador cair, surgirão duas pessoas precisando de cuidados. Mas compreender isso às três da manhã é difícil. Às três da manhã ninguém pensa como filósofo. Pensa como alguém cansado. O relógio anda devagar. A casa parece maior. Os ruídos parecem mais altos. Cada hora vencida parece uma travessia. Talvez ela chame. Um som. Ele se levanta imediatamente. — O que foi? Água? Posição? Dor? Banheiro? Alguma coisa incomoda. Ele resolve como consegue. Ajeita. Pergunta novamente. Ela parece melhor. Antes de sair, segura sua mão. Ela aperta. Pouco. Mas aperta. E alguma coisa muda. Não porque o cansaço desapareceu. Ele continuava cansado. Ainda precisava dormir. Ainda existiam problemas. Mas aquele pequeno aperto parecia dizer: Eu sei que você está aqui. Talvez fosse apenas a tradução do coração. Não importava. Ele voltava para a cama. Olhava o relógio.
Faltavam poucas horas para amanhecer. Fechava os olhos. Talvez dormisse. Um sono curto. Quando acordava, a claridade começava a atravessar a janela. A madrugada terminara. Passou. Mais uma noite. E, depois de tudo, descobrir que nada aconteceu podia ser uma notícia maravilhosa. Ela estava ali. Ele estava ali. O dia começava. Levantava-se. Talvez com dores. Ainda cansado. Ia até o quarto. Abriria um pouco a janela. A luz entraria. E, durante alguns segundos, olharia para aquela claridade como quem observa uma promessa. Não a promessa de cura. Seria injusto exigir tanto do amanhecer. Apenas uma promessa mais simples: existe outro dia. Talvez fosse assim que aprendia a sobreviver. Não carregando o mês inteiro. Nem todos os anos que poderiam vir. Não perguntando todas as manhãs quanto tempo ainda conseguiria. Apenas atravessando. Uma manhã. Uma tarde. Uma noite. Uma madrugada. Depois outra manhã. Há montanhas que não conseguimos subir olhando para o topo. Precisamos olhar para o próximo passo. Talvez cuidar fosse assim. Hoje. Somente hoje. O banho de hoje. O medicamento de hoje. A comida de hoje. A paciência de hoje. A esperança de hoje. Amanhã teria suas próprias necessidades. A mãe começava a despertar. Ele se aproximava. — Bom dia. Talvez ela respondesse com um olhar. Talvez tentasse uma palavra. Talvez apenas percebesse sua presença. Ele sorria. Não porque tivesse dormido bem. Não porque os problemas houvessem desaparecido. Não porque soubesse como tudo terminaria. Sorria porque os dois haviam chegado novamente à manhã. E algumas manhãs, depois de determinadas madrugadas, são vitórias.
Capítulo 14 — O DIA EM QUE PERCEBI QUE ESTAVA DESAPARECENDO
No começo, ninguém percebe. Nem mesmo quem cuida. A vida apenas vai mudando de lugar. Primeiro um compromisso é adiado. Depois outro. Uma saída deixa de acontecer. Uma conversa fica para depois. Um livro não é aberto. Uma mensagem não é respondida. Um plano perde a urgência. E tudo parece justificável. Há alguém precisando de cuidado. Então o restante pode esperar. Só que o restante também é vida. O cuidador começa a viver por intervalos. Come quando dá. Dorme quando consegue. Toma banho rápido. Resolve o indispensável. As horas já não lhe pertencem completamente. Tudo passa a ser organizado ao redor das necessidades de outra pessoa. Durante algum tempo, isso parece natural. Talvez até necessário. Mas chega um momento em que a pergunta muda. Já não é: — Como vou cuidar? Passa a ser: — Onde eu fiquei dentro disso tudo? Às vezes essa pergunta aparece diante do espelho. Não em grandes reflexões. De maneira simples. Você olha para o próprio rosto e percebe. Cansaço. Olheiras. Barba por fazer. Cabelos sem atenção. A roupa escolhida apenas porque estava mais fácil. Não é vaidade. É estranhamento. Por alguns segundos, o rosto parece conhecido e distante ao mesmo tempo. — Sou eu? É. Mas alguma coisa está diferente. Talvez não seja apenas aparência. Talvez seja ausência. Há quanto tempo não faço alguma coisa apenas porque gosto? A pergunta incomoda. Parece egoísta. Então o cuidador a empurra para longe. Não é hora disso. Há coisas mais importantes. E existem. Mas uma coisa ser urgente não torna todo o restante irrelevante. O problema é que o amor, quando misturado ao medo, pode começar a ocupar todos os espaços. Você não sai porque pode acontecer alguma coisa. Não dorme porque pode acontecer alguma coisa. Não permite que outra pessoa ajude porque talvez não faça do mesmo jeito.
