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A Oitava Carta — Parte VIII — Capítulos 36 a 40 e Epílogo

  • Foto do escritor: Abioye Ras Barros
    Abioye Ras Barros
  • há 2 dias
  • 24 min de leitura

A OITAVA CARTA

Abioye Ras Barros

PARTE VIII — CAPÍTULOS 36 A 40 E EPÍLOGO

Leitura gratuita autorizada pelo autor.

CAPÍTULO 36 — O QUE NÃO CABE EM UMA CARTA

Gabriel demorou a perceber que havia parado de contar o tempo.

Antes, sabia exatamente quantos anos Helena estivera desaparecida.

Vinte e oito.

O número surgia sempre que alguém perguntava pela irmã. Às vezes, mesmo quando ninguém perguntava.

Como se repetir a duração da ausência impedisse que ela se tornasse maior.

Agora não sabia dizer quantos meses haviam passado desde que Helena voltara.

Precisaria calcular.

E gostava disso.

A presença não precisava ser contada.

Helena também mudara.

No arquivo Memória dos Nomes, já não iniciava uma busca antes de compreender o que a pessoa realmente desejava encontrar.

Uma carta recebida de outra cidade tornou isso evidente.

Uma mulher procurava informações sobre o pai, morto sem uma certidão de nascimento original. Possuía apenas uma fotografia e um nome que talvez fosse falso.

Anos antes, Helena teria começado imediatamente a procurar.

Dessa vez, respondeu primeiro:

O que você espera encontrar?

A resposta chegou alguns dias depois:

Quero saber quem era meu pai.

Helena ficou algum tempo diante da frase.

Depois escreveu:

Talvez possamos descobrir como ele foi registrado, onde nasceu e quem eram seus familiares. Mas nenhum documento conseguirá dizer completamente quem ele foi. Essa parte talvez esteja nas lembranças de quem o conheceu.

Gabriel leu antes que ela enviasse.

— Você mudou.

Helena olhou para ele.

— Espero que sim.

Antes, procurava nomes como se neles estivesse a pessoa inteira.

Agora sabia que um registro podia revelar uma origem.

Nunca uma vida completa.

Gabriel também começou a organizar as cartas que guardava.

Não por data.

Tentou uma vez e desistiu.

Separou-as de outra maneira.

As que mentiam.

As que protegiam.

As que ameaçavam.

As que pediam perdão.

As que chegaram tarde.

Helena encontrou as pilhas sobre a mesa.

— Essa classificação não faz sentido.

— Para mim faz.

Ela pegou uma carta.

— E esta?

Gabriel reconheceu uma das que Helena escrevera e nunca enviara.

Pensou.

— Essa fica com você.

Helena pareceu surpresa.

— Não quer guardar?

— Foi você quem escreveu.

Ela segurou a carta por alguns segundos.

Durante tantos anos, Gabriel quis possuir qualquer vestígio da irmã desaparecida.

Agora conseguia devolver a ela aquilo que lhe pertencia.

Helena guardou a folha.

Nenhum dos dois comentou.

Certa tarde, Daniel telefonou.

A tia materna de Eunice morrera.

Enquanto ajudava a família a organizar a casa, encontrara uma fotografia antiga.

Duas mulheres.

Eunice e Heloísa.

Juntas.

Gabriel ficou em silêncio.

Até então, não havia prova de que as duas se conhecessem diretamente.

Daniel enviou a imagem.

No verso, uma data.

Três meses depois do nascimento dos meninos.

E uma frase:

Que Deus nos perdoe pelo que decidimos.

Gabriel sentiu o velho impulso retornar.

Quem decidira?

O quê?

As mães sabiam da troca?

Concordaram?

Foram obrigadas?

Helena observou a fotografia.

— Podemos investigar.

Gabriel assentiu.

Mas não naquele dia.

Guardou a imagem e continuou o que estava fazendo.

Helena percebeu a diferença.

Uma nova pergunta surgira.

A vida não precisava parar por causa dela.

Algumas semanas depois, encontraram uma carta de Eunice.

Não explicava a troca.

Falava sobre um bebê cujo nome não aparecia.

Às vezes penso no menino que nasceu de mim.

Não sei onde está.

Disseram que está seguro.

Preciso acreditar.

Gabriel leu devagar.

Eunice sabia que o filho não estava com ela.

Isso alterava parte da história.

Na página seguinte:

O menino que ficou comigo não tem culpa.

Quando segura meu dedo, não consigo pensar nele como filho de outra mulher.

Gabriel parou.

Pensou em Daniel.

Na criança que ele fora.

Na mulher que o criara.

Na mesma mão capaz de sentir falta de um filho e, ainda assim, aprender a amar outro.

Daniel recebeu uma cópia.

Ligou naquela noite.

— Ela sabia.

— Sabia.

— Heloísa também?

Gabriel demorou.

— Talvez.

Daniel ficou em silêncio.

— Isso muda alguma coisa?

— Muda o que sabemos sobre elas.

— E sobre nós?

Gabriel olhou para a fotografia.

— Não sei.

Era a resposta mais verdadeira que possuía.

A investigação conseguiu formular uma possibilidade.

Margarida acreditava que Heloísa corria perigo por possuir documentos relacionados à rede. Eunice, por outro lado, vivia numa cidade onde quase ninguém conhecia aquela história.

Trocar as crianças poderia ter sido uma tentativa de proteger uma delas.

Mas a hipótese não explicava tudo.

Talvez houvesse outro motivo.

Talvez existissem decisões tomadas por pessoas cujos nomes jamais apareceriam.

Não havia documentos suficientes.

Gabriel percebeu que continuar exigiria preencher lacunas com imaginação.

Decidiu parar ali.

Daniel concordou.

Eles já conheciam o estrago produzido por certezas construídas sobre mentiras.

Não criariam outra apenas porque desejavam um final mais completo.

No aniversário de Gabriel, Helena apareceu com um pacote.

— Não é uma carta.

— Ótimo começo.

Dentro havia um caderno.

Capa simples.

Páginas em branco.

