A Mala que Carregava o Céu — Parte 7 (61–70)
- Abioye Ras Barros
- há 2 dias
- 21 min de leitura
Capítulo 61 — O Crepúsculo do Peregrino
O inverno de 1828 chegou ao Vale do Paraíba com uma rigidez que há muito não se via. As manhãs amanheciam cobertas por uma camada espessa de geada que queimava as pastagens e as folhas tenras dos cafeeiros nas encostas. Nas partes mais altas da serra, o vento uivava entre as fendas das rochas como um lamento contínuo, e a névoa úmida que subia do rio recusava-se a ceder mesmo sob o sol pálido do meio-dia.
Para Frei Mateus, aquele frio não era apenas uma mudança de estação; era uma presença física que parecia ter se alojado definitivamente em suas articulações. Seus passos, que por décadas mediram a distância entre as vilas e os casebres mais distantes, tornaram-se arrastados, pesados como se a própria terra vermelha do vale estivesse cobrando o imposto por tantos anos de caminhada. O cajado de madeira rústica, que antes era apenas um apoio ocasional para transpor córregos, agora era um terceiro membro indispensável, sem o qual ele não conseguia manter o equilíbrio. Lucas percebia a mudança no ritmo de seu mestre.
Com o cuidado silencioso e atento que desenvolvera ao longo dos anos, o jovem diminuía o passo, fingindo interessar-se por uma planta na beira do caminho ou pela passagem de um bando de tucanos para que o velho frade pudesse parar e recuperar o fôlego sem se sentir um fardo.
Naquela tarde, eles caminhavam por uma trilha estreita que ligava as fazendas de Cunha à planície de Guaratinguetá. A subida era íngreme, ladeada por paredões de terra argilosa de onde brotavam pequenas nascentes de água congelante. — Vamos parar um pouco ali na frente, frei — sugeriu Lucas, apontando para uma pequena reentrância na rocha que oferecia alguma proteção contra o vento cortante. — O sol já está se pondo e a umidade vai subir depressa.
Mateus assentiu silenciosamente, usando o cajado para dar o último impulso até o abrigo natural. Ele sentou-se sobre uma pedra chata, apoiando as costas na parede fria de pedra. Sua respiração era um sopro ruidoso e curto, que saía de seus lábios em pequenas nuvens de vapor.
Lucas colocou a velha mala de couro no chão com extrema delicadeza. O couro, antes brilhante e flexível, agora estava repleto de rachaduras, costuras grosseiras feitas com fios de fibra de bananeira e manchas causadas pela chuva e pelo suor das costas do jovem. Era uma bagagem que trazia a marca indelével do tempo, tal qual o rosto do homem que a carregara por metade de sua vida. — Sente o frio nos ossos, Mateus? — perguntou
Lucas, retirando de sua própria sacola um pedaço de pano de lã para cobrir os ombros do idoso. — O frio é apenas a moldura do inverno, meu filho — respondeu Mateus, com a voz fraca, mas carregada daquela mansidão que o tempo não conseguira desgastar. — Ele nos lembra de que tudo na terra tem o seu tempo de recolhimento. As árvores perdem as folhas para que possam guardar a seiva para a primavera. O homem também precisa, em algum momento, recolher as suas forças para o que está por vir.
Ele olhou para as próprias mãos, que tremiam levemente sobre os joelhos. Suas unhas estavam gastas, e a pele de seus dedos era fina como o papel de arroz que ele tanto utilizara para escrever as preces de alento. — Sabe, Lucas... — continuou o frade, os olhos fixos na névoa que começava a engolir o vale lá embaixo. — Às vezes eu me pego pensando na primeira vez que entrei no convento de Guaratinguetá. Eu era apenas um menino assustado, que achava que o mundo terminava nos limites da cerca da fazenda de meu pai. Eu achava que a santidade era algo que se encontrava nas estátuas de gesso, nos altares cobertos de ouro e no latim perfeito dos livros de liturgia. Mas aí eu conheci o velho frei.
