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A Oitava Carta — Parte III — Capítulos 11 a 15

  • Foto do escritor: Abioye Ras Barros
    Abioye Ras Barros
  • há 2 dias
  • 33 min de leitura

A OITAVA CARTA

Abioye Ras Barros

PARTE III — CAPÍTULOS 11 A 15

Leitura gratuita autorizada pelo autor.

CAPÍTULO 11 — A FOTOGRAFIA

Gabriel releu o nome.

Uma vez.

Depois outra.

Era o nome de sua mãe.

Não havia erro de grafia. Não havia sobrenome parecido nem coincidência capaz de protegê-lo daquilo.

A carta destinada ao primeiro destinatário não fora escrita para ele.

Fora escrita para ela.

— Como isso é possível?

Ninguém respondeu.

Gabriel levantou a folha.

— Minha mãe conhecia essa história?

Marta baixou os olhos.

Renato permaneceu imóvel.

Anselmo observava a medalha sobre o balcão.

Paulo foi o primeiro a falar.

— Eu não sabia que era ela.

Gabriel virou-se.

— Ela quem?

— A menina.

— Que menina?

Paulo apontou para a medalha.

— A segunda.

Gabriel pegou a corrente.

— Você está dizendo que minha mãe era uma das meninas que recebiam os pães?

— Estou dizendo que a data...

— Não quero saber da data. Quero saber se você reconhece minha mãe.

— Eu era criança.

— Mas viu as meninas.

— Algumas vezes.

— Quantas?

Paulo tentou lembrar.

— Quatro. Talvez cinco.

— E?

— Vinham sempre juntas.

— Como eram?

— Uma era mais velha.

— Celina Ferreira?

— Acho que sim.

— E a outra?

Paulo respirou fundo.

— Quase não falava.

A descrição coincidiu com a primeira carta.

Ela não falava.

Não chorava.

Gabriel apertou a medalha.

— Qual idade?

— Sete, oito anos.

— Minha mãe teria essa idade na época?

Anselmo fez rapidamente a conta.

— Teria.

Gabriel fechou os olhos.

Durante toda a vida, sua mãe contara pouco sobre a infância.

Ele sabia de lugares, não de histórias. Sabia que passara algum tempo sob os cuidados de outras pessoas. Sabia que perdera parentes cedo. Sabia que evitava fotografias antigas.

Nunca perguntara o suficiente.

Ou talvez tivesse perguntado e recebido respostas cuidadosamente incompletas.

— Onde está a fotografia? — perguntou Renato.

Paulo olhou para ele.

— Qual?

— Seu pai fotografava a padaria.

— Fotografava tudo.

— Inclusive as meninas.

Paulo empalideceu.

— Como sabe?

— Porque eu vi uma dessas fotografias.

Gabriel se aproximou.

— Quando?

— Vinte e oito anos atrás.

— Naquela casa?

— Sim.

Anselmo reagiu.

— Helena estava segurando alguma coisa no reflexo.

Renato assentiu.

— Uma fotografia.

Gabriel compreendeu.

— A fotografia das meninas.

— Talvez.

— Onde está?

Paulo passou a mão pela cabeça.

— Se meu pai guardou, deve estar no depósito.

— Mostre.

— O depósito não é aberto há anos.

— Hoje será.

O cômodo ficava atrás do forno antigo.

Paulo precisou forçar a porta com o ombro.

O cheiro de papel, farinha e madeira úmida saiu antes que conseguissem entrar.

Havia caixas empilhadas até quase o teto.

Cadernos de contas.

Calendários.

Utensílios quebrados.

Molduras.

Fotografias.

Centenas delas.

— Meu pai não jogava nada fora — disse Paulo.

Gabriel olhou ao redor.

— Pela primeira vez hoje, isso é uma boa notícia.

Começaram a procurar.

Marta sentou-se no chão diante de uma caixa de sapatos cheia de fotografias.

Anselmo verificava datas escritas no verso.

Renato procurava em silêncio.

Gabriel observava cada rosto infantil.

Depois de quase quarenta minutos, Paulo chamou:

— Aqui.

Todos se aproximaram.

Ele segurava uma fotografia pequena, já amarelada.

Duas meninas estavam sentadas num banco nos fundos da padaria.

Entre elas havia um saco de papel aberto.

Cada uma segurava um pão.

A mais velha sorria.

A menor olhava diretamente para a câmera.

Gabriel sentiu as pernas enfraquecerem.

Conhecia aqueles olhos.

Não porque se lembrasse da mãe criança.

Nunca vira fotografia dela naquela idade.

Mas havia coisas que o tempo não modificava completamente.

A expressão.

O formato das sobrancelhas.

A pequena inclinação da cabeça.

— É ela.

Paulo entregou a fotografia.

Gabriel passou o dedo sobre o rosto da menina.

— É minha mãe.

Ninguém discordou.

Virou a fotografia.

Seu Orlando escrevera uma data.

E duas palavras:

Celina e H.

Gabriel mostrou a Marta.

— H.

Ela olhou para a medalha.

— A mesma inicial.

— Minha mãe não tinha nome começando com H.

— O nome que você conheceu, não.

Gabriel ergueu os olhos.

— O que está dizendo?

Marta hesitou.

— Nada ainda.

— Não faça isso.

— Não temos prova.

— Minha mãe aparece numa fotografia identificada pela letra H, usando uma medalha com H, e uma carta diz que uma menina receberia outro nome antes que o irmão a encontrasse.

Marta ficou em silêncio.

— Qual era o nome dela?

— Eu não sei.

— Mas Celina sabia.

— Provavelmente.

Gabriel riu sem humor.

— A mulher que passou a vida usando o nome de outra sabia que minha mãe também tinha outro nome.

Renato tomou a fotografia.

— Há alguma coisa errada.

— Mais uma?

— Olhem a data.

Anselmo conferiu.

A fotografia fora tirada pouco depois do desaparecimento da verdadeira Celina Ferreira.

— Ela está aqui — disse Gabriel.

— Exatamente — respondeu Renato.

— Então?

— Marta disse que Celina Ferreira desapareceu aos onze anos.

— Sim.

— Essa fotografia é posterior.

Gabriel olhou para a menina mais velha.

— Então ela não desapareceu.

Marta aproximou-se.

— Ou essa menina não é Celina Ferreira.

Silêncio.

Outra identidade começava a desmoronar.

Paulo pegou uma lupa antiga numa prateleira.

— Meu pai escrevia nomes atrás das fotos conforme as pessoas se apresentavam. Não significa que fossem verdadeiros.

Gabriel examinou novamente a imagem.

No fundo havia uma porta.

Acima dela, parte de uma placa.

A mesma placa vista na fotografia que aparecera em seu carro.

...MAR

— É aqui.

Paulo olhou.

— Claro.

— A placa.

— Padaria Santa Marta.

Gabriel sentiu o estômago apertar.

A fotografia da menina que acreditara ser Helena fora tirada naquele mesmo lugar.

Procurou-a entre os documentos que carregava.

Colocou as duas imagens lado a lado.

Na primeira, sua mãe criança ao lado da menina chamada Celina.

Na segunda, outra menina que Gabriel jurara reconhecer como sua irmã.

O fundo era idêntico.

A mesma parede.

A mesma janela.

A mesma placa incompleta.

Anselmo observou as datas.

— Foram tiradas no mesmo ano.

— Mas essa menina parece minha irmã.

Renato pegou a segunda fotografia.

Ficou olhando por vários segundos.

— Não é sua irmã.

— Como sabe?

— Porque eu conheci essa menina.

Gabriel se aproximou.

— Quem é?

Renato virou a fotografia.

As iniciais H.F.

— Helena Ferraz?

— Sim.

— Irmã de Laura?

— Sim.

— Então Augusto tinha duas filhas.

— Tinha.

— Por que Helena Ferraz não aparece na fotografia dos sete?

Renato olhou para Marta.