Na primeira, Helena escrevera:

Para as coisas que ainda não aconteceram.

Gabriel ficou olhando.

Durante anos, todos os cadernos que encontrara continham passado.

Nomes antigos.

Registros.

Mortes.

Transferências.

Aquele estava vazio.

— Não sei o que escrever.

— Melhor.

Gabriel fechou o caderno.

À noite, algumas pessoas apareceram.

Clara Isabel.

Sara.

Samuel.

Laura.

Renato.

Daniel telefonou porque não conseguira viajar.

Não houve discurso.

Nenhuma conversa organizada sobre o passado.

Comeram.

Riram.

Samuel contou uma história longa demais.

Clara reclamou.

Helena trouxe um bolo torto.

Gabriel perguntou quem fizera.

Ela se recusou a responder.

Quando todos foram embora, restaram pratos, copos e migalhas.

Gabriel observou a bagunça.

Helena começou a recolher.

— Deixa.

— Amanhã vai estar pior.

— Amanhã a gente limpa.

Ela aceitou.

Gabriel pegou o caderno.

Abriu na primeira página.

Escreveu a data.

Apenas isso.

Helena olhou.

— Só?

— Hoje aconteceu.

Ela sorriu.

Com o passar dos meses, o caderno ganhou pequenas anotações.

Helena queimou o arroz.

Daniel veio visitar.

Choveu o dia inteiro.

Nada extraordinário.

Gabriel gostava.

Pela primeira vez, registrava uma vida que não precisava ser investigada.

Certa noite, Helena encontrou o caderno aberto.

— Você não escreveu nada sobre a oitava carta.

— Já existem papéis demais sobre ela.

— Então sobre o que é isso?

Gabriel olhou para as páginas preenchidas.

Depois para as que ainda estavam vazias.

— Sobre depois.

Helena compreendeu.

Durante muito tempo, todos haviam escrito para explicar o que acontecera antes.

Talvez alguém precisasse registrar aquilo que vinha quando a explicação terminava.

Gabriel pegou a caneta.

Escreveu:

Uma vida não cabe numa carta.

Parou.

Acrescentou:

Nem num nome.

Fechou o caderno.

Não precisava concluir.

Ainda havia páginas em branco.

E, pela primeira vez, elas não lhe causavam medo.

CAPÍTULO 37 — A PRIMEIRA PÁGINA EM BRANCO

Gabriel deixou o caderno sobre a mesa durante três dias.

Não escreveu.

Na quarta manhã, abriu na primeira página vazia.

Ficou algum tempo olhando para ela.

Durante meses, acostumara-se a encontrar palavras deixadas por outras pessoas. Cartas que explicavam, escondiam, ameaçavam ou pediam perdão.

Sempre havia alguém escrevendo antes dele.

Agora não.

A página dependia exclusivamente de sua vontade.

Pegou a caneta.

Escreveu:

Hoje não aconteceu nada importante.

Leu.

Sorriu.

Acrescentou:

E foi um bom dia.

Fechou o caderno.

Helena encontrou a anotação naquela noite.

— Está melhorando.

— Como escritor?

— Não. Como pessoa.

Gabriel fingiu indignação.

Ela riu.

Aquela risada ainda produzia nele uma sensação difícil de explicar.

No início do reencontro, cada gesto de Helena despertava uma lembrança.

Agora começavam a surgir gestos que não pertenciam ao passado.

Ela tinha hábitos que Gabriel desconhecia.

Gostava de caminhar cedo.

Dormia com a janela entreaberta.

Não suportava relógios fazendo barulho.

Detestava mamão.

Gabriel descobriu isso depois de comprar quatro.

— Você gostava.

— Há vinte e oito anos.

Ele olhou para as frutas.

— E faço o quê com isso?

— Descobre quem gosta.

Era simples.

Mas Gabriel ficou pensando.

Passara tanto tempo querendo recuperar a irmã que perdera que, às vezes, esquecia de conhecer a mulher que voltara.

Na manhã seguinte, levou os mamões para o arquivo.

O Memória dos Nomes já não cabia na pequena sala onde começara.

Não porque centenas de pessoas aparecessem todos os dias.

Os documentos ocupavam espaço.

Helena recusava a ideia de destruir originais importantes depois da digitalização.

Algumas folhas eram a única prova de que determinadas pessoas haviam existido antes de receber outro nome.

Conseguiram uma sala maior.

Durante a mudança, encontraram uma caixa sem identificação.

Sara não a reconheceu.

Laura também não.

Dentro havia objetos pessoais.

Uma fita de cabelo.

Um brinquedo quebrado.

Fotografias sem nomes.

Uma pequena colher.

Um sapato infantil.

Nenhum documento explicava a quem pertenciam.

Helena permaneceu olhando.

— O que fazemos?

Gabriel examinou os objetos.

— Primeiro, não inventamos uma história para eles.

Catalogaram a caixa como procedência desconhecida.

Não atribuíram donos.

Não criaram vítimas.

Não transformaram silêncio em certeza.

Depois de tudo o que haviam vivido, aprenderam que preservar a verdade também significava respeitar aquilo que não sabiam.

Augusto apareceu menos naquele inverno.

A idade começava a cobrar o que a espera adiara.

Gabriel foi visitá-lo.

Encontrou-o numa poltrona, coberto por uma manta.

Augusto perguntou pelo arquivo.

Gabriel contou algumas histórias.

Sem nomes.

Sem detalhes que não lhe pertenciam.

Augusto ouviu.

Depois disse:

— Eu achava que queria encontrar minha irmã.

Gabriel esperou.

— Mas acho que queria voltar para o dia em que ela desapareceu e impedir.

A frase permaneceu entre eles.

Gabriel compreendia.

Procurar alguém podia esconder outro desejo.

Voltar no tempo.

Corrigir.

Escolher diferente.

— Não dava — disse Gabriel.

— Eu sei agora.

Augusto olhou pela janela.

— Demorei sessenta anos.

Gabriel não respondeu que demorara demais.

Não havia prazo correto para compreender certas coisas.