Um meio sorriso, carregado de uma profunda nostalgia, desenhou-se nas feições de Mateus. — Ele não me ensinou a teologia dos doutores, embora a conhecesse como ninguém. Ele me ensinou a olhar para o chão. Ensinou-me que o
Deus que criou as estrelas é o mesmo que se esconde na ferida que precisa ser limpa, no prato de sopa que precisa ser dividido e no pedacinho de papel que carrega uma esperança humilde. Eu passei a vida inteira tentando ser as mãos dele nas estradas deste vale. E agora... sinto que as minhas próprias mãos já cumpriram o seu desenho.
Lucas sentou-se na terra ao lado de Mateus, sentindo um aperto no peito que não vinha do frio da serra. Ele segurou a mão do frade, percebendo como ela estava fria, apesar do casaco de lã. — O senhor ainda tem muitas estradas para percorrer, frei — disse o rapaz, tentando afastar a sombra da despedida que parecia pairar sobre eles. — O povo de Redenção da Serra ainda pergunta pelo senhor. As mães de Lorena ainda contam a história da pílula que salvou o bebê Antônio. Eles precisam de sua presença. — Eles não precisam de mim, Lucas — respondeu
Mateus, olhando com doçura nos olhos do discípulo. — Eles precisam daquilo que nos foi confiado. A presença de um homem passa como a névoa da manhã que o sol dissipa. Mas o amor que se faz gesto de cuidado... esse é eterno. Esse não morre com a carne. Ele apenas muda de voz. E a sua voz, meu filho, já aprendeu a falar essa língua.
O silêncio voltou a reinar entre os dois enquanto a escuridão da noite caía definitivamente sobre a serra. Lucas aconchegou-se ao lado do mestre, mantendo a vigília sob o céu estrelado do inverno.
Ele sabia que cada palavra proferida por Mateus naquela noite era um testamento silencioso, uma preparação para a última curva do caminho que o velho peregrino estava prestes a dobrar.
Capítulo 62 — A Última Escrita
Na manhã seguinte, a febre que Mateus tentara esconder de Lucas durante dias finalmente cobrou seu preço. O velho frade não conseguiu se levantar da pedra que lhe servira de leito. Sua pele ardia, e um suor frio banhava seu rosto vincado pelas rugas do tempo. Sua respiração tornara-se ruidosa, um sopro cansado que lembrava a Mateus os últimos momentos de Frei Galvão na cela úmida de Guaratinguetá. — Lucas... — sussurrou o frade, abrindo os olhos com dificuldade. — Estou aqui, frei — respondeu o jovem de imediato, segurando a mão de Mateus e limpando sua testa com um pedaço de pano úmido. — O senhor precisa descansar. Vou descer até a fazenda mais próxima para buscar ajuda. — Não... não há tempo para isso, meu filho —
disse Mateus, segurando o braço de Lucas com uma força surpreendente para o seu estado de fraqueza. — O meu caminho está se completando aqui, sob este céu. Mas antes... eu preciso que você faça uma última coisa por mim.
Lucas sentiu as lágrimas escorrerem por suas faces, mas conteve os soluços para não perturbar a paz do mestre. — O que o senhor quer que eu faça? — Abra a mala — ordenou o velho. — Pegue o papel de arroz e o lápis de grafite. Lucas obedeceu prontamente. Seus dedos, embora ágeis, tremiam de emoção ao abrir a fivela da mala e retirar a caixa de madeira escura. Ele extraiu a última tira de papel que restava na caixa e segurou o grafite gasto que pertencera a Frei Galvão e que
Mateus guardara com tanto zelo ao longo de décadas. — Agora, sente-se aqui ao meu lado — pediu
Mateus, sua voz tornando-se cada vez mais fraca, quase um sussurro que se misturava ao som do vento nas folhagens. — Eu não consigo mais segurar o lápis. Mas a minha mente ainda está clara. Eu vou ditar as palavras, e você vai escrever. Mas não escreva apenas com a sua mão, Lucas.
Escreva com toda a compaixão que você acumulou ao longo dessas estradas.
Lucas apoiou o papel sobre a tampa da caixa de madeira escura, posicionando o grafite sobre a superfície delicada. — Pode ditar, frei — disse o rapaz, engolindo o nó em sua garganta. — “Post partum, Virgo, inviolata permansisti...” — ditou Mateus, os olhos fixos no céu azul que começava a surgir por trás das nuvens de inverno. Lucas escreveu. Cada letra desenhada na folha de papel de arroz parecia carregar o peso de todas as vidas que haviam sido tocadas por aquele mistério.