Ela respondeu:

— Porque todos acreditavam que estava morta.

Gabriel sentiu um arrepio.

— Outra morta sem corpo?

Marta assentiu.

— Quando?

— Anos antes daquela noite.

Gabriel colocou as duas fotografias sobre uma caixa.

— Temos a verdadeira Celina desaparecida. Outra menina assume o nome dela. Minha mãe aparece como H. Helena Ferraz é dada como morta. Minha irmã Helena desaparece anos depois.

Olhou para os três.

— Isso não é uma sequência de coincidências. Alguém está reutilizando nomes.

Renato concordou.

— E mortes.

A palavra pesou.

Gabriel voltou à carta.

Isso significa que alguém finalmente encontrou meu irmão.

— O irmão de quem?

Ninguém respondeu.

Paulo, que continuava procurando fotografias, retirou um envelope grosso do fundo de uma caixa.

— Tem mais.

Espalhou várias imagens sobre uma mesa improvisada.

As duas meninas apareciam repetidamente.

Comendo.

Brincando.

Sentadas junto ao muro.

Em algumas, Dona Amélia estava ao fundo.

Gabriel separou uma fotografia.

— Aqui.

Havia três crianças.

As duas meninas.

E um menino.

Devia ter doze ou treze anos.

Estava um pouco afastado.

O rosto fora riscado.

Da mesma maneira que os rostos da fotografia dos sete.

Gabriel virou.

Três nomes.

Celina.

H.

O terceiro estava coberto por tinta.

— O irmão.

Marta se aproximou.

— Pode ser.

Gabriel examinou o rosto riscado.

Alguns traços permaneciam visíveis.

Anselmo pegou a fotografia.

Seu semblante mudou.

— Eu conheço esse rosto.

— Quem é?

— Não sei.

— Acabou de dizer que conhece.

— Já vi em algum lugar.

Renato tomou a fotografia.

Ficou pálido.

— Não.

— Você também conhece — disse Gabriel.

Renato devolveu a imagem.

— Estamos procurando a pessoa errada.

— Que pessoa?

— Augusto.

— Por quê?

Renato apontou para o menino.

— Porque ele sabe quem é.

Gabriel pegou o telefone.

— Então vamos até ele.

Renato segurou seu pulso.

— Espere.

— O quê?

— Há outra coisa.

Apontou para a fotografia.

— Olhe a mão do menino.

Gabriel aproximou.

O garoto segurava um pedaço de papel.

No canto havia um número.

1.

Anselmo olhou para o primeiro envelope.

O mesmo número.

— Isso começou antes de nós — murmurou.

Marta assentiu.

— Muito antes.

Gabriel virou novamente a fotografia.

Sob a tinta que escondia o nome do menino, alguma coisa ainda podia ser lida.

Uma letra.

Depois outra.

Paulo trouxe a lupa.

Gabriel aproximou o papel da luz.

A primeira letra parecia um A.

A última, um O.

Anselmo ficou imóvel.

Renato se afastou.

Marta começou a chorar.

Gabriel olhou para eles.

— Vocês sabem quem é.

Ninguém respondeu.

— Quem é o menino?

Uma voz veio da porta do depósito.

— Eu.

Todos se viraram.

Um homem idoso estava parado ali.

O braço esquerdo envolvido por uma faixa manchada de sangue.

Na mão direita, segurava um envelope.

Gabriel reconheceu o rosto da fotografia dos sete.

Augusto Ferraz entrou lentamente.

Olhou para a imagem nas mãos de Gabriel.

— Passei sessenta anos esperando que alguém encontrasse essa fotografia.

Gabriel não desviou os olhos.

— Você é o irmão?

Augusto fechou a porta atrás de si.

— Sou.

— De quem?

Ele olhou para a fotografia das duas meninas.

Apontou para a menor.

Para a criança identificada apenas pela letra H.

Para a menina que Gabriel acabara de reconhecer como sua própria mãe.

— Dela.

CAPÍTULO 12 — O QUE ANSELMO NUNCA CONTOU

— Dela.

Augusto apontava para a menina identificada apenas pela letra H.

Gabriel olhou para a fotografia.

Depois para o homem à sua frente.

— Você está dizendo que minha mãe era sua irmã?

— Estou.

Gabriel não reagiu imediatamente.

Talvez porque certas revelações sejam grandes demais para provocar qualquer coisa no primeiro instante.

Ele tornou a olhar para a imagem.

A menina segurava um pão.

Ao lado dela estava aquela que todos chamavam de Celina.

Atrás, o muro da padaria.

Uma infância que sua mãe jamais lhe contara.

— Qual era o nome dela?

Augusto apertou o envelope que trazia na mão.

— Antes, preciso saber o que vocês encontraram.

Gabriel avançou.

— Não. Durante toda a minha vida, conheci minha mãe por um nome. Hoje descobri que talvez esse nome nem fosse dela. Você aparece dizendo que era irmão dela e acha que ainda pode escolher a ordem das respostas?

Augusto sustentou o olhar.

— Posso escolher a ordem que mantém você vivo.

Gabriel riu.

— Mais um.

— Mais um o quê?

— Homem velho tentando transformar silêncio em proteção.

Augusto sentiu o golpe.

Anselmo se aproximou.

— Responda.

Augusto olhou para ele.

— Você não tem o direito de me pedir isso.

— Talvez não. Ele tem.

Augusto voltou-se para Gabriel.

— Heloísa.

O nome entrou na sala sem ruído.

Gabriel repetiu:

— Heloísa.

— Esse era o nome dela.

— Heloísa Ferraz?

— Não.

— Então qual era o sobrenome?

Augusto abaixou os olhos.

— Eu também não nasci Ferraz.

Gabriel fechou os olhos por um instante.

Mais um nome.

Mais uma identidade.

— Quem eram vocês?

— Duas crianças.

— Isso eu estou vendo.

— Duas crianças que foram separadas.

— Por quê?

— Porque alguém decidiu que seria mais seguro.

— Para quem?

Augusto não respondeu.

Gabriel bateu a fotografia contra a mesa.

— Para quem?

— Para os adultos.

Marta virou o rosto.

Renato caminhou até a janela estreita do depósito.

Paulo parecia desejar não estar ali.

Augusto continuou:

— Eu tinha treze anos quando levaram Heloísa. Disseram que ela ficaria alguns dias longe de mim.

— Quem disse?

— Dona Amélia.

— A mulher da escola?

— Sim.

— E você acreditou?

— Eu tinha treze anos.

Gabriel não respondeu.

Aquela frase ele já ouvira de outras formas.

Eu era jovem.

Éramos crianças.

Talvez aquela história tivesse sido construída justamente sobre pessoas jovens demais para compreender o que adultos faziam ao redor delas.

— Quando percebeu que ela não voltaria?

— No terceiro dia.

— O que fez?

— Procurei.

— Onde?

— Em todo lugar que um menino de treze anos podia procurar.

Augusto apontou para a fotografia.

— Foi quando Celina me ajudou.

— A verdadeira Celina?

— Sim.

Marta baixou a cabeça.

— Ela descobriu onde Heloísa estava — continuou Augusto. — E escreveu a primeira carta.

Gabriel lembrou-se das palavras encontradas no C-17.

Se um dia ele vier procurá-la, digam que ela não morreu.

— A carta era para você.

— Não. Era para quem encontrasse Heloísa antes de mim.

— Por quê?

— Porque Celina percebeu que estavam mudando o nome dela.

— Da minha mãe?

— Sim.

— Para qual?

Augusto olhou para Gabriel.

Disse o nome pelo qual ele conhecera a mãe durante toda a vida.

Gabriel sentou-se.

Não porque quisesse.

As pernas simplesmente deixaram de sustentá-lo.

— Então era verdade.

— Sim.

— Por que fizeram isso?

— Para que eu não a encontrasse.

— Por quê?

Augusto demorou.