Antes de ir embora, Augusto pediu que retirassem seu caderno da exposição do arquivo.

Gabriel perguntou por quê.

— As pessoas olham como se eu tivesse feito uma coisa bonita.

Augusto não achava bonito.

Esperara porque não conseguira fazer outra coisa.

Havia sofrimento demais naquelas páginas para que fossem transformadas numa imagem romântica de amor.

Gabriel entendeu.

O caderno continuaria preservado.

Mas não seria exibido.

Memória também significava saber quando não mostrar.

Clara Isabel começou a trabalhar algumas tardes no arquivo.

Atendia principalmente pessoas que chegavam acreditando que encontrariam uma resposta imediata.

Ela dizia:

— Podemos procurar documentos. Não posso prometer o que eles vão fazer com você.

Alguns estranhavam.

Outros compreendiam.

Certa vez, um homem encontrou o nome da mãe biológica.

Ela estava viva.

Morava perto.

Ele quis ir imediatamente.

Clara perguntou:

— Ela sabe que você está procurando?

Não sabia.

— Então primeiro precisamos descobrir se ela quer ser encontrada.

O homem se irritou.

— Tenho direito à verdade.

Clara respondeu:

— Tem. Mas ela também tem o direito de decidir sobre a própria vida.

Gabriel ouviu de longe.

Talvez aquela fosse uma das maiores transformações produzidas por tudo o que viveram.

Durante décadas, pessoas decidiram umas pelas outras.

Agora tentavam construir um lugar onde a verdade não servisse como nova forma de violência.

Daniel enviou uma fotografia de Eunice.

Jovem.

Sorrindo.

No colo, ele ainda bebê.

Gabriel observou por muito tempo.

Aquela mulher lhe dera à luz.

Seu rosto não despertava lembrança.

Mesmo assim, havia alguma coisa.

Não saberia chamar de amor.

Talvez gratidão.

Talvez curiosidade.

Talvez apenas a consciência estranha de que sua vida começara dentro daquela mulher.

Colocou a fotografia junto à de Heloísa.

Não uma no lugar da outra.

As duas.

Helena percebeu.

Não comentou.

Dias depois, Gabriel recebeu uma ligação de um hospital.

Um homem procurava informações sobre Daniel Moreira.

O antigo alerta surgiu imediatamente.

Outro parente?

Outro documento?

Outra revelação?

Gabriel ligou para Daniel.

Ele também não sabia.

Por alguns minutos, os dois imaginaram possibilidades.

Então Gabriel interrompeu:

— Vamos esperar.

Daniel riu.

— Quem é você e o que fez com Gabriel?

— Estou aprendendo.

Dois dias depois descobriram.

Era apenas um erro administrativo.

Nenhum segredo.

Nenhuma nova identidade.

Nada.

Quando Gabriel contou a Helena, ela riu.

Ele também.

Talvez a vida comum tivesse mesmo voltado.

Nem todo telefonema escondia um passado.

Às vezes alguém apenas procurava a pessoa errada.

Na primavera, plantaram uma pequena árvore diante do arquivo.

Clara sugeriu uma placa.

Sara achou desnecessário.

Gabriel concordou.

Nenhum nome.

Nenhuma frase.

Apenas uma árvore.

Helena olhou para ele.

— Você anda com mania de deixar as coisas serem apenas coisas.

— Dá menos trabalho.

— Preguiçoso.

Riram.

Naquela noite, Gabriel abriu o caderno.

Havia muitas páginas vazias.

Pela primeira vez, não sentiu necessidade de preenchê-las.

Escreveu apenas:

Algumas páginas ficam em branco porque ainda não aconteceu nada.

Pensou um pouco.

Acrescentou:

Outras porque nem tudo precisa ser contado.

Fechou o caderno.

Foi até a cozinha.

Helena preparava café.

— Escreveu?

— Pouco.

— Sobre o quê?

Gabriel sentou-se.

— Nada importante.

Ela assentiu.

Nenhum dos dois percebeu imediatamente a beleza daquela resposta.

Durante muito tempo, tudo fora importante demais.

Cada nome.

Cada carta.

Cada silêncio.

Cada ausência.

Agora podiam existir coisas pequenas.

Dias esquecíveis.

Conversas sem consequência.

Páginas em branco.

E uma vida que não precisava transformar tudo em memória para provar que estava acontecendo.

CAPÍTULO 38 — O TEMPO DEVOLVIDO

Gabriel encontrou Helena na varanda antes do amanhecer.

Ela estava sentada com uma xícara nas mãos, observando uma rua que ainda não havia despertado.

Sentou-se ao lado.

Nenhum dos dois falou.

Houve um tempo em que o silêncio entre eles significaria distância.

Agora podia significar apenas que não havia nada a dizer.

Helena ofereceu a xícara.

Gabriel bebeu.

— Está horrível.

— Faça você amanhã.

Ele devolveu.

Ficaram olhando a manhã chegar.

Depois de algum tempo, Helena perguntou:

— Você ainda pensa nos vinte e oito anos?

Gabriel não precisou perguntar quais.

— Às vezes.

— Com raiva?

Ele pensou.

— Também.

Helena assentiu.

Não pediu desculpas.

Já pedira.

Não tentou explicar novamente.

Já explicara.

Algumas dores continuavam existindo mesmo depois que o perdão começava.

Perdoar não reescrevia calendários.

Gabriel ainda possuía algumas das cartas que Helena escrevera durante a ausência.

Não as lera por completo.

No início, quis devorá-las.

Recuperar vinte e oito anos em algumas noites.

Depois percebeu que aquelas cartas não eram os anos.

Eram apenas aquilo que Helena conseguira escrever sobre eles.

Passou a ler uma de vez em quando.

Sem ordem.

Numa tarde, abriu uma escrita doze anos depois do desaparecimento.

Hoje vi um homem de costas e pensei que fosse você.

Segui por duas ruas.

Quando ele virou, senti vergonha de mim mesma.

Depois chorei porque, por alguns minutos, tive um irmão novamente.

