O Sacerdote do Boteco — Parte I — O Homem Atrás do Balcão
- Abioye Ras Barros
- há 3 dias
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Atualizado: há 2 dias
Capítulo 1 — O Sacerdote
ISBN: 978-65-02-31750-1
Poderia começar contando sobre todos os sacerdotes que conheci ao longo da vida. Não foram poucos.
Cada um, à sua maneira, guardava histórias suficientes para escrever um livro inteiro.
Mas escolhi um em especial.
Talvez porque tenha aprendido que as grandes histórias quase sempre nascem de pessoas
aparentemente comuns.
Seu nome é Sergipe.
Ninguém sabe ao certo quando deixou de ser apenas um comerciante para se tornar uma instituição do bairro. Durante anos trabalhou atrás de balcões,
atendendo gente de toda espécie. Depois, conquistou o próprio negócio e continuou fazendo exatamente aquilo que sempre soube fazer: receber pessoas.
E que pessoas!
Homens e mulheres. Jovens e idosos.
Trabalhadores encerrando mais um dia de serviço.
Aposentados em busca de companhia. Casais comemorando.
Amigos discutindo futebol.
Desempregados tentando esquecer as dificuldades.
E aqueles que entram apenas para matar o tempo, como se o relógio tivesse decidido caminhar mais devagar naquele lugar.
O boteco não era grande. Nunca foi.
Algumas mesas de plástico. Outras de madeira antiga.
Cadeiras que jamais pertenciam ao mesmo conjunto.
Um balcão que carregava marcas de copos, garrafas e histórias.
Na parede, fotografias amareladas pelo tempo. Times de futebol.
Carnavais antigos. Festas da comunidade. Pessoas que já não apareciam por ali.
Mas que, de alguma forma, continuavam presentes.
Sergipe conhecia quase todos pelo nome. E quando não conhecia, não demorava muito para conhecer.
— Vai querer o de sempre?
Era uma das frases mais ouvidas naquele lugar.
Mas havia outra, talvez ainda mais importante.
— O que aconteceu?
Sergipe tinha um talento raro.
Percebia quando alguém entrava diferente.
Um olhar mais baixo.
Uma resposta curta.
Um silêncio maior do que o normal.
Ele não perguntava por curiosidade.
Perguntava porque sabia que, às vezes, uma pessoa só precisa de alguém que perceba.
Talvez fosse por isso que o chamavam de sacerdote.
Não havia religião naquele apelido.
Havia reconhecimento.
Seu altar era o balcão.
Sua liturgia começava cedo, com café passado na hora.
E seus fiéis chegavam carregando problemas que não cabiam em nenhuma oração pronta.
Alguns traziam dívidas.
Outros, preocupações com os filhos.
Havia quem chegasse falando de doença.
Quem reclamasse do trabalho.
Quem tentasse esconder uma separação atrás de uma piada.
E Sergipe escutava.
Nem sempre dava conselho.
Nem sempre tinha resposta.
Mas sabia permanecer.
E talvez seja essa uma das formas mais difíceis de cuidado.
Permanecer diante da dor do outro sem transformar tudo em discurso.
O boteco nunca foi templo.
Mas muita gente saiu dali mais leve.
Nunca houve sermão.
Mas muitas pessoas encontraram algum tipo de direção.
Nunca existiu confissão formal.
Mas histórias que jamais chegaram a consultórios, igrejas ou mesas de família foram contadas naquele balcão.
Talvez porque algumas pessoas confiem mais em quem não tenta resolver sua vida.
Apenas escuta.
Sergipe tinha essa qualidade.
E foi assim que, sem perceber, se tornou guardião de uma comunidade inteira.
Capítulo 2 — A Primeira Liturgia
A primeira liturgia do dia começava antes das sete.
Sergipe levantava a porta de aço lentamente.
O barulho metálico acordava a rua.
Era quase um sinal.
Logo alguém apareceria.
E alguém sempre aparecia.
Primeiro vinha o café.
Não havia máquina sofisticada.
Apenas água quente, pó de café, coador e paciência.
Sergipe dizia que café feito com pressa não presta.
Talvez por isso demorasse mais do que o necessário.
Enquanto a água descia pelo pó, o cheiro se espalhava pelo boteco.
Depois pela calçada.
Depois pela rua.
Era um convite.
O primeiro a chegar quase sempre era Seu Antônio.