— Essa resposta está na carta que ainda não abrimos.

Gabriel apontou para o envelope em sua mão.

— Esse?

— Não.

Augusto colocou-o sobre a mesa.

No canto havia o nome:

AUGUSTO.

Era o envelope retirado do compartimento C-17.

A mancha de sangue continuava ali.

— Como isso veio parar com você?

Renato reagiu primeiro.

— Eu vi esse envelope dentro da caixa.

— E eu o retirei antes de vocês chegarem.

— Impossível.

— Não fui à estação hoje.

— Então como?

Augusto abriu o envelope.

Vazio.

— Porque o que vocês encontraram era uma cópia.

Gabriel olhou para a caixa.

— Dos sete envelopes?

— De todos.

— Quem colocou?

— Não sei.

— E os originais?

Augusto olhou para Anselmo.

— Pergunte a ele.

Todos se voltaram.

Anselmo não se moveu.

Gabriel percebeu antes que qualquer palavra fosse dita.

— Você sabe.

Anselmo ficou em silêncio.

— O capítulo inteiro de hoje é sobre pessoas descobrindo que você sabe.

— Gabriel...

— Onde estão os originais?

Anselmo respirou fundo.

— Não sei.

— Augusto acabou de dizer...

— Eu sabia.

— Qual é a diferença?

— Sabia onde estavam vinte e oito anos atrás.

Augusto balançou a cabeça.

— Conte tudo.

Anselmo olhou para ele.

— Você também estava lá.

— Mas foi você quem os levou.

Marta se levantou.

— Anselmo?

Ele caminhou até a parede.

Durante anos, guardara aquela parte da noite num lugar que evitava visitar até em pensamento.

— Depois que Helena saiu...

Marta interrompeu:

— Ela não saiu naquele momento.

Anselmo fechou os olhos.

— Eu sei disso agora.

Voltou-se.

— Depois da fotografia, Celina me chamou até a cozinha.

— Qual Celina? — perguntou Gabriel.

Anselmo hesitou.

Era estranho precisar fazer aquela distinção.

— A mulher que conhecemos por Celina.

Augusto permaneceu calado.

— Ela me entregou uma caixa — continuou Anselmo. — Dentro havia sete envelopes.

Gabriel olhou para a caixa encontrada no C-17.

— Como aqueles?

— Iguais.

— Com os mesmos nomes?

— Sim.

— O que ela mandou fazer?

— Esconder.

— Onde?

— Em qualquer lugar onde ninguém ligado àquela casa pudesse encontrar.

— E você escondeu.

— Sim.

— Onde?

Anselmo olhou para Augusto.

— Na padaria.

Paulo deu um passo para trás.

— Aqui?

— Não exatamente.

— Onde?

Anselmo apontou para a casa nos fundos.

Paulo empalideceu.

— Meu pai sabia?

— Sabia que eu deixei uma caixa. Não sabia o conteúdo.

Renato franziu a testa.

— Você nunca contou isso.

— Não.

— Por quê?

— Porque, na manhã seguinte, quando voltei para buscar a caixa, ela havia desaparecido.

Paulo parecia confuso.

— Meu pai pegou?

— Ele jurou que não.

— Então quem?

Anselmo olhou para Gabriel.

— Helena.

Silêncio.

— Minha irmã?

— Sim.

— Como sabe?

— Porque ela deixou uma coisa no lugar da caixa.

— O quê?

Anselmo fechou os olhos.

— O segundo pão.

Gabriel sentiu um arrepio.

— Explique.

— Havia dois pães sobre a mesa quando escondi a caixa. Comi um enquanto esperava seu Orlando. O outro ficou lá.

— E?

— Quando voltei, a caixa tinha sumido. No lugar, havia dois pães.

Gabriel compreendeu.

— Ela colocou outro.

— Sim.

— Era um sinal.

— Só entendi depois da ligação.

Diga ao meu irmão que eu comi o meu pão.

Gabriel passou a mão pelo rosto.

— Então Helena pegou as sete cartas.

— Acredito que sim.

— E levou consigo.

— Sim.

— Por isso ninguém encontrou os originais.

— Exatamente.

Augusto se aproximou.

— Você está omitindo uma parte.

Anselmo o encarou.

— Não.

— Está.

— Qual?

— O bilhete.

Anselmo ficou imóvel.

Gabriel percebeu.

— Que bilhete?

Augusto respondeu:

— Helena não deixou apenas os pães.

Anselmo abaixou a cabeça.

— O que ela escreveu?

— Não importa mais.

Gabriel caminhou até ele.

— Hoje você não decide o que importa.

Anselmo levantou os olhos.

Havia vergonha.

— Ela escreveu meu nome.

— Só isso?

— Não.

— Então diga.

Anselmo respirou fundo.

— “Anselmo, se você ainda acredita nela, não me procure.”

— Nela quem?

— Celina.

Marta fechou os olhos.

Gabriel sentiu a história mudar novamente.

— Minha irmã desconfiava de Celina.

— Sim.

— E você sabia.

— Sabia.

— Mesmo assim passou vinte e oito anos defendendo aquela mulher.

Anselmo não respondeu.

— Por quê?

Augusto falou:

— Porque ele não contou a parte mais importante.

Anselmo virou-se bruscamente.

— Chega.

— Não. Já passou da hora.

— Augusto.

— Gabriel precisa saber.

— Isso não tem relação com Helena.

— Tem toda a relação.

Gabriel olhava de um para o outro.

— O quê?

Augusto apontou para Anselmo.

— Pergunte por que ele confiava tanto em Celina.

— Ele a amava. Já sei.

Augusto balançou a cabeça.

— Não é isso.

Anselmo fechou os olhos.

— Não faça isso.

— Você teve vinte e oito anos.

Gabriel se aproximou.

— Anselmo, o que você nunca me contou?

Ele permaneceu calado.

— Olhe para mim.

Anselmo abriu os olhos.

A voz saiu baixa.

— Eu conhecia sua irmã antes daquela noite.

— Isso também já sei.

— Não. Você sabe que eu a conhecia.

Fez uma pausa.

— Não sabe como.

Gabriel esperou.

Anselmo parecia ter envelhecido vários anos em poucos segundos.

— Helena veio me procurar seis meses antes.

— Por quê?

— Porque tinha encontrado documentos da sua mãe.

Augusto ergueu a cabeça.

— Que documentos?

— Certidões. Fotografias. Um registro da escola. E uma carta.

Gabriel sentiu o peito apertar.

— A primeira carta?

— Não.

— Então qual?

Anselmo olhou para ele.

— Uma carta escrita pela sua mãe.

— Para quem?

Anselmo demorou.

— Para Helena.

— Minha mãe escreveu para minha irmã?

— Sim.

— O que dizia?

— Eu nunca li inteira.

— O que leu?

Anselmo respirou fundo.

— A primeira linha.

— Qual?

Ele respondeu:

— “Helena, se algum dia disserem que você é minha filha, não acredite.”

Ninguém se moveu.

Gabriel sentiu o chão desaparecer sob os pés.

— Minha... filha?

Anselmo continuou:

— A segunda linha dizia: “Você é minha irmã.”

Gabriel não conseguiu falar.

Augusto apoiou-se na mesa.

Marta levou as mãos ao rosto.

Renato virou-se lentamente.

Anselmo concluiu:

— Foi por isso que Helena começou a procurar.

Gabriel olhou para a fotografia de sua mãe criança.

Depois para Augusto.

Depois para Anselmo.

— Se Helena era irmã da minha mãe...

A frase morreu antes do fim.

Augusto respondeu por ele:

— Então Helena também era minha irmã.

Gabriel balançou a cabeça.

— Não.

— É o que a carta dizia.

— Isso faria de Helena minha...

Ele não conseguiu terminar.

Anselmo terminou:

— Sua tia.

O silêncio tornou-se absoluto.

Gabriel passou vinte e oito anos procurando uma irmã.