Gabriel fechou a carta.

Não leu outra naquele dia.

Na manhã seguinte, perguntou a Helena se ela se lembrava.

Não.

Aquilo o surpreendeu.

Uma carta que o fizera chorar registrava um momento que ela própria esquecera.

Então compreendeu que memória e vida não eram a mesma coisa.

Nem tudo o que um dia nos atravessou permanece conosco.

O arquivo recebeu a visita de uma jovem.

Tinha vinte e três anos.

Não procurava o próprio nome.

Procurava o da avó.

A mulher morrera recentemente e deixara uma certidão com rasuras.

Helena examinou.

Dias depois, encontraram mais de um registro compatível.

A jovem voltou.

— Então qual era o nome verdadeiro da minha avó?

Helena respondeu:

— Não sabemos.

Havia duas possibilidades.

Talvez três.

A jovem baixou os olhos.

— Então não descobrimos nada?

Helena colocou diante dela uma fotografia encontrada entre os documentos relacionados à família.

Uma menina sorria.

No verso havia uma data e uma anotação:

Gosta de cantar.

A jovem levou a mão à boca.

— Minha avó cantava o tempo inteiro.

Helena sorriu.

A moça segurou a fotografia.

Não encontrara o nome.

Encontrara uma parte da menina que a avó havia sido.

Augusto morreu no começo do verão.

Dormindo.

Sem hospital.

Sem despedida longa.

Gabriel recebeu a ligação de Anselmo.

Ficou sentado durante alguns minutos depois de desligar.

Helena compreendeu antes que ele dissesse.

No enterro, Gabriel permaneceu próximo a Anselmo.

Havia poucas pessoas.

Nenhum grande discurso.

Nenhuma tentativa de resumir uma vida inteira em algumas frases.

Quando chegou sua vez de se aproximar do caixão, Gabriel colocou a mão sobre a madeira.

Pensou nos sessenta anos.

Na figueira.

Em Celina.

Na espera.

Mas também se lembrou de Augusto reclamando do frio, procurando os óculos que estavam sobre a própria cabeça e bebendo café doce demais.

Aquilo o confortou.

Augusto fora mais do que o homem que esperara pela irmã.

Depois do enterro, Gabriel e Helena foram até a figueira.

A placa de Celina permanecia no mesmo lugar.

Gabriel observou.

— É injusto.

Helena não tentou encontrar beleza naquela frase.

— É.

Ele agradeceu silenciosamente por isso.

Algumas coisas não precisavam de consolo.

Precisavam ser reconhecidas.

Dias depois, o arquivo recebeu instruções deixadas por Augusto sobre o caderno.

Quando eu morrer, não guardem tudo.

Helena continuou lendo.

Fiquei tempo demais guardando coisas.

Augusto autorizava que algumas páginas fossem preservadas. Outras deveriam ser entregues à família.

O restante queria que fosse destruído.

Gabriel hesitou.

A primeira reação foi pensar no valor histórico.

Depois compreendeu.

O caderno era de Augusto.

Não do arquivo.

Memória não significava apropriação.

Respeitar a história de alguém também significava permitir que uma parte dela desaparecesse quando essa fosse sua vontade.

Cumpriram o pedido.

Helena chorou.

Mas cumpriu.

Naquela noite, Gabriel abriu seu caderno.

Escreveu:

Nem tudo precisa permanecer para ter existido.

Fechou.

Algumas semanas depois, Helena apareceu com uma caixa.

Dentro estavam as cartas que escrevera para Gabriel durante os vinte e oito anos.

— Quero que escolha.

— O quê?

— Quais quer guardar.

Gabriel ficou surpreso.

— E as outras?

— Não quero passar o resto da vida morando dentro da mulher que escreveu tudo isso.

Ele compreendeu.

Aquelas cartas haviam sido ponte.

Poderiam se transformar em prisão.

Passaram uma tarde lendo algumas.

Riram.

Choraram.

Discordaram sobre lembranças.

Em determinado momento, Gabriel encontrou uma carta de apenas uma linha:

Hoje estou com raiva de você porque é mais fácil do que admitir que estou com saudade.

Ele mostrou.

Helena sorriu.

— Essa fica.

Escolheram algumas.

As demais foram destruídas por decisão dela.

Gabriel não sentiu que perdera vinte e oito anos.

Os anos já haviam passado.

Papel nenhum conseguiria devolvê-los.

Quando terminaram, Helena perguntou:

— Você acha que desperdiçamos muito tempo?

Gabriel olhou para ela.

A resposta fácil seria não.

Seria bonita.

Também seria falsa.

— Sim.

Helena abaixou os olhos.

— Muito — acrescentou ele.

Ela respirou fundo.

— Eu também acho.

Gabriel segurou sua mão.

— Mas não quero desperdiçar o que sobrou tentando recuperar o que passou.

Helena apertou seus dedos.

Talvez aquilo fosse o máximo que poderiam fazer.

O tempo perdido não voltaria.

Mas também não precisava levar consigo o tempo que ainda existia.

No dia seguinte, Gabriel abriu o caderno.

Pensou em escrever sobre Augusto.

Sobre as cartas destruídas.

Sobre Helena.

Não escreveu.

Fechou-o.

Ela o chamou de outro cômodo.

Gabriel levantou-se e foi.

Enquanto caminhava, compreendeu que o tempo devolvido não era o passado retornando.

Era o presente deixando de pertencer ao passado.

CAPÍTULO 39 — QUANDO NINGUÉM MAIS ESPERA

A figueira floresceu naquele ano.

Gabriel não sabia se aquilo acontecia sempre.

Talvez nunca tivesse reparado.

Durante muito tempo, olhara para aquela árvore procurando vestígios de Celina, marcas na terra, os pães deixados por Augusto ou qualquer sinal de um passado que se recusava a permanecer enterrado.

Naquela manhã, viu folhas novas.

Helena estava ao lado.

— Bonita.

— Sempre foi?

— Não sei.

Gabriel sorriu.

Havia coisas que talvez estivessem diante deles havia anos.