Não se afasta porque podem precisar de você. Então a casa encolhe. Primeiro fisicamente. Depois emocionalmente. Até que o mundo inteiro parece caber entre uma cama, uma cadeira, uma cozinha e um banheiro. Um dia alguém pergunta: — E você, o que tem feito? A resposta demora. Não porque faltem atividades. Há atividades demais. Mas talvez a pergunta signifique outra coisa: O que você tem feito por você? E então vem o silêncio. Cuidar pode consumir identidade sem fazer barulho. A pessoa deixa de ser filho. Amigo. Profissional. Escritor. Homem. Mulher. Alguém com interesses, desejos e projetos. Passa a ser: o cuidador. Tudo converge para essa função. — Como sua mãe está? — Como ela dormiu? — Melhorou a fala? Quase ninguém pergunta: — E você? Talvez por isso, depois de algum tempo, o próprio cuidador deixe de perguntar também. Existe um desaparecimento que não acontece de uma vez. Ninguém some. Apenas vai se deixando para depois. Depois eu descanso. Depois eu saio. Depois eu volto a ler. Depois eu escrevo. Depois eu vejo meus amigos. Depois eu cuido de mim. Depois. Depois. Depois. Até perceber que construiu a própria vida numa sala de espera. E então surge a culpa. Como posso pensar em mim agora? Ela é quem está doente. Eu deveria agradecer por estar bem. Deveria suportar. Deveria ser forte. Existe muito “deveria” dentro de quem cuida. E todos pesam. Mas culpa não é amor. Sofrer mais não reduz o sofrimento do outro. Privar-se completamente da vida não devolve movimento a quem perdeu. Não faz a fala voltar. Não reabilita. Não cura. Apenas produz uma segunda pessoa esgotada dentro da mesma casa. Isso não significa abandonar. Significa permanecer de maneira possível. Porque permanecer também precisa ser sustentável. Não podemos oferecer aquilo que já não existe dentro de nós.
Paciência exige alguma reserva. Delicadeza exige descanso. Força exige alimento. Lucidez exige sono. Talvez por isso o primeiro gesto de autocuidado seja pequeno. Uma xícara de café tomada devagar. Dez minutos no sol. Um banho sem pressa. Uma conversa que não seja sobre doença. Uma caminhada curta. Uma música. Uma página de livro. Uma oração. Uma linha escrita. Alguma coisa que diga: eu ainda existo. No começo, até isso parece errado. O cuidador senta-se por alguns minutos e imediatamente pensa: Eu deveria estar fazendo alguma coisa. Sempre existe alguma coisa. Uma louça. Uma roupa. Um medicamento para conferir. Uma tarefa. Mas algumas coisas podem esperar quinze minutos. O mundo talvez não desabe. E, se desabar porque alguém se sentou por quinze minutos, então aquele mundo já estava pesado demais. Talvez a primeira libertação seja descobrir que nem tudo precisa ser feito imediatamente. Nem tudo precisa ser perfeito. Nem tudo precisa ser feito por uma única pessoa. Uma tarde, alguém se oferece: — Pode ir. Eu fico com ela. O cuidador hesita. — Tem certeza? — Tenho. Explica tudo. A água. Os medicamentos. Como ajudar. O que observar. Explica novamente. Volta. Repete. Até perceber que está adiando a própria saída. Depois de tanto tempo sendo indispensável, afastar-se durante uma hora também provoca medo. Finalmente sai. Fecha a porta. E acontece algo estranho. O mundo continua. Pessoas caminham. Um ônibus passa. Alguém conversa no portão. O céu continua ali. Tudo parece absurdamente normal. Como o mundo consegue continuar quando minha vida mudou tanto? Mas existe conforto nessa normalidade. Ela lembra que ainda há vida fora daquela casa. Ele caminha. Não precisa ir longe. Talvez até uma padaria. Talvez algumas ruas. No início, olha constantemente para o telefone.