Talvez nunca tivesse tido uma.

CAPÍTULO 13 — O SEGUNDO ENVELOPE

Gabriel passou vinte e oito anos procurando uma irmã.

Talvez nunca tivesse tido uma.

A ideia era absurda demais para ser aceita e precisa demais para ser ignorada.

— Não.

A palavra saiu baixa.

Ninguém respondeu.

— Não — repetiu. — Helena cresceu comigo.

— Ninguém está dizendo que isso não aconteceu — disse Anselmo.

— Dormíamos no mesmo quarto. Brigávamos pela televisão. Ela escondia metade do pão para eu comer. Minha mãe cuidou dela. Eu cuidei dela.

Augusto aproximou-se.

— Isso faz dela sua família.

Gabriel virou-se.

— Não preciso que você me ensine o que é família.

Augusto parou.

— Você aparece hoje dizendo que é irmão da minha mãe. Depois descubro que a mulher que chamei de irmã talvez fosse irmã dela. E todos vocês falam como se bastasse reorganizar os nomes para reorganizar minha vida.

— Não basta — disse Marta.

— Então parem de tentar.

Gabriel pegou a fotografia da mãe.

A menina identificada pela letra H continuava ali, segurando um pão.

Heloísa.

Sua mãe tivera outro nome.

Talvez outra família.

Talvez outra história inteira.

— Onde está a carta que minha mãe escreveu para Helena?

Anselmo respondeu:

— Eu não sei.

Gabriel riu sem humor.

— Claro.

— Helena não me entregou. Apenas mostrou.

— Onde?

— Na minha casa.

— Seis meses antes de desaparecer?

— Sim.

— Ela disse onde encontrou?

— Entre documentos da sua mãe.

— Na casa onde morávamos?

— Não.

Gabriel ergueu os olhos.

— Então onde?

— Na casa de Celina.

O silêncio retornou.

— Celina tinha documentos da minha mãe?

— Tinha.

— Por quê?

— Helena também queria saber.

Gabriel olhou para Marta.

— Você sabia?

— Não.

Renato negou com a cabeça.

Augusto permaneceu imóvel.

— E você? — Gabriel perguntou.

— Eu sabia que Celina guardava documentos. Não sabia quais.

— Então minha irmã... minha tia...

A palavra travou.

Gabriel respirou fundo.

— Helena entrou na casa de Celina e encontrou uma carta da minha mãe.

— Foi o que me contou — disse Anselmo.

— E seis meses depois desapareceu.

— Sim.

— Isso não torna Celina uma vítima nessa história.

Anselmo não respondeu.

Pela primeira vez, não tentou defendê-la.

Gabriel percebeu.

— Finalmente.

— Finalmente o quê?

— Você começou a duvidar dela.

Anselmo olhou para a fotografia dos sete.

— Talvez eu tenha começado tarde demais.

Uma pancada veio da frente da padaria.

Paulo saiu do depósito.

— Vou ver.

Renato segurou-o.

— Espere.

Outra pancada.

Não era na porta.

Parecia alguma coisa sendo jogada contra o vidro.

Paulo apagou a luz do depósito.

Todos ficaram em silêncio.

Uma terceira pancada.

Depois, nada.

Renato caminhou até o corredor.

Gabriel o acompanhou.

Chegaram ao salão da padaria.

A rua estava quase vazia.

No chão, junto à entrada, havia uma pedra.

Amarrado a ela por um barbante, um envelope.

Gabriel olhou para Renato.

— Não abra a porta ainda.

Foram até a janela.

Nenhuma pessoa visível.

Paulo destrancou a entrada.

Renato saiu primeiro.

Olhou para os dois lados.

Fez sinal.

Gabriel pegou a pedra.

O envelope trazia um número.

2.

Anselmo, ao vê-lo, parou.

— Outro?

Gabriel comparou com o envelope que haviam recebido anteriormente.

Mesmo número.

Mesmo tipo de papel.

— Dois segundos envelopes — disse Marta.

Renato corrigiu:

— Ou um deles nunca foi o segundo.

Gabriel abriu.

Dentro havia apenas uma folha.

Dessa vez, nenhuma ameaça.

Uma frase:

Se já descobriram quem era Heloísa, estão prontos para descobrir quem era Helena.

Gabriel continuou.

Mas não perguntem quem ela era.

Perguntem de quem ela nasceu.

Abaixo havia um endereço.

Paulo reconheceu.

— Isso fica perto daqui.

— O que existe lá? — perguntou Gabriel.

— Hoje? Um prédio abandonado.

— E antes?

Paulo pensou.

— Uma maternidade.

Augusto ergueu a cabeça.

— Santa Isabel.

Marta ficou pálida.

— Não.

Gabriel percebeu.

— Você conhece?

— Todo mundo conhecia.

— Não foi isso que perguntei.

Marta se sentou.

— Eu nasci lá.

Renato falou:

— Eu também.

Anselmo olhou para ele.

— Nunca contou.

— Nunca perguntou.

Gabriel voltou-se para Augusto.

— E você?

— Não sei onde nasci.

— Heloísa?

— Também não.

Gabriel olhou para o bilhete.

— Helena?

Ninguém respondeu.

A antiga Maternidade Santa Isabel fechara havia quase duas décadas.

Parte do muro tinha desabado. As janelas do primeiro andar estavam cobertas por madeira, e uma placa enferrujada ainda conservava algumas letras do nome.

Gabriel parou diante do prédio.

— Por que alguém nos mandaria para cá?

Augusto respondeu:

— Porque arquivos antigos não desaparecem tão facilmente quanto pessoas.

— O prédio está abandonado.

— O prédio, sim.

Caminhou até uma pequena construção lateral.

Na porta havia uma placa:

ARQUIVO — ACESSO RESTRITO

Gabriel olhou para ele.

— Como sabia?

— Estive aqui antes.

— Quando?

— Muitas vezes.

— Procurando Heloísa?

— Sim.

— Encontrou alguma coisa?

— Não naquela época.

Augusto bateu.

Uma mulher de meia-idade abriu.

Ao vê-lo, suspirou.

— Eu sabia que você voltaria.

— Preciso de um registro.

— Você sempre precisa.

Ela percebeu os demais.

— Quem são?

— Pessoas que deveriam ter vindo comigo há muito tempo.

A mulher abriu a porta.

O arquivo ocupava duas salas.

Caixas identificadas por anos cobriam as paredes.

— O que procuram?

Gabriel entregou a data aproximada do nascimento de Helena.

— Nome?

Ele hesitou.

— Helena.

A mulher esperou.

— Sobrenome?

— Esse é o problema.

Ela olhou para Augusto.

— De novo?

— De novo.

Consultaram livros antigos.

Não havia sistema informatizado para boa parte daquele período.

Página após página.

Nomes.

Datas.

Mães.

Horários.

Depois de quase uma hora, Gabriel encontrou.

— Aqui.

Todos se aproximaram.

Helena.

A data coincidia.

O sobrenome, não.

Gabriel leu.

— Helena Duarte.

Anselmo franziu a testa.

— Nunca ouvi esse sobrenome.

Gabriel passou o dedo pela linha.

Nome da mãe:

Heloísa Duarte.

Ele parou.

— Então ela era filha da minha mãe.

Augusto aproximou-se.

— Continue.

Havia uma anotação lateral.

Registro retificado.

A mulher do arquivo procurou o livro correspondente.

Encontrou.

Na retificação, o nome da mãe havia sido alterado.

Não para outra mulher.

Para:

Filiação materna não declarada.

Gabriel ficou imóvel.

— Apagaram minha mãe.

Augusto examinou a assinatura.

— Quem autorizou?

A mulher apontou.

— Responsável legal.

Gabriel leu o nome.

Amélia Ferreira.

Marta recuou.

— Dona Amélia.

A mesma mulher da escola.

A mesma que aparecia nas fotografias.