Aposentado.
Setenta e poucos anos.
Ninguém sabia exatamente quantos porque ele mudava de idade dependendo da conversa.
— Bom dia, padre.
Era assim que chamava Sergipe.
— Padre é o senhor.
— Eu não. Padre precisa ter paciência.
— E o senhor não tem?
— Pergunta pra minha mulher.
As risadas começavam cedo.
Seu Antônio sentava sempre na mesma cadeira.
Perto da porta.
Dizia que dali conseguia observar a rua e controlar o movimento.
Na verdade, gostava de cumprimentar quem passava.
— Bom dia, rapaz!
— Bom dia, dona!
— Vai trabalhar hoje ou vai fingir de novo?
A comunidade respondia.
Alguns riam.
Outros retrucavam.
Mas todos conheciam aquele ritual.
Logo chegava outro.
Depois mais um.
Em poucos minutos, havia uma pequena mesa formada.
Café.
Pão com manteiga.
Notícias.
Comentários sobre futebol.
E os primeiros problemas do dia.
A liturgia não seguia ordem.
A vida nunca segue.
Capítulo 3 — A Confissão de um Homem Comum
Naquela manhã, um homem entrou mais cedo do que de costume.
Chamava-se Roberto.
Trabalhava como motorista.
Frequentava o boteco havia anos.
Mas naquele dia não pediu cerveja.
Pediu café.
Sergipe estranhou.
— Tudo bem?
Roberto respondeu rápido demais.
— Tudo.
Sergipe não insistiu.
Apenas serviu o café.
O homem ficou alguns minutos em silêncio.
Depois falou.
— Minha mulher foi embora.
Ninguém na mesa fez piada.
O boteco tinha suas regras invisíveis.
Quando alguém falava sério, o mundo desacelerava.
Roberto continuou.
Contou que o casamento vinha mal havia meses.
Disse que brigavam por dinheiro.
Por ciúme.
Por cansaço.
Por coisas pequenas que se tornavam grandes.
Naquela manhã, ela pegou algumas roupas e saiu.
— Acho que acabou.
Sergipe ouviu.
Depois perguntou.
— Você quer que acabe?
Roberto ficou olhando para o café.
— Não sei.
Sergipe respondeu.
— Então não diga que acabou antes de saber.
Foi tudo.
Nenhum grande discurso.
Nenhum conselho sobre casamento.
Apenas uma pergunta.
Roberto bebeu o café devagar.
Quando saiu, parecia exatamente o mesmo.
Mas talvez não estivesse.
Algumas palavras trabalham em silêncio.
Capítulo 4 — O Homem Que Sabia de Tudo
Todo boteco possui alguém que sabe de tudo.
No do Sergipe, esse homem chamava-se Marreta.
Ninguém sabia de onde veio o apelido.
Existiam pelo menos cinco versões.
Cada uma mais absurda do que a outra.
Marreta sabia de futebol.
Política.
Economia.
Construção civil.
Medicina.
Direito.
Astronomia.
E, segundo ele mesmo, até de casamento.
— O problema do Brasil é simples.
Era assim que começava quase toda conversa.
— Lá vem.
Dizia alguém.
— Deixa o homem falar.
Respondia Sergipe.
E Marreta falava.
Falava muito.
Tinha solução para inflação.
Para o trânsito.
Para o Flamengo.
Para a seleção brasileira.
Para o casamento dos outros.
Nunca para o próprio.
— Minha mulher não me escuta.
Reclamava.
Sergipe respondia.
— Talvez porque você nunca pare de falar.
A mesa explodia em gargalhadas.
Marreta fingia ficar ofendido.
Mas voltava no dia seguinte.
Sempre voltava.
Porque o boteco não exigia que ninguém estivesse certo.
Apenas presente.
Capítulo 5 — Onde Todo Mundo Sabe da Vida de Todo Mundo
Comunidade é um lugar curioso.
As notícias viajam rápido.
Mais rápido que internet.
Antes de alguém contar, alguém já sabe.
O boteco era uma espécie de central de informações.
Quem estava doente.
Quem conseguiu emprego.
Quem perdeu trabalho.
Quem casou.
Quem separou.
Quem comprou carro.
Quem bateu o carro.
Tudo chegava ao balcão.
Mas Sergipe tinha uma regra.
— Falar é uma coisa. Maltratar é outra.
Quando a conversa começava a atravessar essa linha, ele cortava.