O problema era que procuravam outra coisa.

O Memória dos Nomes completou dois anos.

Clara sugeriu uma pequena reunião.

Sara não queria comemoração.

Helena também hesitou.

Gabriel compreendeu.

Não havia motivo para celebrar o fato de tantas pessoas precisarem procurar a própria origem.

Mas havia motivo para reconhecer que agora existia um lugar onde podiam procurar sem serem transformadas em espetáculo.

Fizeram algo simples.

Café.

Bolo.

Algumas cadeiras.

Nenhum discurso.

Na parede, Helena colocou uma frase:

Aqui ninguém recebe um nome. Aqui cada pessoa procura o direito de reconhecer o seu.

Uma mulher apareceu perto do fim da tarde.

Tinha pouco mais de cinquenta anos e carregava um envelope.

Disse que o encontrara entre os pertences do pai.

Na frente estava escrito:

Para entregar quando eu tiver coragem.

Ele morrera sem entregar.

A destinatária era uma mulher chamada Lourdes.

O arquivo possuía um registro com aquele nome.

Helena explicou que não poderiam simplesmente localizá-la e colocar a carta em suas mãos.

Primeiro precisariam saber se ela desejava contato.

A mulher não entendeu.

— Mas meu pai queria que ela lesse.

Helena respondeu:

— Talvez. Mas ele também passou a vida inteira sem entregar.

A frase não era julgamento.

Era limite.

A vontade de quem escreveu não anulava a de quem receberia.

Meses depois, Lourdes foi localizada.

Quis receber a carta.

Veio pessoalmente.

Sentou-se numa sala.

Abriu.

Leu sozinha.

Quando saiu, estava chorando.

Não contou o que havia dentro.

Ninguém perguntou.

Gabriel percebeu que o arquivo finalmente aprendera a lidar com cartas.

Nem toda carta precisava se tornar história para os outros.

Daniel continuava visitando Gabriel sem avisar.

Na terceira vez em poucas semanas, Helena abriu a porta e perguntou:

— Você não tem telefone?

— Tenho.

— Então use.

Daniel entrou.

— Família precisa marcar horário?

Helena olhou para Gabriel.

— Ele é sua família?

Gabriel pensou.

Daniel esperou.

— Infelizmente.

Daniel riu.

Helena também.

A palavra ficou.

Família.

Não porque um exame tivesse decidido.

Porque, em algum momento, eles haviam começado a escolher continuar na vida um do outro.

Samuel parou de procurar a mãe.

Não porque tivesse encontrado.

Porque decidiu.

Telefonou para Gabriel para contar.

— Tem certeza? — perguntou Gabriel.

— Não.

Gabriel sorriu.

Aprendera a respeitar decisões que não vinham acompanhadas de certeza.

Samuel guardaria os documentos.

Se algum dia quisesse voltar, estariam ali.

Mas não acordaria mais pensando naquela busca.

— Sinto como se estivesse desistindo.

— Talvez esteja.

Samuel ficou em silêncio.

— Isso é ruim?

Gabriel pensou.

— Nem sempre.

Havia desistências que eram derrotas.

Outras eram liberdade.

Só quem carregava a busca podia saber a diferença.

Sara também mudou.

Durante anos, vivera entre documentos e rastros de pessoas desaparecidas.

Começou a faltar ao arquivo algumas tardes.

Depois uma semana inteira.

Helena perguntou se estava tudo bem.

Sara respondeu que sim.

Estava fazendo um curso de jardinagem.

Gabriel sorriu.

— Depois de passar a vida procurando raízes...

Sara levantou o dedo.

— Não faça isso.

— O quê?

— Transformar tudo em metáfora.

Helena riu.

Gabriel prometeu tentar.

Clara Isabel conheceu pessoalmente a irmã.

O encontro aconteceu numa praça.

Sem câmeras.

Sem testemunhas.

Depois contou apenas uma coisa:

— Ela tem as mãos da minha mãe.

Ninguém perguntou mais.

Alguns acontecimentos diminuíam quando eram explicados demais.

Certa noite, Gabriel abriu a caixa das cartas.

Fazia meses que não mexia nela.

Encontrou a primeira.

Depois a oitava.

Depois a última de Heloísa.

Colocou as três sobre a mesa.

Helena apareceu.

— Vai ler?

— Não.

— Então por que tirou?

Gabriel não sabia.

Talvez quisesse confirmar que ainda estavam ali.

Helena pegou a primeira.

— Tudo começou com isso.

Gabriel olhou para ela.

— Não.

— Não?

— Começou muito antes.

Era verdade.

A carta apenas abrira uma porta.

A história existia antes de alguém escrevê-la.

Helena devolveu a folha à caixa.

— Então quando terminou?

Gabriel pensou.

Talvez na figueira.

Talvez quando Helena voltou.

Talvez quando descobriram Daniel.

Talvez com a carta de Heloísa.

Depois percebeu que procurava novamente uma resposta exata para algo que não precisava dela.

— Não sei.

Helena sorriu.

Dessa vez, ele não se incomodou.

Na semana seguinte, Gabriel levou parte das cartas ao arquivo.

As que pertenciam à história coletiva seriam preservadas.

As de Helena permaneceriam com ela.

A carta de Heloísa também não seria entregue.

Não por segredo.

Por intimidade.

O arquivo não precisava possuir tudo para preservar o que acontecera.

Algumas memórias podiam permanecer dentro de uma família.

Ao sair, Gabriel encontrou uma mulher esperando diante da porta.

Ela segurava uma folha dobrada.

— O senhor é Gabriel?

Por um instante, aquela pergunta pareceu vir de muito longe.

Houve um tempo em que responder sim poderia iniciar outra investigação.

Outro nome.

Outra dúvida.

— Sou.

A mulher sorriu.

— Augusto era meu tio.

Gabriel sentiu o peito apertar.

Ela nunca o conhecera.

A família se afastara muitos anos antes, e soubera da morte tarde demais.

Queria saber sobre ele.

Não sobre Celina.

Sobre Augusto.

Do que gostava.

Como falava.

