A Oitava Carta — Parte I — Prólogo e Capítulos 1 a 5
- Abioye Ras Barros
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A OITAVA CARTA
Abioye Ras Barros
PARTE I — PRÓLOGO E CAPÍTULOS 1 A 5
Leitura gratuita autorizada pelo autor.
PRÓLOGO
Antes da Primeira Carta
A carta chegou numa terça-feira.
Não havia nada de especial naquela manhã. Nenhum pressentimento, nenhum sonho estranho, nenhuma dessas coincidências que, depois que tudo acontece, costumamos transformar em aviso.
Havia apenas um envelope.
Amarelado nas bordas, ligeiramente curvado pelo tempo e sem selo. O nome do destinatário fora escrito à mão, com uma tinta tão desbotada que algumas letras pareciam desaparecer sob a luz.
Não havia remetente.
Durante alguns segundos, ele permaneceu diante do envelope sem tocá-lo.
Talvez porque reconhecesse aquela caligrafia.
Talvez porque tivesse passado tempo demais tentando esquecê-la.
Pegou a carta.
Virou-a.
No verso, uma única frase:
Você precisa saber por que foram sete.
O coração acelerou.
Sete.
Aquela palavra não deveria significar nada.
Mas significava.
Durante anos, sete cartas haviam permanecido guardadas numa caixa que ninguém abria. Sete envelopes. Sete datas diferentes. Sete pedaços de uma história sobre a qual sua família aprendera a não fazer perguntas.
A primeira fora escrita muito antes de ele nascer.
A última, no ano em que alguém desapareceu.
Nunca soubera exatamente quem as escrevera. Tampouco porque haviam sido preservadas com tanto cuidado.
Quando criança, perguntara sobre elas uma vez.
A resposta fora curta:
— Há coisas que pertencem aos mortos.
Nunca perguntou novamente.
Até aquela terça-feira.
Levou o envelope para dentro de casa e colocou-o sobre a mesa.
Não abriu.
Preparou café.
Não bebeu.
Andou pela sala.
Voltou à mesa.
O envelope continuava ali, imóvel, como se soubesse que venceria.
Então percebeu algo.
No canto inferior, quase apagado pelo tempo, havia um número escrito a lápis.
8.
Sentou-se.
Contou mentalmente.
Uma.
Duas.
Três.
Quatro.
Cinco.
Seis.
Sete.
Durante toda a vida, existiram apenas sete.
A oitava carta não poderia existir.
Ainda assim, estava diante dele.
Passou o dedo pela borda do envelope e sentiu a aspereza do papel antigo.
Poderia rasgá-lo.
Poderia queimá-lo.
Poderia colocá-lo numa gaveta e continuar vivendo como se aquela manhã fosse apenas mais uma terça-feira.
Mas algumas verdades não chegam para serem escolhidas.
Chegam porque se cansaram de esperar.
Ele rompeu o lacre.
Dentro havia uma folha dobrada três vezes.
Abriu a primeira dobra.
Depois a segunda.
Quando abriu a terceira, não conseguiu continuar.
No alto da página havia uma data.
Abaixo dela, uma única palavra.
Seu nome.
E, pela primeira vez em muitos anos, ele teve medo de descobrir quem realmente era.
A OITAVA CARTA
Capítulo 1 — O Segundo Prato
Todas as noites, às sete, dona Celina colocava dois pratos sobre a mesa.
Fazia isso havia tantos anos que suas mãos já não precisavam receber ordens.
Primeiro a toalha branca, quase amarela pelo tempo. Depois os talheres. Um copo diante de cada cadeira. Por último, os dois pratos.
Naquela terça-feira, serviu arroz, feijão e um pedaço pequeno de frango ensopado.
Dividiu o frango em duas partes.
Sentou-se.
E esperou.
O apartamento era pequeno o suficiente para que da mesa ela enxergasse a porta da entrada. Também conseguia ouvir o elevador chegando ao andar, o arrastar dos chinelos da vizinha e, quando a noite estava mais silenciosa, o cachorro do 302 bebendo água.
Celina conhecia os sons daquele prédio.
Sabia quando o rapaz do 401 chegava bêbado porque ele sempre errava a chave na primeira tentativa.
Sabia quando a menina do 203 recebia o pai porque ela corria pelo corredor antes mesmo de o elevador abrir.
Sabia quando dona Alzira brigava com o filho.
Sabia quando o casal do andar de cima fazia as pazes.
Sabia quando alguém chorava no banheiro.
Prédios guardam poucos segredos de quem aprendeu a escutar.
Às sete e vinte, o arroz começou a esfriar.
Celina olhou para o prato diante da cadeira vazia.
— Hoje você demorou.
Não houve resposta.
Ela sorriu mesmo assim.
Pegou o garfo e comeu devagar.
Quando terminou, recolheu apenas o próprio prato.
O outro permaneceu sobre a mesa.
Na manhã seguinte, o padeiro percebeu que ela não aparecera.
Não chegou a se preocupar.
Pessoas faltam.
Na quinta-feira, ela também não foi.
Na sexta, seu pão francês ficou novamente separado atrás do balcão até quase meio-dia.
— A senhora do 204 não veio de novo? — perguntou um funcionário.
Seu Anselmo olhou para o saco de papel.
— Não.
— Deve ter viajado.
Anselmo deu de ombros.
Celina nunca lhe dissera para onde ia quando desaparecia.
Na verdade, pensando bem, Anselmo percebeu que não sabia absolutamente nada sobre ela.
Só sabia que comprava dois pães.
Todos os dias.
Dois.
No domingo, o cheiro apareceu.
Primeiro no corredor.
Depois entrou no elevador.
Na segunda-feira pela manhã, o síndico chamou a polícia.
A fechadura precisou ser arrombada.
Não havia televisão ligada.
Não havia torneira aberta.
Não havia janela quebrada.
Não havia sinal de violência.
Havia apenas silêncio.
E dois pratos sobre a mesa.
Um deles vazio.
No outro, arroz endurecido, feijão seco e metade de um pedaço de frango.
Dona Celina estava no quarto.
Deitada sobre a cama, vestia uma camisola azul e segurava alguma coisa contra o peito.
Era um envelope.
O policial precisou afastar cuidadosamente os dedos rígidos para retirá-lo.
Na frente havia apenas um nome:
Anselmo Ferreira.
— Conhece? — perguntou um dos policiais ao síndico.
Ele pensou um pouco.
— Acho que é o homem da padaria da esquina.
No criado-mudo havia outros envelopes.
O policial contou.
Um.
Dois.
Três.
Quatro.
Cinco.
Seis.
Sete.
Todos tinham nomes.
Nenhum endereço.
O último estava separado dos demais.
Era diferente.
Não havia nome.
Somente uma frase escrita à mão:
“Entregue está por último.”
O policial virou o envelope.
Nada.
— Para quem é?
O síndico balançou a cabeça.
— Não faço ideia.
O policial tornou a colocá-lo sobre o criado-mudo.