Ele via, nas curvas de sua própria caligrafia, as estradas de terra vermelha, os rostos dos camponeses febris, o choro dos recém-nascidos e o sorriso de alívio dos moribundos que haviam encontrado a paz por meio daquele pedaço de papel. — “...Dei Genitrix, intercede pro nobis.” — completou o frade, fechando os olhos com um suspiro de profunda entrega. Lucas terminou a escrita. Ele cortou a tira de papel com os dedos e, seguindo o rito que aprendera com o mestre nas noites de vigília, enrolou-a com extrema delicadeza, transformando-a na pequena pílula branca. — Pronto, Mateus — sussurrou o jovem, colocando a pílula na palma da mão do velho frade.
Mateus abriu os olhos e olhou para o pequeno objeto. Um sorriso de indizível paz iluminou seu rosto cansado. Ele não tomou a pílula para si; ele sabia que o seu corpo físico já cumprira seu papel.
Ele apenas fechou a mão sobre o pequeno rolo de papel, apertando-o contra o peito juntamente com o crucifixo de madeira que herdara de Frei Galvão. — Guarde o grafite, Lucas — disse Mateus, sua voz sumindo lentamente na brisa da manhã. — E guarde a mala. A estrada agora é sua. Nunca se esqueça de que o milagre não está na tinta ou no papel... está na disposição de se importar. Vá... e leve a paz para quem estiver na escuridão.
O velho frade deu um último suspiro profundo, o peito subindo e descendo com suavidade uma última vez antes de se aquietar por completo. Seu rosto manteve a expressão serena de quem havia concluído a jornada com a certeza do dever cumprido.
Lucas permaneceu de joelhos ao lado do corpo de seu mestre por longas horas. O vento do inverno continuava a soprar pela serra, mas o rapaz já não sentia frio. Havia uma força nova que começava a brotar em seu peito, um fogo que fora aceso pelo exemplo daquele homem de hábito cinza que agora descansava em paz sob o céu do vale.
Capítulo 63 — O Novo Guardião da Estrada
Dois dias depois, no cemitério rústico da pequena vila de Córrego Fundo, o corpo de Frei Mateus foi sepultado na terra vermelha que ele tanto percorrera em vida. Não houve pompas, discursos oficiais ou a presença de grandes autoridades da província franciscana. Apenas o povo simples do vale — os tropeiros, os camponeses, as parteiras e as mães com seus filhos nos braços — compareceu para prestar a última homenagem ao "frade das pílulas".
Lucas permaneceu à beira da sepultura até que a última pá de terra fosse depositada e as pessoas começassem a se dispersar em silêncio. Ele segurava a velha mala de couro nas mãos, sentindo o peso de tudo o que ela representava.
Quando o sol começou a descer no horizonte, alongando as sombras dos ipês sobre as sepulturas simples de madeira, Lucas virou-se em direção à saída do cemitério. Ele não estava mais sozinho. No portal, um menino de cerca de dez anos, órfão que vivia de esmolas na vila, o observava com curiosidade. O garoto olhava para a mala de couro e depois para o rosto sério do rapaz. — O senhor vai embora, moço? — perguntou o menino, com a voz tímida.
Lucas parou, olhou para o garoto e depois para a estrada de terra que se estendia diante deles, sumindo nas curvas das montanhas sob a luz dourada do final da tarde. Ele sentiu que a corrente invisível da compaixão estava se movendo mais uma vez, pedindo passagem. — Vou caminhar, meu filho — respondeu Lucas, com um sorriso manso que trazia o mesmo calor que ele aprendera com Mateus. — Há muitas pessoas precisando de uma palavra de esperança na próxima curva do caminho. Quer me acompanhar por um pedaço da estrada?
O menino sorriu, correu até Lucas e caminhou ao seu lado. Lucas ajustou as alças da mala de couro nas costas.
O couro envelhecido parecia mais leve agora, impregnado com a certeza de que a herança do cuidado continuaria viva nas estradas do vale. Eles seguiram em frente, seus passos desenhando uma nova trilha na poeira da terra batida, provando que, enquanto houvesse alguém disposto a estender a mão para o sofrimento do outro, o verdadeiro espírito de amor e cura nunca deixaria de caminhar sobre a terra.