— Vamos mudar de assunto.
Ninguém discutia.
Porque respeitavam o dono.
Ou talvez respeitassem o lugar.
O boteco era espaço de conversa.
Não de destruição.
Capítulo 6 — "Só Uma"
Entre todos os personagens daquele pequeno universo, havia um que merecia capítulo próprio.
Ninguém lembrava seu nome verdadeiro.
Era conhecido como Só Uma.
O apelido nasceu de uma frase.
— Vou tomar só uma.
Era sempre assim.
Chegava.
Sentava.
Pedia cerveja.
— Só uma hoje.
Duas horas depois, alguém perguntava.
— Quantas já foram?
— Essa é a última.
Nunca era.
Só Uma tinha histórias intermináveis.
Algumas verdadeiras.
Outras provavelmente não.
Mas ninguém se importava.
O importante era a maneira como contava.
Gesticulava.
Levantava da cadeira.
Imitava pessoas.
Fazia vozes.
Transformava acontecimentos comuns em epopeias.
— Eu estava lá.
Era outra frase frequente.
Se falassem de um jogo histórico, ele estava lá.
Se lembrassem de um carnaval antigo, ele estava lá.
Se mencionassem uma confusão no bairro vinte anos antes, ele também estava lá.
— Você estava em todo lugar?
Perguntava Marreta.
— Quem vive, aparece.
Respondia Só Uma.
Talvez fosse mentira.
Mas era uma ótima resposta.
Capítulo 7 — O Fiado de Deus
Em todo boteco existe uma palavra perigosa.
Fiado.
Sergipe tinha um caderno.
Velho.
Capa azul.
Ali estavam nomes.
Valores.
Promessas.
— Semana que vem eu pago.
— Quando receber.
— Dia cinco eu acerto.
Alguns pagavam.
Outros demoravam.
Alguns nunca pagaram.
Marreta dizia que Sergipe deveria parar.
— Você vai quebrar.
Sergipe respondia.
— Se eu fechar a porta para todo mundo que está sem dinheiro, vou ficar sozinho aqui dentro.
Mas havia limite.
Sergipe sabia diferenciar necessidade de abuso.
Quando percebia que alguém estava passando por dificuldade, anotava.
Quando percebia esperteza, fechava o caderno.
— Hoje não.
Ninguém reclamava muito.
Sabiam que aquele homem possuía uma espécie de matemática própria.
Não era apenas dinheiro.
Era confiança.
Capítulo 8 — A Mesa dos Sábios
Toda tarde, sem que ninguém marcasse horário, acontecia o mesmo milagre.
Quatro homens ocupavam a mesma mesa.
Seu Antônio.
Marreta.
Baiano.
E Só Uma.
Chamavam aquele grupo de Mesa dos Sábios.
O nome era irônico.
Ou talvez não.
Porque entre uma piada e outra surgiam frases que faziam sentido.
Falavam de trabalho.
De filhos.
De casamento.
De envelhecimento.
De morte.
De sonhos que não aconteceram.
E daqueles que ainda poderiam acontecer.
Os mais jovens às vezes sentavam por perto.
Fingiam não prestar atenção.
Mas escutavam.
Sergipe observava do balcão.
Sabia que aquele tipo de conhecimento não existe em livros.
Nasce do tempo.
Dos erros.
Das perdas.
Das tentativas.
Talvez por isso permitisse que a conversa durasse horas.
Ninguém estava apenas bebendo.
Estavam transmitindo memória.
Havia uma característica curiosa na Mesa dos Sábios.
Nenhum daqueles homens se considerava sábio.
Seu Antônio dizia que sabedoria era coisa de quem tinha paciência para ouvir.
Marreta discordava.
Sabedoria é saber quando falar.
Só Uma imediatamente respondeu:
Então você está longe de ser sábio.
A gargalhada tomou conta do boteco.
Sergipe, atrás do balcão, apenas balançou a cabeça.
Em certos dias, aquele grupo discutia assuntos sérios.
O futuro da comunidade.
A violência que aumentava.
O preço das coisas.
A dificuldade dos jovens para encontrar trabalho.
Em outros dias, discutiam coisas absolutamente inúteis.
Qual jogador havia sido melhor vinte anos atrás.
Se o feijão deveria ficar por cima ou por baixo do arroz.
Qual marca de cerveja dava menos dor de cabeça.