Foi quando percebeu uma fotografia caída no chão, parcialmente escondida sob a cama.
Abaixou-se e a pegou.
Era antiga.
Nela apareciam oito pessoas.
Sete rostos haviam sido riscados com tinta preta.
O oitavo permanecia intacto.
O policial aproximou a fotografia da janela.
Olhou novamente.
Depois para Celina.
Depois para a fotografia.
— Estranho...
— O quê?
Ele mostrou a imagem ao síndico.
O homem demorou alguns segundos para compreender.
— Essa é ela?
— Não.
Celina não estava na fotografia.
No verso, porém, havia uma data de vinte e oito anos antes e uma frase escrita com a mesma letra dos envelopes:
“Foi aqui que tudo começou.”
Naquela tarde, o corpo de Celina deixou o prédio dentro de um saco preto.
Algumas portas se abriram.
Pessoas olharam.
Uma mulher fez o sinal da cruz.
Outra perguntou há quanto tempo ela estava morta.
Alguém comentou que era uma tristeza uma pessoa morrer sozinha.
Depois as portas se fecharam.
O elevador voltou a subir e descer.
O rapaz do 401 chegou bêbado naquela noite e errou a chave na primeira tentativa.
A menina do 203 correu pelo corredor quando ouviu o pai chegar.
O cachorro bebeu água.
O prédio continuou vivendo.
E durante algumas horas ninguém soube que, dentro de uma sacola transparente na delegacia, havia oito envelopes capazes de provar que aquela mulher, que todos acreditavam ter morrido sozinha, conhecia segredos que poderiam mudar a vida de sete pessoas.
Talvez oito.
Na manhã seguinte, Anselmo abriu a padaria às cinco.
Acendeu as luzes.
Ligou a máquina de café.
Colocou os pães no balcão.
E, como fazia todos os dias, separou dois dentro de um saco de papel.
Só percebeu o que havia feito quando escreveu:
Dona Celina.
Ficou olhando para o nome.
Então ouviu alguém atrás dele.
— Senhor Anselmo Ferreira?
Virou-se.
Um policial segurava um envelope.
— Sim.
— Isto foi encontrado com uma mulher que morava aqui perto.
Anselmo olhou para a letra.
Reconheceu imediatamente.
Não sabia como.
Nunca tinha visto Celina escrever.
— O senhor conhecia dona Celina?
Anselmo ia responder que não.
Era a resposta verdadeira.
Ou pelo menos tinha sido verdadeira durante quase trinta anos.
Então o policial entregou-lhe o envelope.
Anselmo viu seu nome.
E abaixo dele, numa letra pequena que antes estivera escondida pelo polegar do policial, leu:
“Você cumpriu sua promessa. Só não sabe qual.”
O saco com os dois pães caiu de sua mão.
Capítulo 2 — A Promessa
Anselmo deixou os dois pães no chão.
O policial se abaixou para ajudá-lo, mas ele não se moveu. Continuava olhando para o envelope.
— O senhor está bem?
— Estou.
Não estava.
Pegou a carta com cuidado. Virou-a, examinou o verso e tornou a olhar para a frase escrita abaixo de seu nome.
Você cumpriu sua promessa. Só não sabe qual.
— Ela escreveu isso?
— O envelope estava com dona Celina quando a encontramos.
— Com ela?
— Nas mãos.
Anselmo ergueu os olhos.
— Nas mãos?
O policial confirmou.
Aquilo mudou alguma coisa.
Uma carta encontrada numa gaveta poderia ter sido escrita meses antes e esquecida. Uma carta apertada contra o peito de uma mulher morta parecia uma despedida.
— Posso abrir?
— É sua.
Anselmo passou o dedo pela aba do envelope, mas parou.
— O senhor sabe o que tem aqui?
— Não.
— E existem outras?
O policial hesitou.
— Existem.
— Para quem?
— Não posso informar.
Anselmo guardou o envelope no bolso do avental.
— Então não vou abrir agora.
O policial pareceu surpreso.
— Por quê?
Anselmo olhou para o forno.
— Porque daqui a pouco isso aqui enche.
Às seis da manhã, a padaria começou a receber os primeiros clientes.
Anselmo serviu café, pesou pão, deu troco e respondeu a cumprimentos. Fez tudo como fazia havia trinta e dois anos.
Mas durante toda a manhã sentiu o envelope contra o peito.
Às nove, já sabia exatamente onde ele estava sem precisar tocá-lo.
Às onze, começou a desejar que o policial nunca tivesse aparecido.
Ao meio-dia, fechou o caixa e subiu para o pequeno escritório no andar de cima.
Trancou a porta.
Sentou-se.
Colocou a carta sobre a mesa.
Ficou algum tempo diante dela.
— Que promessa, Celina?
Era a primeira vez que dizia o nome daquela mulher como se realmente a conhecesse.
Abriu o envelope.
Havia apenas uma folha.
Anselmo,
se esta carta chegou às suas mãos, é porque finalmente faltei à padaria por tempo suficiente para você perceber.
Imagino que tenha separado meus dois pães mesmo assim.
Você sempre separava.
Talvez esteja se perguntando por que escrevi para você.
A resposta começa há vinte e oito anos.
Mas não foi naquele dia que você me conheceu.
Foi naquele dia que eu conheci você.
Anselmo parou de ler.
Vinte e oito anos.
Fez a conta.
Tentou encontrar alguma coisa na memória.
Nada.
Continuou.
Naquela manhã, você fez uma coisa tão pequena que provavelmente esqueceu antes de chegar em casa.
Eu não esqueci.
Durante muito tempo pensei que um gesto só tivesse importância quando mudava o mundo.
Depois compreendi que ninguém muda o mundo inteiro.
Mudamos o mundo de alguém.
E quase nunca ficamos sabendo.
Você mudou o meu.
Anselmo respirou fundo.
Havia mais.
Ele continuou lendo.
Mas não foi por isso que escrevi esta carta.
Existe alguém que precisa saber o que você fez.
E antes que eu lhe diga quem é, preciso pedir uma última coisa:
amanhã, às sete da manhã, coloque dois pães naquele mesmo saco de papel.
Escreva meu nome.
E espere.
Anselmo virou a folha.
Nada.
Leu novamente.
Depois uma terceira vez.
Procurou outra folha dentro do envelope.
Vazio.
— Espere quem?
A carta não respondia.
Anselmo levantou-se irritado.
Foi até a janela.
Lá embaixo, pessoas passavam pela calçada. Um ônibus parou no ponto. Um entregador atravessou a rua correndo. Uma mulher segurava uma criança pela mão.
Vinte e oito anos.
Ele tentou novamente.
Naquele tempo ainda não era dono da padaria. Trabalhava para o antigo proprietário, seu Armando, um português que gritava com funcionários e clientes com a mesma facilidade.
Anselmo tinha vinte e poucos anos.
Chegava antes das quatro.
Carregava sacos de farinha.
Limpava o forno.
Dormia pouco.
