top of page

A Oitava Carta — Parte II — Capítulos 6 a 10

  • Foto do escritor: Abioye Ras Barros
    Abioye Ras Barros
  • há 2 dias
  • 31 min de leitura

A OITAVA CARTA

Abioye Ras Barros

PARTE II — CAPÍTULOS 6 A 10

Leitura gratuita autorizada pelo autor.

CAPÍTULO 6 — O PRIMEIRO ENVELOPE

— Não estou falando dessa Celina.

Anselmo apertou o telefone contra o ouvido.

— O que você disse?

— Você ouviu.

A voz do outro lado permanecia baixa, envelhecida, mas firme.

— Quem é você?

Houve uma breve risada.

— Depois de vinte e oito anos, essa é a pergunta que escolheu fazer?

Anselmo afastou o telefone e conferiu o número na tela.

Era o mesmo para o qual havia ligado.

O número que guardara durante anos sem jamais utilizar.

— Augusto?

— Finalmente.

Anselmo sentou-se.

— O que significa “essa Celina”?

— Significa que você ainda sabe menos do que imagina.

— Celina morreu.

— Eu sei.

— Como?

Silêncio.

— Augusto?

— Não fale pelo telefone.

— Foi você quem disse para eu encontrar Celina.

— E repito.

— Existe outra Celina?

— Não faça perguntas cujas respostas podem ser ouvidas por alguém.

A ligação terminou.

Anselmo permaneceu com o aparelho junto ao ouvido.

— Augusto?

Nada.

Tentou ligar novamente.

Chamou até cair na caixa postal.

Na terceira tentativa, o telefone já estava desligado.

Anselmo colocou o aparelho sobre a mesa.

Diante dele, o envelope marcado com o número 2 parecia observá-lo.

Vocês deveriam ter deixado Helena morrer.

Pegou a fotografia.

Augusto Ferraz.

Primeiro à esquerda.

Pai de Laura.

Homem de cartório.

Um dos sete.

Vivo.

E aparentemente esperando por algo que começara antes daquela manhã.

Anselmo olhou para a caixa metálica vazia.

O primeiro envelope desaparecera.

Por muitos anos, ele o guardara junto aos documentos. Não porque quisesse recordar a ameaça, mas porque jogar fora parecia mais perigoso do que conservar.

Agora alguém o retirara dali.

Não havia sinais de arrombamento.

Isso significava que quem o levara estivera dentro da casa.

Ou possuía uma chave.

A campainha tocou.

Anselmo se levantou imediatamente.

Dessa vez não abriu.

Aproximou-se da janela e espiou.

Gabriel estava no portão.

Anselmo respirou aliviado.

Abriu a porta.

— Esqueceu alguma coisa?

Gabriel entrou sem responder.

Trazia um envelope nas mãos.

Anselmo olhou para ele.

— Onde conseguiu isso?

— Dentro do meu carro.

— Quando?

— Agora.

Gabriel colocou-o sobre a mesa.

Não havia número.

Apenas seu nome.

GABRIEL.

— Abriu?

— Não.

— Por quê?

— Porque depois de hoje comecei a achar que abrir envelopes sozinho é uma péssima ideia.

Anselmo pegou uma faca pequena.

Gabriel o impediu.

— Não.

— Você acabou de dizer...

— Quero olhar primeiro.

Aproximou o envelope da luz.

Não parecia antigo.

O papel estava limpo.

Sem marcas.

Sem selo.

Gabriel cheirou-o.

— O que está fazendo?

— Tentando descobrir se isso passou vinte e oito anos dentro de uma caixa ou vinte minutos dentro de um carro.

— E?

— Não faço ideia.

Anselmo quase sorriu.

Gabriel também.

Foi um instante pequeno e inadequado.

Talvez justamente por isso necessário.

Depois, o medo voltou.

Gabriel abriu o envelope.

Dentro havia uma folha dobrada e uma fotografia.

A fotografia caiu primeiro.

Os dois olharam.

Era uma menina.

Devia ter nove ou dez anos.

Estava sentada num degrau, segurando um pão com as duas mãos.

Gabriel parou de respirar.

— Helena.

Pegou a fotografia.

Virou.

Uma data.

Vinte e oito anos antes.

Mas não era o ano do desaparecimento.

A fotografia havia sido tirada alguns meses depois.

— Isso é impossível.

Anselmo conferiu a data.

— Você reconhece o lugar?

Gabriel observou o fundo.

Uma parede clara.

Uma janela.

Parte de uma placa.

Apenas três letras eram visíveis:

...MAR

— Não.

Abriu a folha.

Havia somente uma frase.

Pergunte a Anselmo por que ele nunca procurou o primeiro envelope.

Gabriel levantou os olhos.

— O que significa isso?

Anselmo sentiu o rosto esquentar.

— Eu procurei.

— Procurou o quê?

— O envelope número 1.

— Aquele da ameaça?

— Sim.

— Você disse que ele desapareceu.

— E desapareceu.

Gabriel colocou a carta sobre a mesa.

— Então por que alguém escreve que você nunca procurou?

— Não sei.

— Pense.

— Eu estou pensando.

— Pense melhor.

Anselmo caminhou pela sala.

Vinte e oito anos.

A ligação.

A voz de Helena.

O pão.

O endereço.

A casa vazia.

O bilhete.

A ameaça.

O primeiro envelope.

De repente, parou.

— Meu Deus.

— O quê?

— Eu entendi errado.

— O quê?

— Durante todos esses anos.

Anselmo abriu novamente a caixa metálica e retirou o caderno preto.

Folheou rapidamente.

Encontrou a página.

— A ameaça não estava dentro do envelope número 1.

Gabriel franziu a testa.

— Você acabou de dizer que estava.

— Era o que eu lembrava.

— E agora?

— Agora estou lembrando da ordem.

Anselmo fechou os olhos.

A cena retornava em fragmentos.

Uma manhã.

A porta.

Um envelope no chão.

O número 1.

Dentro, uma folha dobrada.

Outra coisa.

Horas depois, uma segunda mensagem.

Sem envelope.

A ameaça.

— Eram duas mensagens — disse.

— O que havia no primeiro envelope?

Anselmo abriu os olhos.

— Um endereço.

Gabriel ficou imóvel.

— O mesmo para onde você foi procurar Helena?

— Não.

— Então qual?

Anselmo começou a procurar no caderno.

Virou páginas.

Datas.

Nomes.

Telefones antigos.

Nada.

— Você anotou?

— Tenho certeza de que sim.

— Onde?

— Aqui.

Continuou procurando.

Uma página havia sido arrancada.

Restava apenas uma pequena faixa junto à costura.

Gabriel apontou.

— Era essa?

Anselmo passou o dedo sobre o papel rasgado.

— Provavelmente.

— Quem teve acesso a esse caderno?

— Ninguém.

Gabriel olhou para a caixa.

— Como ninguém teve acesso ao envelope que desapareceu?

Anselmo não respondeu.

— Alguém esteve aqui.

— Eu sei.

— Mais de uma vez.

Anselmo olhou ao redor da própria casa.

Pela primeira vez, aquele lugar deixou de parecer seguro.

Gabriel voltou à fotografia da irmã.

— Se a data estiver correta, Helena estava viva meses depois de desaparecer.

