A Mala que Carregava o Céu — Parte 6 (51–60)
- Abioye Ras Barros
- há 2 dias
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Capítulo 51 — A Estrada Sem Fim
Três dias após a profissão de seus votos, Mateus recebeu sua primeira obediência oficial como frade professo. Para surpresa de muitos, mas não de Frei
Gregório, o destino de sua missão não seria uma grande paróquia ou o retorno aos estudos acadêmicos em São Paulo. — A província decidiu — explicou Frei Bento na sala capitular — que você será um missionário itinerante para todo o Vale do Paraíba. Você não terá residência fixa, Mateus. Ficará sediado formalmente em Guaratinguetá, mas seu dever será percorrer as capelas, os pequenos povoados e as fazendas isoladas da serra, levando os sacramentos e o auxílio espiritual onde a estrutura da Igreja não consegue chegar com frequência. Era exatamente o que Mateus mais desejara. A estrada, com toda a sua poeira e incertezas, seria o seu claustro.
Na manhã de sua partida de Taubaté, o sol mal havia despontado quando Mateus cruzou o portão de pedra do convento. Ele vestia agora o hábito cinza definitivo, cingido pelo cordão branco com os três nós que representavam seus votos.
Na mão direita, ele segurava a velha mala de couro de Frei Galvão. À saída do convento, ele encontrou Frei André e Frei Gregório esperando por ele para a despedida. — Leve isto com você, Mateus — disse André, entregando-lhe um pequeno embrulho de papel que continha algumas provisões de comida e um par de sandálias novas de couro grosso. — As estradas da serra são duras para os pés descalços. — Obrigado, meu irmão — agradeceu a Mateus, guardando o embrulho na mala. Frei Gregório aproximou-se por último. Ele olhou para o jovem frade com um carinho quase paternal. — Vá com Deus, Frei Mateus — disse o professor. — E lembre-se: sempre que escrever uma daquelas preces no papel de arroz, escreva também o meu
nome nela. Eu ainda preciso aprender muito sobre a teologia que você carrega nessa sua mala.
Mateus abraçou os dois companheiros e, sem olhar para trás, iniciou sua descida em direção à estrada de terra que se perdia no horizonte de montanhas azuis.
A poeira começou a subir ao redor de suas sandálias novas. O vento da manhã trazia o cheiro de mato úmido e flores de laranjeira. Dentro da mala, a caixa de madeira escura guardava o diário de Frei Galvão e as tiras de papel de arroz que ainda seriam escritas para aliviar as dores de tantos corações anônimos ao longo dos anos.
Mateus não sabia onde passaria a próxima noite, nem quais desafios o aguardavam na próxima curva do caminho. Mas ele caminhava com o passo firme de quem sabe que o verdadeiro mestre nunca morre enquanto houver um discípulo disposto a manter viva a chama de seu amor na poeira da estrada.
Capítulo 52 — Os Passos no Sertão
Cinco anos se passaram desde que Frei Mateus assumira a vida de missionário itinerante pelo Vale do Paraíba. Seus pés, antes acostumados ao chão polido dos claustros, agora exibiam calos grossos e cicatrizes deixadas pelos espinhos das trilhas da Serra da Mantiqueira. O hábito cinza, embora limpo, trazia remendos costurados com linhas de diferentes cores, e a própria cor do tecido desbotara sob o sol forte e as chuvas torrenciais das viagens.
Ele se tornara uma figura familiar e lendária nas paragens mais isoladas. Quando o topo de seu chapéu de palha despontava na curva de uma estrada de terra, as crianças corriam para as cercas gritando: “Lá vem o frade de Deus! Lá vem o Frei Mateus!”.
Naquela tarde de primavera, ele caminhava em direção a um vilarejo conhecido como Córrego
Fundo, um aglomerado de poucas casas de taipa encravado em um vale profundo onde o café começava a ser plantado de forma tímida. Mateus sentia o peso dos anos de caminhada nas costas, mas o ritmo de seus passos não diminuía. Ele trazia a mala de couro presa por uma correia transversal sobre o peito, deixando suas mãos livres para apoiar-se em um cajado de madeira rústica.
Ao entrar na venda do vilarejo — que servia também como posto de correio e ponto de encontro dos moradores —, Mateus deparou-se com um pequeno ajuntamento de homens silenciosos. A atmosfera do lugar era pesada, desprovida do habitual algazarra dos finais de tarde. — Louvado seja Nosso Senhor Jesus Cristo — saudou o frade, retirando o chapéu. — Para sempre seja louvado — responderam os presentes em coro, com vozes desanimadas.