Se ria muito.

Gabriel percebeu a beleza daquela inversão.

Durante sessenta anos, Augusto fora o homem que procurava alguém.

Agora alguém o procurava.

Convidou a mulher para entrar.

Contou sobre a teimosia.

Sobre a figueira.

Sobre a espera.

Mas também falou de coisas pequenas.

Augusto reclamava do frio.

Dormia sentado.

Gostava de café doce demais.

Perdia os óculos.

A mulher riu.

— Meu pai fazia a mesma coisa.

Gabriel sorriu.

Dessa vez, uma semelhança não precisava provar nada.

Podia ser apenas lembrança.

No fim do dia, voltou à figueira.

Foi sozinho.

Sentou-se.

Pensou em Augusto.

Celina.

Heloísa.

Eunice.

Amélia.

Margarida.

Pessoas que haviam esperado.

Pessoas que haviam sido esperadas.

Algumas voltaram.

Outras não.

Algumas foram encontradas tarde demais.

Outras permaneceram apenas nos documentos.

Gabriel percebeu que esperar também podia ser uma forma de amor.

Mas não deveria ser a única.

Porque chegava um momento em que amar quem partira precisava deixar espaço para quem ainda estava.

Levantou-se.

Não disse adeus.

Já não precisava transformar cada partida em cerimônia.

Quando chegou em casa, Helena não estava.

Havia um bilhete sobre a mesa.

Fui ao mercado. Volto já.

Gabriel sorriu.

Pouco depois, ouviu a chave na porta.

Helena entrou carregando sacolas.

— Demorei?

— Não.

Ela começou a guardar as compras.

Gabriel ajudou.

Durante vinte e oito anos, ele não soubera se a irmã voltaria.

Agora ela podia sair para comprar qualquer coisa e retornar alguns minutos depois.

Era um acontecimento banal.

E talvez por isso fosse tão precioso.

Naquela noite, Gabriel abriu o caderno.

Escreveu:

Hoje Helena saiu.

Na linha seguinte:

E voltou.

Olhou para as duas frases.

Fechou o caderno.

Não precisava acrescentar nada.

Amanhã existiria.

E, pela primeira vez, nenhum deles precisava esperar por ele para saber se alguém voltaria.

CAPÍTULO 40 — A CARTA QUE NÃO FOI ESCRITA

O envelope estava vazio.

Gabriel percebeu assim que o abriu.

Virou-o sobre a mesa.

Nada caiu.

Nenhuma folha dobrada.

Nenhuma fotografia.

Nenhum número.

Helena observava da cozinha.

— Tem certeza?

Gabriel passou os dedos pelo interior.

— Vazio.

O envelope chegara naquela manhã, sem remetente. Na frente, apenas duas palavras:

Para Gabriel.

Meses antes, aquilo teria sido suficiente para interromper seu dia.

Agora examinou o carimbo, percebeu que era da própria cidade e colocou o envelope sobre a mesa.

— E então? — perguntou Helena.

— Então o quê?

— Não vai investigar?

Gabriel olhou novamente para o envelope.

— Investigar o quê?

Helena sorriu.

— Estou começando a ficar preocupada com você.

Gabriel foi preparar café.

O envelope permaneceu sobre a mesa durante dois dias.

No terceiro, quase o jogou fora.

Foi Helena quem pediu:

— Espera.

Gabriel ergueu as sobrancelhas.

— Agora é você que quer investigar?

— Não. Só acho estranho alguém gastar selo para mandar nada.

Ele riu.

Guardou o envelope numa gaveta.

Uma semana depois, já não pensava nele.

O Memória dos Nomes continuava recebendo histórias.

Algumas encontravam respostas.

Outras não.

Uma mulher localizou três irmãos.

Um homem descobriu que procurara durante quarenta anos por um nome registrado de forma incorreta.

Outra pessoa chegou ao arquivo, ouviu o que uma investigação poderia revelar e decidiu ir embora antes de iniciar a busca.

Helena não tentou convencê-la.

As pessoas podiam entrar.

Também podiam sair.

Durante décadas, a história que dera origem ao arquivo fora construída por pessoas decidindo o destino de outras.

Agora, cada busca começava com uma pergunta simples:

— Você quer continuar?

Às vezes, a resposta era não.

E o não era respeitado.

Sara apareceu certa tarde com terra nas mãos.

Gabriel olhou.

— Jardinagem?

— Sim.

Ele sorriu.

— Encontrou suas raízes?

Sara fechou os olhos.

— Gabriel...

Helena começou a rir.

— Eu não consegui evitar.

— Consegue, sim. Só não quer.

Sara havia conseguido um pequeno terreno.

Pretendia cultivar flores.

Não abandonaria completamente o arquivo, mas não queria mais passar todos os dias entre documentos de pessoas que haviam perdido alguma coisa.

— Quero cuidar de algo que cresce — disse.

Gabriel abriu a boca.

Sara apontou o dedo.

— Nem pense.

Ele se calou.

Helena ria.

Clara Isabel também começou a aparecer menos.

A relação com a irmã avançava devagar.

Não tentavam recuperar uma infância que não tiveram.

Criavam outra coisa.

Almoços.

Telefonemas.

Pequenas visitas.

Certa vez, Clara contou que haviam discutido.

Helena pareceu preocupada.

Clara estava feliz.

— Irmãs discutem.

A briga era banal.

Uma opinião diferente sobre onde passar um aniversário.

Nada relacionado a Teresa.

Nenhuma disputa sobre passado.

Clara percebera que, pela primeira vez, estava vivendo uma relação que não precisava existir apenas por causa da perda.

Daniel continuava aparecendo sem avisar.

Certa tarde, trouxe uma caixa de ferramentas e decidiu consertar uma porta que ninguém pedira que consertasse.

Piorou.

Gabriel ficou observando.

— Tem certeza de que sabe fazer isso?

— Claro.

A porta caiu.

Helena apareceu no corredor.

Olhou para a porta.

Depois para Daniel.

Depois para Gabriel.