— Estava.

— E alguém sabia onde ela estava.

— Sim.

— Talvez ainda saiba.

Anselmo pegou a fotografia.

A placa ao fundo incomodava.

...MAR

— Pode ser o nome de um lugar.

— Pode.

— Escola?

— Talvez.

— Hospital?

Gabriel tomou a fotografia.

Olhou novamente.

— Helena não parece doente.

— Não estou dizendo que estava internada.

— Abrigo?

A palavra ficou entre os dois.

Gabriel aproximou a fotografia.

Havia outras crianças ao fundo.

Uma bola.

Um banco comprido.

Uma mulher de uniforme.

— Pode ser.

Anselmo pegou o telefone.

— Vou procurar instituições que existiam naquela época.

— Não.

— Por quê?

— Porque alguém está conduzindo nossos passos.

— E você sugere o quê?

Gabriel ergueu a carta.

— Descobrir quem.

Anselmo pensou em Augusto.

— Talvez eu saiba por onde começar.

— Augusto?

Ele assentiu.

— Falei com ele depois que você saiu.

— E?

— Ele sabe que Celina morreu.

— Como?

— Não disse.

— O que mais?

Anselmo hesitou.

— Mandou procurar Celina.

Gabriel o encarou.

— Você acabou de dizer que ele sabe que ela morreu.

— Eu disse isso a ele.

— E?

— Ele respondeu que não estava falando daquela Celina.

Gabriel permaneceu em silêncio.

— Existe outra?

— Não que eu saiba.

— Celina tinha irmã?

— Não.

— Filha?

— Nunca teve filhos.

— Então o que Augusto quis dizer?

— É o que vamos perguntar.

Anselmo procurou novamente o número.

Desligado.

Gabriel recolheu as fotografias e as colocou lado a lado.

A primeira mostrava sete adultos numa casa.

A segunda, Helena meses depois, ainda menina, em algum lugar desconhecido.

— Tem alguma coisa errada — disse.

— Em quê?

— Na fotografia.

— Qual delas?

— Nesta.

Apontou para Helena.

— Olhe a idade dela.

Anselmo observou.

— O que tem?

— Você disse que ela desapareceu vinte e oito anos atrás.

— Sim.

— Quantos anos ela tinha?

Anselmo demorou a responder.

— Vinte e três.

Gabriel empalideceu.

Olhou novamente para a fotografia.

A menina não tinha mais de dez.

— Essa não é Helena aos vinte e três.

— Não.

— Mas é Helena.

— Parece muito.

Gabriel apertou a fotografia.

— Não parece. É ela.

Anselmo virou a imagem.

A data estava clara.

Vinte e oito anos antes.

— Então a data está errada.

Gabriel balançou a cabeça.

— Ou estamos olhando para outra pessoa.

A frase fez Anselmo recordar as palavras de Augusto.

Não estou falando dessa Celina.

Outra Celina.

Outra Helena?

Não.

Seria absurdo.

Gabriel aproximou-se da janela.

A luz da tarde incidiu sobre a fotografia.

Foi então que percebeu algo escrito no canto inferior.

Quase invisível.

Duas iniciais.

H.F.

— Helena não tinha esse sobrenome.

Anselmo tomou a fotografia.

— Não.

— Quem é H.F.?

Ele não respondeu.

Gabriel percebeu que Anselmo conhecia aquelas iniciais.

— Quem?

Anselmo sentou-se.

— Laura Ferraz.

— Laura começa com L.

— Eu sei.

— Então?

Anselmo olhou para a menina.

— Laura tinha uma irmã.

Gabriel sentiu o peito apertar.

— Qual era o nome dela?

Anselmo respondeu quase num sussurro:

— Helena Ferraz.

Gabriel recuou.

Duas mulheres.

O mesmo primeiro nome.

Duas famílias ligadas à mesma noite.

E talvez fosse essa a razão de Augusto ter dito que Anselmo estava procurando a Celina errada.

Gabriel apontou para a menina.

— Essa é Helena Ferraz?

— Não sei.

— E minha irmã?

— Eu não sei.

— Então durante vinte e oito anos você pode ter recebido uma ligação de uma Helena e acreditado que era outra.

Anselmo não respondeu.

Não precisava.

A campainha tocou novamente.

Desta vez, os dois permaneceram imóveis.

Uma batida.

Duas.

Três.

Gabriel foi até a porta.

Anselmo tentou impedi-lo.

Ele abriu.

Não havia ninguém.

Apenas um envelope no chão.

Velho.

Amarelado.

Com as bordas gastas.

Anselmo reconheceu antes de pegá-lo.

No canto superior havia um número.

1.

Suas mãos começaram a tremer.

— É ele.

Gabriel fechou a porta.

Anselmo colocou o envelope sobre a mesa.

O papel apresentava uma pequena mancha escura perto da abertura.

A mesma que ele recordava.

Não havia dúvida.

Depois de vinte e oito anos, o primeiro envelope havia voltado.

Gabriel abriu.

Dentro não havia ameaça.

Não havia endereço.

Havia uma chave.

E um pedaço de papel dobrado.

Anselmo abriu o bilhete.

A frase escrita ali destruiu a última certeza que ainda possuía sobre aquela noite.

Helena nunca foi o nome da menina que desapareceu.

CAPÍTULO 7 — AQUILO QUE CELINA SABIA

Helena nunca foi o nome da menina que desapareceu.

Gabriel leu novamente.

Depois uma terceira vez.

— Que menina?

Anselmo não respondeu.

A chave retirada do primeiro envelope estava sobre a mesa. Pequena, de metal escurecido, com uma etiqueta presa por um fio quase desfeito.

Não havia endereço.

Apenas três caracteres:

C-17.

— Anselmo.

— Estou tentando entender.

— Não. Você está tentando lembrar.

Gabriel colocou o bilhete diante dele.

— Que menina desapareceu?

Anselmo passou as mãos pelo rosto.

— Naquela noite havia alguém no quarto.

— Isso eu já sei.

— Você sabe que havia alguém. Não sabe quem.

— Então diga.

Anselmo olhou para a fotografia dos sete.

Por vinte e oito anos, algumas lembranças haviam permanecido inteiras. Outras pareciam ter sido reorganizadas pelo tempo, como móveis mudados de lugar numa casa escura.

— Quando Helena entrou naquele quarto, ela viu uma pessoa.

— Quem?

— Uma menina.

Gabriel sentiu a irritação crescer.

— Qual menina?

— Eu não sei.

— Você estava lá.

— Eu não entrei.

— Nunca?

— Nunca.

Gabriel se levantou.

— Então tudo o que você sabe daquela noite veio de outras pessoas.

Anselmo assentiu.

— De quem?

— Celina.

O nome alterou o silêncio.

— O que ela contou?

— Muito pouco.

— E você aceitou?

— Naquela época, sim.

— Por quê?

Anselmo demorou.

— Porque eu confiava nela.

Gabriel percebeu algo na maneira como ele pronunciara a frase.

Não era apenas confiança.

— Você amava Celina?

Anselmo desviou os olhos.

A resposta estava dada.

— Meu Deus...

— Isso não importa agora.

— Importa. Você passou vinte e oito anos protegendo uma versão dos acontecimentos contada por uma mulher que amava.