A mesma que separara Augusto de Heloísa.

— Ela ainda estava viva quando Helena nasceu — disse Gabriel.

Augusto assentiu.

— E continuava controlando os nomes.

Anselmo folheou as páginas seguintes.

— Esperem.

Encontrara outro registro.

Mesma data.

Mesmo horário.

Outro bebê.

Sexo feminino.

Sem nome.

Gabriel olhou.

— Gêmeas?

A mulher do arquivo conferiu.

— Não. Mães diferentes.

— Quem é a mãe?

Ela aproximou o livro da luz.

O campo estava rasurado.

Mas uma parte do nome permanecia visível.

...lina Ferreira.

Marta segurou a mesa.

— Celina.

Augusto negou.

— A verdadeira Celina teria idade para ser mãe nessa época.

Gabriel fez as contas.

— E a mulher que conhecemos como Celina também.

— Exatamente.

— Qual delas?

Ninguém sabia.

A mulher do arquivo continuou examinando o livro.

— Há uma observação.

Leu:

— “Recém-nascida transferida.”

— Para onde?

A linha seguinte estava apagada.

Gabriel fechou os olhos.

Outra menina.

Outro nome retirado.

Outra criança deslocada.

— Isso nunca termina.

Augusto respondeu:

— Termina quando descobrirmos quem começou.

Gabriel voltou ao registro de Helena.

— Se minha mãe constava originalmente como mãe dela, a carta estava mentindo.

Anselmo compreendeu.

Se algum dia disserem que você é minha filha, não acredite. Você é minha irmã.

— Ou o registro mentia — disse ele.

Gabriel olhou para Augusto.

— Se Helena era irmã de Heloísa, quem era a mãe das duas?

Augusto não respondeu.

A mulher do arquivo fechou o livro.

— Talvez vocês devam ver isto.

Retirou uma pasta de dentro de uma caixa.

— Encontrei quando Augusto veio aqui pela última vez. Não entreguei porque não tinha certeza de que pertencia ao caso dele.

— O que é?

— Fotografias de identificação da maternidade.

Espalhou algumas sobre a mesa.

Funcionários.

Médicos.

Enfermeiras.

Mulheres com recém-nascidos.

Gabriel passou uma a uma.

Parou.

— Essa mulher.

Augusto aproximou-se.

Era Dona Amélia.

Mais jovem.

Usava uniforme de enfermagem.

— Ela trabalhava aqui — disse Marta.

A mulher do arquivo virou a fotografia.

Amélia Ferreira — auxiliar de enfermagem.

Gabriel continuou procurando.

Outra fotografia.

Duas mulheres diante da maternidade.

Amélia.

E uma jovem segurando um bebê.

No verso:

Celina e Helena.

Gabriel ficou imóvel.

— Qual delas é Celina?

Augusto tomou a fotografia.

Seu rosto perdeu a cor.

— Nenhuma.

— Como assim?

— Eu conheço essas duas mulheres.

Apontou para Amélia.

— Essa é Amélia.

Depois para a jovem com o bebê.

— E essa mulher não se chamava Celina.

— Quem é?

Augusto olhou para Marta.

Ela reconhecera também.

— Diga — exigiu Gabriel.

Marta respondeu:

— É a mãe de Anselmo.

Todos se viraram.

Anselmo não conseguiu falar.

Gabriel apontou para o bebê.

— Então quem é Helena?

Anselmo aproximou-se da fotografia.

Virou-a.

Observou a data.

Fez a conta.

Uma vez.

Depois outra.

Sentou-se.

— Não.

Gabriel percebeu antes que ele dissesse.

— Quantos anos você tinha quando essa fotografia foi tirada?

Anselmo não respondeu.

Augusto respondeu por ele:

— Nenhum.

Gabriel olhou novamente para o bebê.

— Por que você ainda não tinha nascido?

Augusto balançou a cabeça.

— Porque ele tinha acabado de nascer.

Anselmo fechou os olhos.

Na fotografia, sua mãe segurava um bebê identificado como Helena.

Mas Anselmo nascera naquela mesma data.

Gabriel sentiu o sangue gelar.

— Então esse bebê...

Anselmo abriu os olhos.

Pela primeira vez, o mistério não estava ao redor dele.

Estava nele.

No verso da fotografia, abaixo de Celina e Helena, havia uma terceira palavra quase apagada.

Gabriel aproximou-a da luz.

Conseguiu ler:

Anselmo.

CAPÍTULO 14 — A MULHER QUE DESAPARECEU

Anselmo.

O nome estava quase apagado no verso da fotografia.

Ainda assim, estava ali.

Anselmo segurou a imagem pelas bordas.

Sua mãe.

Um bebê.

A data de seu nascimento.

E dois nomes que não deveriam dividir o mesmo pedaço de papel.

Helena.

Anselmo.

— Minha mãe nunca falou dessa maternidade.

Ninguém respondeu.

— Nunca.

Gabriel permaneceu diante dele.

Pela primeira vez desde que tudo começara, não fez perguntas.

Anselmo precisava de alguns segundos para compreender que agora era sua própria história que estava sendo desmontada.

Augusto aproximou a fotografia da luz.

— Essa palavra pode ter sido acrescentada depois.

— Por quem? — perguntou Anselmo.

— Não sei.

— Parece que essa resposta serve para tudo.

Gabriel reconheceu a própria impaciência na voz dele.

— Precisamos descobrir quem escreveu no verso.

A funcionária do arquivo examinou a fotografia.

— As duas primeiras palavras parecem da mesma pessoa.

— “Celina e Helena”?

— Sim. Mas “Anselmo” foi escrito com outra caneta. Talvez anos depois.

Anselmo respirou um pouco melhor.

— Então não prova nada.

— Prova que alguém quis relacionar você a essa fotografia — disse Gabriel.

— Isso é diferente.

— É.

Anselmo devolveu a imagem.

— Quero ver meu registro de nascimento.

A mulher perguntou a data completa.

Começou nova busca.

Alguns minutos depois, encontrou o livro.

Passou o dedo pelas linhas.

Parou.

— Anselmo...

O sobrenome coincidia.

A mãe também.

O campo destinado ao pai estava em branco.

— Está tudo certo — disse ele.

A mulher não respondeu.

— O quê?

Ela apontou para uma anotação lateral.

Registro realizado 43 dias após o nascimento.

— Isso era comum? — perguntou Gabriel.

— Atrasos aconteciam.

— Quarenta e três dias?

— Sim.

Anselmo pareceu aliviado.

— Então pronto.

— Não exatamente.

A mulher virou algumas páginas.

— Não há registro de parto nesta maternidade com o nome da sua mãe naquela data.

O alívio desapareceu.

— Talvez eu tenha nascido em outro lugar.

— É possível.

Gabriel apontou para a fotografia.

— Mas a mãe dele estava aqui segurando um bebê.

Silêncio.

Augusto perguntou:

— Existe algum registro de transferência naquele dia?

A mulher procurou.

Encontrou dois.

O primeiro correspondia à recém-nascida sem nome que já haviam localizado.

O segundo trazia apenas:

RN masculino — transferência externa.

Nome da mãe:

em branco.

Anselmo ficou imóvel.

— Para onde?

— Não consta.

— Isso pode ser qualquer criança.

— Pode.

Gabriel olhou para a data.

— Mas foi no mesmo dia.

Anselmo se afastou da mesa.

— Estamos forçando coincidências.

— Talvez — disse Gabriel. — Mas precisamos verificá-las.

— E como?

Augusto respondeu:

— Encontrando a mulher da fotografia.

Anselmo olhou para ele.

— Minha mãe morreu há dezesseis anos.

— Não estou falando dela.

Apontou para Amélia.

— Estou falando dela.

Marta balançou a cabeça.

— Amélia morreu muito antes.

Augusto virou-se.

— Você viu o corpo?

Ninguém respondeu.