Nenhuma mensagem. Continua. Depois percebe que está respirando diferente. Não está carregando ninguém. Não está verificando nada. Está apenas andando. Então surge a culpa. Ela está em casa e eu estou aqui. Volte logo, diz uma voz. Outra responde: Você vai voltar. Você não abandonou ninguém. Está apenas respirando. Talvez seja necessário aprender essa diferença. Sair não é abandonar. Dormir não é abandonar. Rir não é abandonar. Ter alguns minutos de paz não é abandonar. Continuar possuindo sonhos não é abandonar. Existe uma crueldade em acreditar que precisamos adoecer junto para provar que amamos. Ele volta. Abre a porta. Tudo está bem. Talvez a mãe tenha dormido. Talvez tenha conversado com quem ficou. Nenhuma catástrofe aconteceu. E então descobre uma coisa simples e revolucionária: Eu posso sair e voltar. Parece pouco. Não é. Agora existe a possibilidade de reconstruir pequenas fronteiras. Não para separar amor e vida. Mas para permitir que coexistam. O amor precisa aprender a confiar em outras mãos quando possível. Isso também é difícil. Ele conhece cada detalhe. Sabe como posicioná-la. Como ela prefere determinadas coisas. Interpreta alguns gestos. Quando outra pessoa assume, faz diferente. Não necessariamente errado. Diferente. E será necessário permitir. Nem tudo precisa acontecer exatamente do seu jeito para funcionar. Receber ajuda também exige desapego. Certa noite, depois de um dia especialmente cansativo, ele percebe que não escreve há muito tempo. Talvez olhe para um caderno. Um computador. Um livro. Alguma coisa ligada à pessoa que existia antes do AVC entrar naquela casa. O objeto parece pertencer a outra vida. Ele toca. Abre. E sente algo difícil de explicar. Saudade de si mesmo. Talvez seja uma das saudades mais estranhas.
Sentir falta da pessoa que ainda somos, mas que deixamos de visitar. Então escreve uma linha. Só uma. Não precisa ser boa. “Hoje estou cansado.” Depois outra. “Tenho medo de esquecer quem eu era.” E, sem perceber, começa a retornar. Não ao passado. Ele também mudou. Retorna a algum lugar dentro de si que ainda estava vivo. O cuidado talvez transforme tudo. A escrita. As conversas. Os valores. As prioridades. Talvez nunca sejamos exatamente as mesmas pessoas. Mas existe diferença entre transformação e apagamento. Transformar-se é continuar existindo de outra maneira. Apagar-se é acreditar que nossa existência deixou de importar. Nenhum amor deveria exigir apagamento. Talvez principalmente o amor mais profundo. Então ele começa a construir pequenos territórios. Meia hora. Uma conversa. Um café. Uma leitura. Uma ida à rua. Um momento de silêncio. Talvez uma noite em que outra pessoa fique para que ele durma. Pequenas janelas. E pelas janelas entra ar. Há um momento em que compreendemos que nossa vida não precisa esperar a recuperação completa de quem amamos para continuar. Porque ninguém sabe quanto tempo a recuperação levará. Ninguém sabe até onde chegará. Se suspendermos nossa existência até que tudo se resolva, talvez descubramos tarde demais que a vida nunca foi uma sala de espera. Ela estava acontecendo o tempo inteiro. A mãe continua precisando dele. Isso não mudou. Mas talvez também precise de um filho vivo por dentro. Não apenas funcional. Não apenas responsável. Não apenas disponível. Um filho que ainda consiga sorrir. Contar histórias. Trazer novidades. Escrever. Ter esperança. Existir. Talvez, se pudesse dizer tudo com clareza, nenhuma mãe desejasse olhar para o filho e descobrir que ele destruiu a própria vida para cuidar dela. Talvez dissesse:
— Vá viver um pouco. — Depois volte. — Conte o que viu. Às vezes precisamos dessa permissão. Mesmo adultos. Talvez ela não consiga concedê-la em palavras. Então ele precisará concedê-la a si mesmo. Pode descansar. Pode respirar. Pode rir. Pode escrever. Pode continuar sonhando. E voltar. Sempre voltar. Porque o objetivo nunca foi fugir do cuidado. Foi não desaparecer dentro dele. Talvez não exista segredo para conseguir. Existem dias. Um depois do outro. Erros. Cansaço. Ajuda. Medo. Pequenos descansos. Algumas lágrimas. Algumas risadas. E a descoberta de que cuidar de alguém também exige incluir a si mesmo entre as pessoas que merecem cuidado. Talvez esse seja o ponto mais difícil: colocar o próprio nome na lista. Água para ela. Medicamento para ela. Comida para ela. Descanso para ela. E: água para mim. Comida para mim. Sono para mim. Um pouco de vida para mim. Não por egoísmo. Por continuidade. Naquela noite ele entra no quarto. A mãe está acordada. Segura sua mão. Continua cansado. Mas está um pouco mais presente. Porque presença não é apenas quantidade de horas. É também aquilo que conseguimos oferecer quando estamos ali. Ele finalmente percebe: não precisa morrer aos poucos para provar que permanecerá. Pode cuidar. Pode amar. Pode se cansar. Pode pedir ajuda. Pode sair durante algum tempo. Pode voltar. Pode existir. Não dois corpos afundando juntos. Mas duas vidas tentando permanecer acima da água. Às vezes uma sustenta a outra. Às vezes alguém de fora sustenta as duas. E, em determinados momentos, o próprio cuidador precisa agarrar uma margem. Não para abandonar quem ama. Mas para conseguir continuar puxando. Antes de dormir, olha novamente para o espelho. O cansaço permanece. As preocupações também. A vida não voltou ao que era. Mas dessa vez reconhece o rosto.
Ainda está aprendendo quem se tornou. Mas reconhece. E isso basta. O cuidado mudou sua vida. Sua rotina. Seu corpo. Suas prioridades. Mas não precisa levar seu nome. Ele continua ali. Filho. Cuidador. Ser humano. Alguém com medo. Alguém com sonhos. Alguém que ama profundamente. E alguém que também merece continuar existindo. Porque cuidar de quem amamos não exige que deixemos de amar a vida que ainda existe em nós. Talvez seja exatamente essa vida que nos permitirá permanecer.
Capítulo 15 — O QUE SERÁ QUE ELA SENTE?
Essa pergunta aparece muitas vezes. Quase sempre em silêncio. O filho olha para a mãe e pensa: O que será que está acontecendo dentro dela? Não no corpo. Sobre o corpo existem exames. Laudos. Avaliações. Profissionais. Mas e dentro? O que ela sente quando tenta mexer um braço e ele não responde? O que pensa quando uma palavra não consegue sair? O que acontece dentro de alguém quando precisa de ajuda para fazer aquilo que durante toda a vida fez sozinha? Ninguém consegue entrar completamente nessa experiência. Talvez seja esse um dos limites mais dolorosos do amor. Podemos estar ao lado. Segurar. Ajudar. Tentar compreender. Mas nunca conseguimos sentir exatamente no lugar do outro. Talvez exista medo. Raiva. Tristeza. Vergonha. Talvez tudo isso junto. Talvez nada disso em determinados momentos. Não sabemos. E é preciso respeitar o mistério que permanece dentro de cada pessoa. Existe também uma violência involuntária em imaginar que sabemos exatamente o que alguém sente. — Ela está triste. Será? — Está desanimada. Talvez. — Não quer tentar. Ou talvez esteja cansada. O cuidador precisa aprender a observar sem transformar toda observação em certeza. Às vezes ela olha para a própria mão. A mão está parada. Observa durante alguns segundos. Talvez tente movê-la. Nada. O que existe naquele olhar? Saudade? Estranhamento? Raiva? Esperança? Talvez ela esteja apenas olhando. Mas é difícil para quem ama não imaginar. O corpo é uma espécie de casa. Vivemos dentro dele durante décadas. Conhecemos seus caminhos sem pensar. A mão alcança. A boca fala. A perna anda. Então, um dia, alguma coisa muda. E a própria casa deixa de obedecer. Talvez exista uma sensação profunda de estranhamento nisso. Como acordar dentro de um lugar conhecido e descobrir que as portas mudaram de posição.