— Celina não era uma mentirosa.

Gabriel apontou para os envelopes.

— Tem certeza?

Anselmo não respondeu.

Gabriel voltou ao bilhete.

— “Helena nunca foi o nome da menina que desapareceu.” Se isso é verdade, alguém fez questão de misturar duas histórias.

— Ou dois nomes.

— Temos minha irmã, Helena. E temos Helena Ferraz.

— Sim.

— E agora descobrimos uma terceira menina.

— Talvez.

— Não. Não vamos mais trabalhar com “talvez”. Havia uma menina no quarto?

— Segundo Celina, sim.

— Viva?

Anselmo respirou fundo.

— Quando Helena entrou, sim.

Gabriel congelou.

— Quando entrou?

— Foi o que Celina me disse.

— E depois?

— Eu não sei.

— Você sabe o que disseram.

Anselmo abaixou a cabeça.

— Disseram que ela havia morrido.

Gabriel caminhou até a janela.

A história começava a se deformar diante dele.

Durante quase toda a vida, acreditara que a pessoa morta naquela história era sua irmã.

Agora descobria que talvez existisse outra vítima.

Uma menina sem nome.

— E o corpo?

— Nunca vi.

Gabriel virou-se lentamente.

— Ninguém vê corpos nessa história?

A pergunta feriu mais do que qualquer acusação.

— Minha irmã supostamente morreu e não houve corpo. Essa menina supostamente morreu e você também não viu corpo. Vocês construíram duas mortes sem cadáveres e passaram vinte e oito anos chamando isso de verdade.

— Eu era jovem.

— Helena também.

— Eu sei.

— Não sabe.

Gabriel voltou à mesa.

Pegou a chave.

— C-17. O que significa?

— Não faço ideia.

— Celina poderia saber?

— Provavelmente.

— Então vamos à casa dela.

Anselmo ergueu os olhos.

— A casa está lacrada.

— Por quem?

— Pela família.

— Que família? Você disse que ela não tinha filhos.

— Sobrinhos. Gente que mal aparecia enquanto ela estava viva e surgiu assim que morreu.

Gabriel colocou a chave no bolso.

— Melhor ainda.

— Não podemos simplesmente entrar.

— Podemos perguntar.

— E dizer o quê?

Gabriel apontou para a mesa.

— Que uma mulher morta deixou sete envelopes, que alguém está distribuindo ameaças numeradas, que minha irmã talvez esteja viva e que existe uma menina cujo nome ninguém quer dizer.

— Isso certamente abrirá a porta.

Gabriel quase sorriu.

— Então inventamos alguma coisa.

Anselmo observou-o.

— Você está mudando.

— Em poucas horas descobri que minha irmã talvez tenha vivido vinte e oito anos enquanto todos me diziam que estava morta. Seria estranho continuar igual.

A casa de Celina ficava a pouco mais de quinze minutos dali.

Gabriel esperava encontrar movimento.

Parentes.

Vizinhos.

Talvez alguém organizando os pertences da falecida.

Encontrou silêncio.

O portão estava fechado.

Uma fita preta permanecia presa à grade, já molhada pela chuva dos últimos dias.

Anselmo tocou a campainha.

Nada.

Tentou novamente.

— Tem certeza de que ninguém está aqui?

— Não.

Gabriel observou as janelas.

Uma cortina do andar superior se moveu.

— Tem alguém.

Anselmo olhou.

— Onde?

— Segunda janela.

Esperaram.

Nenhum movimento.

Gabriel chamou:

— Tem alguém aí?

Nada.

Anselmo segurou seu braço.

— Vamos embora.

— Por quê?

— Porque alguma coisa está errada.

— Tudo está errado desde que acordei.

— Estou falando sério.

Gabriel aproximou-se do portão.

Havia uma caixa de correspondência embutida no muro.

Abriu.

Contas.

Propaganda.

Um jornal dobrado.

E um envelope.

Gabriel retirou.

— Está endereçado a quem?

Ele virou.

ANSELMO.

Os dois se olharam.

— Isso estava esperando por você — disse Gabriel.

O envelope não tinha número.

Anselmo abriu.

Dentro havia uma folha com a caligrafia de Celina.

Ele reconheceu imediatamente.

Anselmo,

se você chegou até minha casa acompanhado de Gabriel, significa que pelo menos uma parte funcionou.

Gabriel aproximou-se.

Anselmo continuou.

Não confie na ordem em que as coisas aconteceram.

Foi assim que conseguimos esconder a verdade por tanto tempo.

Anselmo parou.

— Continue.

Você se lembra daquela noite como se Helena tivesse chegado depois de todos.

Ela não chegou.

Anselmo sentiu um arrepio.

Leu novamente.

Ela já estava na casa.

Gabriel tomou a carta.

— Mas você acabou de me contar que ela chegou atrasada.

— Foi assim que aconteceu.

— Celina está dizendo que não.

— Eu me lembro dela entrando.

Gabriel prosseguiu.

Você se lembra da chuva, da câmera, da discussão e da fotografia. Tudo isso aconteceu.

Mas não na ordem em que você acredita.

Anselmo encostou-se ao muro.

As lembranças voltaram.

Helena molhada.

A bolsa.

A câmera.

O corredor.

A porta.

A discussão.

O clarão da fotografia.

E se aquelas cenas fossem verdadeiras, mas tivessem sido encaixadas na sequência errada durante vinte e oito anos?

Gabriel continuou:

Eu ajudei você a lembrar errado.

A mão de Anselmo tremeu.

E você me deixou fazer isso porque precisava acreditar que não tinha escolhido ficar calado.

Ele fechou os olhos.

Gabriel terminou:

Se ainda quiser saber o que aconteceu, procure o que deixei no lugar onde guardávamos aquilo que não podia receber nome.

Você saberá onde.

Perdoe-me.

Celina.

Abaixo da assinatura havia uma anotação:

C-17.

Gabriel retirou a chave do bolso.

— Ela sabia.

Anselmo permanecia imóvel.

— O que é C-17?

— Eu sei onde fica.

— Onde?

Anselmo olhou para a casa.

Depois para a janela onde a cortina havia se movido.

— Na estação antiga.

— Que estação?

— A ferroviária. Havia guarda-volumes no subsolo.

— Ainda existem?

— A estação fechou há anos.

— E o C-17?

— Era um compartimento.

Gabriel ergueu a chave.

— Então vamos.

Um ruído veio do interior da casa.

Vidro quebrando.

Os dois se viraram.

A cortina do andar superior se abriu.

Uma silhueta apareceu por menos de um segundo.

Depois desapareceu.

Gabriel correu para o portão.

— Ei!

Tentou abri-lo.

Trancado.

— Tem alguém lá dentro!

Anselmo pegou o telefone.

Antes que pudesse fazer qualquer coisa, a porta principal da casa se abriu.

Uma mulher apareceu.

Idosa.

Magra.

Cabelos completamente brancos.

Ela caminhou lentamente até o portão.

Gabriel nunca a tinha visto.

Anselmo, sim.

Seu rosto perdeu a cor.

— Não pode ser.

A mulher parou do outro lado da grade.

Olhou primeiro para ele.

Depois para Gabriel.

Seus olhos se encheram de lágrimas.

— Você demorou — disse.

Anselmo recuou.