Capítulo 64 — A Febre Invisível
A estrada que descia da Mantiqueira em direção às margens do Paraíba parecia, naquele fim de tarde, um imenso corredor de sombras. O vento de agosto trazia o cheiro de mato queimado e poeira fria.
Lucas caminhava com os passos firmes que herdara do convívio com Mateus, mas o peso da mala de couro em suas costas parecia ter dobrado. Não era o peso físico dos papéis de arroz ou da caixa de madeira escura; era o silêncio da ausência. Pela primeira vez em anos, ele não ouvia o arrastar compassado das sandálias do velho frade ao seu lado, nem o som de sua respiração cansada que, por tanto tempo, servira de metrônomo para suas jornadas.
Ao seu lado, o pequeno Gabriel — o menino órfão que aceitara o convite no portal do cemitério — tentava acompanhar o ritmo. Seus pés descalços, calejados pela crueza da vida nas ruas da vila, batiam na terra seca com uma pressa ansiosa. Ele olhava de soslaio para a mala nas costas de Lucas, como se tentasse adivinhar que tipo de tesouro guardava aquela caixa de couro tão desgastada pelo tempo. — O velho frade que o senhor enterrou... — começou Gabriel, a voz sumindo sob o sopro do vento. — Dizem que ele curava as pessoas com mágica. É verdade, moço? Lucas parou na beira do caminho. Ele olhou para o menino e depois para o vale que se estendia abaixo, onde os primeiros lampiões das fazendas de café
começavam a piscar na penumbra. — Não era mágica, Gabriel — explicou Lucas, ajoelhando-se para ficar na altura dos olhos do garoto. — O que Frei Mateus fazia, e o que o mestre dele fazia antes dele, era dar às pessoas um motivo para acreditar que não estavam sozinhas na escuridão. O pedaço de papel que entregamos é apenas um sinal de que Deus se importa com a dor delas. — Mas e se a dor for grande demais? — perguntou o menino, com os olhos muito abertos. — Minha mãe morreu de febre quando eu era menor que agora. Ninguém levou papel para ela.
Lucas sentiu um aperto no peito, uma pontada de dor que o conectava diretamente à infância daquele órfão. Ele colocou a mão sobre o ombro estreito de Gabriel. — Eu também perdi meus pais muito cedo, Gabriel. Fiquei sozinho no mundo até que o Frei Mateus me encontrou no meio de uma tempestade.
Ele não pôde mudar o meu passado, mas me deu um futuro. É por isso que caminhamos. Para garantir que, quando a febre ou a tristeza baterem à porta de alguém, haja pelo menos uma mão para segurar a deles.
Antes que o menino pudesse responder, um grito agudo cortou o silêncio da estrada. Vinha de um pequeno casebre de sapé oculto atrás de uma barreira de bambuzais, a poucos metros dali. Não era um grito de raiva, mas o lamento lancinante de uma mãe que vê a vida esvair-se de seus braços. Lucas não hesitou. Ele ajustou as alças da mala de couro e correu em direção ao casebre, com Gabriel logo atrás, os pés pequenos batendo freneticamente contra as pedras do caminho.
Capítulo 65 — O Grito no Bambuzal A porta de tábuas do casebre estava escancarada.
No interior, iluminado apenas pela chama fraca de uma lamparina de querosene que fumegava no canto, uma mulher jovem estava de joelhos diante de um catre de varas de bambu. Ela sacudia os ombros de um garoto de pouco mais de seis anos, cujos olhos estavam revirados e a boca espumava levemente. O corpo do menino estava rígido, tenso como uma corda de viola esticada ao limite. — Meu Deus, não leve o meu menino! — clamava a mulher, as lágrimas limpando trilhas na poeira de seu rosto. — Leve a mim, mas deixe o meu filho!
Lucas entrou no recinto, abaixando-se para não bater a cabeça no teto baixo de palha. O cheiro de suor febril e urina denunciava a gravidade da situação. Era um ataque de convulsão provocado por uma febre altíssima, a temida "febre do cérebro" que costumava ceifar as crianças do vale durante as transições de estação. — Calma, minha irmã — disse Lucas, ajoelhandose imediatamente ao lado do catre. — Deixe-me ajudá-lo.