Ganhava menos ainda.
Lembrava-se de muita coisa daquela época.
Mas não de Celina.
Desceu.
— Joel.
O funcionário apareceu na porta da cozinha.
— Fala, seu Anselmo.
— Você consegue abrir amanhã?
Joel arregalou os olhos.
Em quinze anos trabalhando ali, jamais abrira a padaria antes do patrão.
— Aconteceu alguma coisa?
— Não. Preciso resolver um negócio.
— Que horas?
— Cinco.
— Está bem.
Anselmo agradeceu e voltou ao balcão.
Passou o restante do dia tentando ignorar a carta.
Não conseguiu.
À noite, em casa, abriu uma caixa de fotografias antigas.
Encontrou imagens dos filhos pequenos, da esposa ainda viva, de aniversários, Natais e domingos na praia.
Encontrou uma fotografia da padaria quando a fachada ainda era azul.
Virou-a.
Ficou olhando para os rostos.
Seu Armando estava no centro. Anselmo aparecia atrás do balcão, muito mais magro, cabelo cheio e um sorriso que quase não reconheceu.
Havia clientes ao fundo.
Aproximou a fotografia da luz.
Nenhuma mulher parecia Celina.
Guardou tudo.
Dormiu mal.
Às quatro e vinte da manhã, já estava acordado.
Às seis e meia entrou na padaria.
Joel estranhou.
— Achei que o senhor não vinha.
— Também achei.
Anselmo vestiu o avental.
Pegou um saco de papel.
Colocou dois pães.
Escreveu:
Dona Celina.
Às seis e cinquenta, deixou o saco sobre o balcão.
Às sete, ninguém apareceu.
Às sete e cinco, um homem pediu café.
Às sete e dez, uma mulher comprou seis pães e duzentos gramas de presunto.
Às sete e quinze, Anselmo começou a se sentir ridículo.
Uma morta havia marcado um encontro e ele comparecera.
Às sete e vinte e três, decidiu jogar os pães fora.
Estendeu a mão para o saco.
— Não.
A voz veio atrás dele.
Anselmo se virou.
Era um menino.
Devia ter doze ou treze anos. Magro, camiseta grande demais para o corpo e uma mochila presa por uma única alça.
— Não o quê?
O garoto apontou para o saco.
— Não joga fora.
Anselmo franziu a testa.
— Você quer pão?
O menino não respondeu.
Seus olhos estavam presos ao nome escrito no papel.
— Conhecia dona Celina?
O garoto assentiu.
— De onde?
Silêncio.
— Você mora no prédio dela?
O menino balançou a cabeça.
— Então como conhecia?
O garoto tirou a mochila das costas.
Abriu o zíper.
De dentro dela retirou um envelope.
Anselmo sentiu o corpo enrijecer.
— Quem te deu isso?
— Ela.
— Quando?
— Faz um tempo.
— Quanto tempo?
O menino pensou.
— Uns três meses.
Anselmo pegou o envelope.
Na frente estava escrito:
Para Anselmo. Somente depois dos dois pães.
A mesma letra.
— Qual é o seu nome?
— Gabriel.
— Por que ela entregou isso a você?
— Porque disse que o senhor não acreditaria na primeira carta.
Anselmo olhou para ele.
— E por que eu acreditaria em você?
Gabriel deu de ombros.
— Não precisa.
Apontou para o envelope.
— Só precisa abrir.
Anselmo rasgou a aba.
Dessa vez havia uma folha menor.
Leu em silêncio.
Anselmo,
este é Gabriel.
Há três anos, ele vinha à sua padaria quase todas as manhãs.
Você provavelmente se lembra dele como o menino que roubava pão.
O rosto de Anselmo perdeu a cor.
Olhou para Gabriel.
Então lembrou.
Um garoto menor.
Sujo.
Sempre perto da porta.
Uma manhã, Joel o pegara colocando dois pães dentro da camisa.
Anselmo arrancou os pães de suas mãos.
Mandou que fosse embora.
Na semana seguinte, o menino voltou.
Tentou novamente.
Dessa vez Anselmo o segurou pelo braço.
Gabriel percebeu que ele havia lembrado.
— Continua.
Anselmo baixou os olhos para a carta.
Na terceira vez que ele tentou roubar, você fez algo diferente.
Perguntou para quem era o segundo pão.
Gabriel respondeu:
“Para minha irmã.”
Você soltou o braço dele.
Colocou quatro pães num saco.
E disse:
“Quando estiver com fome, pede. Não rouba.”
Depois disso, todas as manhãs, durante sete meses, você deixou dois pães separados para Gabriel.
Até que ele parou de aparecer.
Anselmo sentou-se.
Lembrava.
Não de todos os dias.
Mas lembrava.
— Você sumiu.
Gabriel baixou a cabeça.
— Minha irmã ficou doente.
— E sua mãe?
O menino não respondeu.
Anselmo voltou à carta.
Agora você sabe qual promessa cumpriu.
Mas ainda não sabe quando a fez.
Nem para quem.
Anselmo apertou o papel.
Restavam apenas três linhas.
Leu a primeira.
Depois a segunda.
Na terceira, parou.
Gabriel percebeu.
— O que está escrito?
Anselmo não respondeu.
— Seu Anselmo?
Ele levantou os olhos.
— Celina conhecia sua irmã?
Gabriel empalideceu.
— Como o senhor sabe da minha irmã?
Anselmo colocou a carta sobre o balcão.
No final da página, Celina havia escrito:
A promessa não começou com Gabriel.
Começou vinte e oito anos antes de ele nascer.
Pergunte ao menino quem pagou o enterro da irmã dele.
Anselmo encarou Gabriel.
O garoto ficou imóvel.
Por alguns segundos, nenhum dos dois falou.
Então Gabriel puxou uma cadeira e se sentou.
Quando tornou a levantar os olhos, havia neles alguma coisa que Anselmo não esperava encontrar.
Medo.
— Seu Anselmo...
— Fala.
— Minha irmã não morreu.
CAPÍTULO 3 — A Irmã que Não Morreu
— Minha irmã não morreu.
Anselmo permaneceu imóvel.
Durante alguns segundos, o barulho da rua pareceu desaparecer. Não havia carros, vozes, passos na calçada. Apenas aquela frase entre os dois, pesada demais para caber numa manhã comum.
Gabriel ainda segurava o envelope.
— O que você disse?
— Você ouviu.
Anselmo puxou lentamente uma cadeira.
— Sente-se.
— Não vim aqui para sentar.
— Então fique em pé. Mas me explique.
Gabriel olhou para os dois pães sobre a mesa.
Estavam exatamente onde Anselmo os havia colocado às sete horas, obedecendo às instruções de Celina.
Dois pães.
Um diante do outro.
Durante toda a manhã, Anselmo tentara compreender por que uma mulher morta o havia pedido algo tão banal.
Agora começava a suspeitar que não havia banalidade alguma.
— Foi ela quem pediu os pães? — Gabriel perguntou.