Gabriel quase sorriu diante da ironia amarga.

— Voltamos aos mortos sem corpo.

— Houve enterro — disse Marta.

— Você foi?

— Não.

— Celina?

— Também não.

— Renato?

Ele negou.

Augusto concluiu:

— Eu fui.

Todos olharam para ele.

— E viu?

— Vi um caixão fechado.

Gabriel respirou fundo.

— Então nem você sabe.

— Não.

A funcionária do arquivo continuava folheando a pasta.

— Talvez isso ajude.

Retirou um documento.

Era uma ficha funcional.

Amélia Ferreira.

Data de admissão.

Função.

Endereço.

E, no campo de desligamento:

Abandono de função.

— Ela não se aposentou? — perguntou Marta.

— Segundo isso, parou de comparecer.

— Quando?

A mulher informou a data.

Augusto fez a conta.

— Quatro dias depois do nascimento de Anselmo.

Ele ergueu os olhos.

A sala inteira se calou.

— Amélia desapareceu quatro dias depois de eu nascer? — perguntou Anselmo.

— Segundo o arquivo, deixou de trabalhar.

— Isso não significa que desapareceu.

— Não — disse Augusto. — Mas foi nessa mesma época que nos disseram que ela tinha morrido.

Marta levou a mão à boca.

— Espere.

Todos olharam.

— Eu lembro.

— Do quê?

— Celina ficou semanas sem ir à escola.

— A verdadeira Celina? — perguntou Gabriel.

Marta fechou os olhos, tentando reconstruir.

— Não.

Abriu-os.

— A outra.

Gabriel sentiu um arrepio.

— A mulher que morreu recentemente.

— Sim.

— Por quê?

— Disseram que estava doente.

Augusto negou.

— Não estava.

— Como sabe?

— Porque eu a vi.

— Onde?

— Na estação.

Anselmo olhou para ele.

— C-17?

— Ainda não existia como nosso esconderijo. Mas a estação já fazia parte da história.

Gabriel aproximou-se.

— O que ela fazia lá?

— Esperava Amélia.

— E Amélia apareceu?

Augusto assentiu.

— Foi a última vez que a vi.

— Sozinha?

— Não.

— Com quem?

Augusto olhou para Anselmo.

— Com sua mãe.

Anselmo sentiu o peito apertar.

— Minha mãe conhecia Amélia.

— Muito mais do que você imagina.

— O que aconteceu?

— Elas discutiram.

— Sobre quê?

— Um bebê.

Ninguém falou.

Anselmo sentou-se novamente.

— Eu?

— Na época eu não sabia.

— E agora?

— Agora já não tenho certeza de nada.

Gabriel perguntou:

— Você ouviu alguma coisa?

— Fragmentos.

— Quais?

Augusto fechou os olhos.

A estação.

O barulho dos trens.

Amélia segurando uma mala.

A mãe de Anselmo chorando.

A mulher que anos depois todos chamariam de Celina alguns metros atrás.

— Sua mãe dizia que não conseguiria fazer aquilo.

— Fazer o quê?

— Não ouvi.

— E Amélia?

— Disse que já era tarde.

— Só isso?

Augusto hesitou.

— Não.

Anselmo esperou.

— Ela disse: “Agora você tem um filho. Cuide dele e esqueça a menina.”

Anselmo ficou imóvel.

— Que menina?

— Eu nunca soube.

Gabriel olhou para a fotografia.

A mãe de Anselmo segurando um bebê identificado como Helena.

— Talvez o bebê não fosse você.

— Já sabemos que a palavra “Anselmo” foi escrita depois.

— Exatamente.

Marta completou:

— Talvez sua mãe tenha dado à luz uma menina.

Anselmo balançou a cabeça.

— E quarenta e três dias depois registrou um menino?

Ninguém respondeu.

— Isso é absurdo.

Renato, até então calado, falou:

— Só é absurdo se você estiver presumindo que o menino registrado era filho biológico dela.

Anselmo olhou para ele.

— O que está insinuando?

— Nada. Estou seguindo as pistas.

— Com a minha vida.

— Foi isso que todos fizemos com Gabriel desde esta manhã.

A frase encerrou a discussão.

Anselmo sentou-se.

— Então onde está a menina?

Gabriel respondeu:

— Essa parece ser a pergunta que atravessa toda a história.

A mulher do arquivo levantou-se.

— Há outro lugar que vocês podem procurar.

— Onde?

— Arquivo municipal. Quando a maternidade fechou, parte dos documentos administrativos foi transferida.

— Registros médicos?

— Não. Funcionários, correspondências, alguns livros de entrada e saída.

Augusto perguntou:

— Hoje ainda abre?

Ela olhou o relógio.

— Não.

Gabriel respirou fundo.

— Amanhã.

Anselmo levantou-se.

— Não.

— O quê?

— Não vou esperar.

— O arquivo está fechado.

— Não estou falando do arquivo.

Pegou a fotografia.

— Minha mãe guardava documentos numa casa antiga. Depois que morreu, nunca consegui jogar nada fora.

— Onde?

— Num depósito.

Gabriel entendeu.

— Vamos.

O depósito ficava nos fundos da casa onde Anselmo crescera.

Ele não entrava ali havia anos.

A fechadura cedeu depois de duas tentativas.

Acendeu a luz.

Caixas.

Móveis cobertos por lençóis.

Uma máquina de costura.

Roupas.

Livros.

Uma vida reduzida a coisas que ninguém tivera coragem de descartar.

Anselmo encontrou a caixa da mãe.

Reconheceu pela fita azul em torno dela.

Sentou-se no chão.

Abriu.

Fotografias.

Carnês.

Cartões de aniversário.

Documentos.

Um pequeno terço.

Gabriel ajudava em silêncio.

Depois de alguns minutos, Anselmo encontrou uma carteira antiga.

Dentro havia uma fotografia de bebê.

Nenhuma anotação.

— Pode ser você — disse Gabriel.

— Pode.

Outra fotografia.

Sua mãe jovem.

Outra.

Uma mulher que ele não reconheceu.

No verso:

Amélia.

Anselmo mostrou.

— Ela.

Augusto confirmou.

Continuaram.

No fundo da caixa havia uma pasta amarela.

Anselmo abriu.

Sua certidão de nascimento.

Carteira de vacinação.

Boletins escolares.

Tudo normal.

Até encontrar um envelope fechado.

Na frente:

Para Anselmo, quando eu não estiver mais aqui.

Ele reconheceu a letra da mãe.

Ficou parado.

— Nunca viu isso? — perguntou Gabriel.

— Nunca.

Abriu.

Havia três folhas.

Começou a ler.

Meu filho,

se você encontrou esta carta, talvez eu tenha sido covarde até o fim.

Anselmo interrompeu.

Gabriel afastou-se um pouco.

Ele continuou sozinho.

Passei a vida tentando acreditar que amar alguém era suficiente para tornar certas coisas verdadeiras.

Os olhos começaram a arder.

Você foi meu filho desde o primeiro dia em que o colocaram nos meus braços.

Anselmo parou.

A palavra parecia ter peso.

Colocaram.

Continuou.

Eu não lhe dei a vida.

Mas, se Deus permitir que alguma coisa conte depois que partimos, espero que conte que tentei lhe dar uma.

Anselmo abaixou a carta.

Gabriel não disse nada.

Augusto fechou os olhos.

Marta começou a chorar.

Anselmo respirou fundo e voltou ao texto.

Não sei quem foi sua mãe.

Amélia nunca me contou.

Disse apenas que, se eu não ficasse com você, levariam você para longe como fizeram com a menina.

Anselmo apertou a folha.

Durante anos perguntei quem era essa menina.

Ela nunca respondeu.

Na segunda página havia uma frase sublinhada:

Só muito depois descobri que, antes de você, colocaram uma menina nos meus braços.

Gabriel se aproximou.

Anselmo continuou.

Disseram que ela seria minha filha.