— Quem é a senhora? — perguntou Gabriel.

Ela não respondeu.

Continuou olhando para Anselmo.

— Celina disse que você viria quando recebesse o primeiro envelope.

Gabriel sentiu a mão apertar a chave no bolso.

— A senhora conhecia Celina?

A mulher finalmente olhou para ele.

— Qual delas?

Gabriel parou.

A mesma frase.

Outra vez.

— O que significa isso?

A mulher aproximou o rosto da grade.

— Significa que vocês passaram vinte e oito anos procurando pessoas pelos nomes errados.

Anselmo parecia incapaz de falar.

Gabriel percebeu.

— Você conhece essa mulher?

Ele assentiu lentamente.

— Conheço.

— Quem é?

Anselmo olhou para ela como quem encara alguém que já havia enterrado na memória.

— Essa é Marta Nogueira.

Gabriel lembrou imediatamente.

Quarto rosto da fotografia.

A mulher que fumava perto da cozinha.

Uma dos sete.

Marta sorriu com tristeza.

— Finalmente lembrou de mim.

Anselmo aproximou-se.

— O que você está fazendo na casa de Celina?

Marta abriu o portão.

— Esperando vocês.

— Por quê?

Ela olhou para a chave na mão de Gabriel.

— Para impedir que abram o compartimento C-17.

— O que tem lá? — perguntou Gabriel.

Marta demorou a responder.

— A única coisa que Celina deveria ter destruído.

— O quê?

Marta olhou para os dois.

— A primeira carta.

Gabriel franziu a testa.

— Nós acabamos de receber o primeiro envelope.

— Eu não estou falando do primeiro envelope.

Ela fechou o portão atrás deles.

— Estou falando da primeira carta que Helena escreveu.

Anselmo empalideceu.

— Helena escreveu uma carta antes de desaparecer?

Marta balançou a cabeça.

— Não.

Fez uma pausa.

— Helena escreveu a carta antes de vocês conhecerem Helena.

CAPÍTULO 8 — O NOME RISCADO

— Helena escreveu a carta antes de vocês conhecerem Helena.

Gabriel encarou Marta.

— Isso não faz sentido.

— Eu sei.

— Então explique.

Marta abriu completamente o portão.

— Entrem.

Anselmo não se moveu.

— Primeiro diga por que está aqui.

— Porque Celina me pediu.

— Quando?

— Três semanas antes de morrer.

Anselmo olhou para Gabriel.

— Ela sabia que ia morrer?

Marta sustentou o olhar.

— Celina sabia que estava ficando sem tempo.

Entraram.

A casa ainda guardava o cheiro dela.

Não era um perfume específico, mas uma mistura de café, móveis antigos e alguma essência que Gabriel não conseguiu identificar. Sobre uma pequena mesa próxima à entrada havia um vaso com flores secas.

Marta fechou a porta.

— Ninguém pode saber que vocês estiveram aqui.

— Um pouco tarde para isso — disse Gabriel. — Alguém está nos seguindo.

Marta parou.

— Tem certeza?

Gabriel retirou do bolso o bilhete recebido com o segundo envelope.

Entregou a ela.

Marta leu.

Seu rosto mudou.

— Onde conseguiu isso?

— Na porta de Anselmo.

— Hoje?

— Há poucas horas.

Ela leu novamente.

Vocês deveriam ter deixado Helena morrer.

— Isso não é de Celina.

— Nós sabemos.

— Não. Vocês não entenderam.

Marta ergueu os olhos.

— Celina nunca escreveu ameaças.

— Também sabemos disso.

— Então alguém encontrou os envelopes.

Anselmo aproximou-se.

— Quais envelopes?

Marta percebeu o erro.

— Os que ela guardava.

— Os sete?

— Não.

Silêncio.

— Quantos? — perguntou Gabriel.

Marta dobrou o bilhete.

— Vamos por partes.

— Estou cansado de partes.

— E eu passei vinte e oito anos tentando esquecer o todo.

Gabriel não recuou.

— Minha irmã está viva?

Marta fechou os olhos.

Quando tornou a abri-los, havia algo diferente neles.

Culpa.

— Eu não sei.

— Você a viu depois daquela noite?

— Não.

— Falou com ela?

— Não.

— Então o que sabe?

Marta caminhou até a sala.

Sentou-se.

— Sei que Helena não morreu naquela casa.

Gabriel permaneceu de pé.

— Finalmente alguém diz isso sem rodeios.

— Mas também sei que a história que contaram a você não começou com o desaparecimento dela.

Anselmo sentou-se diante de Marta.

— Começou quando?

Ela olhou para ele.

— Muito antes de nós.

— Quanto antes?

— Dezoito anos.

Gabriel fez a conta.

— Dezoito anos antes daquela noite?

— Sim.

— O que aconteceu?

Marta apontou para uma estante.

— Terceira prateleira. Livro azul.

Anselmo encontrou vários volumes.

— Qual?

— Sem título.

Retirou um livro de capa azul-escura.

Ao abri-lo, percebeu que as páginas internas haviam sido recortadas, formando um compartimento.

Dentro havia um envelope transparente protegendo uma fotografia.

Marta fez um gesto.

— Tire.

Gabriel aproximou-se.

Era uma fotografia antiga, em preto e branco.

Mostrava quatro crianças diante de uma escola.

No verso havia nomes escritos à mão.

Celina.

Augusto.

Marta.

E o quarto nome estava completamente riscado.

Gabriel aproximou a fotografia da luz.

— Quem é a quarta criança?

Marta não respondeu.

— Você estava lá. Quem é?

— Durante muitos anos, achei que sabia.

— E agora?

— Agora sei que o nome que usávamos não era o verdadeiro.

Anselmo examinou o verso.

O nome fora coberto tantas vezes que a tinta quase atravessara o papel.

— Dá para recuperar?

— Talvez.

Gabriel inclinou a fotografia.

Sob os riscos ainda apareciam fragmentos de letras.

— Parece começar com H.

Marta assentiu.

— Era assim que a chamávamos.

Gabriel sentiu o corpo enrijecer.

— Helena?

— Sim.

Ele largou a fotografia sobre a mesa.

— Outra Helena.

— Talvez a primeira.

— Quantas Helenas existem nessa história?

Marta respondeu sem ironia:

— Essa é uma das perguntas que Celina passou os últimos anos tentando responder.

Gabriel caminhou pela sala.

Helena, sua irmã.

Helena Ferraz.

Agora uma criança chamada Helena, fotografada dezoito anos antes do desaparecimento.

— Isso é absurdo.

— Não — disse Marta. — Absurdo seria tudo isso ser coincidência.

Anselmo continuava examinando a fotografia.

— Eu nunca vi isso.

— Porque você entrou na história depois.

— Celina e Augusto já se conheciam?

— Desde crianças.

— E você também.

— Sim.

— Por que nunca me contou?

Marta sorriu tristemente.

— Porque você nunca perguntou quem éramos antes daquela noite.

A frase o atingiu.

Gabriel pegou novamente a fotografia.

— Quem riscou o nome?

— Celina.

— Por quê?

— Para proteger a menina.

— De quem?

Marta demorou.

— Do próprio nome.

Gabriel colocou a fotografia sobre a mesa.

— Nomes não perseguem pessoas.