Anselmo não respondeu.
— Foi?
— Foi.
Gabriel fechou os olhos.
Não parecia surpreso.
Parecia vencido.
— Então ela sabia.
— Sabia o quê?
Gabriel finalmente se sentou.
Colocou o envelope sobre a mesa, mas manteve a mão sobre ele.
— Quando éramos crianças, minha irmã e eu dividíamos tudo. Não porque gostássemos. Porque quase nunca havia o suficiente.
Anselmo permaneceu em silêncio.
— Minha mãe saía cedo. Às vezes deixava alguma coisa para comermos. Às vezes não. Quando conseguia pão, comprava dois. Um para mim e outro para Helena.
Foi a primeira vez que o nome apareceu.
Helena.
Anselmo desviou os olhos.
Gabriel percebeu.
— Você conhece esse nome.
— Continue.
— Não. Olhe para mim.
Anselmo levantou os olhos.
— Você conhece o nome da minha irmã?
— Conheci muita gente.
— Não perguntei isso.
O silêncio respondeu antes dele.
Gabriel afastou a cadeira.
— Meu Deus...
— Gabriel...
— Você conheceu Helena.
— Conheci.
A palavra saiu baixa.
Sem defesa.
Gabriel levou alguns segundos para absorvê-la.
— E durante todos esses anos você deixou que eu acreditasse que ela estava morta?
— Eu nunca disse que ela morreu.
— Não precisava dizer! Todos diziam. Minha mãe dizia. Celina dizia. Quando eu perguntava, vocês abaixavam a cabeça como se pronunciar o nome dela fosse abrir um túmulo.
Anselmo apertou as mãos.
— Algumas mentiras não começam com uma frase.
— Não tente transformar isso em filosofia.
— Não estou tentando.
— Então diga onde ela está.
Anselmo não respondeu.
Gabriel bateu a mão na mesa.
Os dois pães estremeceram.
— Onde está minha irmã?
— Eu não sei.
Gabriel soltou uma risada curta, sem humor.
— Claro.
— É verdade.
— Você a conheceu. Sabia que ela não tinha morrido. Ficou calado por vinte e oito anos e agora quer que eu acredite que não sabe onde ela está?
Vinte e oito anos.
O mesmo tempo indicado na fotografia encontrada entre as coisas de Celina.
Anselmo olhou novamente para os pães.
— A última vez que vi Helena foi naquela noite.
— Que noite?
— A noite da fotografia.
Gabriel parou.
Retirou algo do bolso interno da jaqueta.
Era uma fotografia dobrada ao meio.
Abriu-a sobre a mesa.
Anselmo empalideceu.
A imagem era a mesma.
Sete pessoas.
Sete rostos riscados.
Uma data no verso.
Vinte e oito anos antes.
E a frase:
Foi aqui que tudo começou.
— Onde conseguiu isso?
— Estava dentro do envelope.
Anselmo pegou a fotografia com cuidado.
Passou o polegar sobre um dos rostos riscados.
— Celina guardou uma cópia...
— Uma cópia?
Anselmo percebeu tarde demais o que havia dito.
Gabriel se inclinou sobre a mesa.
— Quantas existem?
Anselmo devolveu a fotografia.
— Pelo menos duas.
— Quem tem a outra?
— Eu tinha.
— Tinha?
— Desapareceu.
— Quando?
Anselmo respirou fundo.
— Na mesma noite em que Helena desapareceu.
Gabriel ficou olhando para ele.
A raiva começava a dar lugar a outra coisa.
Medo.
— O que aconteceu naquela noite?
Anselmo levantou-se e caminhou até a janela.
Na rua, as pessoas passavam carregando sacolas, falando ao telefone, cumprindo compromissos. Nenhuma delas imaginava que, atrás daquela janela, vinte e oito anos começavam a se desfazer.
— Éramos sete — disse ele.
— Os da fotografia?
— Sim.
— Celina estava lá?
— Estava.
— Você também?
Anselmo assentiu.
Gabriel olhou novamente para os rostos riscados.
— Qual deles é você?
Anselmo apontou.
O terceiro da esquerda.
O risco sobre o rosto era tão forte que quase rasgara o papel.
Gabriel contou.
— Sete.
— Sete.
— E Helena?
Anselmo demorou.
— Não aparece na fotografia.
— Por quê?
— Porque foi ela quem tirou.
Gabriel deixou a foto cair sobre a mesa.
Agora havia oito pessoas naquela história.
Sete diante da câmera.
Uma atrás.
E, vinte e oito anos depois, sete envelopes haviam sido deixados por Celina.
Mais um.
O oitavo.
— Os envelopes são para as pessoas dessa fotografia?
Anselmo fechou os olhos por um instante.
— Eu acho que sim.
— Você acha?
— Só recebi o meu.
— E o que Celina escreveu?
Anselmo voltou para a mesa.
Pegou um dos pães.
Não comeu.
Apenas o segurou.
— Ela escreveu que, quando você chegasse, eu deveria lhe contar sobre Helena.
Gabriel esperou.
— Então conte.
— Não é tão simples.
— Minha irmã desapareceu há vinte e oito anos. Passei metade da minha vida acreditando que estava morta. Uma mulher deixa cartas antes de morrer, manda colocar dois pães sobre uma mesa e faz você esperar por mim. Não me diga que não é simples. Nada disso é simples.
Anselmo colocou o pão de volta.
— Helena descobriu uma coisa.
— O quê?
— Algo que nenhum de nós deveria ter permitido que acontecesse.
— O quê?
— E decidiu falar.
Gabriel inclinou-se para a frente.
— Falar sobre quê?
Anselmo olhou para a fotografia.
— Sobre nós.
— Os sete?
— Os sete.
— O que vocês fizeram?
Anselmo não respondeu.
Gabriel se levantou novamente.
— Eu perguntei o que vocês fizeram.
— Naquela época, acreditávamos que estávamos protegendo alguém.
— Quem?
— Essa é a parte que Celina não me autorizou a contar.
Gabriel ficou incrédulo.
— Celina está morta.
— Eu sei.
— Então não existe mais autorização.
Anselmo encarou-o.
— Existem promessas que continuam vivas depois das pessoas.
Gabriel pegou o envelope e rasgou o restante da abertura.
— Então talvez ela tenha deixado a autorização comigo.
Retirou a carta.
Até aquele momento, lera apenas a primeira parte.
Desdobrou completamente a folha.
Havia mais texto no verso.
Os dois se calaram.
Gabriel começou a ler.
A expressão em seu rosto mudou.
— O que foi? — perguntou Anselmo.
Gabriel não respondeu.
Continuou lendo.
Depois voltou ao início, como se precisasse ter certeza.
— Gabriel?
Ele colocou a carta sobre a mesa.
Empurrou-a na direção de Anselmo.
Havia três linhas escritas à mão:
Gabriel, não procure um túmulo.
Procure a mulher que durante vinte e oito anos foi obrigada a viver com outro nome.