A mulher olhou para o rapaz com uma mistura de terror e desconfiança. Lucas não vestia o hábito cinza de Frei Mateus; ele usava suas roupas simples de camponês. Ela não via nele a autoridade de um clérigo, mas, ao olhar nos olhos do jovem, encontrou a mesma determinação mansa que Mateus carregara por toda a vida. — Ele está queimando... — soluçou a mãe. — O corpo dele está travado, ele não consegue respirar! — Gabriel, pegue água fria no pote ali fora! — ordenou Lucas, sem desviar os olhos do enfermo.
O menino órfão correu para cumprir a tarefa com uma agilidade surpreendente. Enquanto isso, Lucas abriu a mala de couro com mãos rápidas, mas precisas. Ele retirou a caixa de madeira escura. Ao abri-la, deparou-se com o espaço vazio onde antes ficavam as folhas de papel de arroz que Mateus guardava. Havia apenas uma última tira, aquela que ele mesmo cortara sob a orientação do velho frade antes de sua partida. Lucas segurou o lápis de grafite gasto. Suas mãos começaram a tremer. O peso da responsabilidade caiu sobre seus ombros como um desmoronamento.
Ele não tinha mais a presença física de Mateus para lhe dizer o que fazer; não havia mais a voz mansa do mestre para guiar o traço. Ele estava inteiramente sozinho diante da morte de uma criança. “E se eu falhar?”, pensou Lucas, o suor frio brotando em sua testa. “E se a minha fé não for suficiente?”
Ele olhou para a mãe desesperada e para o menino trêmulo. Lembrou-se das últimas palavras de Mateus: “O milagre não está na tinta ou no papel... está na disposição de se importar.”
Lucas respirou fundo, fechou os olhos por um segundo para acalmar as batidas de seu coração e apoiou a tira de papel sobre a caixa de madeira.
Com uma caligrafia firme, que parecia guiada por uma força que ia além de si mesmo, ele escreveu a prece à Virgem Maria.
Capítulo 66 — O Batismo da Dor
Gabriel voltou correndo com uma cuia de barro cheia de água fria do poço. Lucas pegou o pano que a mãe usava para limpar as lágrimas, molhou-o na água e colocou-o sobre a testa ardente do menino doente. O choque térmico fez o corpo do garoto relaxar ligeiramente, soltando um gemido fraco. — Segure a cabeça dele, por favor — pediu Lucas à mãe.
Com dedos trêmulos, o jovem enrolou a tira de papel de arroz que acabara de escrever. O pequeno cilindro branco parecia brilhar sob a luz fraca da lamparina de querosene. Lucas colocou a pílula de papel entre os lábios do menino, usando uma colher de água para ajudá-lo a engolir. — Beba, meu pequeno — sussurrou Lucas, segurando a mão fina da criança entre as suas. — Deixe que o alento entre no seu peito.
Eles permaneceram naquela posição por horas que pareceram séculos. O silêncio dentro do casebre era quebrado apenas pelo som do vento fustigando as folhas de bambu lá fora e pela respiração ofegante do menino enfermo. Gabriel sentou-se no chão de terra batida, encolhido em um canto, observando cada movimento de Lucas com uma reverência que beirava o sagrado. Ele via naquele jovem o mesmo canal de cura que os antigos contavam sobre o velho frade.
Perto da meia-noite, a rigidez do corpo do menino cedeu por completo. Sua respiração, antes ruidosa e travada, tornou-se um sopro suave e compassado.
A febre alta, que parecia consumir suas forças, quebrou em um suor abundante que lavou sua pele.
O garoto abriu os olhos lentamente, olhou para a mãe e sussurrou: — Mãe... estou com sede.
A mulher soltou um grito abafado, caindo de joelhos e abraçando o filho com uma força que misturava alívio e incredulidade. Ela chorava copiosamente, beijando as mãos do menino e depois as mãos de Lucas, que permanecia de joelhos na terra. — É um milagre... — repetia a mãe, as lágrimas banhando a manga da camisa de Lucas. — O senhor é um santo, meu jovem! Deus o enviou para salvar o meu filho!