O filho tenta incentivar. — Vamos tentar mais uma vez. Ela tenta. Nada. — Devagar. Outra tentativa. Pouco movimento. Talvez consiga. Talvez não. Ele quer transmitir esperança. Mas existe uma linha delicada entre encorajar e pressionar. Quem cuida deseja tanto a melhora que pode esquecer que cada tentativa acontece dentro de um corpo cansado. Talvez ela queira dizer: — Hoje não. Mas não consiga. Vira o rosto. Fecha os olhos. O cuidador pode interpretar como desistência. Talvez seja apenas limite. Também existe dignidade em poder dizer não. A recuperação não deveria transformar a pessoa em um projeto. Ela não é uma sequência de metas. Mexer o braço. Ficar de pé. Falar melhor. Andar. Ela é uma pessoa vivendo tudo isso. Com humor. Cansaço. Vontade. Medo. Dias em que deseja tentar. E dias em que simplesmente quer ficar quieta. Para quem está ao lado, é fácil contar o progresso. Hoje fez isso. Ontem não fazia. Amanhã talvez faça mais. Mas quem está dentro daquele corpo talvez faça outra comparação. Talvez compare o presente com uma vida inteira de autonomia. E então o avanço de hoje ainda pode parecer pequeno. Isso precisa ser compreendido. Talvez ela observe outras pessoas caminhando. O filho percebe. O que dizer? — Você também vai conseguir. Talvez consiga. Talvez não da mesma maneira. Prometer seria injusto. Então ele permanece. Há momentos em que presença é mais honesta do que uma promessa. Nem todo silêncio precisa ser preenchido. Em outro dia ela tenta fazer alguma coisa sozinha. O filho se preocupa. — Espera. Ela insiste. Quase perde o equilíbrio. Ele segura. — Eu falei para esperar. A voz sai mais dura do que deveria. Ela olha para ele. Silêncio. Depois vem a culpa. Mas talvez a mãe não estivesse tentando desafiar o filho.
Talvez estivesse tentando provar para si mesma que ainda conseguia alguma coisa. Há uma diferença enorme. Dependência machuca. Não apenas porque precisamos do outro. Mas porque modifica a imagem que temos de nós mesmos. Imagine passar uma vida inteira resolvendo as próprias coisas. Depois precisar chamar alguém para levantar. Tomar banho. Vestir uma roupa. Ir ao banheiro. Existe uma vulnerabilidade profunda nisso. O cuidador precisa lembrar. Não para sentir pena. Pena pode diminuir. Mas para oferecer respeito. Talvez algumas recusas sejam tentativas de preservar autonomia. — Não. Um “não” pode ser uma vitória. Porque significa escolha. Então o filho começa a perguntar mais. Não apenas fazer. — Quer agora ou depois? — Esta roupa ou aquela? — Quer ficar aqui? — Está confortável? Mesmo quando a resposta demora, ele espera. Porque decidir por alguém o tempo todo também pode ser uma maneira silenciosa de apagá-lo. Talvez ela escolha devagar. Talvez apenas olhe. Mas existe respeito na pergunta. Em alguns dias, a tristeza aparece. Não precisa haver choro. Talvez seja um silêncio diferente. Um olhar distante. Menos interesse. — Está tudo bem? A pergunta parece absurda. Claro que nem tudo está bem. Mas é uma maneira de abrir espaço. Existe uma tentação de animar imediatamente quem está triste. — Vai melhorar. — Tenha fé. — Você precisa ser forte. Essas frases podem nascer do amor. Mas às vezes a pessoa não precisa ser animada. Precisa apenas ter o direito de estar triste sem decepcionar ninguém. Perder autonomia é uma perda real. Não devemos exigir gratidão constante de quem está sofrendo apenas porque sobreviveu. Sobreviver pode ser motivo de gratidão. E ainda assim doer. As duas coisas podem existir juntas.