E abaixo:
Anselmo sabe onde você deve começar.
Gabriel levantou os olhos.
Anselmo não conseguiu sustentá-los.
— Você disse que não sabia onde ela estava.
— E não sei.
— Mas sabe onde procurar.
Anselmo permaneceu calado.
— Onde?
Ele caminhou até um pequeno armário no fundo da sala.
Abriu a porta inferior e retirou uma caixa metálica.
Gabriel acompanhou cada movimento.
Anselmo colocou a caixa sobre a mesa.
Não havia poeira sobre ela.
Aquilo não estava esquecido.
Estava guardado.
Abriu.
Dentro havia documentos antigos, algumas chaves, recortes de jornal e um pequeno caderno de capa preta.
Anselmo pegou o caderno.
Folheou até encontrar uma página marcada.
— Três dias depois do desaparecimento de Helena, recebi uma ligação.
— Dela?
— Nunca tive certeza.
— O que disseram?
— Uma mulher falou apenas uma frase.
— Qual?
Anselmo olhou para Gabriel.
— “Diga ao meu irmão que eu comi o meu pão.”
Gabriel levou a mão à boca.
As lágrimas surgiram antes que pudesse impedi-las.
Durante vinte e oito anos, ninguém poderia ter compreendido aquela frase.
Ninguém, exceto ele.
Quando eram crianças e a fome apertava, Helena frequentemente guardava metade do próprio pão para o irmão.
Gabriel reclamava.
Dizia que ela precisava comer.
Ela sorria e respondia:
— Comi o meu. Esse sobrou.
Era mentira.
Sempre fora.
Ela passava fome para que ele comesse.
Gabriel olhou para os dois pães sobre a mesa.
Finalmente compreendeu por que Celina escolhera aquele sinal.
Não era uma lembrança.
Era uma prova.
Helena estivera viva depois da noite em que disseram que ela havia morrido.
— De onde veio a ligação?
Anselmo virou o caderno na direção dele.
Havia um nome de cidade.
E abaixo dele, um endereço.
Gabriel leu uma vez.
Depois outra.
— Você foi até lá?
— Fui.
— Encontrou Helena?
— Não.
— Então o que encontrou?
Anselmo fechou o caderno.
— Uma casa vazia.
Gabriel respirou fundo.
— Só isso?
— Não.
— O que mais?
Anselmo hesitou.
— Na porta havia um pão.
Gabriel ficou imóvel.
— E embaixo dele?
Anselmo abriu novamente a caixa.
Retirou um pequeno pedaço de papel, amarelado pelo tempo.
Colocou-o diante de Gabriel.
Havia apenas quatro palavras.
Ainda não posso voltar.
Gabriel tocou o papel.
— É a letra dela.
Anselmo assentiu.
— Por que você nunca me entregou isso?
Dessa vez, não havia resposta capaz de protegê-lo.
— Porque prometi.
— A quem?
Anselmo olhou para o envelope de Celina.
Depois para a fotografia.
Por fim, para Gabriel.
— À própria Helena.
Gabriel recuou.
Tudo o que sabia sobre a irmã acabara de mudar pela segunda vez naquela manhã.
Mas havia algo que nenhum dos dois percebera.
Do outro lado da rua, dentro de um carro estacionado havia quase vinte minutos, uma pessoa observava a janela.
Sobre o banco do passageiro repousava um envelope.
No canto superior, escrito à mão, havia apenas um número.
2.
CAPÍTULO 4 — VINTE E OITO ANOS ANTES
Vinte e oito anos antes, Helena chegou atrasada.
Quando entrou na casa, os outros sete já estavam lá.
Celina foi a primeira a vê-la.
— Pensei que você não viesse.
Helena fechou a porta atrás de si.
— Eu também.
Trazia uma bolsa pequena atravessada sobre o corpo e uma câmera fotográfica pendurada no pescoço. Os cabelos ainda estavam úmidos da chuva fina que começara no fim da tarde.
Na sala, ninguém parecia confortável.
Anselmo permanecia próximo à janela. Dois homens conversavam em voz baixa junto à estante. Uma mulher fumava perto da porta da cozinha. Os outros evitavam se olhar.
Sete pessoas reunidas por uma razão que nenhuma delas desejaria recordar.
Helena contou.
Uma.
Duas.
Três.
Quatro.
Cinco.
Seis.
Sete.
Com ela, oito.
— Por que me chamaram? — perguntou.
Ninguém respondeu imediatamente.
Celina aproximou-se.
Era mais jovem, mas já possuía aquele jeito de olhar que fazia parecer que percebia coisas antes dos outros.
— Precisamos decidir o que fazer.
— Vocês já decidiram.
— Não.
Helena olhou para cada um deles.
— Quando sete pessoas me chamam depois que tudo aconteceu, não querem minha opinião. Querem minha concordância.
Anselmo se afastou da janela.
— Não precisa ser assim.
— Então me diga como precisa ser.
Ele abriu a boca.
Não encontrou resposta.
Helena deixou a bolsa sobre uma cadeira.
— Onde está?
A mulher que fumava apagou o cigarro.
— Helena...
— Eu perguntei onde está.
Celina apontou para o corredor.
— No quarto.
Helena começou a andar.
Anselmo segurou seu braço.
— Talvez seja melhor você não entrar.
Ela olhou para a mão dele.
Anselmo soltou-a.
— Vocês me fizeram vir até aqui e agora querem decidir o que posso ver?
— Não é isso.
— Então saia da frente.
Ele saiu.
Helena atravessou o corredor.
A porta do último quarto estava entreaberta.
Empurrou-a.
Parou.
Durante alguns segundos, não disse nada.
Quando voltou à sala, estava pálida.
— Quem fez isso?
Ninguém respondeu.
— Eu perguntei quem fez isso.
Um dos homens levantou-se.
— Não foi como você está pensando.
— Eu ainda não disse o que estou pensando.
— Foi um acidente.
Helena riu.
Não havia humor naquele som.
— Engraçado. Sempre existe alguém disposto a chamar de acidente aquilo que não quer explicar.
— Baixe a voz.
— Por quê? Alguém pode ouvir?
O homem se aproximou.
Celina entrou entre os dois.
— Chega.
Helena olhou para ela.
— Você também?
Celina não respondeu.
Foi o bastante.
— Meu Deus.
Helena recuou.
— Você também.
— Eu não fiz nada.
— Esse é exatamente o problema.
Celina recebeu a frase como se fosse um golpe.
Helena olhou novamente para os sete.
Naquela sala havia medo.
Mas não era o mesmo medo em todos.
Alguns temiam o que aconteceria se a verdade fosse descoberta.
Outros temiam aquilo que já havia acontecido.
E pelo menos um deles parecia não sentir medo algum.
— Vamos à polícia — disse Helena.
Um dos homens respondeu imediatamente:
— Não.
— Não estou pedindo autorização.
— Você não entende.
— Então me faça entender.
— Se a polícia entrar nisso, acaba com a vida de todo mundo.