O dono da venda, um homem de meia-idade com o cenho franzido de preocupação, adiantou-se para receber o religioso. — Frei Mateus... graças a Deus o senhor apareceu por estas bandas. Estávamos justamente falando sobre o senhor. — O que houve, meu irmão? — perguntou Mateus, pousando a mala sobre o balcão de madeira áspera. — Há alguma dor afligindo o povo de Córrego Fundo? — É a moça do Major Custódio — explicou o vendeiro, baixando a voz como se temesse que as paredes pudessem ouvir. — Mariana, a filha mais nova dele. Está em trabalho de parto desde ontem de madrugada. A parteira da vila já fez de tudo, rezou, usou garrafadas de ervas, mas a criança não quer vir ao mundo. O médico veio lá da cidade,
mas disse que não há mais o que fazer a não ser esperar o pior. O Major está desesperado. O senhor sabe como ele é... um homem duro, que não dobra os joelhos para ninguém. Mas agora ele chora como criança no portal da fazenda. Mateus olhou para a mala de couro. A madeira escura em seu interior parecia pulsar com a mesma urgência de sempre. O rito não precisava de ensaios. — Leve-me até a fazenda — disse o frade, pegando seu cajado.
Capítulo 53 — A Casa de Pedra
A fazenda do Major Custódio era uma imponente construção de pedra e cal, cercada por vastas plantações de café que cobriam as encostas dos morros. Ao se aproximar do casarão, Mateus pôde ouvir o silêncio tenso que pairava sobre a propriedade. Até mesmo os cães da fazenda pareciam quietos, deitados sob as carroças.
No alpendre, o Major Custódio caminhava de um lado para o outro, com as mãos cruzadas nas costas e o rosto marcado pela angústia. Ele era conhecido em toda a região por sua autoridade rígida e por seu ceticismo em relação às coisas da fé; para ele, o mundo era regido pela força do trabalho e pelo valor das moedas de ouro.
Ao ver o frade aproximar-se acompanhado pelo vendeiro, o fazendeiro parou. Ele olhou para
Mateus, para a mala gasta e para as sandálias cobertas de poeira. — O que o senhor quer aqui, frade? — perguntou o
Major, com a voz rouca, tentando manter a pose de senhor absoluto. — Se veio para encomendar a alma da minha filha, pode dar meia-volta. Eu não aceito que ela morra. — Eu não vim para a morte, Major — respondeu
Mateus com serenidade, dando um passo à frente e sustentando o olhar do homem. — Vim para a vida.
Frei Galvão me ensinou que o limite dos homens é apenas o começo do espaço de Deus. Se o senhor me permitir entrar, entrarei apenas como um servo da esperança que sua filha precisa agora. O fazendeiro hesitou. Seus olhos vagaram pela figura simples do franciscano. Diante da impotência de sua riqueza para salvar a vida da filha, o orgulho do Major começou a ceder, revelando a fragilidade de um pai apavorado. — Entre — sussurrou o Major, desviando o olhar. — Mas faça depressa. O tempo dela está se esgotando.
Mateus subiu as escadas de madeira que levavam ao andar superior da casa. O quarto de Mariana estava quente e abafado, impregnado com o cheiro de vinagre e ervas queimadas. Na cama de ferro, a jovem de dezoito anos parecia quase sem vida; seus cabelos estavam colados à testa pelo suor, e seus lábios estavam secos e rachados. A parteira, sentada em um canto, chorava baixinho com as mãos no rosto. Mateus ajoelhou-se ao lado da cama. Ele colocou a mala de couro no chão, abriu-a e retirou a caixa de madeira escura. Seus movimentos eram precisos, envoltos em uma atmosfera de profunda oração silenciosa. Ele retirou a folha de papel de arroz. Com o lápis de grafite, escreveu as palavras que se haviam
tornado o seu próprio batimento cardíaco: “Post partum, Virgo, inviolata permansisti; Dei Genitrix, intercede pro nobis.”
Enrolou o papel com delicadeza, transformando-o na pequena pílula. Com a ajuda de uma colher de água que a parteira lhe entregou com mãos trêmulas, Mateus colocou o pequeno rolo entre os lábios de Mariana, ajudando-a a engolir. — Mariana — sussurrou o frade, tocando a testa fria da moça com a ponta dos dedos. — A senhora que deu à luz o Salvador está com você nesta hora. Não tenha medo. Deixe a força da vida agir.