Fiquei com ela quatro dias.

No quinto, Amélia veio buscá-la.

Eu implorei.

Ela disse que a criança precisava desaparecer.

Anselmo sentiu as lágrimas caírem.

Naquela época, chamavam a menina de Helena.

O silêncio tornou-se absoluto.

Ele leu a última parte:

Quarenta e três dias depois, você recebeu meu sobrenome.

E eu nunca mais vi a menina.

Anselmo deixou a folha cair sobre as pernas.

Helena.

Outra vez.

Gabriel pegou a terceira página.

— Tem mais.

Anselmo assentiu para que lesse.

Gabriel começou:

Há uma coisa que nunca contei a ninguém.

Anos depois, recebi uma fotografia.

Era a menina.

Já adulta.

No verso havia apenas uma frase:

Gabriel parou.

Anselmo ergueu os olhos.

— Leia.

Gabriel terminou:

“Ela voltou para perto de vocês, mas agora atende por outro nome.”

Abaixo da frase, a mãe de Anselmo acrescentara à mão:

Reconheci os olhos.

Era Celina.

Ninguém respirou por um instante.

Anselmo olhou para Augusto.

— Qual Celina?

Augusto não respondeu.

Anselmo se levantou.

— Qual delas?

Marta levou a mão à boca.

Gabriel percebeu primeiro.

A menina retirada dos braços da mãe de Anselmo não poderia ser a verdadeira Celina Ferreira.

Ela já existia antes.

Restava apenas uma possibilidade.

A mulher que todos conheceram como Celina.

A mulher que morrera deixando sete envelopes.

A mulher que organizara cada passo daquela busca.

Anselmo olhou para a carta da mãe.

— Ela era Helena.

Gabriel sentiu um arrepio.

Durante todo aquele tempo, procuravam uma mulher chamada Helena.

E uma Helena estivera diante deles durante quase toda a vida.

Morta agora.

Ou pelo menos era nisso que todos acreditavam.

CAPÍTULO 15 — SETE PESSOAS, UM SEGREDO

— Ela era Helena.

Anselmo repetiu a frase como se precisasse ouvi-la fora da própria cabeça.

Gabriel não respondeu.

Marta permanecia sentada, as mãos unidas diante do rosto. Renato caminhava lentamente pelo depósito. Augusto olhava para a carta escrita pela mãe de Anselmo.

A mulher que todos conheceram como Celina talvez tivesse sido, um dia, a menina chamada Helena.

Uma criança entregue por quatro dias a uma mulher.

Retirada.

Apagada.

Devolvida ao mundo com outro nome.

— Então acabou — disse Anselmo.

Gabriel olhou para ele.

— O quê?

— A confusão das duas Celinas. Sabemos quem era a segunda.

Augusto balançou a cabeça.

— Não sabemos.

— Minha mãe reconheceu os olhos.

— Décadas depois, numa fotografia.

— Ela cuidou daquela menina.

— Durante quatro dias.

— Uma mãe reconheceria.

— Ela não era mãe dela.

Anselmo se levantou.

— Para ela, era.

Augusto não insistiu.

Gabriel pegou a carta.

— Há uma forma de confirmar.

— Qual?

— A idade.

Todos olharam para ele.

— Se a mulher que conhecemos como Celina era o bebê entregue à sua mãe, a idade precisa coincidir.

Marta respondeu:

— Coincide.

Silêncio.

— Como sabe? — perguntou Anselmo.

Ela demorou.

— Porque eu sabia que Celina não tinha a idade que dizia ter.

— Desde quando?

— Desde sempre.

Anselmo ficou imóvel.

— E nunca contou?

— Não sabia o motivo.

— Mas sabia que havia mentira.

— Na nossa história, quem não sabia?

Gabriel interveio:

— Qual era a diferença?

— Pouco mais de um ano.

— E a verdadeira Celina Ferreira?

— Era mais velha.

Gabriel colocou as fotografias lado a lado.

— Então temos uma menina chamada Helena, retirada dos braços da mãe de Anselmo. Depois ela reaparece como Celina.

— É uma hipótese — disse Augusto.

— Forte.

— Sim.

Anselmo olhou para ele.

— O que falta para você acreditar?

Augusto respondeu:

— Entender por que uma menina chamada Helena precisaria se tornar Celina Ferreira.

Gabriel apontou para a fotografia das quatro crianças.

— Porque a verdadeira Celina desapareceu.

— Exatamente.

— Então usaram uma para substituir a outra.

— Talvez.

Renato parou de andar.

— Não.

Todos se voltaram.

— Não foi substituição.

— Como sabe? — perguntou Gabriel.

— Porque eu ouvi Celina dizer isso uma vez.

— Dizer o quê?

— “Eu não tomei o nome dela. Deram o nome dela para mim.”

Marta fechou os olhos.

— Quando?

— Depois daquela noite.

— Por que nunca contou?

Renato soltou uma risada amarga.

— Estamos realmente fazendo essa pergunta uns aos outros?

Ninguém respondeu.

Ele continuou:

— Ela estava chorando. Perguntei por que Helena tinha tanto ódio dela.

Gabriel se aproximou.

— Minha Helena?

Renato assentiu.

— O que Celina respondeu?

— Disse que Helena tinha encontrado coisas que não deveria.

— Os documentos da minha mãe.

— Provavelmente.

— E depois?

— Eu perguntei se era verdade que ela não se chamava Celina.

— O que respondeu?

Renato olhou para a fotografia.

— Aquela frase.

Eu não tomei o nome dela. Deram o nome dela para mim.

— E você aceitou?

— Naquela época, sim.

— Por quê?

— Porque todos nós tínhamos coisas que preferíamos não compreender.

Gabriel sentiu a frase como uma confissão coletiva.

— É isso que une os sete?

Ninguém respondeu.

— Não foi a fotografia. Não foi aquela noite. Vocês já carregavam segredos antes dela.

Augusto sentou-se.

— Sim.

Finalmente.

Sem desculpa.

Sem desvio.

Gabriel puxou uma cadeira.

— Então quero saber qual era o segredo de cada um.

Marta levantou os olhos.

— Isso pode levar horas.

— Tenho vinte e oito anos de atraso.

Augusto respirou fundo.

— Não eram sete segredos.

— Então?

— Era um.

— Qual?

Augusto olhou para os demais.

— As crianças.

Gabriel esperou.

— Que crianças?

— As que tiveram os nomes mudados.

Anselmo sentiu um arrepio.

— Quantas?

— Nunca soubemos.

— Mais de duas?

— Muito mais.

Marta completou:

— A escola não era apenas uma escola.

Gabriel lembrou-se de Dona Amélia.

— O que era?

— Um ponto de passagem.

— Para onde?

— Famílias. Abrigos. Instituições. Às vezes outras cidades.

— Adoção?

Marta hesitou.

— Algumas vezes.

— Legal?

O silêncio respondeu.

Gabriel se levantou.

— Vocês descobriram uma rede de crianças retiradas das famílias?

— Não descobrimos tudo de uma vez — disse Augusto. — Cada um encontrou uma parte.

— E ficaram calados.

— Éramos jovens quando começou.

— Vinte e oito anos atrás vocês já não eram crianças.

Augusto aceitou.

— Não.

— Então por que continuaram calados?

— Porque naquela noite percebemos que a rede não tinha terminado.

Gabriel sentiu o peito apertar.

— A menina no quarto.

— Sim.

— Ela era uma dessas crianças?

— Acreditávamos que sim.

— Quem a levou para lá?

Augusto olhou para Renato.

Renato não desviou.

— Eu.

Anselmo avançou.

— Você?

— Sim.

— Você disse que chegou depois.

— Menti.

— Por quê?

— Porque foi isso que combinamos.

Gabriel ficou em silêncio.

Ali estava.

O acordo.

A palavra surgida desde o início.

— Quem era a menina? — perguntou.