Helena apontou para o corredor.
— E aquilo lá não acabou com a vida de ninguém?
Silêncio.
— É isso? — perguntou. — Estamos discutindo nossas vidas enquanto alguém está naquele quarto?
Anselmo baixou a cabeça.
Helena percebeu.
— Você sabia?
— Não.
— Mas sabe alguma coisa.
— Helena...
— Olhe para mim.
Ele olhou.
— O que aconteceu?
Anselmo respirou fundo.
— Quando cheguei, já tinha acontecido.
— E você ficou.
A frase o atingiu.
— Fiquei.
— Por quê?
Anselmo olhou para Celina.
Helena acompanhou o movimento.
Foi rápido.
Mas suficiente.
— O que existe entre vocês dois?
— Nada — respondeu Celina.
— Não perguntei se existe alguma coisa entre vocês. Perguntei o que vocês sabem.
Celina se aproximou.
— Há uma pessoa que precisa ser protegida.
— De quê?
— Das consequências.
— Quem?
Celina permaneceu calada.
Helena balançou a cabeça.
— Então é isso.
Pegou a bolsa.
— Aonde você vai? — perguntou Anselmo.
— Fazer o que vocês deveriam ter feito.
O homem que antes se aproximara dela bloqueou a porta.
— Você não vai sair.
A sala inteira mudou.
Até aquele instante, ainda existia a ilusão de que estavam conversando.
Ela acabou.
Helena olhou para o homem diante da porta.
— Saia.
— Escute primeiro.
— Saia da minha frente.
— Se você for à polícia, não vai destruir apenas quem fez isso.
— Então me diga quem fez.
Ele permaneceu imóvel.
— Foi você?
— Não.
— Então por que está com tanto medo?
Celina tocou o ombro de Helena.
— Por favor.
Helena virou-se.
Havia lágrimas nos olhos de Celina.
— Não faça isso comigo.
— Eu?
Helena falou baixo.
— Não fui eu quem fez isso com você.
Por alguns segundos, nenhuma das duas conseguiu continuar.
Foi Anselmo quem rompeu o silêncio.
— Vamos pensar até amanhã.
Helena olhou para ele.
— Amanhã?
— Uma noite. Só isso. Ninguém faz nada até amanhã.
— E o que está naquele quarto?
Anselmo não respondeu.
— Também espera até amanhã?
Ele fechou os olhos.
Helena respirou fundo.
Talvez naquele momento tenha entendido que estava sozinha.
Sete pessoas.
Sete versões possíveis.
Sete silêncios dispostos a se proteger.
Ela colocou a mão sobre a câmera pendurada no pescoço.
— Muito bem.
Todos olharam para ela.
— Uma noite.
O homem diante da porta se afastou.
Helena abriu a porta da casa.
Antes de sair, parou.
— Mas quero uma fotografia.
A mulher perto da cozinha franziu a testa.
— Fotografia?
— Dos sete.
— Para quê?
— Para me lembrar de quem estava aqui.
Ninguém gostou da resposta.
— Isso é ridículo — disse um dos homens.
— Então não apareça.
Ele hesitou.
Helena abriu a bolsa, retirou um pequeno tripé e colocou a câmera sobre ele.
— Fiquem juntos.
— Helena...
— Ou eu saio agora.
Funcionou.
Os sete se posicionaram.
Sem abraços.
Sem sorrisos.
Celina ficou numa das extremidades.
Anselmo, o terceiro da esquerda.
Helena ajustou o enquadramento.
Olhou através da câmera.
Sete rostos.
Naquele instante, nenhum estava riscado.
Ainda.
— Um pouco para a direita — pediu.
Eles obedeceram.
Helena programou o temporizador.
Mas não correu para entrar na fotografia.
Permaneceu atrás da câmera.
O disparo aconteceu.
Um clarão.
Uma imagem.
Uma prova de que os sete haviam estado juntos naquela casa.
— Pronto — disse.
Recolheu a câmera.
— Você não vai aparecer? — perguntou Celina.
— Não.
— Por quê?
Helena colocou a câmera na bolsa.
— Alguém precisa se lembrar de quem estava do outro lado.
Saiu.
Anselmo foi atrás dela.
Alcançou-a no portão.
— Helena.
Ela continuou andando.
— Espere.
— Você tem até amanhã, Anselmo.
— Eu preciso falar com você.
Ela parou.
A chuva havia aumentado.
— Então fale.
Anselmo olhou para a casa.
— Não confie em todos que estão naquela sala.
Helena quase sorriu.
— Esse conselho chegou algumas horas atrasado.
— Estou falando sério.
— Eu também.
— Há coisas que você não sabe.
— Então conte.
Ele hesitou.
Helena esperou.
— É o que imaginei.
Voltou a andar.
— Helena.
Ela parou novamente.
Anselmo aproximou-se.
— Se alguma coisa acontecer...
— Alguma coisa como o quê?
Ele retirou um papel do bolso.
Escreveu um endereço.
Entregou a ela.
— Vá para cá.
Helena leu.
— O que é isso?
— Um lugar onde ninguém vai procurar você.
— Por que alguém me procuraria?
Anselmo não respondeu.
Dessa vez, Helena sentiu medo.
Guardou o papel.
— Você sabe quem fez aquilo?
— Não posso responder.
— Pode. Não quer.
— Se eu estiver errado, destruo uma pessoa inocente.
— E se estiver certo?
Anselmo olhou para a casa.
— Destruo mais de uma.
Helena permaneceu alguns segundos diante dele.
Depois se aproximou.
— Escute bem. Se amanhã eu não voltar, não deixe Gabriel acreditar em qualquer história que contarem.
Anselmo sentiu o estômago apertar.
— Por que está dizendo isso?
— Prometa.
— Helena...
— Prometa.
— Eu prometo.
Ela o encarou.
— E se eu pedir que fique calado, você fica.
— Isso não faz sentido.
— Ainda não.
— Por quanto tempo?
Helena pensou.
— Até Celina entender que silêncio também pode ser culpa.
Afastou-se.
Anselmo ficou sob a chuva observando-a desaparecer na esquina.
Foi a última vez que a viu.
Na manhã seguinte, Helena não voltou.
Ao meio-dia, alguém disse que ela havia fugido.
À tarde, a história já era outra.
Dois dias depois, começaram a dizer que estava morta.
Nunca apareceu corpo.
Nunca houve velório.
Nunca existiu túmulo.
Ainda assim, com o passar dos anos, a mentira adquiriu a solidez de uma lápide.
Gabriel acreditou.
A família acreditou.
Talvez alguns dos sete também tenham escolhido acreditar.
Três dias depois do desaparecimento, o telefone de Anselmo tocou.
Uma voz feminina falou:
— Diga ao meu irmão que eu comi o meu pão.
E desligou.
Anselmo cumpriu apenas metade da promessa.
Ficou calado.
Durante vinte e oito anos.
No presente, Gabriel permanecia diante da mesa, com o bilhete de Helena entre os dedos.