Ele permaneceu ali, de joelhos, segurando a mão da jovem e iniciando o terço em voz baixa.
Capítulo 54 — O Primeiro Choro
A noite caiu sobre a fazenda, trazendo o frescor da brisa da montanha. No quarto de Mariana, o único som era o sussurro constante das ave-marias rezadas por Mateus e pela parteira. O Major
Custódio permanecia no corredor, encostado à parede de madeira, ouvindo a oração com a cabeça baixa.
Por volta da meia-noite, um espasmo forte sacudiu o corpo de Mariana. Seus olhos se abriram, e um suspiro profundo escapou de seu peito. A parteira adiantou-se rapidamente, assumindo seu posto com uma nova energia que parecia ter surgido do nada. — Está vindo! — exclamou a mulher, com os olhos brilhando. — A força voltou, frei! Ajude-me aqui! Mateus levantou-se, recuou alguns passos e virouse para a janela aberta, continuando suas preces com os olhos fixos nas estrelas que brilhavam no céu da serra. Ele não precisava ver o processo físico; ele sabia que a engrenagem do milagre já estava em movimento.
Poucos minutos depois, um som agudo e forte rasgou o silêncio do casarão. Era o choro forte e vigoroso de um recém-nascido.
O Major Custódio empurrou a porta do quarto, com o rosto banhado em lágrimas. Ele viu a filha, exausta, mas sorridente, recebendo nos braços um menino saudável e de pele rosada. O fazendeiro caiu de joelhos ao pé da cama, soluçando sem conter a emoção que guardara por tantas horas.
Mateus aproximou-se do Major, colocou a mão sobre sua cabeça e proferiu uma bênção simples.
Em seguida, recolheu sua mala de couro do chão, fechou as fivelas e caminhou silenciosamente em direção à porta. — Espere, frei! — chamou o Major, levantando-se e tentando alcançar o religioso no corredor. — Eu... eu tenho ouro. Posso pagar o que o senhor quiser.
Posso construir uma capela nova para a sua ordem, posso dar terras...
Mateus virou-se e olhou para o homem com um sorriso manso. — O ouro não compra a vida, Major, assim como a nossa fé não está à venda. Se o senhor quer agradecer, use suas terras para dar trabalho justo aos que precisam e use sua força para proteger os fracos desta serra. Esse é o único pagamento que o Deus da vida aceita. Ele desceu as escadas e ganhou a noite estrelada. A estrada à sua frente estava escura, mas a luz que ele carregava no peito era o suficiente para iluminar cada centímetro do caminho. A fama das pílulas de
Frei Galvão, agora distribuídas pelas mãos de Frei
Mateus, continuava a se espalhar como um rastro de luz por todo o país, provando que a morte de um santo é apenas o início de sua verdadeira jornada na terra.
Capítulo 55 — A Sombra das Montanhas
Os anos seguintes trouxeram ventos de mudança para o Vale do Paraíba, mas, para quem viajava a pé pelas trilhas de terra batida, o tempo parecia correr em um compasso diferente. O mundo das vilas enriquecidas pelo café debatia política, o avanço das ferrovias e as novas leis do Império, mas ali, no recuo das matas e nas encostas da serra, a realidade ainda era feita de febres sazonais, partos difíceis e a busca diária pelo pão.
Mateus não era mais o jovem noviço de passos ligeiros. Seus cabelos, outrora escuros, agora exibiam fios prateados que combinavam com o cinza de seu hábito remendado. Suas mãos, calejadas pelo uso do cajado e pelo manuseio das rédeas das mulas, traziam a firmeza de quem já havia amparado centenas de doentes.
Ele compreendera, com o tempo, que o verdadeiro mistério daquela jornada não pertencia aos registros oficiais ou aos nomes que a história eclesiástica tentava preservar. A força do que ele carregava não estava ligada a títulos, linhagens ou à biografia de homens específicos, mas sim à universalidade de um gesto simples: o de inclinar-se sobre a dor de um semelhante.
Naquela tarde de inverno, Mateus parou sob a copa de um ipê-amarelo para observar a paisagem lá embaixo. O vale estava coberto por uma névoa azulada, e o silêncio da tarde era quebrado apenas pelo canto dos canários-da-terra. — O senhor parece cansado, frei — comentou uma voz jovem ao seu lado.