Ela pode agradecer por estar viva e, ao mesmo tempo, sentir raiva porque uma perna não responde. Uma coisa não elimina a outra. O filho começa a compreender. Para de tentar consertar toda emoção. Se ela está triste, permanece. Se está irritada, escuta. Se está cansada, reduz o ritmo. Se sorri, sorri junto. O cuidado começa a ficar menos ansioso. Mais presente. No começo ele queria resolver. Agora começa a acompanhar. Resolver e acompanhar são coisas diferentes. Existem problemas que resolvemos. E existem experiências que apenas atravessamos ao lado de alguém. O AVC talvez seja assim em muitos momentos. Não existe frase que resolva. Mas existe companhia. Certa manhã, ela tenta alcançar alguma coisa. Ele percebe. O primeiro impulso é entregar. Mas espera. Ela tenta. A mão não chega. Tenta novamente. Ele quase ajuda. Mais um pouco. Ela consegue. Pouco. Mas consegue. Olha para ele. Talvez exista um pequeno orgulho naquele olhar. E ele compreende: se tivesse ajudado no primeiro segundo, teria roubado aquela vitória. Cuidar também é saber quando não fazer. Ela pode levar cinco minutos para realizar aquilo que ele faria em cinco segundos. Os cinco minutos são dela. Existe dignidade em permitir tempo. O mundo tem pressa. A recuperação não. Outra coisa muda. O filho começa a evitar falar sobre ela como se não estivesse presente. Não diz mais a alguém, diante dela: — Ela hoje não quis comer. Olha primeiro para a mãe. — Você não estava com fome hoje, não é? Inclui. Convida. Reconhece. Uma pessoa com dificuldade de fala não se tornou invisível. Talvez compreenda tudo o que está sendo dito. Talvez existam dificuldades também na compreensão. Cada caso é diferente. Mas o respeito precisa permanecer diante da incerteza. Nunca devemos tratar alguém como se não estivesse ali.
O corpo pode ter perdido movimentos. A voz pode ter perdido clareza. Mas a pessoa não perdeu o direito de ser considerada. À noite, o pensamento retorna: O que será que ela sente? Ele ainda não sabe. Talvez nunca saiba completamente. E finalmente percebe que não precisa saber tudo. Amar não exige acesso completo ao mundo interior do outro. Exige disposição para perguntar. Observar. Respeitar. E aceitar que sempre haverá uma parte daquela pessoa que continuará pertencendo apenas a ela. Então, em vez de imaginar respostas, começa a oferecer espaço. — Se estiver cansada, paramos. — Se não quiser, tudo bem. — Se quiser tentar novamente, estou aqui. Talvez essas frases devolvam algo importante. Escolha. A vida já tomou tantas escolhas dela sem pedir. Talvez o cuidado precise devolver todas as que puder. Um dia ela consegue dizer claramente: — Não. O filho sorri. Poderia parecer estranho celebrar uma negativa. Mas naquele “não” existe uma pessoa inteira. Eu quero. Eu não quero. Eu prefiro. Eu decido. Talvez recuperar autonomia comece muito antes de voltar a andar. Começa quando voltamos a participar da própria vida. O filho aprende a perguntar. A esperar. A aceitar que nem toda expressão precisa ser traduzida. Existirão dias tristes. Dias alegres. Dias de tentativa. Dias de recusa. Ela não é apenas alguém em recuperação. Continua sendo uma pessoa. Certa vez, ele pergunta: — Está tudo bem assim? Ela faz um pequeno sinal positivo. Ele ajeita a cadeira. Senta-se ao lado. Nenhum dos dois fala. E o pensamento volta: O que será que ela sente? Dessa vez, porém, a pergunta não traz a mesma angústia. Ele segura sua mão. Ela não retira. Talvez isso seja suficiente. Nunca saberemos exatamente tudo o que existe dentro do outro.
Mas podemos construir um lugar seguro para receber aquilo que ele conseguir mostrar. Sem pressa. Sem julgamento. Sem cobrança. Talvez amar alguém fragilizado seja exatamente isso: não invadir seu silêncio, mas também não o abandonar dentro dele. Permanecer perto. Perguntar quando possível. Esperar quando necessário. Oferecer ajuda. Respeitar recusas. Celebrar tentativas. E lembrar que por trás de cada limitação existe alguém vivendo uma experiência que jamais poderá ser completamente traduzida. No fim, talvez a pergunta já não seja: O que será que ela sente? Talvez seja: Como posso permanecer ao lado dela mesmo sem saber tudo o que sente? Essa pergunta possui uma resposta possível. Com respeito. Com paciência. Com presença. Com amor. Porque não precisamos compreender completamente a dor de alguém para não o deixar sozinho dentro dela.

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