Ainda não posso voltar.
— Você prometeu a ela que não me contaria?
— Perguntou.
— Prometi.
— E achou que isso justificava vinte e oito anos?
— Não.
A resposta surpreendeu Gabriel.
— Então por quê?
Anselmo demorou.
— Porque depois da ligação chegou outra coisa.
— O quê?
Antes que pudesse responder, ouviu-se uma batida na porta.
Uma vez.
Depois outra.
Os dois se olharam.
Anselmo caminhou até a entrada.
Abriu.
Não havia ninguém.
A rua parecia normal.
Olhou para os dois lados.
Nada.
Então baixou os olhos.
No chão havia um envelope.
Pegou-o.
Voltou para dentro e fechou a porta.
— O que é isso? — perguntou Gabriel.
Anselmo não respondeu.
Colocou o envelope sobre a mesa.
No canto superior havia um número escrito à mão.
2.
Gabriel empalideceu.
Era o mesmo envelope que estivera minutos antes sobre o banco do passageiro do carro estacionado do outro lado da rua.
Anselmo virou-o.
No verso havia uma frase:
Vocês deveriam ter deixado Helena morrer.
Dessa vez, os dois compreenderam a mesma coisa.
As cartas de Celina pertenciam ao passado.
Aquele envelope, não.
Alguém ainda estava escrevendo.
CAPÍTULO 5 — OS SETE ROSTOS
O envelope permaneceu sobre a mesa.
Nenhum dos dois teve pressa em tocá-lo novamente.
A frase escrita no verso parecia ter alterado o ar da sala.
Vocês deveriam ter deixado Helena morrer.
Gabriel a releu em silêncio.
Uma vez.
Depois outra.
Não havia ambiguidade. Não era lembrança, confissão ou mensagem deixada por Celina antes de morrer.
Era ameaça.
E fora entregue minutos antes.
— Quem sabia que eu estava aqui? — perguntou.
Anselmo continuava olhando para o envelope.
— Ninguém.
— Alguém sabia.
— Eu não contei a ninguém.
— Eu também não.
Gabriel caminhou até a janela e afastou discretamente a cortina.
A rua parecia tranquila.
Um homem empurrava uma bicicleta. Duas mulheres conversavam junto ao portão de uma casa. Mais adiante, um ônibus parou, recebeu passageiros e seguiu.
O carro que estivera estacionado do outro lado já não estava lá.
— Você viu alguma coisa quando abriu a porta?
— Não.
— Pessoa? Carro? Moto?
— Nada.
Gabriel voltou-se.
— Então alguém chegou até aqui, deixou isso na sua porta e desapareceu em segundos.
— Parece que sim.
— Não. Não parece. Foi exatamente o que aconteceu.
Anselmo pegou o envelope pelas extremidades.
— Não abra.
Ele parou.
— Por quê?
— Porque é isso que essa pessoa quer.
— E desde quando obedecer a quem ameaça minha irmã é uma opção?
— Desde que não sabemos com quem estamos lidando.
Gabriel aproximou-se.
— Você sabe mais do que está dizendo.
Anselmo soltou o envelope.
— Já começamos essa conversa.
— E ainda não terminamos.
— Não.
— Então termine.
Anselmo caminhou até a caixa metálica.
Retirou a fotografia.
Sete pessoas.
Vinte e oito anos.
Sete rostos que alguém, em algum momento, fizera questão de riscar.
Colocou-a sobre a mesa.
— Você perguntou quem são.
— Perguntei.
— Está na hora de saber.
Gabriel puxou uma cadeira.
Anselmo apontou para a mulher na extremidade esquerda.
— Celina.
Mesmo com o rosto riscado, era possível reconhecer alguns traços.
— O segundo?
Anselmo respirou fundo.
— Augusto Ferraz.
— Quem é?
— Na época, trabalhava num cartório. Era o mais velho de nós.
— Está vivo?
— Até onde sei.
— Onde?
— Não faço ideia.
Gabriel olhou para ele.
— Vamos descobrir.
Anselmo apontou para o terceiro.
— Eu.
O risco sobre seu rosto era o mais profundo.
Gabriel percebeu.
— Quem riscou a fotografia?
— Não sei.
— A sua marca quase atravessou o papel.
— Eu sei.
— Isso não incomoda você?
— Há vinte e oito anos.
O quarto rosto pertencia a uma mulher.
— Marta Nogueira.
— A mulher que fumava?
Anselmo ergueu os olhos.
— Como sabe?
Gabriel retirou a carta de Celina.
— Ela descreveu algumas coisas.
Anselmo estendeu a mão.
— Posso ver?
Gabriel não entregou.
— Depois.
Era uma pequena mudança entre os dois.
Até então, Anselmo controlava as informações.
Agora Gabriel também possuía algo que o outro queria conhecer.
Anselmo aceitou.
Apontou para o quinto rosto.
— Renato Vale.
— Foi ele quem impediu Helena de sair?
Dessa vez, Anselmo demorou.
— Foi.
Gabriel fixou os olhos na fotografia.
— Está vivo?
— Sim.
— Tem certeza?
— Tenho.
— Como?
— Porque o vi há seis meses.
— Onde?
— No enterro de um conhecido.
— Vocês conversaram?
— Não.
— Ele viu você?
— Viu.
— E?
— Foi embora.
Gabriel guardou o nome.
Renato Vale.
O sexto rosto era de um homem muito jovem.
Parecia deslocado entre os demais.
— Samuel.
— Sobrenome?
Anselmo hesitou.
— Eu nunca soube.
— Conviveu com ele e nunca soube o sobrenome?
— Samuel não fazia parte do nosso círculo. Apareceu pouco antes daquela noite.
— Levado por quem?
Anselmo apontou para o sétimo rosto.
Gabriel acompanhou o dedo.
Uma mulher.
O rosto fora riscado de maneira diferente.
Não havia violência nos traços.
Alguém desenhara várias linhas delicadas sobre os olhos e a boca, quase como se quisesse apagá-la sem danificar a fotografia.
— Quem é?
Anselmo não respondeu.
— Anselmo.
— Laura.
— Laura o quê?
— Laura Ferraz.
Gabriel voltou ao primeiro homem.
— Parente de Augusto?
— Filha.
A fotografia ganhou outra dimensão.
Pai e filha.
— Quantos anos ela tinha?
— Dezenove.
— E por que estava naquela casa?
Anselmo desviou o olhar.
— Essa pergunta é mais importante do que parece.
— Então responda.
— Laura era a pessoa que Celina queria proteger.
Gabriel ficou em silêncio.
Finalmente uma das peças se encaixava.
Há uma pessoa que precisa ser protegida.
Celina dissera aquilo vinte e oito anos antes.
— Proteger de quê?
— Nunca soube tudo.
— Você estava lá.
— Estar presente não significa compreender.
— Mas significa ver.
Anselmo concordou.
— E o que você viu?