Mateus virou-se e sorriu para o rapaz que o acompanhava há alguns meses. Era Lucas, um jovem de dezoito anos, órfão de pai e mãe, que
Mateus encontrara quase sem vida em uma estrada perto de Cunha após uma forte tempestade. Lucas não pertencia a nenhuma ordem religiosa e não usava hábito; vestia apenas roupas simples de algodão cru e trazia nos olhos a curiosidade típica de quem tenta decifrar os segredos do mundo. — O cansaço é apenas o aviso do corpo de que a jornada foi bem aproveitada, Lucas — respondeu Mateus, apoiando-se no cajado. — Mas veja aquela estrada lá embaixo. Ela não pergunta quem nós somos ou de onde viemos. Ela apenas nos pede para caminhar.
Lucas olhou para a velha mala de couro que carregava nas costas. Desde que começara a acompanhar o frade, sua tarefa principal era zelar por aquela bagagem envelhecida. Ele sabia que dentro dela havia papéis, folhas secas de ervas e um pequeno diário cujas páginas já estavam amareladas pelo tempo. — O senhor acha que um dia nós vamos parar? — perguntou o rapaz, ajustando as alças da mala. —
As pessoas nas vilas dizem que o senhor deveria se estabelecer em uma paróquia, ter uma igreja bonita e uma cama quente para dormir.
Mateus deu uma risada baixa, um som quente que pareceu espantar o frio da tarde. — Se eu me trancar entre quatro paredes de pedra,
Lucas, quem ouvirá o choro da mãe que está sozinha no alto do morro? O nosso altar é a terra batida; a nossa paróquia é onde houver alguém com o coração apertado pela angústia. O dia em que eu parar, a estrada continuará por meio de outros pés. Talvez dos seus.
O rapaz baixou os olhos, tocando o couro da mala com respeito. Ele ainda não compreendia inteiramente a profundidade daquela herança espiritual, mas sentia que carregar aquela bagagem era o trabalho mais importante de sua vida.
Capítulo 56 — A Transmissão do Ofício
Naquela noite, eles se abrigaram em uma antiga capela abandonada de beira de estrada. O teto de telhas de barro canal estava parcialmente desabado, permitindo que a luz das estrelas iluminasse o chão de terra. Lucas acendeu uma pequena fogueira em um canto, usando gravetos secos de eucalipto que perfumaram o ar úmido.
Mateus sentou-se sobre um tronco de madeira e abriu a mala de couro. Ele retirou a caixa de madeira escura e, sob o olhar atento do rapaz, extraiu a folha de papel de arroz que ainda restava e o lápis de grafite. — Aproxime-se, Lucas — chamou o frade.
O jovem sentou-se na terra, ao lado de Mateus, observando o reflexo das chamas da fogueira dançar nas feições cansadas do religioso. — Durante todo este tempo, você me viu escrever nestes papéis e entregá-los aos doentes — disse Mateus, segurando o grafite entre os dedos. —
Muitas pessoas acham que a cura está na tinta ou no próprio papel. Elas procuram um milagre extraordinário, algo que rompa as leis do mundo. Mas o verdadeiro milagre é a entrega. É o momento em que a pessoa percebe que sua dor foi ouvida por alguém que não tem interesse em nada além de seu alívio.
Ele entregou o lápis e a folha de papel de arroz para o rapaz. — Hoje é você quem vai escrever.
Lucas recuou a mão, assustado com a responsabilidade. — Eu não posso, frei. Eu não sou um homem de Deus como o senhor. Eu nem sequer sei latim direito. — A dor não fala latim, Lucas — respondeu Mateus, com uma doçura firme em sua voz. — Ela fala a língua do suspiro, do pranto e do silêncio. O que escrevemos aqui é apenas o pretexto físico para que a esperança da pessoa encontre um ponto onde se apoiar. Escreva com o seu coração focado na vida de quem vai receber. Com as mãos trêmulas, Lucas segurou o grafite.
Sob a orientação paciente de Mateus, ele começou a traçar as primeiras letras na tira de papel de arroz.
O traço era hesitante no início, mas aos poucos foi ganhando a firmeza que vinha da pura intenção de fazer o bem. “Post partum, Virgo...” — Muito bem — sussurrou Mateus, sorrindo ao ver o esforço do jovem. — Agora enrole o papel com cuidado. Não aperte demais para que ele não rasgue, mas mantenha-o firme o suficiente para que não se desfaça no caminho.