Tudo com a mesma intensidade.
Talvez fosse exatamente isso que tornava a mesa especial.
Ali, assuntos importantes e assuntos bobos tinham o mesmo direito de existir.
Era vida em estado bruto.
Sem agenda.
Sem pauta.
Sem obrigação de chegar a uma conclusão.
Os mais jovens começaram a perceber isso.
Um deles chamava-se Juninho.
Tinha dezessete anos.
Morava duas ruas acima.
Passava frequentemente pelo boteco, comprava refrigerante e ficava alguns minutos parado perto da porta.
Sergipe percebeu.
Você gosta de ouvir conversa de velho, né?
Juninho riu.
Às vezes vocês falam coisas interessantes.
Só Uma levantou a mão.
Eu sempre falo coisas interessantes.
Marreta respondeu.
Por isso ninguém lembra de nenhuma.
Nova gargalhada.
Juninho começou a frequentar mais a mesa.
No início, apenas escutava.
Depois passou a participar.
Perguntava sobre trabalho.
Sobre relacionamentos.
Sobre escolhas.
Seu Antônio respondia devagar.
Nunca dizia exatamente o que o rapaz deveria fazer.
Contava histórias.
Histórias de quando tinha a mesma idade.
De decisões boas.
E de decisões péssimas.
A maioria péssima. Dizia ele.
Juninho gostava daquele jeito.
Não parecia conselho.
Parecia conversa.
Certa tarde, o rapaz perguntou:
O que vocês fariam se tivessem minha idade hoje?
A mesa ficou em silêncio.
Marreta respondeu primeiro.
Faria tudo diferente.
Seu Antônio discordou.
Eu faria quase tudo igual.
Por quê?
Porque até os erros trouxeram alguma coisa.
Só Uma pensou alguns segundos.
Eu beberia menos.
Todos olharam para ele.
Ele completou:
Mas só um pouco menos.
Sergipe riu do balcão.
Depois chamou Juninho.
Vem cá.
O rapaz aproximou-se.
Sergipe apontou para aqueles homens.
Escuta uma coisa.
Eles não sabem tudo.
Marreta protestou.
Fale por você.
Sergipe continuou.
Mas já erraram bastante.
Por isso vale a pena ouvir.
Talvez essa fosse a verdadeira função da Mesa dos Sábios.
Não oferecer respostas.
Mas evitar que algumas histórias precisassem ser repetidas da mesma maneira.
Com o tempo, outros jovens começaram a aparecer.
Alguns ficavam poucos minutos.
Outros permaneciam horas.
A mesa virou uma espécie de ponte entre gerações.
Os mais velhos falavam.
Os mais novos escutavam.
Às vezes acontecia o contrário.
Porque havia coisas que os jovens entendiam melhor.
Tecnologia.
Internet.
Mudanças no trabalho.
Novos costumes.
Quando isso acontecia, Seu Antônio fazia questão de ouvir.
Quem para de aprender começa a envelhecer rápido demais.
Dizia.
Sergipe concordava.
O boteco não pertencia apenas ao passado.
Ele mudava junto com as pessoas.
Mas mantinha uma coisa.
O encontro.
Enquanto houvesse gente sentada ao redor de uma mesa, existiria alguma coisa para aprender.
Em certas tardes, a Mesa dos Sábios parecia uma sala de aula improvisada.
Um jovem perguntava sobre trabalho.
Outro falava sobre dificuldades com os pais.
Algum comentava sobre namoro.
Os mais velhos respondiam com histórias.
Nunca com fórmulas.
Seu Antônio costumava repetir:
Cuidado com conselho de quem nunca viveu o problema.
Marreta completava:
E cuidado com conselho de quem viveu e não aprendeu nada.
Só Uma levantava o copo.
E cuidado com conselho dado depois da terceira cerveja.
Todos riam.
Sergipe sabia que aquelas conversas tinham valor.
Não um valor que pudesse ser colocado em uma nota fiscal.
Mas um valor que atravessava gerações.
Havia assuntos que não apareciam na escola.
Como reconhecer quando um amigo precisava de ajuda.
Como aceitar uma derrota.
Como pedir desculpas.
Como perceber que algumas escolhas não podiam ser desfeitas.
Essas lições surgiam naturalmente.
Uma história puxava outra.
Um erro antigo virava conselho.
Uma lembrança se transformava em aprendizado.