Renato respirou fundo.

— Eu não sabia o nome verdadeiro.

— Como a chamavam?

— Isabel.

— Idade?

— Quatorze anos.

— De onde veio?

— Apareceu no lugar onde eu trabalhava.

— Onde?

— Rodoviária.

— Sozinha?

— Sim.

— E você a levou para aquela casa?

— Não imediatamente.

— Então?

Renato fechou os olhos.

— Ela carregava uma carta.

Gabriel sentiu um arrepio.

— Para quem?

— Celina.

— A mulher que morreu?

— Sim.

— O que dizia?

— Não li.

— Celina leu?

— Leu.

— E?

— Mandou que eu levasse Isabel para a casa.

— Por quê?

— Disse que a menina corria perigo.

Anselmo se aproximou.

— E naquela noite?

Renato demorou.

— Isabel desapareceu.

Gabriel olhou para ele.

— Não morreu?

— Eu nunca vi corpo.

— Então por que disseram que havia alguém morto naquele quarto?

Marta respondeu:

— Porque havia sangue.

— De quem?

— Não sabíamos.

— Quanto?

— Muito.

Gabriel fechou os olhos.

Outra morte presumida.

Outro corpo inexistente.

Outra menina desaparecida.

— E Helena entrou no quarto.

— Sim.

— Viu o sangue.

— Sim.

— E acreditou que Isabel tinha morrido.

— Todos acreditamos.

— Mas ninguém verificou.

Augusto respondeu:

— Quando voltamos ao quarto, ela não estava mais lá.

— Quem voltou?

— Eu e Celina.

— E o sangue?

— Continuava.

— Janela?

— Aberta.

— Então ela poderia ter saído.

— Poderia.

Gabriel caminhou pelo depósito.

— E vocês transformaram mais uma menina desaparecida em morta.

Marta começou a chorar.

— Nós estávamos apavorados.

— Ela também devia estar.

Ninguém respondeu.

Gabriel pegou a fotografia dos sete.

— Agora entendo por que estavam juntos.

Apontou para Augusto.

— Você procurava Heloísa e sabia que crianças recebiam novos nomes.

Depois para Marta.

— Você conhecia a escola e sabia que não era apenas uma escola.

Para Renato:

— Você levou Isabel à casa.

Para Anselmo:

— Você escondia as cartas.

Restavam Laura, Samuel e Celina.

— O que os outros três sabiam?

Augusto respondeu:

— Laura sabia quem era Isabel.

— Como?

— Porque já a conhecia.

— De onde?

— Da maternidade.

Gabriel franziu a testa.

— Isabel tinha quatorze anos.

— Não como paciente.

— Então?

— Laura fazia trabalho voluntário lá.

— E Samuel?

Renato respondeu:

— Samuel procurava a própria origem.

Gabriel sentiu a história se fechar ao redor dos sete.

— Outra criança sem passado.

— Sim.

— E Celina?

Marta olhou para a fotografia.

— Celina era o passado.

Silêncio.

Gabriel compreendeu.

A mulher que vivera com o nome de outra menina era a ligação viva entre tudo.

— Então Helena descobriu.

— Parte — disse Augusto.

— O suficiente para querer ir à polícia.

— Sim.

— E vocês impediram.

Renato abaixou a cabeça.

— Sim.

— Foi por isso que ela desapareceu?

Ninguém respondeu.

Gabriel bateu a fotografia contra a mesa.

— Foi?

Augusto respondeu:

— Não sabemos.

— Vocês sabem alguma coisa sobre o que aconteceu depois que ela saiu.

Anselmo corrigiu:

— Depois que acreditamos que saiu.

Gabriel olhou para Marta.

— Você disse que saiu com ela.

Marta empalideceu.

— Saí.

— Até onde?

— A estação.

— C-17.

— Sim.

— E depois?

Marta fechou os olhos.

— Helena me pediu que voltasse.

— E você voltou.

— Sim.

— Deixou-a sozinha?

— Sim.

— Foi a última vez que a viu?

Marta demorou.

Um segundo a mais do que deveria.

Gabriel percebeu.

— Não foi.

Marta abriu os olhos.

— Foi.

— Você hesitou.

— Porque...

— Você a viu novamente.

— Gabriel...

— Quando?

Marta começou a chorar.

— Na manhã seguinte.

Anselmo se levantou.

— Você disse durante vinte e oito anos que nunca mais a viu.

— Eu sei.

— Onde ela estava?

Marta respirava com dificuldade.

— Na padaria.

Paulo, que permanecia próximo à porta, empalideceu.

— Aqui?

— Na casa dos fundos.

Anselmo se aproximou.

— Foi ela quem pegou os sete envelopes?

Marta assentiu.

— Sim.

— Você viu?

— Vi.

— E deixou que eu passasse vinte e oito anos apenas supondo?

— Helena me fez prometer.

Gabriel riu amargamente.

— As promessas desta história destruíram mais vidas do que as mentiras.

Marta olhou para ele.

— Ela estava ferida.

Gabriel parou.

— Onde?

— No braço. Havia sangue na roupa.

— O sangue do quarto?

— Não sei.

— Isabel estava com ela?

— Não.

— O que Helena disse?

Marta tentou controlar o choro.

— Que tinha descoberto quem era a menina.

— Isabel?

— Sim.

— Quem era?

Marta balançou a cabeça.

— Ela não disse o nome.

— Então o quê?

— Disse apenas que Isabel não tinha sido levada àquela casa para ser protegida.

— Para quê?

— Para ser entregue.

Silêncio.

— Entregue a quem?

— Helena não sabia.

Gabriel se aproximou.

— E depois?

— Ela pegou a caixa com as sete cartas.

— Para onde foi?

— Eu não sei.

— Marta.

— Juro.

— E o que pediu a você?

Marta olhou para Anselmo.

— Que mantivesse todos afastados.

— Por vinte e oito anos?

— Até que ela voltasse.

— E voltou?

Marta começou a chorar novamente.

— Não.

Gabriel sentou-se.

Por alguns segundos, ninguém falou.

Então Paulo, ainda junto à porta, disse:

— Tem uma coisa que vocês precisam ver.

Todos se voltaram.

— O quê?

— Quando meu pai morreu, encontrei algo na casa dos fundos. Nunca entendi.

— O que era?

— Uma marca na parede.

Paulo pegou uma lanterna.

— Venham.

A casa atrás da padaria estava praticamente vazia.

Paulo os levou até um pequeno quarto.

Afastou um armário.

Na parede havia oito riscos verticais.

Sete agrupados.

Um separado.

Abaixo dos sete:

NÓS.

Abaixo do oitavo:

ELA.

Gabriel passou os dedos pelas marcas.

— Quem fez isso?

— Não sei.

Anselmo iluminou a parte inferior.

Havia uma frase quase apagada.

Gabriel se abaixou.

Leu:

Sete pessoas guardaram o segredo.

Abaixo:

Uma pessoa guardou os sete.

Marta recuou.

— Helena.

Gabriel olhou para os oito riscos.

Sete.

E um.

O título daquela história parecia começar a adquirir outro significado.

Anselmo percebeu algo no rodapé.

Uma pequena abertura na parede.

Retirou um tijolo solto.

Atrás havia um envelope.

Antigo.

Amarelado.

Na frente, uma palavra:

GABRIEL.

Ele o entregou.

Gabriel abriu.

Dentro havia uma fotografia.

Helena.

Mais velha.

Viva.

A data no verso era de dez anos depois de seu desaparecimento.

Gabriel quase deixou a imagem cair.

Ao lado dela estava uma adolescente.

No verso havia uma frase:

Agora sei quem é Isabel.

E abaixo, outra:

Ela é a oitava.

Gabriel virou a fotografia novamente.

A adolescente estava sorrindo.

No pescoço, usava uma pequena medalha.

A mesma letra gravada na medalha encontrada naquela noite.

H.

 
 
 

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