— Uma jovem apavorada. O pai tentando tirá-la dali. Celina pedindo que ninguém chamasse a polícia. Renato dizendo que, se alguém falasse, todos seriam responsabilizados.
— Responsabilizados pelo quê?
Anselmo olhou para o corredor imaginário daquela casa, como se ainda enxergasse o último quarto.
— Pelo que havia acontecido antes de Helena chegar.
Gabriel bateu com a ponta dos dedos sobre a fotografia.
— Você continua evitando dizer o que havia naquele quarto.
— Porque eu não vi o começo.
— Mas viu o final.
Anselmo não respondeu.
Gabriel aproximou a fotografia da janela.
A luz revelou detalhes que antes passavam despercebidos.
As roupas.
A posição das mãos.
A distância entre algumas pessoas.
O olhar de Celina.
Mesmo atravessado por riscos, algo permanecia.
Então percebeu.
— Espere.
Levou a fotografia para mais perto.
— O quê?
— Aqui.
Apontou para o lado direito da imagem.
Atrás de Laura havia uma superfície refletora.
Talvez uma janela.
Talvez um espelho.
No reflexo, quase apagada pela baixa qualidade da fotografia, aparecia uma forma humana.
Anselmo pegou os óculos que estavam sobre a mesa.
Aproximou a imagem do rosto.
Seu corpo enrijeceu.
— Meu Deus.
— Quem é?
Anselmo não respondeu.
— Quem é?
— Não pode ser.
Gabriel tomou a fotografia.
— Quem?
Anselmo apontou para o reflexo.
— Helena.
Gabriel sentiu o coração acelerar.
— Claro que é Helena. Você disse que ela estava atrás da câmera.
— Não.
Anselmo aproximou novamente a fotografia.
— Olhe a posição.
Gabriel observou.
A câmera fora colocada diante dos sete.
Se Helena estivesse operando-a, deveria estar à frente deles.
O reflexo, porém, mostrava alguém ao fundo.
No corredor.
Próximo ao quarto.
— Então quem tirou a fotografia? — perguntou Gabriel.
Anselmo empalideceu.
Durante vinte e oito anos, tivera certeza de uma lembrança.
Helena colocara a câmera.
Helena organizara os sete.
Helena dissera que alguém precisava lembrar quem estava do outro lado.
Mas o disparo ocorrera alguns segundos depois.
Um temporizador.
Ela poderia ter se afastado.
Poderia ter caminhado até o corredor.
Poderia ser realmente a figura refletida.
— Foi o temporizador — disse Anselmo.
— Então é ela.
— Provavelmente.
Gabriel continuou examinando a imagem.
Foi então que percebeu outro detalhe.
— Ela está segurando alguma coisa.
Anselmo aproximou-se.
Na mão da figura refletida havia um pequeno retângulo claro.
Papel.
Talvez uma fotografia.
Talvez um documento.
— Você lembra disso?
— Não.
Gabriel virou a fotografia.
No verso:
Foi aqui que tudo começou.
Passou o dedo sobre a frase.
— A letra é de quem?
— Não sei.
— De Helena?
— Não parece.
— De Celina?
Anselmo observou.
— Também não.
Gabriel pegou o envelope recém-entregue.
Colocou-o ao lado da fotografia.
Comparou a escrita.
Primeiro a frase do verso da foto.
Depois a ameaça.
Foi aqui que tudo começou.
Vocês deveriam ter deixado Helena morrer.
As letras não eram idênticas.
Mas havia algo.
A maneira de formar o “d”.
O corte do “t”.
A inclinação das palavras.
Gabriel olhou para Anselmo.
— Foi a mesma pessoa.
— Não podemos afirmar isso.
— Mas você também viu.
Anselmo não negou.
Gabriel virou o envelope.
O número 2 permanecia no canto.
— Se este é o segundo, onde está o primeiro?
A pergunta ficou entre eles.
Anselmo olhou para a caixa metálica.
Seu rosto mudou.
— O quê?
Ele não respondeu.
Começou a retirar documentos.
Um após outro.
Recortes.
Chaves.
Papéis dobrados.
— O que está procurando?
Anselmo esvaziou a caixa.
No fundo havia um pedaço de tecido escuro.
Retirou-o.
Nada.
— Anselmo.
— Não está aqui.
— O quê?
Ele se levantou.
Foi até uma gaveta.
Abriu.
Depois outra.
— O que não está aqui?
Anselmo parou.
— A mensagem que recebi depois da ligação de Helena.
Gabriel sentiu um frio no peito.
— Você disse que recebeu outra coisa. Era uma carta?
— Um envelope.
— Marcado?
Anselmo fechou os olhos.
— Sim.
— Com qual número?
Ele não precisava responder.
Gabriel já sabia.
— Um.
Anselmo assentiu.
— O que dizia?
— Só uma frase.
— Qual?
Anselmo olhou para o envelope número 2.
— “Se ela procurar o irmão, vocês dois morrem.”
Gabriel permaneceu imóvel.
A promessa de silêncio acabava de adquirir outro significado.
— Você não ficou calado apenas porque Helena pediu.
— Não.
— Ficou com medo.
— Sim.
— E nunca me contou.
— Eu estava tentando manter você vivo.
Gabriel riu, mas os olhos estavam úmidos.
— Vinte e oito anos sem minha irmã.
Anselmo abaixou a cabeça.
— Eu sei.
— Não. Você não sabe.
Gabriel recolheu a fotografia e caminhou até a porta.
— Aonde vai?
— Encontrar os outros.
— Isso é exatamente o que essa pessoa não quer.
Gabriel parou.
— Não. É exatamente o contrário.
Mostrou o envelope.
— Ela quer que a gente tenha medo suficiente para parar.
— E se não for medo?
— O que mais seria?
Anselmo olhou para os sete rostos riscados.
— Aviso.
Gabriel abriu a porta.
Antes de sair, voltou-se.
— Comece por Augusto Ferraz.
— Por quê?
— Porque ele aparece na fotografia com a filha que todos estavam tentando proteger. Porque Helena desapareceu depois daquela noite. E porque alguém voltou a ameaçar quem procura por ela.
Fez uma pausa.
— Quero saber onde estão os sete.
Saiu.
Anselmo permaneceu sozinho.
Olhou para a mesa.
Dois pães.
A fotografia.
O envelope número 2.
Sete rostos.
O passado estava deixando de ser memória.
Estava voltando a agir.
Anselmo pegou o telefone.
Procurou um número que não utilizava havia anos.
Hesitou.
Ligou.
Chamou uma vez.
Duas.
Três.
Alguém atendeu.
Anselmo não disse bom-dia.
— As cartas começaram.
Silêncio do outro lado.
Depois, uma voz envelhecida perguntou:
— Quantas?
Anselmo olhou para o envelope.
— Duas.
A respiração do outro lado mudou.
— Então encontre Celina.
Anselmo fechou os olhos.
— Celina morreu.
Houve uma pausa longa.
Longa demais.
Então a voz respondeu:
— Não estou falando dessa Celina.
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