Lucas seguiu as instruções, transformando a tira de papel na pequena pílula que tantas vezes vira salvar vidas ao longo das estradas. Quando terminou, segurou-a na palma da mão, olhando para o pequeno cilindro branco com uma mistura de espanto e reverência. — Pronto — disse o rapaz, com os olhos brilhando. — O primeiro de muitos — afirmou Mateus, colocando a mão sobre a cabeça de Lucas em uma bênção silenciosa. — Agora guarde-o na caixa de madeira. A estrada nos trará o destinatário certo amanhã cedo.
Capítulo 57 — O Horizonte Aberto
O sol nasceu por trás das montanhas, dissipando a geada que cobria a pastagem ao redor da capela em ruínas. Mateus e Lucas arrumaram seus poucos pertences. A fogueira já estava apagada, reduzida a um punhado de cinzas frias que o vento da manhã começava a espalhar.
Lucas colocou a mala de couro nas costas com uma nova postura. Havia uma dignidade diferente em seus ombros, um brilho de maturidade que não estava lá no dia anterior. Ele já não se sentia apenas um ajudante ou um órfão resgatado do frio; sentiase parte de uma corrente invisível que atravessava o tempo. Eles caminharam até a beira da estrada. A trilha de terra vermelha se estendia diante deles, sumindo no horizonte onde as plantações de café se misturavam com o verde escuro das matas nativas. — Para onde vamos hoje, frei? — perguntou Lucas, olhando para as curvas do caminho.
Mateus parou por um instante e respirou fundo o ar puro da serra. Ele olhou para o rapaz ao seu lado e viu que a semente fora plantada em terra boa. O legado do cuidado e da compaixão não precisava de títulos oficiais, de biografias de bronze ou de autorizações dos poderosos da terra para continuar vivo. Ele precisava apenas de corações dispostos a se importar. — Vamos caminhar, meu filho — respondeu Mateus, apontando para a estrada com seu cajado. — Há sempre alguém nos esperando na próxima curva. E nós temos tudo o que precisamos bem aqui.
Os dois retomaram a caminhada sob a luz dourada da manhã. A poeira subia levemente ao redor de suas sandálias, mas o peso da bagagem parecia ter sumido por completo. Eles seguiam em frente, rumo ao amanhã, abandonando as marcas de seus passos como uma promessa de que o amor nunca deixa a estrada vazia.
Capítulo 58 — A Febre no Pouso
No final daquela mesma tarde, o destino para o qual a pequena pílula escrita por Lucas fora preparada revelou-se à beira do Rio Paraíba. No cruzamento de duas rotas de tropeiros, erguia-se um rancho de pousada coberto de sapé, onde dezenas de viajantes e cargueiros costumavam pernoitar antes de subir a serra em direção a Minas Gerais ou descer para o porto de Ubatuba.
O ambiente estava saturado pelo cheiro de fumo de corda, charque frito e o suor dos burros de carga.
Sob o telhado baixo, o burburinho de vozes ásperas cessou quando a figura do velho frade e do jovem ajudante cruzou o umbral. — Louvado seja Nosso Senhor Jesus Cristo — disse Mateus, com a voz gasta pelas léguas de poeira. — Para sempre seja louvado — respondeu o dono do pouso, um homem robusto que limpava o balcão com um pano encardido. — Sejam bem-vindos, frade. Se procuram abrigo, há um canto de palha no galpão dos fundos. Mas aviso logo: o ambiente hoje está triste. Temos um rapaz ali no canto que não passa desta noite. Mateus e Lucas entreolharam-se. No canto mais escuro do rancho, deitado sobre alguns sacos de estopa, um jovem tropeiro tremia violentamente de febre. Seus lábios estavam roxos e a respiração
vinha em arrancos curtos, como se o ar lhe faltasse nos pulmões. Ao seu lado, um companheiro de viagem tentava, em vão, fazê-lo engolir uma colher de cachaça com arruda. — Afaste-se, meu irmão — pediu Mateus, aproximando-se com passos calmos. Ele tocou a testa do rapaz enfermo; a pele parecia queimar sob o toque. — A febre do pântano o pegou na descida do rio. Lucas deu um passo à frente. Suas mãos procuraram as fivelas da mala de couro que carregava nas costas. Ele abriu a tampa de couro com dedos rápidos e retirou a pequena caixa de madeira escura. Olhou para Mateus, buscando um sinal de aprovação silenciosa.
O velho frade apenas assentiu com a cabeça, recuando um passo para dar espaço ao rapaz.
Lucas abriu a caixa e retirou a pequena pílula de papel de arroz que escrevera na noite anterior.