— Alguns perseguem.

— Explique.

Marta levantou-se.

Foi até uma gaveta e retirou uma pasta.

Dentro havia certidões antigas, cópias de documentos e folhas datilografadas.

Colocou tudo diante deles.

— Celina passou anos procurando registros.

Anselmo pegou uma certidão.

— De nascimento?

— Algumas.

Gabriel encontrou uma folha com três nomes sublinhados.

Helena Ferreira.

Helena Ferraz.

Helena...

O terceiro sobrenome estava coberto por tinta preta.

— Quem fez isso?

— Celina.

— De novo?

— Sim.

— Por que esconder algo que queria que descobríssemos?

— Porque ela não sabia quem encontraria primeiro.

Gabriel pensou nos envelopes.

— Então criou etapas.

— Exatamente.

Anselmo levantou os olhos.

— As cartas.

— As cartas são um caminho.

— Para quê?

Marta respondeu:

— Para chegar a um nome.

Gabriel sentiu um arrepio.

— Qual nome?

— O que foi apagado.

Anselmo colocou os documentos de volta sobre a mesa.

— E o compartimento C-17?

Marta mudou de expressão.

— Não abram.

— Você já disse isso.

— E vou repetir quantas vezes for necessário.

Gabriel retirou a chave.

— Celina deixou a chave para ser usada.

— Celina também passou a vida se arrependendo de coisas que acreditou serem necessárias.

— O que há lá?

Marta olhou para a chave.

— Uma carta.

— Escrita por quem?

— Pela menina da fotografia.

— A primeira Helena?

— Sim.

— Para quem?

Marta hesitou.

— Para Celina.

Anselmo franziu a testa.

— Você disse que foi escrita antes de conhecermos Helena.

— Porque foi.

— Então não está falando da irmã de Gabriel.

— Não.

Gabriel se aproximou.

— O que essa carta tem a ver com minha irmã?

Marta olhou para ele.

— Tudo.

— Como?

— Porque sua irmã recebeu o nome por causa daquela menina.

O silêncio se instalou.

Gabriel pareceu não compreender.

— Minha mãe escolheu o nome dela.

— Foi o que lhe disseram.

— Eu estava vivo quando Helena nasceu.

— Você tinha cinco anos.

Gabriel recuou.

— Conheceu minha mãe?

Marta não respondeu.

— Conheceu?

— Sim.

— Celina também?

— Sim.

— Augusto?

Marta assentiu.

Gabriel olhou para Anselmo.

Ele parecia tão surpreso quanto ele.

— Por que ninguém me contou?

— Porque sua mãe pediu.

— Minha mãe participou disso?

— Sua mãe tentou sair disso.

— Sair do quê?

Marta fechou a pasta.

— De uma promessa feita antes de você nascer.

Gabriel apoiou as mãos sobre a mesa.

— Que promessa?

Marta olhou para a fotografia das quatro crianças.

— Que aquele nome nunca desapareceria.

Gabriel apontou para o nome riscado.

— Helena?

— Não.

— Você acabou de dizer que chamavam a menina de Helena.

— Chamávamos.

— Então qual nome não podia desaparecer?

Marta respirou fundo.

— O verdadeiro.

Antes que Gabriel perguntasse, ouviram um ruído no andar de cima.

Todos ficaram imóveis.

Anselmo levantou-se.

— Tem mais alguém aqui?

Marta empalideceu.

— Não.

Outro ruído.

Passos.

Lentos.

Gabriel olhou para a escada.

— Você disse que estava sozinha.

— E estou.

Os passos cessaram.

Anselmo fez sinal para que permanecessem onde estavam.

Começou a subir.

— Não — sussurrou Marta.

Ele continuou.

Gabriel foi atrás.

Chegaram ao corredor.

Uma porta estava aberta.

O quarto de Celina.

Anselmo entrou primeiro.

Vazio.

A janela estava aberta.

A cortina se movia com o vento.

Sobre a cama havia alguma coisa que não estava ali quando Marta chegara.

Uma fotografia.

Gabriel pegou-a.

Era a mesma imagem das quatro crianças.

Mas aquela cópia não tinha o quarto nome riscado.

Virou.

Leu.

Celina.

Augusto.

Marta.

E o quarto nome.

Gabriel ficou imóvel.

Anselmo aproximou-se.

— O que está escrito?

Gabriel entregou a fotografia.

Anselmo leu.

Seu rosto perdeu a cor.

Marta apareceu à porta.

Ao ver a imagem, levou a mão à boca.

— Não...

Gabriel olhou para os dois.

— Quem é ela?

Marta começou a chorar.

O nome que durante décadas fora escondido finalmente estava diante deles.

Não era Helena.

Era:

Celina Ferreira.

Gabriel olhou para Marta.

— Duas Celinas.

Marta balançou a cabeça lentamente.

— Não.

Apontou para a menina da fotografia.

— Aquela era Celina.

Depois olhou ao redor do quarto da mulher que todos haviam enterrado com esse nome.

— A mulher que morreu nunca foi.

CAPÍTULO 9 — O PRIMEIRO DESTINATÁRIO

— A mulher que morreu nunca foi.

Gabriel permaneceu olhando para Marta.

A frase parecia simples, mas tudo o que ela destruía era imenso.

— Então quem enterramos?

Marta secou as lágrimas com as costas da mão.

— Uma mulher que viveu quase toda a vida com o nome de outra pessoa.

— Qual era o nome verdadeiro dela?

— Eu não sei.

Gabriel soltou uma risada curta.

— É impressionante como ninguém sabe nada nesta história.

— Não confunda silêncio com ignorância.

— Para quem passou vinte e oito anos sendo enganado, a diferença é pequena.

Anselmo ainda segurava a fotografia.

Quatro crianças.

Três nomes conhecidos.

E Celina Ferreira.

A menina que, segundo Marta, fora a verdadeira dona daquele nome.

— Quando aconteceu a troca? — perguntou.

— Não houve uma troca de um dia para o outro — respondeu Marta. — Foi acontecendo.

— Ninguém simplesmente começa a usar o nome de outra pessoa.

— Naquela época, algumas coisas eram mais fáceis de esconder. Principalmente quando ninguém procurava por quem desaparecia.

Gabriel apontou para a menina.

— O que aconteceu com ela?

— É justamente isso que nunca conseguimos descobrir.

— Ela desapareceu?

— Sim.

— Quando?

— Aos onze anos.

Gabriel fez a conta.

— E vocês?

— Tínhamos idades próximas.

— Augusto também?

— Sim.

— Então a mulher que conhecemos como Celina assumiu o nome de uma menina desaparecida?

Marta assentiu.

— Por quê?

— No começo, acreditávamos que era uma homenagem.

— Uma homenagem?

— Éramos crianças.

— E depois?

Marta olhou para Anselmo.

— Depois crescemos e entendemos que adultos raramente mudam o nome de uma criança por sentimentalismo.

— Ela também era criança quando passou a ser chamada de Celina?

— Era.

— Qual idade?

— Doze anos, talvez treze.

— E ninguém perguntou de onde ela veio?

— Perguntamos.

— O que responderam?

— Que era parente distante.

Gabriel caminhou até a janela.

— De quem?

— De uma mulher que cuidava da escola.

— Nome?

Marta tentou lembrar.