Lucas retirou suavemente suas mãos das garras agradecidas da mulher, balançando a cabeça com humildade. — Eu não sou um santo, minha irmã — disse ele, com a voz embargada pela emoção que contivera durante toda a noite. — Sou apenas alguém que aprendeu que a dor de um filho é a dor de todos nós. Foi a fé de sua oração e o amor pelo seu menino que abriram a porta para que a vida voltasse. Agradeça ao Criador, e cuide bem dele.
Ele levantou-se, sentindo os joelhos doloridos e as costas travadas pelo cansaço físico, mas com o coração transbordando de uma alegria pura que ele nunca experimentara antes. Ele olhou para Gabriel, que o observava do canto com os olhos cheios de lágrimas de admiração. O batismo de Lucas como o novo guardião daquela estrada estava consumado.
Capítulo 67 — A Revelação da Caixa
Eles deixaram o casebre ao amanhecer, sob as primeiras luzes de um sol dourado que dissipava a névoa fria do rio. A mãe do menino curado insistira em entregar-lhes um pequeno pedaço de queijo fresco e algumas broas de milho, o único alimento que possuía na despensa rústica. Lucas aceitara com gratidão, dividindo a comida com Gabriel enquanto caminhavam de volta à estrada principal.
O menino órfão caminhava agora com um respeito solene. Ele não fazia mais perguntas tolas sobre mágica ou tesouros; ele compreendera que a riqueza daquela mala de couro não se media em moedas de ouro, mas no alívio que ela distribuía pelos cantos mais esquecidos da terra.
No meio do dia, eles pararam para descansar perto de uma antiga ponte de madeira que cruzava um ribeirão de águas cristalinas. Lucas sentou-se na grama úmida e colocou a mala de couro diante de si. — Gabriel — chamou Lucas.
O garoto aproximou-se e sentou-se ao lado do jovem. — Ontem à noite, quando precisei escrever a prece para o menino, percebi que usei a última folha de papel de arroz que o Frei Mateus me deixara — explicou Lucas, abrindo a fivela do couro com cuidado. — A caixa de madeira está vazia de papel.
Mas há algo nela que eu ainda não havia explorado por completo.
Ele retirou a caixa de madeira escura de dentro da mala. Ao fundo do recipiente, sob o forro de veludo gasto que protegia o interior, Lucas percebeu uma pequena saliência na madeira. Com a ponta dos dedos, ele pressionou o canto direito do fundo da caixa. Um estalo suave ecoou no silêncio da tarde.
Um fundo falso revelou-se, revelando um compartimento oculto que Mateus nunca mencionara. Dentro dele, envolto em um pedaço de linho branco impecavelmente limpo, estava um manuscrito com a caligrafia inconfundível de Frei
Galvão, juntamente com um maço de novas folhas de papel de arroz, guardadas ali como uma reserva sagrada para os tempos de maior necessidade.
Lucas retirou o manuscrito com as mãos trêmulas de reverência. Ao abrir o papel amarelado, leu as palavras escritas há décadas pelo velho mestre de
Guaratinguetá: “Ao que carregar esta mala na poeira do tempo: a escrita do papel é passageira, mas a lei gravada no coração do homem que ama é eterna. Não temas o vazio da caixa, pois o verdadeiro suprimento para a dor do mundo não vem da matéria, mas da fonte inesgotável da misericórdia. Quando as folhas acabarem, escreve com o teu próprio exemplo na vida de quem encontrares pelo caminho. Tu és o meu herdeiro, não da minha glória, mas das minhas feridas e do meu amor pelo povo.”
Lucas apertou o manuscrito contra o peito, sentindo as lágrimas quentes rolarem por suas faces.
Naquele momento, todas as suas dúvidas sobre sua própria capacidade de continuar o legado de Mateus e de Galvão desapareceram. Ele não precisava ser um frade ordenado; ele não precisava do reconhecimento das grandes paróquias ou dos doutores de Taubaté. Ele era o herdeiro legítimo daquela estrada de amor, o elo de uma corrente de luz que continuaria a brilhar enquanto houvesse dor a ser curada na terra do vale.
Capítulo 68 — A Estrada sem Fim
A tarde começava a ceder espaço para a penumbra do crepúsculo quando Lucas e Gabriel arrumaram novamente a mala de couro. O compartimento secreto fora fechado, mas o manuscrito de Frei
Galvão agora guiava cada pensamento do novo guardião.