Ajoelhou-se na terra batida do pouso, elevando ligeiramente a cabeça do enfermo. — Beba isto, amigo — sussurrou Lucas, colocando a pílula sob a língua do tropeiro e oferecendo-lhe um gole de água limpa de sua própria cabaça. — Tenha fé. O caminho ainda não terminou para você.
Os homens do pouso aproximaram-se, observando a cena em um silêncio carregado de expectativa.
Naquele rancho de beira de estrada, onde a lei era frequentemente ditada pela força, a fragilidade daquele gesto de cuidado parecia suspender a aspereza da vida.
Capítulo 59 — O Despertar da Fé
Durante toda a noite, o rancho permaneceu em vigília. Mateus e Lucas não se deitaram na palha do galpão. Sentados no chão de terra ao lado do jovem tropeiro, eles alternavam-se no cuidado. Lucas molhava pequenos panos na água fresca do rio para aliviar a febre do rapaz, enquanto Mateus, em silêncio, dedilhava as contas de seu rosário de madeira.
Nas primeiras horas da madrugada, quando o frio da serra começou a penetrar pelas frestas de bambu do rancho, o milagre da restauração operou-se mais uma vez. A pele do enfermo cobriu-se de um suor frio e abundante, sinal de que a febre finalmente cedia. Sua respiração tornou-se regular e profunda, e ele adormeceu com o semblante em paz.
O companheiro de viagem do tropeiro, que assistira a tudo sem piscar, caiu de joelhos diante de Mateus. — Como posso pagar por isso, frei? — perguntou o homem, com os olhos rasgados de lágrimas. — Nós não temos ouro, apenas as mercadorias que carregamos nas mulas. Levem o que quiserem de nosso carregamento.
Mateus colocou a mão sobre o ombro do homem, ajudando-o a se levantar. — Nós não vendemos a misericórdia de Deus, meu irmão — respondeu o velho frade. — Mas, se querem fazer algo por nós, olhem para o rapaz que está ao meu lado.
Ele indicou Lucas, que guardava a caixa de madeira escura na mala de couro com um sorriso modesto no rosto. — Este jovem escreveu a prece que salvou o seu amigo. Ele é quem carrega agora a chave que abre a porta da esperança para os aflitos deste vale. Se um dia o encontrarem sozinho pelas estradas, deem-lhe um copo de água e um canto para descansar. Isso será o suficiente.
Os tropeiros olharam para Lucas com um respeito profundo, compreendendo que a linhagem daquele mistério não terminaria com o velho frade de hábito remendado. A semente já germinara e o fruto estava pronto para ser colhido nas curvas do caminho.
Capítulo 60 — A Herança do Caminho
Três dias depois, no alto de uma colina que dominava todo o vale, Mateus e Lucas pararam para descansar. O sol da tarde pintava as nuvens de tons dourados e avermelhados, criando uma moldura de luz sobre as águas distantes do Rio Paraíba.
Mateus sentou-se em uma pedra, sentindo que suas forças físicas estavam, pouco a pouco, cumprindo seu papel final. Ele olhou para Lucas, que observava o horizonte com a mala de couro firmemente ajustada às suas costas. — A mala agora é sua, Lucas — disse o velho frade, com a voz mansa e cheia de uma paz inabalável. O jovem virou-se, surpreso. — Mas, frei... eu ainda tenho tanto para aprender com o senhor. — Você já aprendeu o que importava, meu filho — respondeu Mateus, tocando o próprio peito. — O papel, a tinta e as palavras em latim são apenas instrumentos. O verdadeiro segredo é o amor que não teme a poeira, que não se esconde atrás de muros de pedra e que não pede licença para curar. Esse amor agora vive em você.
Mateus fechou os olhos por um momento, sentindo a brisa suave da tarde acariciar seu rosto cansado.
Ele sabia que sua própria jornada estava se aproximando do fim, mas não havia tristeza em seu coração. A grande corrente da compaixão, que começara décadas atrás com um velho frade de
Guaratinguetá, continuaria a fluir pelas estradas do vale por meio daquele jovem que ele resgatara da tempestade.
A herança não pertencia a uma instituição, a uma biografia escrita em livros ou a um nome gravado em pedra. Ela pertencia à própria estrada, viva e eterna, onde quer que houvesse uma mão estendida para amparar a dor do mundo. — Vamos caminhar, Lucas — sussurrou o velho frade, abrindo os olhos e sorrindo. — A noite está chegando, e ainda há muitas estradas nos esperando lá embaixo.
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