— Vocês foram trocados no hospital e nenhum dos dois veio com manual?

Gabriel começou a rir.

Daniel também.

Chamaram um profissional no dia seguinte.

Por algum tempo, a vida foi assim.

Pequenas visitas.

Problemas pequenos.

Conversas que não precisavam revelar nada.

Até que uma funcionária do arquivo encontrou uma anotação antiga entre os documentos de Heloísa.

Era apenas uma referência:

Envelope vazio — Gabriel.

Helena telefonou imediatamente.

Gabriel foi até lá.

A frase estava num pequeno caderno.

Nenhuma data.

Nenhuma explicação.

Gabriel lembrou-se do envelope guardado na gaveta.

Levou-o ao arquivo.

Sara examinou o papel.

Era recente.

Não podia ser o mesmo mencionado por Heloísa.

Alguém conhecia a anotação.

E repetira o gesto.

— Quem? — perguntou Helena.

Gabriel não respondeu.

Procurou entre as cartas de Heloísa.

Na última, encontrou uma frase que antes parecera apenas reflexão:

Há coisas que nunca consegui escrever para você.

Voltou ao pequeno caderno.

Envelope vazio — Gabriel.

Talvez Heloísa tivesse preparado uma carta.

Talvez não tivesse conseguido escrevê-la.

Talvez o envelope vazio fosse apenas o registro de algo que nunca chegou a existir.

— Mas quem enviou este? — perguntou Helena.

Gabriel olhou para o envelope recente.

A pergunta era legítima.

Também era perigosa.

Não porque escondesse necessariamente alguma ameaça.

Mas porque ele conhecia a si mesmo.

Sabia quantos meses poderia perder perseguindo uma resposta que talvez não existisse.

— Não sei.

Helena esperou.

— E não quero procurar.

Dessa vez, ela não perguntou por quê.

Gabriel levou o envelope para casa.

Não escreveu nele.

Não colocou uma mensagem dentro.

Não tentou completá-lo.

Alguns dias depois, visitou o túmulo de Heloísa.

Levou o envelope consigo.

Sentou-se diante da sepultura.

Durante alguns minutos, permaneceu em silêncio.

Depois perguntou:

— O que você não conseguiu me dizer?

Nenhuma resposta.

Gabriel sorriu de leve.

— Imaginei.

Pensou em tudo o que ainda poderia perguntar.

Se ela sabia exatamente como ocorrera a troca.

Se pensara no outro menino.

Se tivera medo de perder Gabriel caso a verdade aparecesse.

Se reconhecera Helena quando ela voltou.

Se perdoara Margarida.

Se algum dia conseguira perdoar a si mesma.

Perguntas.

Muitas.

Nenhuma caberia naquele envelope.

Gabriel compreendeu que algumas relações terminavam com palavras que nunca foram ditas.

Nenhum arquivo corrigiria isso.

Nenhuma investigação conseguiria reconstruir uma conversa que não aconteceu.

Precisava existir espaço também para o que permanecera sem resposta.

Guardou o envelope no bolso.

Não o deixou sobre a sepultura.

Era dele.

Quando voltou para casa, Helena preparava o jantar.

— Falou com ela?

Gabriel estranhou.

— Como sabe onde fui?

— Você saiu carregando um envelope vazio. Não era difícil imaginar.

Ele sorriu.

— Falei.

— Ela respondeu?

— Continua difícil.

Helena sorriu também.

Sentaram-se.

Por alguns minutos, falaram sobre coisas que não importavam para nenhuma investigação.

Depois Helena perguntou:

— O que vai fazer com o envelope?

Gabriel pensou.

Levantou-se.

Foi até a gaveta onde guardara tantas cartas.

Abriu.

Olhou para o espaço.

Então voltou à cozinha com o envelope nas mãos.

Rasgou-o uma vez.

Depois outra.

Jogou os pedaços no lixo.

Helena o observou.

— Tem certeza?

Gabriel sentou-se novamente.

— Tenho.

Não precisava guardar tudo.

Não precisava descobrir tudo.

E, principalmente, não precisava transformar tudo em uma carta.

Durante grande parte da vida, acreditara que o silêncio escondia alguma coisa.

Às vezes escondia.

Outras vezes era apenas aquilo que restava quando já não existia ninguém capaz de responder.

Naquela noite, Gabriel não abriu o caderno.

Não escreveu sobre o envelope.

Não registrou a visita ao túmulo.

Não procurou uma frase capaz de resumir o que sentia.

Foi dormir.

Do outro lado da parede, Helena ainda estava acordada.

Gabriel ouviu um pequeno ruído e soube que ela estava ali.

Aquilo bastava.

A oitava carta lhe dera respostas.

Outras cartas haviam trazido novas perguntas.

Mas aquela que nunca fora escrita lhe ensinara algo diferente.

Uma vida não precisava terminar com todas as lacunas preenchidas.

Gabriel fechou os olhos.

Pela primeira vez, diante de uma carta que não existia, não sentiu falta das palavras.

EPÍLOGO — ALGUMAS CARTAS NÃO PRECISAM DE RESPOSTA

Algum tempo depois, Gabriel ainda passava pela mesma padaria.

Nem sempre comprava dois pães.

Às vezes um.

Às vezes nenhum.

Os dois pães haviam pertencido à espera de Augusto, à ausência de Celina e a uma época em que pequenos gestos precisavam carregar aquilo que as palavras não conseguiam.

Agora podiam ser apenas pão.

Gabriel gostava disso.

O Memória dos Nomes continuava funcionando.

Pessoas chegavam procurando certidões, parentes, fotografias, explicações.

Algumas encontravam o que buscavam.

Outras descobriam apenas uma parte.

E algumas decidiam que já tinham procurado o suficiente.

Nenhuma era obrigada a continuar.

Talvez essa fosse a maior diferença entre aquele lugar e o mundo que lhe dera origem.

Ali, ninguém escolheria a vida de outra pessoa em nome de uma suposta proteção.

A verdade seria procurada.

Nunca imposta.