Juninho, aos poucos, começou a participar mais.
Certa tarde contou que estava pensando em abandonar a escola para trabalhar.
Precisava ajudar em casa.
Seu Antônio ficou alguns segundos em silêncio.
Depois perguntou:
Sua família precisa de dinheiro agora?
Precisa.
E você quer estudar?
Quero.
Então tente fazer os dois enquanto conseguir.
Juninho respirou fundo.
É difícil.
Seu Antônio assentiu.
Quase tudo que vale a pena é.
Sergipe ouviu do balcão.
Depois chamou o rapaz.
Se precisar estudar aqui depois do horário, pode usar uma mesa.
Juninho sorriu.
Sério?
Claro.
Só não pode reclamar do barulho.
Marreta levantou a mão.
Eu posso ensinar matemática.
Todos começaram a rir.
Juninho perguntou:
O senhor sabe matemática?
Marreta respondeu:
Sei dividir conta de bar.
A gargalhada tomou conta do ambiente.
Mas a oferta de Sergipe era verdadeira.
Durante algumas semanas, depois que o movimento diminuía, Juninho sentava numa mesa com cadernos e livros.
Estudava.
Às vezes Seu Antônio ajudava.
Às vezes ninguém ajudava.
Mas todos respeitavam aquele momento.
Sergipe diminuía o rádio.
Só Uma tentava falar mais baixo.
O que, para ele, era quase impossível.
Numa noite, Juninho fechou o caderno e perguntou:
Por que vocês fazem isso?
Sergipe respondeu sem pensar muito.
Porque alguém já fez alguma coisa por nós.
Talvez aquela frase resumisse tudo.
A Mesa dos Sábios não existia para ensinar.
Existia para continuar uma corrente invisível.
Alguém havia ajudado Seu Antônio.
Alguém havia ajudado Sergipe.
Alguém havia ajudado Marreta.
Agora eles ajudavam outro.
Assim as histórias atravessavam o tempo.
Não através de livros.
Mas através de gente.
O boteco se tornava, sem perceber, uma pequena escola da vida.
E Sergipe continuava atrás do balcão.
Observando.
Servindo café.
Lavando copos.
Enquanto uma geração ensinava outra a continuar.
Com o tempo, Juninho passou a chegar não apenas para estudar.
Começou a ajudar Sergipe.
Carregava caixas.
Organizava garrafas.
Limpava mesas.
Sergipe nunca pediu.
O rapaz fazia porque queria.
Certa tarde, Sergipe perguntou:
Você não tem coisa melhor pra fazer?
Juninho respondeu:
Aqui também é minha escola.
Sergipe ficou alguns segundos em silêncio.
Depois sorriu.
Só Uma ouviu.
Então eu sou professor?
Marreta respondeu imediatamente:
Você é a matéria que ninguém quer estudar.
Nova gargalhada.
Mas havia verdade na brincadeira.
Cada pessoa naquela mesa ensinava alguma coisa.
Mesmo quando não pretendia.
Os jovens percebiam detalhes.
A forma como Seu Antônio tratava os mais velhos.
A maneira como Sergipe nunca humilhava alguém que estava sem dinheiro.
O jeito como Marreta podia discutir durante horas e, cinco minutos depois, pagar uma cerveja para quem havia discordado dele.
Essas pequenas atitudes eram lições silenciosas.
Ninguém dizia:
"Faça assim."
Eles simplesmente faziam.
E os outros observavam.
A comunidade inteira funcionava dessa maneira.
As pessoas aprendiam umas com as outras.
Nem sempre bons exemplos.
Mas exemplos.
Sergipe acreditava que a juventude precisava de referências.
Não de discursos.
Referências.
Homens e mulheres que mostrassem, através da própria vida, como enfrentar dificuldades sem perder a humanidade.
Por isso gostava quando os jovens apareciam.
Nunca os expulsava.
Mesmo quando faziam barulho.
Mesmo quando ocupavam mesas sem consumir nada.
Marreta reclamava.
Esses garotos vão falir seu boteco.
Sergipe respondia:
Se eles estiverem aqui, pelo menos eu sei onde estão.
A frase encerrava a discussão.
Havia coisas mais importantes do que vender.
Algumas tardes, a Mesa dos Sábios recebia visitantes inesperados.
Um professor.
Um trabalhador recém-aposentado.
Um motorista.
Um jovem procurando emprego.