Eles subiram de volta à estrada de terra vermelha que serpenteava em direção ao horizonte. Ao longe, as torres da capela de Guaratinguetá podiam ser vistas no topo da colina, um ponto de referência familiar que marcava o início e o fim de tantos ciclos naquela jornada. — Para onde vamos agora, Lucas? — perguntou
Gabriel, segurando a mão do jovem com a confiança de quem encontrara um pai e um guia.
Lucas olhou para a estrada à sua frente, sentindo a brisa suave da tarde soprar em seus cabelos. Ele ajustou a mala de couro nas costas, sentindo que ela já não pesava nada. Ela era agora uma parte de seu próprio corpo, uma extensão de sua alma. — Nós vamos até onde a estrada nos levar, meu filho — respondeu Lucas, com a firmeza de quem compreendia o seu destino. — Há sempre uma mãe chorando na escuridão de uma cabana; há sempre um pai desesperado diante da febre do filho; há sempre alguém que precisa saber que não foi esquecido pelo Criador. Nós temos o papel, temos a tinta e, acima de tudo, temos o amor que nos move.
Os dois caminharam juntos em direção ao sol poente. A poeira vermelha subia ao redor de suas sandálias, pintando seus passos com a cor da própria terra que os acolhera. A caminhada continuaria, sem ponto final, sem limites geográficos, provando que o verdadeiro espírito de cura e compaixão que Frei Galvão acendera nas estradas do Vale do Paraíba nunca morreria enquanto houvesse pés dispostos a caminhar e corações dispostos a amar na poeira da estrada.
Capítulo 69 — O Tecido do Tempo
O ano de 1832 cobrou das vilas do Vale do Paraíba um preço alto sob a forma de um mormaço sufocante. O ar pesava, quente e estagnado sobre as águas barrentas do rio, e as plantações de café, que agora avançavam como um exército verde pelas colinas outrora cobertas de mata fechada, pareciam murchar sob o sol implacável de janeiro.
Lucas já não era o rapaz assustado que Mateus acolhera na serra de Cunha. Seus ombros haviam se alargado com o esforço de carregar a mala de couro légua após légua, e seu rosto exibia a marca do sol e do vento do sertão. No entanto, o brilho em seus olhos mantinha a limpidez mansa de seu mentor.
Ele compreendia que o tempo não parava para ninguém; o Império do Brasil agora tinha um regente em vez de um imperador, os barões do café começavam a erguer seus palacetes de azulejos portugueses nas cidades, mas, nas margens das estradas, a pobreza e a febre continuavam falando a mesma língua rústica de sempre.
Gabriel, o pequeno órfão, crescia rápido ao seu lado. O garoto trazia na cintura um cantil de couro e, nas costas, uma pequena sacola onde guardava as ervas secas que Lucas o ensinara a colher na beira dos riachos: poejo para a tosse, guaco para o peito cheio e folhas de laranjeira-da-terra para acalmar os corações sobressaltados.
Naquela tarde de calor sufocante, eles pararam à sombra de um enorme jequitibá-rosa. Lucas sentouse na raiz exposta da árvore e puxou a mala para perto de si. O couro estava tão gasto que as costuras originais quase desapareceram, substituídas pelos remendos que ele e Mateus haviam feito ao longo dos anos. — O senhor acha que a caixa de madeira vai aguentar a próxima viagem, Lucas? — perguntou
Gabriel, apontando para a tampa que apresentava uma leve rachadura na quina esquerda. — Ela aguentará, meu filho — respondeu Lucas, passando a ponta dos dedos sobre a madeira escura. — Ela é feita de jacarandá da melhor qualidade.
Foi esculpida para durar mais do que as nossas próprias vidas. O que há dentro dela é o que realmente importa. Lucas abriu a mala e retirou a caixa. O manuscrito oculto de Frei Galvão, que ele descobrira no compartimento secreto, permanecia guardado ali, mas ele raramente o lia agora. Suas palavras haviam se transformado em carne e osso dentro de sua própria rotina. Ele pegou uma das novas folhas de papel de arroz que encontrara no fundo falso. O papel era tão fino que permitia ver a textura da pele de seus dedos através dele. — Escrever não é apenas traçar letras, Gabriel — disse Lucas, segurando o grafite gasto. — Cada vez que você apoia o lápis aqui, precisa colocar na ponta do grafite a dor da pessoa que você vai
socorrer. Se você não sentir a dor dela primeiro, o papel será apenas papel seco. A tinta só ganha força quando se mistura com a nossa vontade de aliviar o outro.