— Dona Amélia.

— Sobrenome?

— Não sei.

Gabriel fechou os olhos.

Outra vez.

Um nome incompleto.

Uma pessoa desaparecida.

Uma explicação aceita porque ninguém fizera perguntas suficientes.

— E a primeira carta? — perguntou Anselmo.

Marta olhou para ele.

— Foi escrita pela verdadeira Celina.

— Antes de desaparecer?

— Poucos dias antes.

— Para a mulher que depois tomou seu nome?

— Sim.

— O que dizia?

— Nunca li inteira.

— Mas sabe alguma coisa.

— Sei a primeira frase.

Gabriel esperou.

Marta pronunciou devagar:

— “Se um dia eu não voltar, não deixe que eles apaguem meu nome.”

O quarto pareceu menor.

Gabriel olhou novamente para a fotografia.

O nome fora riscado.

Exatamente aquilo que a menina pedira que não acontecesse.

— Quem são “eles”?

— Não sei.

— E a falsa Celina guardou essa carta durante toda a vida?

— Sim.

— Por culpa?

— Talvez.

— Ou porque fazia parte disso.

Marta reagiu.

— Cuidado.

— Com o quê? Ela está morta.

— Com a facilidade de condenar quem não pode mais responder.

Gabriel aproximou-se.

— Minha irmã também não pôde responder durante vinte e oito anos.

Marta baixou os olhos.

— Eu sei.

— Não diga isso.

Anselmo interveio.

— Gabriel.

— Não. Toda vez que chegamos perto de alguma coisa, alguém pede calma, cuidado, tempo. Foi assim que passaram vinte e oito anos.

Pegou a fotografia.

— Vamos ao C-17.

Marta se colocou diante da porta.

— Não.

— Saia.

— Você não sabe o que pode encontrar.

— É exatamente por isso que vou.

— Celina não queria que fosse assim.

— Então por que deixou a chave?

Marta não respondeu.

— Ela preparou tudo isso. As cartas, os envelopes, as pistas. Se queria que permanecesse escondido, teria destruído.

Anselmo concordou.

— Ele tem razão.

Marta olhou para ele.

— Você não sabe o que aquela carta provocou da primeira vez.

— Da primeira vez?

Anselmo se aproximou.

— Alguém já abriu o C-17?

Marta percebeu que falara demais.

— Marta.

Ela sentou-se na beirada da cama.

— Helena.

Gabriel sentiu o coração acelerar.

— Minha irmã?

— Sim.

— Quando?

— Na noite em que desapareceu.

Silêncio.

— Helena esteve na estação?

— Esteve.

— Como sabe?

— Porque fui com ela.

Gabriel avançou.

— Você acabou de dizer que nunca a viu depois daquela noite.

— E não vi.

— Então explique.

— Nós saímos da casa juntas.

Anselmo empalideceu.

— Isso não aconteceu.

— Aconteceu.

— Eu vi Helena sair sozinha.

— Você viu o que precisava lembrar.

A frase de Celina voltou imediatamente:

Eu ajudei você a lembrar errado.

Anselmo sentou-se.

— O que aconteceu?

Marta respirou fundo.

— Depois da fotografia, Helena me procurou. Disse que tinha encontrado uma carta no quarto.

— A primeira carta?

— Sim.

— Como foi parar lá?

— Não sei.

— E vocês foram até a estação?

— Helena encontrou uma chave junto da carta. A mesma que Gabriel está carregando.

Gabriel tocou o bolso.

— C-17.

— Sim.

— O que havia no compartimento?

Marta olhou para ele.

— Nada.

— Nada?

— Estava vazio.

— Então por que você quer impedir que eu abra?

— Porque naquela noite estava vazio.

Gabriel compreendeu.

— E agora você acha que não está.

Marta assentiu.

— Celina voltou à estação muitos anos depois.

— A falsa Celina?

Marta fechou os olhos diante da expressão.

— A mulher que vocês conheceram como Celina.

— Melhor.

— Ela colocou alguma coisa lá.

— A carta?

— Foi o que me disse.

— A primeira carta original?

— Sim.

Gabriel retirou a chave.

— Então acabou a discussão.

A antiga estação ferroviária parecia menor do que Anselmo lembrava.

Parte do prédio estava cercada por tapumes. As bilheterias haviam sido fechadas com placas de madeira, e o relógio sobre a entrada permanecia parado às quatro e dezessete.

Gabriel percebeu.

— Quatro e dezessete.

Anselmo olhou.

— Coincidência.

Marta não disse nada.

Entraram por uma passagem lateral onde uma grade havia sido arrancada.

O subsolo ficava depois de uma escada estreita.

O cheiro de ferrugem e umidade aumentava a cada degrau.

Gabriel iluminou o caminho com o telefone.

No fim do corredor surgiram fileiras de pequenos compartimentos metálicos.

Alguns estavam abertos.

Outros, enferrujados.

As letras quase haviam desaparecido.

A.

B.

C.

Gabriel caminhou pela terceira fileira.

C-11.

C-12.

C-13.

O C-14 estava sem porta.

C-15.

C-16.

Parou.

C-17.

A fechadura permanecia intacta.

Marta ficou alguns passos atrás.

— Ainda podemos ir embora.

Gabriel colocou a chave.

— Eu já fui embora dessa história durante vinte e oito anos.

Girou.

A fechadura resistiu.

Tentou novamente.

Um estalo.

A porta se abriu.

Dentro havia uma caixa pequena de madeira.

Nada mais.

Gabriel retirou-a.

Não estava trancada.

Abriu.

Havia sete envelopes.

Anselmo aproximou a luz.

Cada um trazia um nome.

Augusto.

Marta.

Anselmo.

Renato.

Samuel.

Laura.

E o sétimo:

Celina.

Os sete da fotografia.

Gabriel procurou.

— Não tem nenhum para mim.

Marta parecia assustada.

— Não eram esses que estavam aqui.

— Como sabe?

— Celina me mostrou os envelopes antes de morrer. Eram outros.

Anselmo pegou o primeiro.

— Então alguém trocou.

Gabriel observou o interior da caixa.

Havia algo sob os envelopes.

Uma folha dobrada.

Retirou.

No alto, escrito com tinta azul, estava:

PRIMEIRA CARTA

Abaixo:

Para aquele que encontrar os sete nomes.

Gabriel começou a ler.

Se você chegou até aqui, então meu nome provavelmente já desapareceu.

Não sei quem encontrará esta carta. Talvez Celina. Talvez Augusto. Talvez alguém que ainda nem tenha nascido.

Mas preciso que uma pessoa saiba.

Meu nome não é o mais importante.

Gabriel parou.

Marta aproximou-se.

— Continue.

Ele leu:

O importante é o nome da menina que trouxeram para a escola naquela madrugada.

Ela não falava.

Não chorava.

E carregava no pescoço uma pequena medalha.

Gabriel sentiu algo mudar dentro dele.

Continuou:

Disseram que ela não tinha família.

Era mentira.

Eu ouvi quando Dona Amélia perguntou o que fariam se o irmão viesse procurá-la.

Gabriel perdeu a voz.

Anselmo tomou a carta e leu a frase seguinte:

O homem respondeu:

“Quando ele vier, ela já terá outro nome.”