Cada pessoa acrescentava algo.
Uma nova história.
Uma nova visão.
Um novo problema para discutir.
A mesa nunca teve dono.
Qualquer um podia sentar.
Essa talvez fosse sua maior qualidade.
Ninguém precisava ser convidado.
Bastava puxar uma cadeira.
Certa vez, um rapaz novo na comunidade ficou parado perto da porta.
Parecia tímido.
Seu Antônio percebeu.
Está esperando alguém?
Não.
Então está esperando o quê?
O rapaz sorriu.
Nada.
Seu Antônio puxou uma cadeira.
Senta aí.
Pronto.
Alguns minutos depois, o rapaz já fazia parte da conversa.
Foi assim que muitas amizades começaram.
Sem apresentação formal.
Sem currículo.
Sem perguntas demais.
Apenas uma cadeira oferecida.
Talvez por isso o boteco fosse tão importante.
Num mundo onde tantas pessoas se sentem isoladas, aquele pequeno lugar mantinha uma regra antiga.
Ninguém precisava ficar sozinho se não quisesse.
Bastava entrar.
Sergipe estava sempre ali.
A Mesa dos Sábios também.
E quase sempre havia uma cadeira vazia esperando alguém.
Ao longo dos anos, aquela mesa assistiu a muitas mudanças.
Juninho cresceu.
Começou a trabalhar.
Depois entrou na faculdade.
Continuava aparecendo.
Mas agora chegava com outras perguntas.
Certa tarde, sentou-se ao lado de Seu Antônio.
Lembra quando eu queria largar a escola?
Lembro.
Ainda bem que não larguei.
Seu Antônio sorriu.
Você decidiu.
Nós só conversamos.
Juninho ficou olhando para ele.
Às vezes conversar muda uma decisão.
Seu Antônio concordou.
Às vezes.
O tempo passou.
Outros jovens começaram a ocupar aquela mesa.
Juninho, sem perceber, começou a contar suas próprias histórias.
Agora era ele quem falava sobre trabalho.
Sobre estudo.
Sobre escolhas.
Um menino de quinze anos perguntou:
O que você faria se estivesse na minha idade?
Juninho sorriu.
A mesma pergunta que havia feito anos antes.
Antes de responder, olhou para Seu Antônio.
O velho apenas fez um pequeno gesto com a cabeça.
Juninho falou:
Eu ouviria mais.
O menino perguntou:
Ouvir quem?
Juninho apontou para a mesa.
Gente que já errou bastante.
Marreta protestou.
Você está falando da gente?
Juninho riu.
Principalmente.
A mesa inteira caiu na gargalhada.
Sergipe observava do balcão.
Naquele momento percebeu algo.
A Mesa dos Sábios não dependia mais de seus primeiros membros.
Ela havia se transformado em tradição.
Uma geração sentava.
Depois outra.
Histórias passavam de boca em boca.
Conselhos atravessavam o tempo.
Talvez ninguém lembrasse exatamente quem havia dito determinada frase.
Mas isso não importava.
A sabedoria não precisava de autor.
Precisava apenas continuar circulando.
Sergipe olhou para Seu Antônio.
O velho parecia cansado.
Os cabelos agora eram quase completamente brancos.
Mesmo assim, continuava ali.
Mais tempo ouvindo do que falando. Era assim que os mais novos aprendiam.
Não existia manual.
A escola ensinava matemática. O boteco ensinava gente.
Sergipe fazia questão de incluir os jovens nas conversas.
Escuta mais do que fala.
Quem só abre a boca nunca aprende nada. Só Uma não perdeu a oportunidade.
Você está falando isso porque nunca deixa ninguém terminar uma história!
O boteco inteiro explodiu em risadas.
Até Sergipe levou alguns segundos para responder. Depois apontou para Só Uma e disse:
Tá vendo?
Esse aí aprendeu alguma coisa comigo. A gargalhada foi ainda maior.
Naquele instante, ninguém era rico. Ninguém era importante.
Ninguém ocupava cargo de destaque.
Mas, sentados em volta daquela mesa torta, todos tinham exatamente o mesmo valor.
Talvez fosse esse o verdadeiro segredo do boteco.
Ali, antes de qualquer profissão, de qualquer sobrenome ou de qualquer conta bancária...
...todos eram apenas pessoas.
E, para Sergipe, isso sempre foi mais do que suficiente.


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