Gabriel sentou-se bem perto, observando o mestre traçar as palavras em latim com uma caligrafia que agora emulava perfeitamente a suavidade do falecido Mateus. — Eu posso tentar escrever uma folha hoje, Lucas? — pediu o menino, com os olhos brilhando sob o chapéu de palha. — Ainda não, meu pequeno — respondeu Lucas com um sorriso calmo, guardando a folha escrita na caixa. — Primeiro você precisa aprender a ouvir o silêncio dos doentes. Quando o silêncio deles não o assustar mais, você estará pronto para escrever.
Capítulo 70 — A Febre na Senzala
A calmaria da tarde foi interrompida pelo som de cascos de cavalo batendo com violência contra a terra seca da estrada. Um cavaleiro negro, vestindo roupas de algodão cru sujas de terra e suor, freou o animal bruscamente diante do jequitibá. Seus olhos estavam esbugalhados de pavor. — Pelo amor de Deus, são os frades das pílulas? — perguntou o homem, a voz trêmula pela exaustão. — Eu sou Lucas, e este é Gabriel — respondeu o jovem, levantando-se e ajeitando a mala nas costas. — O que está acontecendo, meu irmão? — É na fazenda Boa Vista, do Comendador Rocha — explicou o cavaleiro, apontando para a fumaça branca que subia por trás das colinas. — A febreamarela entrou na senzala dos escravizados de eito.
Mais de dez já estão caídos, sem conseguir levantar para o trabalho. O feitor queria queimá-los na palha para não espalhar a peste para a casa-grande, mas o Comendador mandou esperar. Se o senhor não for lá, eles vão morrer todos antes do amanhecer! Lucas sentiu um calafrio subir-lhe pela espinha. A febre-amarela era o flagelo mais temido daquela década, uma doença que transformava homens fortes em carcaças amareladas e sem vida em questão de poucos dias. A menção de que o feitor pretendia queimar as cabanas com os doentes dentro revelava a crueza com que as vidas dos escravizados eram tratadas no auge do ciclo do café. — Leve-nos até lá — ordenou Lucas, sem vacilar. — Gabriel, prepare o poejo e o guaco na sacola. A
jornada hoje será dura.
Eles correram atrás do cavaleiro, cruzando as cercas de arame e os valados que dividiam as terras do Comendador. À medida que se aproximavam da fazenda Boa Vista, o ar tornava-se pesado, impregnado pelo cheiro de vinagre e cal que os donos da terra jogavam ao redor da casa-grande na tentativa inútil de afastar o "miasma" da peste.
A senzala era um longo galpão de taipa, escuro e sem janelas, situado nos fundos da propriedade. Do lado de fora, dois feitores armados com garruchas montavam guarda, mantendo os olhos fixos na porta de madeira grossa. — Quem são esses aí? — perguntou um dos guardas, apontando a arma para Lucas quando este se aproximou. — Eles vieram ajudar os doentes, sô feitor — explicou o mensageiro negro, descendo do cavalo. — Ninguém entra aí dentro — rosnou o guarda. — Aquilo lá é um ninho de peste. O Comendador já mandou selar o galpão. Se eles não melhorarem até a noite, vamos botar fogo em tudo para limpar a terra. Ordem da fazenda.
Lucas deu um passo à frente, colocando-se diretamente entre a arma do feitor e a porta da senzala. Seu rosto não trazia expressão de raiva, apenas uma determinação fria e inabalável. — O Comendador pode ser o dono da terra, senhor feitor, mas ele não é o dono da vida daqueles homens — disse Lucas, sustentando o olhar do guarda. — Se o senhor atirar em mim, terá que explicar ao Comendador por que matou o único homem que pode salvar os escravizados que mantêm esta fazenda de pé. Deixe-me entrar.
O feitor hesitou, desarmado pela audácia tranquila do jovem sem hábito. Após alguns segundos de silêncio tenso, ele abaixou a garrucha com um resmungo e cuspiu no chão. — Entre, então. Mas se pegar a febre, não venha chorar no portão da casa-grande.
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