Helena permanecia no arquivo, embora tivesse aprendido a voltar para casa sem levar consigo todas as histórias que ouvira.

Clara Isabel construía uma relação possível com a irmã.

Sara dividia o tempo entre documentos e flores.

Samuel seguira adiante sem encontrar todas as respostas.

Daniel continuava aparecendo quando queria.

Gabriel reclamava.

Nunca de verdade.

A vida prosseguira sem pedir que o passado desaparecesse.

Apenas encontrara espaço ao lado dele.

Certa tarde, Helena encontrou o caderno que dera ao irmão.

Folheou.

Havia páginas preenchidas com acontecimentos pequenos.

Datas.

Visitas.

Dias de chuva.

Frases sem importância aparente.

Depois, páginas em branco.

Muitas.

Encontrou Gabriel na varanda.

— Você parou de escrever.

Ele olhou para o caderno.

— Parei.

— Por quê?

Gabriel demorou um pouco.

— Acho que comecei a viver sem precisar registrar que estava vivendo.

Helena sentou-se ao lado.

— E as páginas que sobraram?

Gabriel passou os dedos pela borda do caderno.

— Continuam sendo minhas.

Ela sorriu.

Não perguntou o que ele escreveria nelas.

Talvez nada.

Talvez muito.

O futuro não precisava ser preenchido antecipadamente.

Naquela noite, Gabriel abriu a caixa das cartas.

Fazia tempo que não fazia isso.

A primeira estava ali.

A oitava também.

E a última de Heloísa.

Pegou esta.

Não releu.

Olhou apenas para a assinatura.

Mãe.

Durante muito tempo, Gabriel acreditara que precisava saber de quem recebera o sangue para compreender de quem era filho.

Agora conhecia a resposta biológica.

Ela importava.

Mas não apagava a vida.

Eunice lhe dera origem.

Heloísa lhe dera uma história.

Nenhuma precisava destruir a outra para existir.

Guardou a carta.

Fechou a caixa.

Dessa vez, não sentiu necessidade de abri-la novamente.

Na manhã seguinte, Helena o chamou para sair.

Caminharam sem destino.

Passaram pela estação.

Gabriel olhou para a entrada.

Não entrou.

Continuaram.

Passaram por uma rua que poderia levá-los à figueira.

Também não foram.

Nenhum ritual os esperava.

Nenhuma despedida precisava ser repetida.

Sentaram-se num banco qualquer.

Por alguns minutos, observaram pessoas atravessando a rua, ônibus parando, lojas abrindo.

Ninguém sabia quem eram.

Ninguém conhecia as cartas.

Os nomes trocados.

As crianças desaparecidas.

Os anos de procura.

Para o mundo, eram apenas duas pessoas sentadas lado a lado.

Gabriel achou aquilo extraordinariamente simples.

Helena tocou seu braço.

— Vamos?

Ele se levantou.

Começaram a caminhar.

Muito tempo antes, uma carta colocara Gabriel em movimento.

Ele acreditara que, no fim do caminho, encontraria uma resposta capaz de explicar tudo.

Não encontrou.

Encontrou pessoas.

Algumas mentiram.

Algumas tiveram medo.

Algumas tentaram proteger.

Algumas feriram enquanto acreditavam estar salvando.

Outras passaram a vida esperando.

E algumas voltaram.

A verdade não devolveu os anos perdidos.

Não ressuscitou ninguém.

Não corrigiu todas as escolhas.

Mas interrompeu uma mentira.

E permitiu que aqueles que permaneceram decidissem o que fazer com o tempo que ainda possuíam.

Gabriel olhou para Helena caminhando ao seu lado.

Durante vinte e oito anos, imaginara aquele momento de centenas de maneiras.

Em nenhuma delas pensara que seria tão comum.

Talvez fosse justamente isso que sempre quisera.

Não um reencontro eterno.

Uma irmã presente o suficiente para que sua presença pudesse deixar de ser extraordinária.

Helena percebeu que ele a observava.

— O que foi?

— Nada.

— Então anda.

Gabriel sorriu.

Continuaram.

Não havia envelope esperando em casa.

Nenhum endereço no bolso.

Nenhum nome a ser decifrado.

E nenhuma promessa de que todas as perguntas seriam respondidas.

Havia apenas a rua diante deles.

E o tempo que ainda tinham.

Gabriel finalmente compreendeu que a última carta de uma vida talvez não fosse aquela que alguém escrevia.

Talvez fosse aquela que já não precisava ser escrita.

E, pela primeira vez, ele não esperou pela próxima.

SOBRE O AUTOR

Abioye Ras Barros escreve sobre aquilo que permanece quando as palavras parecem insuficientes: memória, afeto, ausência, identidade e esperança.

Sua literatura nasce da observação das pessoas comuns e das histórias que, muitas vezes, permanecem escondidas nos silêncios do cotidiano. Em suas obras, o passado não aparece apenas como aquilo que aconteceu, mas como uma presença capaz de atravessar gerações, afetar escolhas e transformar a maneira como cada pessoa compreende a própria existência.

Durante grande parte de sua trajetória profissional, atuou na área de análises clínicas hospitalares. Mais tarde, formou-se em História, ampliando um olhar que já carregava consigo: o interesse pelas experiências humanas que existem por trás de nomes, datas e documentos.

Como escritor, acredita que um livro não precisa apenas contar uma história. Precisa deixar alguma coisa no leitor depois que a última página é fechada.

Em A Oitava Carta, Abioye Ras Barros conduz o leitor por uma narrativa de segredos, ausências, reencontros e identidades atravessadas pelo tempo. Mais do que descobrir o que aconteceu, seus personagens precisam enfrentar uma questão ainda maior: o que fazer com a verdade depois que ela finalmente chega?

Essa pergunta atravessa também sua literatura.

Porque nem toda ferida encontra explicação.

Nem toda ausência encontra retorno.

Nem toda pergunta encontra resposta.

Ainda assim, a vida continua oferecendo páginas em branco.

E é para quem precisa encontrar coragem para escrevê-las que Abioye Ras Barros escreve.

 
 
 

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