Gabriel segurou a parede.

— Irmão...

Marta levou a mão à boca.

Anselmo continuou:

Foi por isso que escrevi esta carta.

Se um dia ele vier procurá-la, digam que ela não morreu.

Gabriel arrancou a folha das mãos de Anselmo.

No rodapé havia uma data.

Dezoito anos antes de sua irmã nascer.

— Não pode estar falando de mim.

— Não — disse Marta.

Gabriel virou a folha.

No verso havia apenas uma linha.

O primeiro destinatário não é quem recebe esta carta.

E abaixo:

É o irmão da menina.

Gabriel olhou para os sete envelopes.

— Quem era ele?

Marta não respondeu.

Anselmo percebeu que ela estava chorando.

— Você sabe.

Marta balançou a cabeça.

— Não sei o nome.

— Mas sabe alguma coisa.

— Sei quem o procurou durante anos.

— Quem?

Marta olhou para o envelope destinado a Celina.

— Augusto.

Gabriel pegou o envelope com o nome dele.

— Então começamos por Augusto.

Anselmo segurou seu braço.

— Não.

— Por quê?

Anselmo apontou para o envelope.

Havia uma pequena mancha no canto.

Vermelha.

Ainda úmida.

Gabriel tocou.

Sangue.

Os três se calaram.

Aqueles envelopes não estavam guardados ali havia anos.

Alguém os colocara recentemente.

Marta recuou.

— Precisamos sair.

Um ruído ecoou no corredor.

Metal contra metal.

Gabriel apagou a luz do telefone.

Passos começaram a descer a escada.

Lentos.

Sem qualquer tentativa de esconder a aproximação.

Anselmo fechou a caixa.

Os passos pararam.

Então uma voz masculina atravessou a escuridão:

— Se abrirem a carta de Augusto, ele morre antes de vocês terminarem de ler.

CAPÍTULO 10 — DOIS PÃES ÀS SETE

— Se abrirem a carta de Augusto, ele morre antes de vocês terminarem de ler.

Ninguém se moveu.

A voz vinha do alto da escada.

Gabriel apertou a caixa de madeira contra o peito.

Anselmo tentou distinguir alguma coisa na escuridão.

— Quem está aí?

Nenhuma resposta.

Marta segurou seu braço.

— Não fale.

— Ele sabe que estamos aqui.

— Justamente por isso.

Os passos recomeçaram.

Um.

Dois.

Três.

Gabriel procurou ao redor.

O corredor dos antigos guarda-volumes terminava numa parede, mas havia uma porta de serviço alguns metros atrás deles.

— Aquela porta abre? — sussurrou.

Marta olhou.

— Não sei.

Gabriel entregou a caixa a Anselmo e caminhou lentamente até ela.

A maçaneta girou.

Trancada.

A voz tornou a surgir:

— Vocês continuam fazendo a mesma coisa.

Dessa vez estava mais próxima.

— Escondendo-se.

Anselmo reconheceu alguma coisa.

Não exatamente a voz.

A maneira de pronunciar as palavras.

— Renato?

Os passos cessaram.

Marta fechou os olhos.

Gabriel olhou para Anselmo.

— Renato Vale?

Nenhuma resposta veio da escada.

Anselmo insistiu:

— É você?

Uma risada curta atravessou a escuridão.

— Vinte e oito anos e você ainda reconhece o medo antes de reconhecer uma pessoa.

Marta sussurrou:

— Meu Deus.

Uma lanterna acendeu.

O facho de luz atingiu o chão.

Depois subiu.

Um homem estava parado no último degrau.

Cabelos grisalhos.

Corpo mais pesado do que na fotografia.

O tempo alterara quase tudo.

Menos os olhos.

Renato Vale.

Gabriel avançou.

— Você conheceu minha irmã.

Renato apontou a lanterna para ele.

— Então você é Gabriel.

— Onde está Helena?

— Qual delas?

Gabriel partiu em sua direção.

Anselmo o segurou.

— Solte.

— Não.

— Ele sabe.

Renato permaneceu parado.

— É por isso que vocês nunca chegaram a lugar algum. Uma pergunta errada atrás da outra.

Gabriel conseguiu se desvencilhar.

— Então me ensine a perguntar.

Renato sorriu.

— Finalmente.

Apontou para a caixa.

— A primeira pergunta deveria ser: quem colocou esses envelopes aí?

— Foi você?

— Não.

— Quem?

— Se soubesse, não estaria aqui.

Marta deu um passo à frente.

— Você nos seguiu?

— Segui a chave.

— Como sabia que estava conosco?

Renato olhou para ela.

— Porque esperei vinte e oito anos para que voltasse a aparecer.

Gabriel retirou a chave do bolso.

— Por quê?

— Porque essa chave nunca pertenceu a Celina.

— A qual Celina?

O sorriso de Renato desapareceu.

— Agora vocês começaram a entender.

Anselmo levantou a caixa.

— Você ameaçou Augusto?

— Não.

— Então por que disse que ele morreria?

— Porque o sangue no envelope é dele.

Silêncio.

Gabriel olhou para a mancha vermelha.

— Como sabe?

— Eu estava com Augusto há menos de uma hora.

— Onde?

— Na casa dele.

— Ele está ferido?

Renato demorou.

— Quando saí, estava vivo.

— O que aconteceu?

— Alguém chegou antes de mim.

— Quem?

— Não vi.

— Conveniente.

— Não preciso que acredite.

Gabriel se aproximou.

— Precisa, sim. Porque se quer sair daqui sem que eu abra aquela carta, vai começar a responder.

Renato o observou.

Havia algo de Helena no rosto daquele homem.

Não uma semelhança física exata.

Talvez fosse o modo de enfrentar.

— Sua irmã fazia isso — disse.

Gabriel parou.

— Fazia o quê?

— Achava que a verdade se rendia quando alguém levantava a voz.

— E funcionou?

Renato baixou os olhos.

— Não.

— Porque vocês a fizeram desaparecer?

Marta interveio:

— Gabriel...

— Não.

Ele não desviou o olhar.

— Foi você quem ficou na porta naquela noite.

Renato assentiu.

— Impediu Helena de sair.

— Por alguns minutos.

— Por quê?

— Porque se ela saísse naquele momento, três pessoas morreriam.

— Quem?

— Uma delas era sua irmã.

Gabriel avançou novamente.

— Pare de usar minha irmã para justificar o que fizeram.

— Eu não estou justificando.

— Então diga onde ela está.

— Não sei.

— Mais um.

— Acredite no que quiser.

Anselmo colocou a caixa sobre um compartimento enferrujado.

— Se ninguém sabe onde Helena está, por que continuam tentando impedir que Gabriel procure?

Renato olhou para ele.

— Eu não estou tentando impedir.

— Acabou de ameaçar Augusto caso abríssemos a carta.

— Eu avisei. Não ameacei.

— Qual é a diferença?

Renato apontou para o envelope manchado.

— A pessoa que colocou aquilo ali quer que vocês abram.

Gabriel franziu a testa.

— Então por que ameaçaria Augusto?

— Porque não está ameaçando Augusto.

— O sangue...

— É uma assinatura.

Marta recuou.

— Não.

Renato olhou para ela.

— Você percebeu.

— Não pode ser.

— O que significa? — perguntou Gabriel.

Marta ficou em silêncio.

Renato respondeu:

— Na primeira vez, usaram pão.

Gabriel sentiu um arrepio.

— Que primeira vez?

— Quando tudo começou.

Anselmo se aproximou.

— Dois pães?

Renato olhou para ele.

— Você se lembra.

— Celina me mandou colocar dois pães sobre a mesa às sete.

— Não foi ideia dela.

— Como sabe?

Renato apagou a lanterna por um instante.

Quando tornou a acendê-la, apontou para a saída.

— Porque a primeira vez que dois pães foram colocados sobre uma mesa às sete horas, Celina tinha onze anos.

Saíram da estação por uma passagem lateral.

Renato insistiu que não permanecessem ali.

Ninguém discutiu.

O sol já começava a baixar.

No estacionamento abandonado, havia apenas dois carros.

— Onde está Augusto? — perguntou Anselmo.

— Na casa dele.

— Você disse que alguém chegou antes.

— Cheguei e encontrei a porta aberta. Havia sangue no corredor.

— E Augusto?

— No banheiro.

— Ferido?

— Um corte no braço.

Gabriel respirou aliviado.

— Então ele está vivo.

— Estava.

— Por que deixou um homem ferido sozinho?

— Não deixei.

— Quem ficou?

Renato abriu a porta do carro.

— Laura.

Anselmo congelou.

— Laura está com ele?

— É pai dela.

— Eu sei quem ela é.

— Então por que a surpresa?

Anselmo olhou para Marta.

Ela também parecia perturbada.

— Porque Laura desapareceu depois daquela noite.

Renato soltou a maçaneta.

— Não. Laura foi embora.

— Sem dizer nada.

— Às vezes é a única maneira de ir embora.

Gabriel se aproximou.

— Quero falar com ela.

— Vai.

— Agora.

Renato olhou para o relógio.

— Não.

— Por quê?

— Porque são seis e vinte.

— E?

— Às sete precisamos estar em outro lugar.

Gabriel quase perdeu a paciência.

— Não vou participar de mais um ritual sem explicação.

Renato fechou a porta do carro.

— Então abra a carta de Augusto.

Gabriel encarou-o.

— O que acontece às sete?

Renato respondeu:

— Vamos descobrir se alguém ainda se lembra dos dois pães.

A padaria ficava numa rua antiga, distante do centro.

Gabriel reconheceu o nome quando chegaram.

Padaria Santa Marta.

— Isso existia quando éramos crianças — disse.

Renato assentiu.

— Sua mãe comprava pão aqui.

Gabriel olhou para ele.

— Você conhecia minha mãe melhor do que admitiu.

— Todos nós conhecíamos.

— Todos quem?

— Os sete.

Marta corrigiu:

— Alguns antes dos outros.

Entraram.

Pouco havia mudado.

O balcão era mais novo, as paredes haviam sido pintadas, mas o forno antigo permanecia visível ao fundo.

Um homem de aproximadamente cinquenta anos atendia.

Renato perguntou:

— Seu Orlando está?

O homem olhou desconfiado.

— Meu pai morreu há nove anos.

— Você é Paulo?

— Sou.

Renato assentiu.

— Eu conheci você pequeno.

— Muita gente conheceu.

Renato não insistiu.

Olhou para o relógio.

Seis e quarenta e oito.

— Precisamos de dois pães.

Paulo apontou para a cesta.

— Pode escolher.

— Não.

Renato retirou do bolso uma moeda antiga.

Colocou-a sobre o balcão.

— Dois pães às sete.

Paulo perdeu a cor.

Gabriel percebeu.

— O que foi?

Paulo olhou para a moeda.

Depois para Renato.

— Quem mandou vocês?

— Celina.

Paulo recuou.

— Celina morreu.

— Sabemos.

— Então vão embora.

Renato deixou a moeda onde estava.

— Seu pai nunca contou?

— Contou o suficiente para eu saber que não quero isso dentro da minha padaria.

Gabriel se aproximou.

— O que significa dois pães às sete?

Paulo olhou para ele.

— Quem é você?

— Gabriel.

O homem empalideceu ainda mais.

— Gabriel de quê?

Ele disse o sobrenome.

Paulo apoiou as mãos no balcão.

— Você não deveria estar aqui.

— Tenho ouvido muito isso hoje.

— Sua mãe prometeu que nunca traria você.

— Minha mãe morreu sem me contar quase nada.

Paulo olhou para o relógio.

Seis e cinquenta e cinco.

— Saiam.

— Não.

— Por favor.

— Quero saber o que aconteceu aqui.

Paulo fechou os olhos.

— Não aconteceu aqui.

— Então onde?

— Na casa atrás da padaria.

Marta se aproximou da janela.

Nos fundos havia uma construção pequena, quase escondida pelo muro.

— Ainda existe.

Paulo assentiu.

— Meu pai nunca teve coragem de derrubar.

Seis e cinquenta e oito.

Renato falou:

— Os pães, Paulo.

— Não.

— Seu pai prometeu.

— Meu pai está morto.

— E Celina também.

Paulo olhou para Gabriel.

Depois pegou dois pães.

Colocou-os sobre o balcão.

Um ao lado do outro.

Exatamente como Anselmo os havia colocado naquela manhã.

O relógio marcou sete horas.

Nada aconteceu.

Gabriel olhou para Renato.

— Era isso?

Renato permaneceu imóvel.

Paulo também.

Um minuto.

Dois.

Então alguém bateu na porta dos fundos.

Três vezes.

Paulo deixou cair a cesta que segurava.

— Não.

Nova batida.

Duas vezes.

Pausa.

Mais uma.

Marta começou a chorar.

— É o sinal.

Gabriel caminhou até a porta.

Paulo entrou na frente.

— Não abra.

— Saia.

— Você não entende.

— Então explique.

Paulo olhou para os dois pães.

— Quando éramos crianças, meu pai deixava dois pães na janela dos fundos às sete da noite.

— Para quem?

— Para duas meninas.

Gabriel sentiu o coração acelerar.

— Quais meninas?

— Ele nunca dizia os nomes.

Renato aproximou-se.

— Uma delas era Celina Ferreira.

Paulo assentiu.

— E a outra?

Silêncio.

Outra batida.

Gabriel segurou a maçaneta.

— Qual era o nome da outra?

Paulo respondeu:

— Ela não tinha nome quando chegou.

Gabriel abriu a porta.

Não havia ninguém.

No chão estavam dois objetos.

Uma pequena medalha presa a uma corrente.

E um envelope.

Gabriel pegou a medalha.

Na parte da frente havia uma letra gravada.

H.

No verso, uma data.

Gabriel mostrou a Anselmo.

Era a mesma data de nascimento de sua mãe.

Ninguém falou.

Marta sentou-se.

Renato fechou os olhos.

Gabriel abriu o envelope.

Dentro havia uma única folha.

A caligrafia era antiga.

No alto:

Para o primeiro destinatário.

Ele leu:

Se você recebeu esta carta, os dois pães voltaram à mesa.

Isso significa que alguém finalmente encontrou meu irmão.

Gabriel parou.

Abaixo havia um nome.

Não era o dele.

Era o nome de sua mãe.

 
 
 

Posts recentes

Ver tudo

Comentários


bottom of page